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Domingo 5 de Julio de 2020
04:21 hs.

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CORONAVÍRUS E LUTA DE CLASSES
Itália: ir à greve para não morrer
Ciro Tappeste
Giuliana Martini

Mais de 7.500 pessoas morreram até o dia 25 de março na Itália, incluindo 683 apenas na quarta-feira. No entanto, continuamos trabalhando, inclusive em várias empresas que não são essenciais para a luta contra o Covid-19. Portanto, em meio a uma grande indignação social e às manobras dos dirigentes sindicais, parte da Itália se declarou em greve na quarta-feira, 25 de março, para dizer que a saúde dos trabalhadores e a luta contra o coronavírus vem antes dos lucros. Uma grande lição também para os trabalhadores de outros países europeus.

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A Itália é um dos epicentros da crise com três regiões particularmente afetadas, Lombardia, Vêneto e Emília-Romanha, no norte do país. Desde o início do mês, o governo de Giuseppe Conte (primeiro-ministro da Itália, aliança da centro-esquerda e o Movimento Cinco Estrelas-M5S) reforçou as medidas de contenção, com um primeiro decreto no dia 1º de março, que dividiu o país em três zonas seguido do fechamento das escolas e universidades no dia 4. Logo no dia 9 de março decretou todo o país como “zona vermelha”, ou seja, no modo de “confinamento”, e no dia 21 ele estabeleceu a suspensão de todas as “atividades não essenciais” até o dia 3 de abril. Assim como na França, apesar do Covid, na Itália o trabalho continua em muitos setores. É neste país onde a greve foi muito forte no dia 25 de março.

Na origem da greve, um recuo do governo diante da pressão das patronais

A faísca que transformou o saturamento em raiva e em greve nesta quarta-feira, 25, se encontra nas falsas promessas do primeiro-ministro da Itália. Em seu discurso de sábado, Giuseppe Conte prometeu encerrar todas as “atividades não essenciais” com exceção, portanto, de alimentos, de energia, da indústria farmacêutica e o transporte, em particular.

Mas as associações empresariais italianas não ouviram da mesma maneira. Em poucas horas, sob pressão de vários setores do empresariado, incluindo a Confindustria (Confederação Geral da Indústria Italiana), o governo acrescentou vários parágrafos ao primeiro artigo de seu decreto já publicado. É assim que os pontos D e H preveem, na versão do texto de 23 de março, exceções a “atividades funcionais para a continuidade de atividades essenciais” (fórmula quase ditada por Vincenzo Boccia, presidente da Confindustria), bem como para “setores de importância estratégica para a economia”. Dessa forma, os setores ativos incluíram dentro de seus limites não apenas os fabricantes de armamentos e aeronáutica, mas também eletrodomésticos, a indústria pneumática, grande parte do setor têxtil, construção de obras públicas e boa parte do setor mecânico, a indústria metalúrgica e siderúrgica. Como prova, basta pensar que o grupo Marcegaglia, cujo presidente há muito tempo dirige a Confindustria, continuou operando até 24 de março, suas usinas siderúrgicas de Boltiere (atividade que não é essencial), em Bérgamo, uma das regiões mais afetadas desde o começo da epidemia, com mais de mil mortos hoje.

A burocracia forçada a mostrar serviço frente ao pano de fundo das greves de base

A cobertura, embora firmemente sustentada pelas três confederações sindicais CGIL (vinculadas ao Partido Democrata, ao governo), CISL e UIL, começou a tremer seriamente. As confederações assinaram um acordo com o governo e a Confindustria no dia 14 de março que as envolveu nas decisões sobre se manter ou não as empresas abertas. Em âmbito local nas empresas, oficinas ou armazéns, a situação tem sido muito mais tensa nos últimos dez dias. Assim, em 490 empresas que poderiam, de acordo com os textos publicados até agora, continuar operando, foi tomada a decisão de fechar. Às vezes, a escolha recai sobre esse ou aquele setor de empregadores que enfrentam o movimento parado, mas na maioria das vezes o fechamento é realizado em um contexto de impedimento ou, inclusive, de greve por parte dos funcionários.

Assim, já faz uns 10 dias que as atividades foram suspensas ou paralisadas por paralisações em vários setores: podemos mencionar a indústria naval (Fincantieri), a indústria automobilística (várias plantas da FCA foram fechadas, a da Ferrari em Módena foi fechada pelos trabalhadores), a siderurgia (ArcelorMittal Génova), Whirlpool e Electrolux, ou inclusive a logística, onde os “sindicatos de base” estão ativos.

A partir de segunda-feira com o recuo de Conte frente às exigências dos empresários, a situação se precipitou, com paralisações no setor aeronáutico, principalmente em Leonardo (36.000 funcionários), Gavio ou LGS, mas também no grupo Safilo (óculos, onde os sindicatos propuseram reconverter a produção de luxo para fazer máscaras de proteção), ou no setor metalúrgico de Pádua, onde a petição das três federações filiais FIOM-FIM-UILM entraram em greve por 48 horas na terça-feira.

Negociações sindicais-governamentais e greve do 25 de março

Dentro desses marcos, os dirigentes sindicais não tiveram outra escolha a não ser dar voz e bater na mesa, pressionados pela base. Colocados contra a parede, o governo também retrocedeu na quarta-feira com concessões à direção da CGIL, a CISL e UIL, em torno da nova reconfiguração das chamadas “atividades não essenciais” e a devolução do acordo sindical local (RSU) para a abertura ou não de um local de trabalho ou de uma empresa. Os sindicatos, que ameaçaram atacar, agora dizem que estão absolutamente satisfeitos. Portanto, o executivo deveria firmar um novo decreto indicando em que medida, apesar da sua aparência presidencialista, Conte segue sob pressão, inclusive de forças sociais contrárias.

No entanto, é possível que uma segunda versão do decreto (que amplia uma vez mais o número de setores de atividades que podem parar até 3 de abril), pode não ser o suficiente para acalmar a ira dos trabalhadores, preocupados por sua saúde e a de seus entes queridos, e para lidar com os empregadores que seguem querendo obter um benefício a um custo muito elevado e manter suas fábricas funcionando.

Com efeito, além da greve nacional convocada para o 25 de março pela USB, um dos “sindicatos de base” da Itália, foram os metalúrgicos de FIOM-FIM-UILM de Lombardia e de Lácio que mantiveram o chamado à greve, agitada durante um tempo pelas confederações que logo se retiraram quando o governo abriu as portas para as negociações.

As taxas de adesão à greve do dia 25, que paralisou gravemente a economia em ambas as regiões, oscilaram entre 60 e 90%, em Brianza, por exemplo, houve uma participação de 70%. Outros setores também ficaram paralisados, como as indústrias do papel, têxtil e química, enquanto foram feitos chamamentos para greve nos próximos dias, nos supermercados de Ligúria, Molise e Abruzos. Em todos estes casos, os chamados são realizados pelas federações filiadas à CGIL, a CISL e a UIL, que não tem estado muito acostumadas à relação de forças nos últimos anos.

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Os protestos operários na França e no Estado Espanhol diante da pandemia

A situação pode parecer paradoxal, mas é rica em lições. Embora o mundo do trabalho na península italiana estivesse longe de estar na ofensiva, nos últimos anos uma série de movimentos, muitas vezes espontâneos ou pelo menos não organizados pelas direções sindicais tradicionais, permitiram fazer com que as patronais retrocedessem, ainda que a situação (pensemos no número de mortos, pacientes hospitalizados e pessoas infectadas) seja extremamente difícil.

Ao mesmo tempo, apesar da popularidade do governo, os trabalhadores têm demonstrado nos últimos dias, e mais ainda com a greve de 25 de março, sua capacidade de impor suas vozes e de colocar fim aos ataques que continuam, inclusive em tempos de coronavírus e inclusive em nome da luta contra a epidemia.

No Estado Espanhol, a greve de trabalhadores da Mercedes, em Vitoria, mostrou a mesma disposição de setores da classe operária para defender sua saúde, a de seus familiares e toda a comunidade, recusando-se a trabalhar sem as mínimas condições de segurança e higiene. Algo que os trabalhadores de Airbus estão também exigindo, por isso chamam uma greve a partir do dia 30 de março. Ao mesmo tempo, em muitos lugares de trabalho como os call centers, correios e oficinas, os trabalhadores denunciam que não contam nem com máscaras e nem com luvas de proteção adequadas. O egoísmo das patronais coloca em risco a vida dos trabalhadores e de toda a sociedade.

Na Itália, assim como na França e no Estado Espanhol, os próximos dias e semanas serão cruciais, tanto no terreno produtivo quanto nas empresas, para avaliar a capacidade da nossa classe de defender a nossa saúde em detrimento dos benefícios das patronais, seja paralisando o que não é essencial, seja impondo a reconversão de atividades sob o nosso controle e exigindo a nacionalização destas empresas pelo Estado. Não é uma coincidência que, deste ponto de vista, os meios de comunicação mantenham, até o momento, uma espécie de apagão total sobre os movimentos de greve na Itália.

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Texto originalmente publicado em espanhol no La Izquierda Diario Argentina, integrante da Rede Internacional de Diários La Izquierda Diario.

 
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