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Jueves 21 de Enero de 2021
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Engels, as mulheres trabalhadoras e o feminismo socialista
Josefina L. Martínez
Madrid | @josefinamar14

As contribuições de Friedrich Engels para o feminismo socialista e a luta das mulheres.

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Ilustração: Marito Ce
Tradução: Zuca Falcão

Ainda muito afetado pela morte de seu amigo, em 1883 Engels se dedica a revisar um monte de cartas, manuscritos e anotações que ficaram sem terminar na casa de Marx, em Maitland Park Road de Londres. Ali, entre pilhas de papéis, encontra uma série de anotações baseadas na leitura da obra do antropólogo norte-americano Lewis Henry Morgan, cujo último livro, A sociedade antiga, havia sido publicado alguns anos antes. Ambos haviam trocado bastante sobre esse tema e Engels se entusiasma com sistematizar algumas ideias sobre a questão. A partir das anotações etnológicas de Marx, Engels desenvolve uma análise histórica e materialista das organizações sociais, em particular sobre as mudanças na forma de parentesco, a família patriarcal, a instituição do matrimônio e a monogamia. Seu livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado é publicado pela primeira vez em 1884 e passa a ser considerado desde então uma obra chave para o feminismo socialista.

Voltaremos a este texto mais adiante, para apontar algumas de suas contribuições fundamentais, bem como algumas das controvérsias que continua gerando. Mas, antes disso, é preciso visualizar o panorama mais geral em que aparecem as primeiras formulações de Marx e Engels sobre a emancipação das mulheres.

Engels escreveu sobre a situação de dupla opressão que recai sobre as mulheres trabalhadoras pela primeira vez em um texto de 1845, A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. Com este trabalho procurou aproximar o leitor o máximo possível de um conhecimento real da vida da classe trabalhadora inglesa, suas condições de trabalho, a superlotação nas cidades e suas grandes adversidades, que são para ele um alicerce para o surgimento de várias correntes socialistas, do socialismo utópico ao comunismo. Na época Engels tinha 24 anos e este livro representa, como ele explica na introdução à edição alemã de 1892, apenas uma fase embrionária do socialismo científico, que se desenvolverá nos anos seguintes, fruto do seu trabalho conjunto com Marx. O início do livro é uma metáfora visual maravilhosa para a sociedade capitalista. Engels relata o choque que qualquer pessoa sente ao entrar em Londres, subindo o rio Tâmisa. O viajante fica deslumbrado com a imponente concentração urbana, a quantidade de prédios, os navios, todos os sinais de uma civilização próspera. No entanto, conforme você desce e anda pelas ruas estreitas que levam às “periferias”, você começa a entender que:

Esses londrinos tiveram que sacrificar o melhor de suas qualidades como homens para realizar todos os milagres de civilização os quais a cidade transborda, que cem forças, que dormiam neles, permaneceram inativas e se afogaram de forma que apenas algumas podem ser desenvolvidos mais amplamente e multiplicados juntando-se aquelas dos demais. [1]

As palavras de Engels apontam contra as brutais desigualdades causadas pelo capitalismo, onde cada “milagre da civilização” está no esmagamento de grande parte dessa mesma sociedade, os que nada tem, os proletários. O olhar de Engels penetra ainda mais nos bairros populares, descobrindo ruas sujas e estreitas, casas sem aquecimento e escassez de alimentos. E é aí que faz uma referência especial às trabalhadoras, que são maioria nas oficinas têxteis, trabalham 10 ou 12 horas por dia como os companheiros, mas recebem salários mais baixos, que em tempos de crise são as primeiras a serem demitidas, e que, quando voltem para casa, devem se encarregar de cozinhar, limpar e cuidar dos filhos. E embora ainda não encontremos aqui uma teorização sobre o papel das mulheres da classe trabalhadora na sociedade capitalista, Engels aponta repetidamente sobre um fenômeno social que afeta especialmente as mulheres. A ordem social capitalista, afirma ele, desagrega a família operária, impossibilitando suas condições de existência:

Desse modo, a ordem social torna a vida familiar quase impossível para o trabalhador. Uma casa inabitável, suja, apenas o suficiente para servir de abrigo noturno, raramente com aquecimento, mal mobiliada, e onde a chuva muitas vezes penetra, uma atmosfera sufocante em um quarto com muitas pessoas, não permite a menor convivência familiar. O marido trabalha o dia todo, assim como a esposa e talvez os filhos mais velhos, todos em lugares diferentes, e eles só se vêem de manhã e à noite e ainda há a contínua tentação da aguardente; Onde haveria espaço para a vida familiar? E ainda assim o trabalhador não pode escapar à família, ele deve viver em família; Isso resulta em perpétuas disputas e desavenças familiares, cujo efeito é extremamente desmoralizante, tanto para maridos como para filhos. [2]

As fábricas têxteis empregam mulheres com idades compreendidas entre os 15 e os 20 anos e aí também se encontra grande número de crianças. Engels lembra que, muitas vezes, as operárias “voltam para a fábrica três ou quatro dias após dar a luz” e nas horas de descanso correm do trabalho para casa para alimentar o recém-nascido. Quando passam 12 ou 13 horas nas fábricas, as crianças ficam aos cuidados de um parente ou vizinho, ou ficam andando descalças. Os locais de trabalho também são palco frequente de abusos sexuais, já que “a escravidão na fábrica, como qualquer outra e ainda mais que qualquer outra, confere Jus primae noctis ao empregador. Também neste aspecto o industrial é o senhor do corpo e dos encantos de suas trabalhadores” [3].

Por isso, insiste Engels, “o trabalho da mulher na fábrica desorganiza inevitavelmente a família e essa desorganização tem, no estado atual da sociedade que recai sobre a família, as consequências mais desmoralizantes, tanto para os maridos como para os as crianças”. A sociedade de hoje depende da família, mas, ao mesmo tempo, a desintegra, impossibilita as suas condições de existência. Esta contradição explosiva marca a fogo as condições de vida e de luta das mulheres trabalhadoras e de toda a classe trabalhadora. Essa ideia, ainda em sua semente, será retomada posteriormente por Marx e Engels.

Ambos voltarão à questão, avançando algumas definições sobre a necessidade de lutar pela emancipação das mulheres, uma análise da origem histórica da opressão e uma crítica radical à família patriarcal. Em A sagrada família, eles recuperam as ideias do socialista utópico Fourier quando afirma que “o progresso social e as mudanças nos períodos estão diretamente relacionados ao progresso das mulheres em direção à liberdade; e os declínios da ordem social se dão devido à diminuição da liberdade das mulheres...” Muitos socialistas utópicos haviam anteriormente abordado a opressão das mulheres, imaginando alternativas para superá-la. A partir dessa tradição, temas como a necessidade de socializar o trabalho doméstico, acabar com a monogamia e desenvolver o amor livre, até a necessidade de reorganizar a arquitetura das casas unifamiliares, traçando os planos de pequenas sociedades comunitárias, foram abordados. Esses esboços, entretanto, eram confusos, como parte de um socialismo pré-científico; eles não declararam claramente como atingir esses objetivos, nem que força social poderia levá-los adiante. As experiências das comunas owenistas nos EUA não prosperaram, embora, como Engels apontou em uma obra posterior, com seus escritos, os socialistas utópicos plantaram a semente para imaginar a futura sociedade comunista [4].

Flora Tristán, pioneira do feminismo socialista, ocupa uma posição transitória entre esse socialismo utópico e o socialismo científico. Em seu livro A união operária (1843) chega a traçar uma proposta de organização social e política da classe trabalhadora e aborda pela primeira vez a relação entre classe e gênero: o terceiro capítulo do livro é inteiramente dedicado às mulheres, a quem ela chamou de “as últimas escravas” da sociedade francesa. Em seu livro, ele questiona aos trabalhadores e aponta que não é possível sustentar um projeto de emancipação humana sem levar em conta as mulheres [5].

Por sua vez, em O Manifesto Comunista, Marx e Engels assumem a ideia de que o capitalismo tende a destruir os laços familiares tradicionais na classe trabalhadora, incorporando massivamente mulheres e crianças ao trabalho, igualando os membros da família na exploração operária. Mas, ao mesmo tempo, denunciam o “dupla moral” da burguesia: enquanto os comunistas eram acusados ​​de querer estabelecer a “comunidade das mulheres”, eram eles que a exerceram de fato por meio do adultério (socialmente admitido apenas para os homens) ou pela prostituição, considerando as mulheres como sua propriedade.

Por fim, embora em O Capital haja várias referências ao trabalho feminino - tanto em termos da composição do exército industrial de reserva, como à exploração brutal do trabalho feminino e infantil -, a análise mais sistemática da instituição família e sobre as causas da opressão das mulheres será desenvolvida por Engels, como já mencionamos, em A origem da família...

A família, o trabalho das mulheres e o comunismo

Apesar dos limites que este trabalho possa ter - seja porque os estudos de Morgan foram ultrapassados, seja por uma certa visão esquemática dos períodos históricos -, A origem da família, da propriedade privada e do Estado continua a ser uma referência fundamental. Isso é assim, em primeiro lugar, na medida em que localiza historicamente a origem da opressão das mulheres, mostrando que ela nem sempre existiu nem é dada pela natureza, mas é histórica e social. Neste ponto, Engels também argumentou com os trabalhos de outros teóricos socialistas, como Bebel [6] e Kautsky, que publicaram trabalhos sobre o assunto pouco antes e argumentou que a subordinação das mulheres poderia ser rastreada desde o início das sociedades humanas, como se fosse algo que sempre esteve presente. Engels considerou que não, que existiram sociedades primitivas mais igualitárias ou mesmo baseadas no direito materno, e procurou evidenciar essa historicidade.

Engels estabelece uma relação entre o surgimento da propriedade privada, a divisão de classes da sociedade e a cristalização de uma instituição familiar onde as mulheres são subordinadas. Por meio do estabelecimento do casamento e da monogamia, a mulher e os filhos se tornam “propriedade privada do homem”. Nesse sentido, levanta:

O homem também assumiu o comando da casa; a mulher foi degradada e reduzida à servidão; tornou-se escrava de sua luxúria e um mero instrumento para a produção de filhos... Para garantir a fidelidade de sua esposa e, portanto, a paternidade de seus filhos é incondicionalmente entregue ao poder do marido; se ele a mata, está apenas exercendo seus direitos.

Por outro lado, no prefácio da primeira edição, há um trecho importante que aponta a relação entre produção e reprodução, como eixo para pensar a questão da família e do papel da mulher na sociedade:

Segundo a teoria materialista, o fator decisivo na história é, em última instância, a produção e reprodução da vida imediata. Mas essa produção e reprodução são de dois tipos. Por um lado, a produção dos meios de existência, produtos alimentares, vestuário, habitação e os instrumentos necessários para produzir tudo isso; por outro lado, a produção do próprio homem, a continuação da espécie. A ordem social em que vivem os homens em uma determinada época ou país é condicionada por esses dois tipos de produção: pelo grau de desenvolvimento do trabalho, por um lado, e da família, por outro. [7]

Esse fragmento já foi citado inúmeras vezes e também questionado a partir de diferentes posicionamentos teóricos. Na verdade, enquanto Engels ainda estava vivo, houve um debate entre aqueles que defendiam a luta pela emancipação feminina como uma questão fundamental do programa socialista, e alguns setores mais conservadores dentro dos partidos social-democratas que não queriam aceitá-la.

Para dar apenas um exemplo: em outubro de 1886, durante o Congresso do Partido Social-Democrata da Alemanha em Gotha, Clara Zetkin fez um importante discurso sobre a questão das mulheres trabalhadoras e do socialismo. Nele afirmou que a luta pela emancipação das mulheres estava ligada à luta pelo socialismo, e que por isso era essencial destacar a agitação socialista entre as mulheres e promover a sua organização sindical. O discurso foi duramente respondido por um socialista inglês, Belfort Bax, conhecido por suas posições misóginas [8]. Como um recurso de autoridade, Bax tentou contrapor o que Zetkin propôs às posições de Engels.

Foi Eleanor Marx, a filha mais nova de Karl Marx e pessoalmente muito próxima de Engels, que respondeu a Bax publicamente, reafirmando que as posições de Engels e Zetkin eram afins. A resposta é muito interessante, aliás, porque incide justamente na questão do trabalho doméstico e da dupla carga para as mulheres trabalhadoras. Começa indicado que as mulheres trabalhadoras são cerca de 4,5 milhões na Inglaterra; 3,7 milhões na França; 3,5 na Itália; mais de 5 na Alemanha, 3,5 na Áustria-Hungria, ou seja, mais de 20 milhões de mulheres trabalhadoras nos principais estados europeus, que em muitos casos são as principais provedoras de sustento dos idosos, crianças ou maridos desempregados. Em seguida, ele aponta que, embora muitas tarefas que antes eram realizadas em casa tenham se tornado uma obra social na produção, ainda há uma grande quantidade de trabalho que ainda é feito de forma privada nas casas. Em relação à polêmica, destaca:

Mas, além dessa fábrica e de outros empregos assalariados, as mulheres também têm que fazer o trabalho doméstico. Sei que Belfort Bax ou outros de sua opinião podem apontar que o industrialismo capitalista libertou as mulheres de muitas funções importantes que antes eram tarefas de uma mulher na casa; que ela não precisa mais tricotar meias, costurar linho, etc., para a casa; e que as outras funções da casa foram reduzidas ao mínimo; Ainda assim, existem algumas tarefas domésticas que ainda precisam ser feitas, como limpar, lavar, cozinhar, etc. O capitalismo ainda não inventou a máquina de limpeza e, ao mesmo tempo, não “domesticou” o marido desempregado a ponto de ele o obrigar a cuidar da casa e dos filhos, libertando assim sua esposa de uma parte dela. Sua carga. Sim, camarada Belfort Bax, Clara Zetkin tinha todo o direito de dizer, com Engels, que as mulheres são “proletárias em casa”. E deveria ter dito mais, que a mulher, em nosso regime capitalista, é uma dupla proletária - ela tem dois tipos de trabalho, o trabalho de um produtor na fábrica e o trabalho de dona de casa, esposa e mãe em casa. Por um lado, seus músculos e sangue são gastos para o benefício imediato do capitalista e, por outro lado, para seu benefício futuro - para apoiar e alimentar uma nova geração de proletários. Trabalhe lá, trabalhe aqui!

Como vemos, a resposta de Eleanor Marx, fazendo uma referência direta a Engels, é contundente. Doravante, ela e Clara Zetkin e outros líderes socialistas se dedicarão especialmente a organizar as mulheres trabalhadoras, lutando pelos direitos sociais e políticos de todas as mulheres, ao mesmo tempo em que continuam a ter como alvo o duplo fardo do trabalho doméstico no lar. Décadas depois, a experiência da Revolução Russa será uma grande experiência social neste sentido, que permitirá concretizar algumas medidas fundamentais: a legalização do aborto e do divórcio, o reconhecimento dos filhos nascidos fora do casamento, a igualdade de remuneração das mulheres, bem como a criação de creches, refeitórios, orfanatos e lavanderias, para dar passos na socialização do trabalho doméstico. O retrocesso subsequente nesta área, particularmente durante a década de 1930, foi parte de uma contrarrevolução interna, enquanto uma ditadura repressiva se fortalecia como forma de Estado e, com Stalin à frente, uma ideologia reacionária se recuperava que colocava as mulheres no seio da família tradicional como “guardiã do lar”. A política posterior dos Partidos Comunistas de “separar” a luta das mulheres como se fosse uma questão “secundária” com respeito à luta da classe trabalhadora, não surge de um equívoco original sobre esta questão nos primeiros textos do marxismo, mas sim de uma revisão conservadora do marxismo para justificar posições burocráticas e uma interpretação economicista das questões de classe.

Patriarcado, produção e reprodução

Com a segunda onda do movimento feminista, no final das décadas de 60 e 70, reaparecem outros debates sobre essa obra de Engels. Por um lado, autores do feminismo radical, como Shulamith Firestone e Kate Millett, reivindicam o caminho que se abre para desnaturalizar a instituição familiar e conceituar a opressão das mulheres como um fenômeno social. Mas, ao mesmo tempo, eles geralmente criticam o materialismo histórico como se fosse “economismo”. No caso de Shulamith Firestone [9], ele chegou ao ponto de argumentar que um novo materialismo histórico tinha que ser desenvolvido com base na luta de classes sexuais. Esta autora toma como alvo de sua crítica uma versão economicista do marxismo, que ela inverte, colocando o centro de gravidade na questão da sexualidade. Mas, ao apagar ou diminuir a importância dos fenômenos materiais e econômicos das relações sociais, ela se encaminha para uma concepção idealista, onde a possibilidade de mudanças se limita aos movimentos culturais. Nesta mesma base, nos anos seguintes desenvolveram-se tendências separatistas no movimento feminista radical, que se opunham a qualquer luta comum entre vários setores oprimidos.

De um ponto de vista muito diferente, foi apontado que a obra de Engels e em particular aquela passagem em As Origens da Família... [10] pode ser considerada uma fonte de erros posteriores, por separar excessivamente o plano de produção da esfera de a reprodução da vida. Essa ideia de que Engels separa “dualisticamente” a esfera da produção da esfera da reprodução é levantada pela feminista marxista Lise Vogel em seu livro Marxism and the Opression of Women (1983). A crítica é retomada mais recentemente por diversos autores que desenvolvem o que definem como uma Teoria da Reprodução Social, como Sue Ferguson. Para Ferguson [11], o texto de Engels, apesar de fazer contribuições fundamentais ao feminismo socialista, teria plantado uma “semente” da qual, posteriormente, setores da social-democracia e dos Partidos Comunistas apoiaram a ideia de que a luta “especial” das mulheres poderia ser separado da luta da classe trabalhadora, ou mesmo que haveria que ser “adiada” para depois da revolução.

Do meu ponto de vista, porém, a importância desse fragmento tão citado não aponta para essa separação. Ao contrário, estabelece uma relação entre as duas esferas e, como aponta Ariane Díaz, é “justamente isso que há de novo na análise de Engels, situando o problema da opressão das mulheres no plano teórico da produção social, ou seja, no eixo das preocupações do marxismo” [12]. E ao situar a opressão da mulher em relação aos fenômenos sociais, produção e reprodução, essa questão se liberta de qualquer determinação biológica, que naturaliza a posição subalterna da mulher.

Não pretendemos abordar aqui todo o rico debate sobre reprodução social que se atualizou nos últimos anos, para o qual recomendamos este, este e este (em espanhol) artigo. Ressalte-se apenas que “entender a relação entre reprodução e produção - e apontar a subordinação da primeira à segunda no capitalismo - é essencial para poder articular uma estratégia de luta” a partir de uma perspectiva feminista socialista [13].

É verdade que uma teorização mais sistemática do marxismo sobre o trabalho doméstico da mulher no seio da família só chegou no marco dos debates do feminismo da segunda onda nas décadas de 60 e 70 do século XX, quando no interior do movimento de mulheres se confronta diferentes posições teóricas e estratégias políticas. No entanto, isso não significa que o marxismo não tenha dado importância a essa questão antes, muito menos que se entendesse que a luta contra a opressão das mulheres se limitava a alcançar demandas democráticas e uma incorporação mais igualitária ao mercado de trabalho. para eliminar sua dependência financeira. Nada poderia estar mais distante da verdade. Eram questões fundamentais, mas também a luta pela socialização das tarefas domésticas, já que as mulheres também eram “proletárias no lar”. E, coletivamente, todas essas lutas estavam ligadas a uma estratégia socialista para acabar com o capitalismo [14].

O próprio Engels apontou esta perspectiva, em uma carta de 1885: “A verdadeira igualdade entre homens e mulheres só pode, ou assim estou convencido, tornar-se realidade quando a exploração de ambos pelo capital for abolida e o trabalho privado transformado o trabalho privado de casa em uma indústria de caráter público”.

Voltando ao seu legado para o feminismo socialista, é importante notar que as críticas à família patriarcal e à instituição do casamento são muito fortes e detêm um enorme poder hoje. Por um lado, dado o crescimento de posições conservadoras e “familiaristas” que, diante da crise do neoliberalismo e do capitalismo, sugerem que o papel da família tradicional (patriarcal) deve ser reavaliado acriticamente. Engels lembra que essa instituição não é “natural” nem um “oásis” em meio à tempestade, mas se baseia na dependência econômica, atravessada por relações hierárquicas e reproduz em seu interior as contradições sociais. A violência de gênero dificilmente pode ser entendida fora dos contornos dessa instituição patriarcal e da ideia de “propriedade” das mulheres por seus maridos. Ao mesmo tempo, como apontamos acima, o capitalismo degrada as condições de vida da família trabalhadora - negando a milhões até mesmo o direito de ter uma casa ou um trabalho - enquanto o mantém como uma das bases desta sociedade. Isso cria contradições angustiantes.

Do ponto de vista de Engels, as mulheres serão capazes de superar a opressão patriarcal somente quando as famílias e o casamento deixarem de existir como unidades de dependência econômica obrigatória, quando o trabalho reprodutivo for socializado e mesmo quando “cuidar e a educação das crianças é um assunto público”. Consideremos que, como escreve Engels, em grande parte do mundo as mulheres continuam a educar os filhos em casa, não há educação pública universal e acessível, nem jardins de infância. Só as mulheres da burguesia podiam se libertar completamente de parte do trabalho de puericultura, por meio do trabalho mal pago das trabalhadoras. Para além das diferenças históricas, esta questão continua plenamente válida, se considerarmos a degradação da educação e da saúde pública que tem sido levada a cabo pelos governos capitalistas, quando não há creches ou creches gratuitas garantidas desde os primeiros meses. Mais recentemente, vimos o fardo triplo que muitas mulheres trabalhadoras têm de ajudar na educação virtual de seus filhos em tempos de pandemia.

Por fim, a crítica de Engels aos mecanismos sociais que regulam e impõem restrições às relações afetivas e sexuais entre os seres humanos, permite prefigurar uma sociedade onde esses obstáculos sejam superados. Libertar as relações pessoais das limitações impostas por uma sociedade regida pela propriedade privada e pela exploração de grande parte da humanidade, para que o amor, a sexualidade e a amizade possam renascer em novas bases.

 
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