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Lunes 26 de Octubre de 2020
13:51 hs.

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ELEIÇÕES 2020
Flavia Valle: "Enfrentar Bolsonaro e Mourão passa por combater os golpistas e as reformas"
Redação Minas Gerais

O Esquerda Diário entrevistou a professora e candidata a vereadora em Contagem pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores por filiação democrática pelo PSOL, Flavia Valle.

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Essas são as primeiras eleições sob o governo Bolsonaro, como você acha que tem que ser?

Essas são eleições municipais mais nacionais que nunca. Por Isso, nossas candidaturas do MRT são parte de uma batalha nacional, justamente porque estamos nas primeiras eleições sob o governo Bolsonaro e Mourão, eleições que acontecem no regime do golpe institucional de 2016 e do aprofundamento dos ataques contra os trabalhadores e os setores oprimidos. E participamos delas para dialogar com todos os trabalhadores, desempregados, jovens que buscam candidatos querendo melhorias nas suas condições de vida, querendo emprego, educação, saúde. E é necessário expor que todas as investidas desse regime contra nós trabalhadores são parte de um plano nacional que busca atacar ainda mais nossa classe, portanto não podemos encarar essas eleições como simplesmente eleições regionais, porque para garantir saúde, educação, moradia e empregos, por exemplo, vamos precisar derrotar Bolsonaro, militares e golpistas, reverter os ataques que foram passando e lutar para que a crise capitalista não seja paga pelo sangue e suor dos trabalhadores. Por isso, dizemos que nossa estratégia deve ser a de organizar a nossa luta para enfrentar Bolsonaro e o conjunto do regime herdeiro do golpe institucional e para que sejam os capitalistas a pagarem pela crise.

Não queremos fazer, como fazem os políticos da direita, os representantes dos coronéis e da velha política, como o centrão, e também organizações do progressismo, que fazem falsas promessas enganando os trabalhadores e a população pobre de que é possível ter mudanças sem processos de luta por elas, ou seja, apenas elegendo alguém ou alguns parlamentares. Queremos dizer a verdade, os problemas de Contagem e de todo o país não vão se resolver pela via institucional, apenas votando nas eleições. Nossa batalha tem que ser para se enfrentar com os problemas estruturais, combatendo não só Bolsonaro e militares, mas também os golpistas que abriram caminho para esse governo, assim como o judiciário com suas medidas autoritárias. Porém, diferente do que fazem alguns setores da esquerda, os quais se coligam até mesmo com partidos que apoiaram o golpe ou partidos direitistas de conjunto, nós defendemos uma saída que não seja a velha aposta na conciliação de classes como fez o PT, que em última instância governou com vários dos políticos depois responsáveis diretos pelo golpe em 2016 e pelos ataques aos trabalhadores, sobretudo as reformas. Defendemos uma saída que esteja à esquerda do PT e do que representou seus governos de conciliação de classes.

E porque todo esse debate se relaciona com Minas Gerais e com Contagem?

Porque em Minas Gerais ficou claro como o governo estadual é um capacho de Bolsonaro. Romeu Zema está em total consonância com o projeto de ataques federal. Afinal, no mês passado, o governo, com ajuda da ALMG, aprovou a reforma da previdência estadual. E agora prepara um plano de privatizações e também discute a necessidade de uma reforma administrativa contra os servidores do estado. Por outro lado, em Contagem, o prefeito Alex de Freitas também planeja atacar mais profundamente nossa classe. Também no mês passado, no dia 29, ele apresentou o projeto de Lei PLC10, que trata justamente da Previdência Municipal. A Reforma da Previdência de Alex aumenta, como no caso de nós professoras, a contribuição previdenciária de 11% para 14%, um entre os vários ataques do governo municipal em consonância com o estadual e federal. Ataques que se passam, passam graças ao imobilismo que o PT e o PCdoB impõem desde as centrais sindicais que dirigem (CUT e CTB, respectivamente), as quais não organizaram os trabalhadores para enfrentar os grandes ataques como o da reforma administrativa de Bolsonaro, que busca manter os privilégios de juízes e políticos em detrimento do povo trabalhador. Enquanto isso, Marília Campos do PT, que é a candidata melhor colocada nas pesquisas de intenção de votos, vende uma ideia de que Contagem pode ser “feliz de novo”, como se nossa cidade fosse uma ilha isolada de todos os profundos problemas que assolam a população do nosso país quando o mundo inteiro vive as consequências da crise econômica agravada pela pandemia da Covid-19.

Mais anteriormente você falou do autoritarismo do judiciário, pode nos falar um pouco mais sobre como vê esse poder no cenário atual?

O judiciário, em suas diferentes instâncias regionais, estaduais e nacionais, vem em um crescente de atuar politicamente. Sob a fachada do combate a corrupção, veio fortalecendo seu poder mesmo sendo uma instituição que não é eleita pela população, ditando sobretudo para que a obra do golpe se consolidasse, com o impeachment da Dilma para acelerar os ajustes em cima da classe trabalhadora, impedindo a queda de Temer para garantir a reforma trabalhista, através da Lava-Jato prendendo Lula de maneira arbitrária para garantir que ele, o candidato melhor colocado nas pesquisas em 2018, não se elegesse. Enfim, são vários exemplos de como o judiciário cumpre um papel determinante de como caminha os rumos do país, garantindo que a reforma da previdência passasse, para responder a favor dos capitalistas a crise que se arrasta desde 2012-2013 e que se fortifica agora com a pandemia, permitindo as demissões em massa, por exemplo. Um exemplo muito concreto foi o papel do TST pra garantir que os trabalhadores dos correios perdessem seus direitos de um dia pro outro, impondo o fim da forte greve a favor da direção militarizada da empresa estatal. E mais recentemente ainda o simbólico abraço do Toffoli em Bolsonaro, que consolida em uma imagem um pacto que deixa pra trás as diferenças ideológicas que por um momento se intensificaram entre abril e junho, mas que agora se arrefeceram para que o governo e o congresso passem a reforma administrativa e as privatizações a favor do capital imperialista.

Por que você coloca com tanta importância que a esquerda não pode repetir os passos do PT?

O PT durante seus governos administrou o estado burguês e, como o próprio Lula fez questão de ressaltar inúmeras vezes, foi responsável em fazer com que capitalistas e banqueiros ganhassem mais dinheiro do que nunca. Inclusive, foram as alianças espúrias desse partido que pavimentaram o caminho para os golpistas e toda a direita responsável pelo golpe e Bolsonaro. Nós fomos linha de frente na luta contra o golpe e contra a prisão arbitrária de Lula, mas de forma independente do PT, porque consideramos que o fortalecimento das instituições golpistas, como o próprio autoritarismo judiciário e da direita de conjunto, se deram graças a essas alianças. A política do PT no governo foi fortalecer os latifundiários e mineradoras, a bancada religiosa e as forças repressivas, e quando a política de conciliação já não correspondia aos interesses desses setores, eles se aproveitaram do seu enorme fortalecimento para dar o golpe institucional contra toda a classe trabalhadora e a população pobre.

Aqui em Contagem mesmo, o PT e PCdoB administraram a cidade por 12 anos com a elite empresarial golpista e agora seguem no mesmo caminho da conciliação que nos trouxe até aqui, se aliando novamente ao golpista MDB de Newton Campos e Ricardo Faria, esse último vice de Marília Campos. Agora pras eleições de 2020, em todo país, o PT se aliou até mesmo com o PSL em 140 cidades. Se queremos realmente se enfrentar com Bolsonaro e os ataques em curso não podemos seguir a mesma fórmula que se mostrou fracassada no passado. Como diria Marx, a luta de classes é o motor da história, e não existe um único exemplo em que o caminho de conciliação de classes tenha dado certo.

Estamos acompanhando as panfletagens que vocês estão fazendo nos bairros e nas fábricas, com uma preocupação de estarem lado a lado aos trabalhadores. Como está sendo essa experiência?

Estamos com uma atividade intensa de panfletagens em bairros e nas fábricas. Já estivemos nas fábricas da cidade industrial, do Cinco, em bairros, na Refinaria Gabriel Passos junto aos petroleiros. Lá denunciamos a punição arbitrária de petroleiros que lutam contra a venda da refinaria e contra sua privatização. Que também é nossa luta e por isso colocamos a força da nossa candidatura pra fortalecer essas batalhas. Como fizemos com a forte greve dos correios que foi derrotada pelo papel das grandes centrais sindicais em isolar essa luta. Nas fábricas, os trabalhadores mostram como as demissões foram regra ao longo da pandemia. Uma forma dos capitalistas e grandes empresários descarregarem a crise nas nossas costas, pois nos anos anteriores tiveram lucros recordes e agora cortam de famílias que precisam de sustento pra sobreviver. É muito revoltante. Assim como a intensificação da precarização do trabalho, com contratos de menores períodos de duração e menos direitos nas fábricas, fruto da reforma trabalhista, e na educação a super exploração por via do trabalho remoto que vem gerando inúmeras doenças nos professores e uma precarização do ensino que nunca vimos antes. Por isso, nossa luta também é pela proibição das demissões e pela efetivação de trabalhadores terceirizados com os mesmos direitos de todos os contratados nas empresas. Sabemos também que enquanto perdurar a Lei de Responsabilidade fiscal, que de responsável não tem nada porque serve apenas pra favorecer os mecanismos de pagamento de juros a grandes capitalistas, os serviços básicos como saúde e educação também seguirão sendo estrangulados nos municípios. Somos a favor da revogação dessa lei, junto a outras leis que são anti-trabalhadores. Essas são lutas que dependem da mobilização de trabalhadores e nenhum vereador de maneira isolada conseguiria fazer algo assim. É para essas batalhas que dispomos a nossa candidatura.

Então, em sua opinião, qual a tarefa da esquerda brasileira hoje?

Primeiramente, precisamos ter claro que o combate a Bolsonaro e o regime do golpe institucional precisa estar no centro. As campanhas da esquerda nestas eleições deveriam estar a serviço de debater como nos enfrentamos com esses setores reacionários sem qualquer utopia eleitoral, como podemos dar esse combate que é uma batalha nacional da classe trabalhadora, das mulheres, negros, LGBTs, preparando um combate que vai muito além das eleições, uma batalha que passa por organizar um polo de luta que unifique o conjunto da classe trabalhadora e que seja uma alternativa à esquerda do PT. Para isto, precisamos ter como princípio a independência de classe. Por isso, mesmo estando numa candidatura por filiação democrática no PSOL, eu e meus companheiros do MRT buscamos fazer um debate estratégico com esse partido e todos aqueles que o apoiam sobre quais são as tarefas da esquerda brasileira. É assim onde temos candidatura, mas também onde tivemos que retirar nossas candidatas pela política de coligações que o PSOL levou adiante, como em Campinas, onde se coligaram ao PT, e retiramos a candidatura da companheira Lívia Toneli. Em Santo André, com a companheira Maíra Machado, que não se adapta ao vale tudo eleitoral e retirou sua candidatura, pois o PSOL se coligou com a REDE golpista mesmo essa tendo sido parte do atual governo da cidade, do PSDB. E num momento onde a direitização do regime se expressa pelo enorme peso dos militares na política, no Rio de Janeiro, minha companheira Carolina Cacau, coerente com a luta das negras e negros em todo mundo contra a violência policial, retirou sua candidatura pelo fato de que o PSOL colocou como vice candidato à prefeitura, Ibis Pereira, ex-comandante da PM carioca.

Quando retiramos nossas candidaturas nessas cidades, retiramos como parte de uma batalha nacional que busca debater com toda a esquerda e com o conjunto dos trabalhadores a necessidade de uma política independente do PT e – o que deveria ser ainda mais óbvio – de todo o regime do golpe institucional e seus representantes. A esquerda não pode se adaptar ao vale tudo eleitoral, precisamos construir um outro caminho, um caminho que passa por apostar nas forças da classe trabalhadora. Na unidade entre os efetivos e terceirizados, entre os metalúrgicos, petroleiros, entregadores, professores, com os movimentos sociais, o movimento de mulheres, negros e LGBT. Essa é a unidade que precisamos fortalecer.

E como isso se expressa em sua campanha?

Em cada fábrica e bairro que panfletamos, em cada conversa com um apoiador da nossa campanha, nas redes sociais, sempre colocamos a necessidade travar uma luta nacional contra Bolsonaro, os militares e os golpistas, sem iludir os trabalhadores sobre a possibilidade de administrar esse estado burguês. Não podemos vender a ilusão de um oásis em meio ao deserto, porque para resolver os problemas de nossa cidade vamos precisar lutar contra os ataques nacionais.

Precisamos batalhar para que sejam os trabalhadores, como as da saúde que estão na linha de frente do combate à pandemia do coronavírus, por exemplo, a decidirem os rumos do nosso país, podendo lutar contra as privatizações, pela revogação de todas as reformas contra nossa classe, como a PEC do Teto de Gastos responsável por retirar dinheiro da educação e da saúde num momento que mais precisamos de investimento nesta área, além das reformas trabalhista e previdenciária.

Por isso, frente ao total desprezo dos capitalistas por nossas vidas, devemos batalhar não somente para mudar os jogadores de 2 em 2 anos como nas eleições, mas mudar as regras do jogo desse sistema político autoritário, impondo com nossa luta uma nova Constituinte Livre e Soberana para que sejam os trabalhadores, eleitos em todo o país, à decidirem os rumos do país e não os velhos políticos privilegiados que defendem ataques e reformas. Somente assim poderemos enfrentar a direita de nossa cidade e estado, além de se enfrentar com os problemas estruturais dessa sociedade. Neste sentido é que convidamos cada trabalhador e jovem a se somar à nossa campanha militante e batalhar por uma saída que se choque contra Bolsonaro, militares, golpistas e o conjunto desse regime herdeiro do golpe institucional.

E como você gostaria de terminar essa entrevista?

Eu sou professora na escola estadual Helena Guerra e meu trabalho sempre me proporcionou experiências profundas com os estudantes, meus colegas da escola e os pais dos alunos, sei como tá sendo difícil para muitos esse momento de pandemia e crise econômica. Se eu me apresento hoje nessas eleições é porque faço parte de uma organização que acredita na possibilidade de lutar contra esse sistema de miséria que os capitalistas querem nos impor. Minha candidatura é parte dessa batalha nacional que nós do Movimento Revolucionário de Trabalhadores estamos dando em todos lugares onde estamos, e também com as candidaturas da Bancada Revolucionária em São Paulo com Diana Assunção, Letícia Parks e Marcello Pablito e da Valéria Muller em Porto Alegre. Minha luta não começa e nem termina nas eleições, porque, como trabalhadora, mulher e revolucionária, encaro a necessidade de nos enfrentarmos com os problemas estruturais dessa sociedade capitalista, que só poderão ser resolvidos na luta de classes, pela organização dos trabalhadores, da população pobre, das mulheres, dos negros, dos LGBTs e da juventude. Nossa campanha é uma campanha militante, construída por dezenas de jovens e trabalhadores que acreditam nessas ideias. Não recebemos fundo partidário e tudo que levamos adiante é pela contribuição daqueles que nos apoiam. Por isso, eu faço um chamado para que se você também acredita nessas ideias, que sejam parte dessa batalha conosco.

 
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