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Sábado 24 de Octubre de 2020
11:49 hs.

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Dilema das Redes: os algoritmos não são o motor da história, mas a luta de classes
Simone Ishibashi
Rio de Janeiro

Dilema das Redes é o novo documentário produzido pela gigante plataforma de streaming, Netflix, que tem recebido diversas críticas recentemente. A temática relativamente próxima à abordada em outro documentário produzido pela mesma plataforma, “Privacidade Hackeada”, que detalhava o papel das redes sociais e do Cambridge Analytics nas eleições estadunidenses que deram o poder a Trump e no Brexit. Embora Dilema das Redes seja menos elaborado, e ofereça uma abordagem qualitativamente mais simplista intercalando depoimentos dos principais desenvolvedores de ferramentas como Google e Facebook com dramatizações não tão bem encenadas, o argumento das duas produções é basicamente o mesmo.

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Arte: Alexandre Miguez

Fundamentalmente trata-se de advogar em prol da tese de que as redes sociais seriam as grandes responsáveis pela polarização política que marca o cenário internacional, e que estaríamos vivendo em uma era de controle praticamente absoluto, dominada pela inteligência artificial que passa a reger posicionamentos, preferências, e desejos. O poder concentrado nas empresas do Vale do Silício seria tão enorme, que no argumento dos produtores de Dilema das Redes seria superior inclusive aos dos governos das principais potências imperialistas. A “mercadoria” comercializada por essas empresas não seriam as plataformas, mas toda a população que se utiliza delas que seria sutilmente e inconscientemente influenciada ao bel prazer de interesses irrefreáveis.

Em algumas passagens se abordam os efeitos viciantes das redes sociais, cuja complexidade dos algoritmos é apresentada por alguns de seus próprios desenvolvedores como algo incontrolável, que teria adquirido uma espécie de vontade própria orientada a conhecer e dominar as preferências e medos de seus usuários de forma quase ilimitada. Anulam-se, dessa forma, quaisquer ações autônomas de sujeitos, coletivos e mesmo individuais, estando todos presos a uma matrix da qual não se tem conhecimento. As explosões sociais que têm ocorrido mundo afora, como os enfrentamentos entre grupos de ultra direita supremacistas brancos que se chocam com a potente resistência do Black Lives Matters, seriam não o resultado de tensões históricas que datam da própria formação dos Estados Unidos, mas da polarização fabricada pelas redes sociais.

Ainda que Dilema das Redes trate de relevantes efeitos maléficos que o advento das redes sociais trouxe para a vida das pessoas, em especial jovens que se comparam a padrões fabricados no Instagram, gerando distorções de auto-imagem que trazem efeitos sobre a auto-estima, o simplismo da sua tese fundamental é óbvio. A hiper valorização da manipulação, do poder das fakenews, a afirmação de que tais ferramentas estariam exercendo controle sobre a humanidade, e não o oposto, oferece uma narrativa absolutamente pessimista sobre os avanços tecnológicos, como se isso fosse a raiz de todos os problemas. Em busca de um progresso técnico irrefreável, a humanidade teria se tornado uma presa devorada por suas próprias criações. Portanto, a única “saída” possível ao referido dilema posto pela disseminação das redes, seria, na opinião dos seus próprios desenvolvedores, deixar de usá-las. Isso equivale a afirmar, com outras palavras, que não há saída verdadeira.

Abordagens teóricas da tecnologia como a “caixa de Pandora”

A hipótese de que os avanços tecnológicos seriam os responsáveis, ou pelo menos parte fundamental da gênese de fenômenos como o ressurgimento da ultradireita, não é necessariamente nova. Mas tem ganhado uma renovada importância tanto entre o senso comum, quanto nos debates acadêmicos. Uma das mais relevantes abordagens que tratam os avanços tecnológicos como uma espécie de “caixa de Pandora” é a Teoria Crítica, formulada pela célebre Escola de Frankfurt em 1923, que tem como expoentes Theodor Adorno e Max Horkheimer. Inseridos em um contexto de aprofundamento das contradições econômicas, políticas e sociais que levaram ao surgimento do nazismo na Alemanha, os autores desenvolverão as linhas matrizes de suas obras pelas décadas seguintes, tendo na obra Dialética do Esclarecimento cuja versão mais difundida data de 1947 uma espécie de síntese de suas teses fundamentais.

Trata-se de uma densa obra, cuja análise detalhada não cabe neste espaço, mas é interessante para o debate atual sobre o papel das redes sociais na medida em que parte de uma crítica aos ideais identificados com o Iluminismo, de que o progresso técnico e a busca pela razão levariam a humanidade a emancipar-se do obscurantismo, e dessa forma alcançar uma civilização superior. No entanto, a ascensão de Hitler ao poder questionaria esse movimento. Adorno e Horkheimer então ao longo do desenvolvimento de suas obras constroem o argumento de que a busca pelos avanços tecnológicos não evitou a ascensão do nazismo. Muito pelo contrário, tais avanços teriam sido parte constitutiva de um sistema, que engloba a indústria cultural nascida da disseminação dos meios de comunicação em larga escala como o cinema, o rádio, que assumiriam uma espécie de “função autoritária” submetendo e dominando os “instintos revolucionários” [1] das massas, e usurpando sua capacidade de pensar criticamente. O triunfo da razão instrumental, acrítico, seria, portanto, uma peça que transformaria a busca pelo Esclarecimento em barbárie.

Outra abordagem que trata os avanços tecnológicos, em especial as redes sociais, como responsáveis pelas presentes crises, é a tese de guerra híbrida. Tanto em Dilema das Redes quanto em Privacidade Hackeada está presente o argumento de que as redes sociais estão sendo usadas como “armas de guerra”, sendo responsáveis pela polarização política ao “desestabilizar as democracias”, e abrindo caminho para as tendências às guerras civis. As guerras híbridas seriam Segundo a definição posta por Darc Costa para a revista da Escola Superior de Guerra as guerras de tipo híbrido derivam das guerras assimétricas, e têm como característica não serem “apenas guerra nas sombras, elas são guerras na paz” [2].

Nota-se que para os teóricos da guerra híbrida as fronteiras entre guerra e paz são borradas, numa fusão entre guerra e política, em uma inversão da definição do general prussiano Carl Von Clausewitz de que a guerra é a continuidade da política por outros meios. O que significa que a política define a guerra, mas não pode ser entendida como a guerra, que envolve combates. A guerra é distinta da paz, e suas fronteiras são demarcadas. Na presente noção de guerra assimétrica e por consequência, a de guerra híbrida, a própria política passa a ser uma nova forma de guerra. Segundo o analista geopolítico Standish “guerra híbrida é uma estratégia militar que mescla táticas de guerra política, guerra convencional, guerra irregular, e ciberguerra com outros métodos de influência, tais como fakenews, diplomacia, leis e intervenção eleitoral externa” [3]. Nota-se, portanto, o apagamento da linha divisória entre guerra e paz. Processos políticos como eleições passam a ser consideradas por esses autores como passíveis de se transformar em “táticas de guerra híbrida”, sobretudo através da intervenção estrangeira visando desestabilizar os regimes para a obtenção de algum objetivo de ampliação da influência de uma determinada potência. Assim, se pode afirmar que na concepção dos autores que adotam a guerra híbrida como marco explicativo para uma gama ampla de conflitos atuais, opera-se uma inversão de Clausewitz similar à realizada por Foucault, segundo a qual “a política seria a guerra continuada por outros meios” [4].

Para os teóricos da guerra híbrida as redes sociais passaram a ser consideradas como um tipo de munição, pela sua capacidade mobilizadora, usada nas guerras híbridas como ferramentas propagadoras de informações e notícias, muitas vezes falsas, objetivando um determinado fim político. E tais ferramentas em pleno desenvolvimento, possibilitando novos usos políticos através da falsificação, como é apontado por Robert Cheney e Danielle Citron para o Foreign Affairs:

Os avanços na tecnologia digital podem em breve tornar esse pesadelo uma realidade. Graças à ascensão de “deepfakes” - manipulações digitais de áudio ou vídeo altamente realistas e difíceis de detectar - está ficando mais fácil do que nunca retratar alguém dizendo ou fazendo algo que nunca disse ou fez. Pior, os meios para criar deepfakes provavelmente proliferam rapidamente, produzindo um círculo cada vez maior de atores capazes de implementá-los para fins políticos. Desinformação é uma arte antiga, é claro, e uma com uma relevância renovada hoje. Mas como a tecnologia falsa se desenvolve e se espalha, as guerras atuais de desinformação podem logo se parecer com o equivalente de propaganda da era das espadas e escudos [5].

Movimentos de luta de classes, como a própria Primavera Árabe ou os recentes levantes nos Estados Unidos contra o racismo passam a ser explicados como se fossem meros produtos de movimentações geopolíticas por parte de potências externas, que buscariam instrumentalizar atores “potencialmente destrutivos” para desestabilizar governos e regimes em benefício próprio. Projetando um futuro distópico, em que se torna praticamente impossível distinguir a verdade das informações fabricadas, as abordagens orientadas pela tese da guerra híbrida recaem muitas vezes em teorias da conspiração, nas quais os sujeitos sociais são praticamente anulados. Trava-se então uma guerra impossível de ser vencida pelas massas trabalhadoras.

Evidentemente a Escola de Frankfurt e os analistas que tomaram para si a hipótese da guerra híbrida para explicar os recentes processos políticos no Brasil e no mundo desenvolveram teorias muito distintas entre si. Os desenvolvimentos das teses contidas em cada uma abarcam enfoques próprios, e seria um erro mesclá-las em vários de seus aspectos fundamentais. Mas não deixa de ser interessante como o pessimismo em relação aos avanços tecnológicos que assumiriam cada vez mais uma função autoritária, encontram-se presentes como parte de seus elementos constitutivos.

É o capitalismo, estúpido!

Após essa breve digressão cabe notar que Dilema das Redes até tenta apresentar ao final um apontamento superficial de que as tecnologias em si mesmas não as vilãs, mas sim os interesses econômicos. Porém, trata-se de um argumento diluído, que se perde em meio às apavorantes projeções da humanidade sendo transformada em uma legião de zumbis, sem vontade própria ou capacidade crítica. E, mais importante, sem possibilidade de reverter as atuais crises políticas, econômicas e sociais através da luta de classes. A noção de que a polarização política e social, presente tanto no Brasil como nos Estados Unidos, é fabricada pelas redes é no mínimo pueril e interessada.

No Brasil as eleições que deram lugar ao governo do infame Bolsonaro só foram possíveis pelo golpe institucional de 2016, prisão arbitrária do Lula, que até então liderava as pesquisas, mediante um grau inaudito de autoritarismo judiciário e adesão dos grandes capitalistas do país ao ultradireitista. O processo de fundo que permitiu que isso ocorresse dessa forma foi o esgotamento da ilusão que marcou os anos de governo petista de que seria possível obter avanços graduais e pacíficos nas condições de vida.

Em seus depoimentos finais, os entrevistados em Dilema das Redes fazem alusões vagas a interesses econômicos que regem essas tecnologias, mas não apontam qualquer saída além de regulamentação da circulação de informação às empresas do Vale do Silício ou o estéril conselho para as pessoas apagarem suas redes sociais. Não é uma surpresa que não haja qualquer alternativa de fundo posta pelo documentário sobre como superar a verdadeira raiz dos problemas: o capitalismo.

É possível acreditar que o potente movimento Black Lives Matter contra o racismo nos Estados Unidos seja instrumentalizado pela Rússia, como é apresentado em Privacidade Hackeada? Ou que a polarização política é um produto das redes sociais como se coloca em Dilema das Redes? O renascimento nas ruas de tais mobilizações em 2020 foi o produto de uma situação insustentável de racismo, de violência contra as populações negras e latinas nos Estados Unidos, e mais concretamente diante do assassinato brutal de George Floyd. A polarização política e o ressurgimento da extrema-direita não é o resultado da disseminação de fakenews, ainda que elas possam cumprir algum papel na mobilização desses setores, mas da crise capitalista internacional aberta em 2008, que tem aberto caminho à luta de classes em diversos países do mundo, inclusive nos Estados Unidos.

 
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