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Domingo 1 de Noviembre de 2020
02:22 hs.

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CORONAVÍRUS
A pandemia e a violência contra a mulher
Maíra Machado
Professora da rede estadual em Santo André, diretora da APEOESP pela oposição e militante do MRT

A crise do Coronavírus ainda não começou a mostrar seus efeitos mais drásticos. Veremos nos próximos dias o colapso no sistema de saúde em diversos estados brasileiros, em Manaus já pudemos ver o prelúdio do que acontecerá em todo o país nos próximos dias, pacientes em tratamento dividindo espaços dos hospitais com corpos vítimas da Covid-19.

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O trauma da pandemia que se alastra fortemente é expressão nua e crua das políticas privatistas e sucateamento da saúde levados à frente por todos os últimos governos que ganharam força com o fortalecimento de Bolsonaro. Os dados sobre o avanço da epidemia no Brasil são duvidosos, já que é um dos países que menos testa em todo o mundo, a subnotificação é imensa e existe um disputa política entre os poderes para ver quem sairá melhor da crise, tudo isso em detrimento de nossas vidas que são rifadas à todo momento por políticos e empresários.

Os números, mesmo mentirosos, são tristes e não apenas os que se ligam às mortes pela Covid-19. Mesmo com tantas dúvidas, podemos ter algumas certezas, e uma delas é que a violência contra a mulher subiu de maneira absurda desde o início da quarentena. Os números de feminicídios aumentaram muito desde o início da crise e só em São Paulo a cifra assustadora é de um aumento de 46% de assassinatos de mulheres em relação ao mesmo mês do ano passado.

Um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em quatro estados revelou que houve aumento de feminicídio no mês de março. No Rio Grande do Norte, em março 2019, foi registrado um feminicídio. Neste ano foram quatro. No Acre, passou de um caso para dois. Mato Grosso foi o estado que teve o maior aumento percentual: 400%. Foram dez mulheres mortas só em março.

No Rio de Janeiro, números do próprio governo relatam um amento de 50% nos casos de violência contra mulher. Já em Minas Gerais, especialistas alertam sobre o risco da subnotificação, já que com a pandemia as mulheres não saem de casa para fazer a denúncia, e 35% da população mineira não tem internet para os registros online.

É revoltante que em meio a tantas preocupações e angústias, as mulheres tenham que viver uma situação tão tensa e perigosa. No Brasil, país campeão de violência contra a mulher, a quarentena desnuda aquilo que é denunciado há anos: a violência contra a mulher acontece em casa e os agressores são os companheiros e ex, maridos, pais, padrastos, irmãos.

O feminicídio é o ultimo elo de uma enorme cadeia de violência contra a mulher. As taxas de feminicídio já vinham aumentando muito depois da eleição de Bolsonaro e toda sua política abertamente misógina, isso já se comprovava meses atrás e se somava ao aumento da violência doméstica, psicológica e sexual, no Rio de Janeiro até o fim do ano passado os feminicídios tinham aumentado em 317% entre 2016 e 2018 em meio ao governo Witzel. Em São Paulo, governado por Dória víamos um avanço importante entre 2018 e 2019 de 44% nos casos de feminicídio. O estado de MG, governado por Zema, liderou o número de feminicídios no país no ano passado.

Esses dados são efeitos do discurso machista da extrema direita, dos ataques à educação, à saúde, aos direitos trabalhistas e direitos fundamentais para as mulheres, como creche. São fruto de uma política reacionária que está a serviço de aprofundar as péssimas condições de vida das mulheres e só pioram no Brasil da pandemia, já que o isolamento social permite que as mulheres estejam ainda mais vulneráveis.

A violência contra a mulher não foi gerada pela quarentena, ela apenas está mais evidente e seguirá um curso perigoso enquanto governantes como Bolsonaro dizem que a violência é fruto dessa situação e que é preciso acabar com a querentena para que as mulheres não sofram mais violência. Nada mais ofensivo vindo de quem legitima e alimenta a violência contra as mulheres.

Em meio à pandemia também fica evidente que são as mulheres negras as que mais vão pagar os custos da crise. Se em tempos “normais” são elas as maiores vítimas da violência, agora são elas que são demitidas em primeiro lugar e que verão suas famílias sofrendo abertamente com o contágio do Coronavírus. São as mulheres pobres que primeiro se enfrentarão com a falência do SUS e são elas as que mais estão sujeitas aos efeitos que a crise sanitária, social e política trarão para o nosso país.

O trabalho verde-amarelo aprovado pelos deputados no último dia 14, que busca "baratear” a contratação para o patrão, com todo tipo de isenção, à custa da precarização das relações de trabalho e da vida do trabalhador, sobretudo o mais jovem, se aprovado pelo Senado até o dia 20, também acertará em cheio o emprego de milhares de mulheres e suas condições de trabalho.

Para as mulheres é fundamental que todo enfrentamento ao coronavírus seja realizado da perspectiva dos trabalhadores e não dos políticos e empresários para quem esses governam: é preciso que se realizem testes massivos, que se unifique o sistema de saúde privado e público, que haja proibição das demissões e que em cada lugar de trabalho tenha uma comissão de segurança e higiene para garantir condições salubres para realização do trabalho.

Mas também é urgente e necessário, que o Estado se faça responsável pela vida das mulheres, garantindo moradia segura para todas mulheres que requererem, utilizando hotéis e prédios desocupados se necessário, assim como disponibilização e criação de casas abrigo emergencialmente.

Fornecer atendimento interdisciplinar com psicólogos, assistentes sociais, profissionais da saúde, além de licença remunerada do trabalho e criação de empregos e subsídios pra mulheres desempregadas, como renda de 2.000 reais enquanto dure a pandemia, são medidas essenciais para que as mulheres possam se organizar contra a Covid-19 e contra a violência patriarcal.

 
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