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Lunes 30 de Noviembre de 2020
11:19 hs.

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Resposta ao Intercept: aliar-se com capitalistas é a melhor maneira da classe trabalhadora continuar perdendo
Mateus Castor
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Na última quinta-feira (22), no aniversário de 96 anos da morte de Vladimir Lênin, o portal The Intercept publicou o artigo Elogiar ditadores é melhor maneira de a esquerda continuar perdendo, cuja imagem ilustrativa era do próprio Lênin.

Porém, a velha crítica liberal e anti-comunista da identificação de “totalitarismos” foi apenas um prólogo para o objetivo principal do artigo: a defesa da velha política de alianças e concessões com toda a gama de “oposição democrática” capitalista como a suposta estratégia viável contra Bolsonaro.

A narrativa dos Tsares na “guerra de narrativas” contra o comunismo

Diz o Intercept na referida matéria:

“Enquanto isso acontecia, evidenciando o total despreparo e o apreço de setores do governo por regimes autoritários – algo que, sabemos, não vem de hoje e não é restrito ao nazismo –, parte da esquerda resolveu defender publicamente… outros regimes autoritários.”

Aqui o Intercept repreende setores que homenagearam Lenin a 96 anos de sua morte, argumentando que seria um despropósito porque se trataria de um ditador à frente de um dos “regimes totalitários”.

A própria forma abrupta de transição, indo da declaração escandalosa do ex-secretário para uma polêmica sobre a defesa dos “regimes autoritários” de esquerda, mostra uma lógica equivalente a um dos sensos comuns advindos por parte de teóricos capitalistas na defesa da “liberdade” tal como esta noção surge para os liberais- isto é, de exploração e opressão de suas classes dominantes.

Dessa maneira, o Intercept oferece nada mais que velhas falácias liberais que ecoam o conceito de democracia, mascarando que estas mesmas democracias imperialistas lançaram bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki. Ou que durante todo o século XX perseguiu, torturou e matou opositores em território nacional, como foi o destino dos Black Panthers; participou de golpes de Estado em toda América Latina contra a “ameaça comunista”; produziram carnificinas na Coreia e no Vietnã. Tudo em nome da “democracia” e de suas “liberdades” cada vez mais neoliberais.

É por este motivo que a definição de “regimes totalitários” e ditador para tratar Lênin também é defendida por ninguém menos que...Bolsonaro. O GPS ideológico da Folha de São Paulo fornece dados interessantes sobre o escândalo de Roberto Alvim. A ultradireita, com os bolsonaristas na linha de frente, tentou contra-atacar as críticas buscando novamente igualar nazismo e comunismo. Não só a declaração do próprio presidente, que repudia as “ideologias totalitárias e genocidas, como o nazismo e comunismo”, como o tweet de Eduardo Bolsonaro, no qual diz: “se você abomina o nazismo, também deve abominar o comunismo. Caso contrário é um hipócrita ou ignorante”.

Os autores do The Intercept podem se orgulhar de replicarem essa lógica ao colocar Lênin como um ditador sanguinário, sugerindo ser uma espécie de totalitarismo irmanado com o nazismo, operação ideológica tão nefastamente repetida pelas “mentes brilhantes” do governo Bolsonaro.

O portal, acaba ainda por tomar as sagradas dores e as santíssimas lágrimas da família Romanov, ao usar como fonte histórica um artigo da National Geographic chamado A morte de uma dinastia: como os Romanov encontraram seu fim. Pobres autocratas, seriam vítimas de uma tragédia. Depois de massacrarem brutalmente trabalhadores no Domingo Sangrento, que deu lugar à revolução de 1905, de manterem os camponeses em um regime grotesco de servidão, viram seu regime de servidão e privilégios virarem pó, por uma revolução que tomou o céu de assalto e arrancou o poder das divinas mãos de deus e do capital.

Democracia operária e a Revolução Russa

Se para o Intercept as semelhanças entre comunismo e nazismo são tantas, obviamente que não há diferença alguma entre bolchevismo e stalinismo, outro absurdo histórico, político, sociológico - em todas as perspectivas de análise possíveis. Indistinção absurda compartilhada tanto pelo the Intercept como pelo stalinista Jones Manoel.

O bolchevismo de Lênin que foi crucial para fornecer a estratégia vencedora de todos os operários organizados em Sovietes, que expressavam o órgão máximo de poder e auto-organização dos trabalhadores, para orientar a linha revolucionária das Internacionais, sendo o oposto ao stalinismo. Stalin à frente da burocracia soviética afundou revoluções pelo mundo inteiro, como por exemplo quando orientou os comunistas a se dissolverem no Partido Kuomintang na China de 1926, ou quando igualmente ajudou a derrotar a Revolução Espanhola. Como já colocamos em outro artigo:

O Intercept ao colocar Lênin como um ditador, e apagar sua trajetória a frente da agrupação política que liderou a tomada do poder pelos trabalhadores na Rússia, encerrando a participação russa na guerra, expropriando fábricas, distribuindo a terra e acabando com a autocracia czarista. Ou ignoram, ou deliberadamente escondem, que Stalin representa o oposto de Lênin em aspectos cruciais. Para citar apenas algumas questões, Lênin era um ferrenho defensor do internacionalismo revolucionário, enquanto Stalin defendeu a "revolução num só país" em nome da qual ajudou a derrotar processos revolucionários mundo afora para se manter no poder. Lênin defendida que todos os partidos dos trabalhadores atuassem nos soviets, e que isso deveria ser o embrião de um Estado que criasse as condições para deixar de existir. Stalin na antípoda do que Lênin defendeu tornou as medidas de exceção centralizadoras tomadas durante a guerra civil em norma, e burocratizou a URSS instaurando um Estado policial, em nome do qual perseguiu e assassinou todos que se opunham a ele dentro do partido. Stalin buscava enterrar as conquistas que Lênin havia obtido, e não aprofundá-las ou segui-las. Lênin conduziu os trabalhadores à vitória. Stalin foi o grande organizador de derrotas, como dizia Trotski..

Lênin não se restringia à democracia burguesa, que mantém a imensa maioria da população numa condição de exploração e opressão. Era ferrenho defensor dos sovietes, órgãos surgidos na primeira Revolução Russa de 1905, que se baseavam no voto de delegados operários, camponeses e delegados eleitos em seus locais de trabalho, bairros, trincheiras e comunidades. Estes conselhos de operários passaram a exercer uma dinâmica de duplo-poder com a tirania czarista, até que, nas famosas Teses de Abril, Lênin, onde sintetizava as tarefas da revolução, defendia a passagem do poder do Governo Provisório para os sovietes, em Outubro proclamou: “Todo poder aos sovietes!”

A Revolução Russa seria impossível sem a auto-organização dos explorados e oprimidos, Trotski, dirigente do Comitê Militar Revolucionário e do Soviete de deputados operários e soldados de Petrogrado que levou o objetivo à consigna a prática, mais tarde, no decorrer da década de 20 e 30, durante sua dura batalha contra a burocracia stalinista, diz que

“a burocracia tem substituído os soviets, como organismos de classe, pela ficção dos direitos eleitorais universais, ao estilo de Hitler e Goebbels. É preciso devolver aos soviets não apenas sua livre forma democrática, como também o seu conteúdo de classe. Assim como em outro tempo não se permitia a burguesia e aos kulaks ingressar nos soviets, agora é necessário expulsar a burocracia e a nova aristocracia (...) A democratização dos soviets é impossível sem a legalização dos partidos soviéticos. Os próprios operários e camponeses, com seus votos livres, apontarão os partidos que reconhecem como partidos soviéticos.”

John Reed, jornalista norte americano que foi cobrir a situação russa em 1917, descreve toda a dinâmica da democracia operária na Revolução de Outubro, no que se tornou o livro 10 dias que abalaram o mundo.

Longe de tratar “como democracias morrem”, Reed, que depois se converte ao bolchevismo, nos mostra como as revoluções nascem: através da auto-organização operária e seus órgãos de poder. Acompanhando o Soviete de Petrogrado, relata as mais vivas e dinâmicas lutas políticas entre as diversas frações do proletariado e campesinato russo. As sessões dos conselhos de operários e deputados, os congressos e constantes debates, dentro do qual os bolcheviques defendiam uma estratégia revolucionária, através da tomada do poder estatal via insurreição, independente da burguesia. Forma democrática destruída pelo stalinismo, que fez do Partido Comunista uma burocracia autoritária.

Defender uma política de independência de classe para derrotar Bolsonaro é algo um tanto distante para os editores do Intercept dispostos a defender voto no pacote anti-crime de Marcelo Freixo, e a pactuar e conciliar não questões secundárias, mas fundamentais.

A mesma fórmula de sempre: negócios, concessões e conciliação

Eis o porquê de todo rechaço à Lênin e ao comunismo: os editores do portal apresentam a defesa de futuras alianças da tal “oposição democrática” para as eleições deste ano - o grande centro estratégico ocultado no artigo. Elogiando, assim, às guinadas à direita de Marcelo Freixo e seu voto inaceitável no pacote anti-crime de Moro, junto com diversos partidos golpistas de ontem e a ultra-direita de hoje, reivindicam essa ação em mais uma demonstração de apoio à miséria do possível . Muito embora não tenha sido o único a votar o infame pacote, Marcelo Freixo como deputado federal do PSOL é o principal nome para as eleições e uma das principais apostas do partido.

Acontece que a votação deste pacote, que aumenta a repressão e criminalização da pobreza, em especial da juventude negra - dando também melhores ferramentas para criminalizar oposições e manifestantes, deu um novo fôlego para o seu autor, Sérgio Moro. Após as diversas pancadas recebidas pelo vazamento de dados que denunciaram a podridão da operação Lava Jato, o ministro da justiça não caiu e agora busca retaliações contra… Glenn Greenwald, principal figura do The Intercept, com o qual nos solidarizamos contra os abusos autoritários do MPF.

Surpreendente, mas sem nenhuma surpresa. O “exemplo” de Freixo, reivindicado pelos autores, teve resultados um tanto quanto distantes de uma correlação de forças mais favorável para a “esquerda”, ou melhor, opostos. Esta política que busca “gente disposta a abrir mão de certos valores e divergências irreconciliáveis em favor de (muitos) pontos em comum” não é nenhuma novidade, dela há exemplos com péssimos resultados, no caso para os trabalhadores e oprimidos.

“Saber negociar e se reunir em torno de pautas comuns é fazer política”. Não foi este mesmo “fazer política” pelo qual o PT chegou ao governo, e passou aí 14 anos? Não manteve esse modo de fazer política mesmo durante e depois do golpe institucional, paralisando a iniciativa da classe trabalhadora, e abrindo caminho para a ultradireita? O partido, criticado pelo portal pela falta de autocrítica pelos escândalos de corrupção, nada mais fez do que exercer sua capacidade de diálogo com a classe dos empresários, latifundiários e banqueiros e para eles governar, o que inevitavelmente envolve todas as formas possíveis de parasitar o Estado e enriquecer, seja na ditadura militar, no governo FHC ou de Lula e Dilma.

Foi através do governo de coalizão que os grandes magnatas da fé, representados pelo PSC ascenderam na política; que o agronegócio se tornou o setor mais forte da economia nacional; que a polícia militar e o exército reprimiram negros tanto nas favelas do RJ, com as UPPs, como a ocupação do Haiti; o decreto da lei Anti-Terrorista: tudo fruto de um intenso “diálogo democrático” com a bancada da bala, bíblia e do boi, hoje, base dura do bolsonarismo.

Veja mais: O PT plantou e Bolsonaro colheu: agronegócio e classes sociais no interior do país

Vemos então que The Intercept defende a mesma estratégia que fez até hoje a classe dominante vencer e, pior, deu força e abriu caminho para importantes aliados de Bolsonaro.
Por trás da defesa de uma unidade de todos pela democracia, se expressa uma estratégia preocupada mais com as eleições de 2020 e as coalizões necessárias para a vitória eleitoral, que qualquer defesa das condições de vida da imensa maioria da população se subordina às alianças inevitáveis para a gestão de um Estado capitalista.

Por isso o incômodo com “o massacre por parte da esquerda” pelo absurdo voto no pacote anti-crime de Freixo, critica que nós do Esquerda Diário temos orgulho de ter sido uma das maiores vozes, cumprindo nosso papel enquanto um portal anticapitalista, internacional e independente de bilionários. Coisa que Pierre Omidyar impede o The Intercept de ser.

Contra os “extremismos” e de mãos amarradas com burgueses

Estamos contra os ataques feitos ao Intercept e mais especificamente a Glenn Greenwald pelos representantes do autoritarismo judiciário, que querem defender a Lava Jato. Entretanto, a defesa de um frente democrática de todos, ou seja, com partidos burgueses e golpistas, é compreensível. Afinal, o The Intercept é uma agência de notícias financiada por Pierre Omidyar, bilionário norte-americano, dono da eBay, que possui um capital acumulado em $12,5 bilhões, além de estreitas relações com o Partido Democrata e fortes atritos com Donald Trump. Deve ser por este motivo o esforço, por todo um parágrafo, para “dialogar” com o PSDB em nome da “defesa da democracia”.

Desde o golpe institucional até a prisão de Lula, a degradação do regime democrático capitalista brasileiro se deu em nome de uma agenda de ataques - desde o congelamento dos gastos públicos até a reforma da previdência. A classe dominante e seus representantes seguem “ganhando” juntos, embora ocorra divergências sobre as formas de conduzir a opressão estatal.

Ao invés de condenar a “esquerda” e defender todos aqueles que igualam a democracia ao liberalismo burguês, como faz o The Intercept, é preciso fortalecer uma mídia como o Esquerda Diário que ao contrário de se compadecer com Czares, denuncie aqueles que sofrem a crise capitalista e são obrigados a pagá-la: a classe trabalhadora, e divulgar suas lutas, como a grande greve francesa que já dura quase 60 dias e sofre um bloqueio midiático no Brasil.

Cerrar as fileiras da classe trabalhadora e dos oprimidos é o que pode derrotar Bolsonaro

Por todo mundo, nos últimos meses, vem ocorrendo levantes em rechaço aos ataques antipopulares de seus governos, como ocorreu no Chile em novembro do ano passado, que indicam um novo ciclo internacional à esquerda na luta de classes.

Enquanto os olhos dos editores do The Intercept brilham por uma frente ampla em defesa da democracia, se humilhando para o PSDB, na França há exemplos do que significa a classe operária em movimento contra os ataques capitalistas. A classe trabalhadora francesa protagoniza as maiores greve desde 1968, contra a reforma da previdência de Macron, dando continuidade às manifestações dos Coletes Amarelos, mas desta vez com o carimbo dos métodos de luta da história do movimento operário.

Na última sexta-feira (24) demonstrou, mais uma vez, sua força imparável, com a manifestação de milhões de trabalhadores que, em seus locais de trabalho, estão cada vez mais descontentes com as negociatas de seus sindicatos com o governo. “Abrir mão de certos valores” aqui, ganha a proporção absurda que sempre teve, não são valores em jogo, são anos a mais de exploração com a reforma da previdência e a perda substancial de renda e condições de vida. É o capitalismo arrancando “alguns anos” de descanso, após décadas de trabalho, para a manutenção dos lucros.

Na mesma situação crítica, no Brasil, o PT, controlando suas burocracias na CUT e CTB (PCdoB), teve o mérito de desviar o ódio e rechaço à Reforma da Previdência de Temer, expressos numa das maiores paralisações nacionais na história do país no dia 28 de Abril de 2017 e na Marcha para Brasília em maio, para uma saída eleitoral para o ano de 2018. Com a derrota eleitoral, graças às manipulações da Lava-Jato e do judiciário, além da aliança formada entre o capital financeiro, latifundiários e empresários - tão bem alimentados pelos governos petistas, Bolsonaro chegou ao poder.

Em nenhum momento, o PT construiu uma frente única entre todas as categorias e sindicatos organizados na CUT, a central sindical mais poderosa do país, e chamar a unidade de toda a classe trabalhadora em defesa de seus direitos, contra os ataques do golpe institucional e a ascensão de Bolsonaro. Contudo, mesmo após um ano de governo, a saída se mantém a mesma para derrotarmos o governo Bolsonaro.

É através de grandes demonstrações de força, e não alianças oportunistas e negociatas com capitalistas, que os trabalhadores, jovens, mulheres, negros e indígenas podem dar uma resposta à altura do problema. Para isso, é necessário recuperar as lições da própria Revolução Russa e nos inspirar nos lutadores de todo o mundo, como foram os chilenos e agora os franceses : lutar pela auto-organização e coordenação de todos estes setores, numa frente com independência de classe, para defender os direitos democráticos e econômicos, é esta a estratégia tão temida por Bolsonaro, rechaçada por social-liberais, que pode fazer a classe trabalhadora vencer suas batalhas.

 
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