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Lunes 28 de Septiembre de 2020
12:36 hs.

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ATO INTERNACIONAL CONTRA O RACISMO E A VIOLÊNCIA POLICIAL
Letícia Parks: "Mais que nunca é preciso forjar um partido socialista revolucionário e antiburocrático”
Redação
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Em entrevista para o Esquerda Diário, Letícia Parks, militante do Quilombo Vermelho, fala sobre os processo de luta nos Estados Unidos, suas influências no Brasil e ao redor do mundo, e a necessidade de construção de uma organização da classe trabalhadora, socialista e revolucionária, um partido que seja a força de organização contra este sistema racista e de exploração.

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Letícia também estará, neste sábado dia 11 de julho, no Ato Internacional organizado pela Fração Trotskysta- Quarta Internacional, contra o racismo e a violência policial capitalista, que reunirá figuras de diversos países, em 6 idiomas, de forma simultânea. O ato é impulsionado pelas 14 organizações que compõe a rede de diários La Izquierda Diário

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Esquerda Diário: Nos EUA, números divulgados em um estudo publicado pelo New York Times mostram de forma eloquente como as mortes de covid-19 recaem esmagadoramente sobre a população negra e latina. Como é a situação no Brasil?

Letícia: Vivemos em um país onde a escravidão foi a mais longa do mundo, ao redor de 350 anos, e o último a aboli-la, deixando uma marca de precarização na vida e no trabalho de uma enorme massa negra que vive aqui. Somos 56% da população, segundo o último censo, um dado que, mesmo distorcido devido à violenta negação de nossa identidade, faz do Brasil a maior população negra fora da África.

Mesmo com o fim da escravidão, o racismo aqui serve como uma ferramenta muito importante para a burguesia nacional e imperialista para a super exploração das massas negras em geral e, especialmente, as mulheres que aqui ganham 60% menos que os homens brancos na mesma função de trabalho, ou seja, com o racismo e o machismo, a burguesia consegue acumular muito mais capital que só pode ser alcançado jogando milhões em uma situação de muita precarização.

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Assim, chegamos a uma situação trágica da pandemia que já está transformando nosso país em campeão em mortos e infectados, em sua maioria negros. Os negros são uma parte significativa dos 33 milhões que vivem sem água encanada, dos 40% da população sem saneamento e que têm os piores salários. Assim, os negros infectados são 2,5 vezes maior que os brancos, temos 70% mais chances de morrer e somos 62% dos mortos porque os serviços públicos de saúde dos quais os negros são os que mais precisam foram sendo sucateados com as políticas ultraneoliberais. Nas favelas, onde vivem as massas negras brasileiras, sem água ou saneamento, a taxa de mortalidade por COVID-19 é 5 vezes maior que a média nacional, com 22% de mortalidade.

Com a crise econômica que se aprofundou com a pandemia, somos, ainda, a maioria dos desempregados ou autônomos, como os entregadores, que são 71% negros e saíram em luta no 1o de julho contra as condições de trabalho super precárias, uma amostra que a chamada "modernização" do mundo do trabalho é, na verdade, o capitalismo mais cruel e mais podre das mãos daada com o racismo arcaico e escravocra que sobrevive há séculos em todas as partes do mundo.

Toda essa tragédia capitalista que aqui se vive sob o governo Bolsonaro, a expressão mais fascista do regime herdeiro do golpe institucional de 2016, e que trabalha, inclusive, para produzir ainda mais mortes, privilegiando a economia capitalista do que a vida dos trabalhadores, conduzindo a um assassino retorno ao trabalho no meio de uma piora catastrófica da crise sanitária. Se essa política não for derrotada, nos levará a muito mais mortes, especialmente dos negros e negras que são a linha de frente do trabalho precário, do trabalho essencial, do trabalho na saúde, alimentação e outros.

Esquerda Diário: Vimos que você está como oradora de um ato contra o racismo e a violência policial neste sábado. Por que este ato?

Letícia: O importante para debatermos é que, mesmo que nosso espírito mude e a mente das pessoas mude com a enorme luta nos Estados Unidos, ainda temos freios dentro dos nossos movimentos que nos impedem de expressar toda a nossa revolta em uma luta unificada e forte. No Chile, protestaram fortemente contra Piñera no ano passado, na França, houve as jornadas dos coletes amarelos, quando começou a crise econômica que está se aprofundando agora, vimos os gregos em uma luta impressionante que até ocupou os parlamentos, eram cenas incríveis.

Em todos esses lugares, vimos que o sindicato, as entidades estudantis e os partidos reformistas agiram para impedir que nossa força e capacidade se tornasse, de fato, as mudanças que cada luta ou revolta tinha a capacidade de realizar, mesmo agora, o que vemos é que uma instituição muito importante de todos os regimes, contra a qual também enfrentamos em todas as lutas, que é a polícia, estar sendo questionada por massivos setores, além de questionar o papel do racismo no sistema capitalista, duas mudanças de consciência que juntas fazem com que centenas de mobilizações de trabalhadores nos Estados Unidos exijam, por exemplo, a expulsão de policiais de seus sindicatos.

A pergunta que me faço e que me leva ao ato com os camaradas de todos os países é: O que separa nossas revoltas cheias de energia, força e combatividade, de tomar o poder em nossas mãos e conduzir a sociedade sob outra lógica, sem polícia, sem racismo, sem machismo?

São esses freios que disse antes, as burocracias que, aqui no Brasil, é importante nomear enquanto PT, que através do seu peso nos sindicatos com a CUT, atuou para separar as várias lutas que ocorrem em todo o país contra o racismo e a precarização, e que chamou os trabalhadores a ficar em casa devido à pandemia, mantendo uma forte trégua com o governo Bolsonaro em um momento em que entregadores realizaram uma forte paralisação com milhares de jovens do Rappi, Ifood , UberEats, a maioria de negros. Foi impressionante esse dia! Por tudo isso, neste ato também estamos lutando para mostrar, aos que nos ouvem no Brasil, a importância de construir as bases de uma organização socialista e revolucionária.

É por isso que o reformismo e todas as suas variantes são incapazes de acabar com a opressão dos negros e das mulheres: porque eles querem administrar o capitalismo. Com esse ato, queremos convidar milhares de jovens e trabalhadores a rechaçar as saídas que apontam essa conciliação de classes, essas frentes amplas com empresários e capitalistas, por exemplo, que aqui estão sendo construídas, como se fosse essa a unidade que pode nos dar força. Para isso, dizemos não. Formemos grupos de jovens e trabalhadores que estejam dispostos a construir uma força política anti-burocrática em seus locais de trabalho e estudos, que lute pela unidade da qual precisamos, que é a classe trabalhadora. Aqui no Brasil, a maioria da população é feminina e negra, que podem estar ao lado de nossos irmãos brancos, indígenas, LGBTs e migrantes explorados, pondo fim a esse sistema de miséria.

Esse ato tem essa função, de fortalecer a vanguarda que se prepara para acabar com as fronteiras que vemos ano após ano se construindo entre revoltas e revoluções, recuperando o legado do marxismo revolucionário, que para nós se expressa nas lições de Rosa Luxemburgo, Lenin e Leon Trotsky, não como papel molhado, como cartas antigas do passado, mas como lições políticas e estratégicas para vencer hoje e agora.

Esquerda Diário: Por último, como co-editora do livro "A Revolução e o Negro", o que pode nos dizer sobre as ideias marxistas e a questão racial? O que Marx tem para contribuir com o tema?

Letícia: No campo teórico, uma das principais contribuições do marxismo é a teoria que vê o lugar de destaque do racismo e da escravidão na formação do próprio capitalismo. Marx diz, no Capital, que um pilar decisivo da acumulação capitalista, além de ser um dos maiores crimes da história humana, foi a escravidão de mais de 12 milhões de africanos por quase quatro séculos.

No campo da política, Marx e Engels vão em 1861 e 1862, em suas cartas ao New York Daily Tribune e à Vienne Presse, para reivindicar a Guerra Civil nos Estados Unidos como "o maior evento da época", justamente porque a luta entre escravizados e escravizados. permeava todo o curso da guerra e que, no final, garantiu a vitória ao norte, ao que Marx saúda calorosamente dizendo que "o trabalho de pele branca não pode se emancipar onde o trabalho de pele preta é marcado com ferro". Também no campo da política, vale a pena mencionar aqui uma carta de 1858 em que Marx, entusiasmado com o levante de Cipaios contra o colonialismo britânico, escreve a Engels "A Índia é nosso maior aliado". Essa concepção anti-escravista, antirracista e anticolonialista coloca o marxismo como uma teoria básica para superar e derrotar essas opressões em uma chave revolucionária.

Isso se deve porque, em primeiro lugar, fornece a base para a compreensão de que o racismo surge com o capitalismo e que, portanto, superar esse preconceito odioso deve ser uma luta contra o capitalismo, e isso é visível nos exemplos que falamos antes, certo? Na relação dos dados sobre mortes por coronavírus, por exemplo, quem mostram que essa tríade de racismo, machismo e capitalismo serve para super explorar e traz uma dor enorme à vida dos negros. Segundo, porque a tradição marxista durante e após a vida de Marx e Engels, está forjando um legado e uma experiência enquanto mais determinados a destruir o racismo e o colonialismo.

Neste livro, por exemplo, também trazemos um teórico muito importante na história do marxismo revolucionário, que era CLR James, que, 100 anos depois de Marx, continua no texto A Revolução e o Negro, demonstrando o papel proeminente que os negros tiveram em todos os momentos decisivos da história da humanidade: fomos as mais numerosas vítimas da acumulação de capital, lideramos a revolução haitiana que abriu a feridas das contradições da revolução francesa e, em geral, a farsa do discurso da igualdade de uma revolução burguesa que manteve a escravidão e as colônias, também fala sobre o lugar de destaque dos negros na emancipação dos Estados Unidos da colonização britânica e na formação de um país de trabalho livre e industrial. Essa guerra que eu disse que Marx segue com grande entusiasmo e logo em um ciclo completo de lutas revolucionárias pela libertação nacional em diferentes países do mundo, mas principalmente na África e na América do sul, fazendo quilombos e muitas revoltas durante e durante o período de escravidão e domínio colonial, lutas infelizmente traídas pelo stalinismo.

Bom, neste texto, James termina dizendo que toda essa história dos negros, que na luta contra o capital leva a dor do racismo além da exploração, não tem nada a perder, exceto as correntes, e que, portanto, na unidade das fileiras da classe trabalhadora na luta contra o racismo e o capitalismo, os negros protagonizaram de alguns dos capítulos mais apaixonantes da construção do socialismo revolucionário. Bom, a luta dos Estados Unidos impactando o mundo dizendo que as vidas negras importam em meio a maior crise econômica do século me parece ser a confirmação desse presságio de James. Agora, nossa batalha deve ser a de eliminar, como eu disse, a fronteira entre revolta e revolução, à qual todos que estão ouvindo devem saber que isso requer preparação e estratégia, o que só é alcançado através da construção de partidos internacionalistas que em todo o mundo os resgate. O legado de Marx, Engels, também incluiu os grandes estrategistas revolucionários Lenin, Rosa Luxemburgo e Trotsky, não como um documento básico, como cartas antigas do passado, como lições políticas e estratégicas para vencer hoje e agora.

É nessa perspectiva que, para se absorver essas lições políticas e estratégicas destes marxistas, mais que nunca é preciso forjar um partido socialista revolucionário e antiburocrático. Enfrentar o capitalismo com a perspectiva de vencê-lo e avançar para a contrução de uma nova sociedade, sem exploração e opressão, demanda disso, da construção de uma organização que reuna o que há de melhor na força da classe trabalhadora, para conduzir ao caminho da revolução. Isso hoje significa batalhar pela reconstrução da IV internacional, e colocar de pé um partido revolucionário que que ultrapasse as barreiras nacionais, no enfrentamento com o capitalismo, e também com as burocracias políticas que impedem as lutas da classe trabalhadora de avançar ao redor de todo o mundo, e que conduza essas lutas rumo ao socialismo.

***

Nesses marcos, de tudo o que Letícia levanta, reforçamos o convite ao Ato Internacional do dia 11 de julho! Basta de racismo e violência policial! Assista e acompanhe conosco este momento importantíssimo na batalha por essas ideias, e pelo fortalecimento da construção dessa força internacional! A classe trabalhadora e os oprimidos não devem pagar pela crise do coronavírus!

 
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