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Martes 22 de Octubre de 2019
05:40 hs.

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Histórias do proletariado digital
Um churrasco para os assassinos da memória
Afonso Machado
Campinas

Este é o terceiro conto de uma série que leva o título de Histórias do proletariado digital.

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Um apartamentinho simples mas de muitos ruídos, de muitos aparelhos eletrônicos ligados ao mesmo tempo. Era noite de sexta feira em Campinas. Mês de agosto. Um vento gelado armado de canivetes, capaz de fazer o nariz e os ouvidos sangrarem. Imagens de pessoas vivas e mortas passeavam pela sala através da televisão ligada. Uma poltrona abrigava o corpo inquieto e o olhar desconfiado de Waldemar. Ele assistia a uma reportagem que tratava dos dados estatísticos sobre os mortos e desaparecidos na época da ditadura militar(1964-85). O barulhinho no bolso anunciou a mensagem no celular. Era Marcelo, seu primo mais velho, afirmando pelo zap que: “ 31 de março de 1964 é motivo para um brinde! É tudo mentira o que afirmam os terroristas e seus aliados maconheiros “. Waldemar riu e falou alto para si mesmo:

- Marcelão é foda! É um brasileiro que não dá mole para invenções de vagabundos.

No dia 13 de dezembro de 1968, foi decretado no Brasil o Ato Institucional Número 05, que intensifica a perseguição, censura e repressão aos opositores da ditadura militar, iniciada com o Golpe de 1964. Comparável ao momento em que Hitler obteve plenos poderes através do Decreto de Proteção ao Povo e ao Estado, na Alemanha nazista dos anos de 1930, o AI-5 suspendeu o Estado de Direito e promoveu prisões, torturas, exílios e assassinatos no Brasil.

Talita estava no quarto do casal com o secador de cabelos ligado enquanto Waldemar gritava da sala :

- Tá tarde, amor ! Já são quase 20h, o combinado para o churrasco era umas 19:30h.

- Já tô praticamente pronta!

Waldemar, motorista de 45 anos que transportava dinheiro para um Banco, e Talita, funcionária de Telemarketing que aproximava-se dos 33 anos, estavam indo para um churrasco na casa dos pais de Waldemar. O casal vivia uma época de vacas magras, orçamento apertadíssimo, sendo que passeios no shopping ou idas á pizzaria seriam coisas para um futuro distante. Passear? O jeito era jantar ora na casa dos pais de Waldemar, ora na casa dos pais de Talita. Os dois saem de casa e decidiram que era melhor pegar o ônibus para economizar a gasolina do carrinho cansado. Durante o trajeto cenas perturbadoras: um casal de mendigos devorava o próprio bebê recém nascido, um pequeno grupo religioso dirigia suas orações para um muro pintado de azul, homens de capuz sentados nos troncos de uma árvore traficavam luzes fervidas e um senhor desesperado abria com uma pá um buraco num terreno baldio para enterrar sua pilha de livros.

Em frente a casa dos pais, Waldemar soltou um grito primal. Logo a mãe e o pai do rapaz surgiram ao encontro do pequeno portão da velha casa de paredes amareladas. O portão branco e enferrujado se abriu num gemido de dor. Beijos e abraços somaram-se ao olhar maldoso da mãe de Waldemar para o simples e roto vestido de Talita(era possível ouvir o som do silvo que vinha das pupilas da sogra de Talita). No quintal estavam a churrasqueira, uma geladeira de 1970 e Marcelo chamando o primo Waldemar para perto de si. Marcelo era um cinquentão da cidade de São Paulo, que estava passando uma longa temporada na casa dos tios em Campinas. Ele havia trabalhado como segurança de boate, taxista e depois de ter sido mandado embora de uma pastelaria em que trabalhou como garçom, estava se virando como motorista de aplicativos. Os dois primos começaram a preparar as carnes para o churrasco. Talita foi, a contragosto, ajudar a sogra a preparar a mandioca frita. O pai de Waldemar não dizia nada e sorria com sua boca cansada de 84 anos. Marcelo virou-se para Waldemar e disse:

- Viu o zap que te mandei? Agora véio, é o Brasil do bem, de quem é bom, cristão pra valer. Um país sem Deus não vai pra frente. Coisa simples: quem fala em nome de Deus não pode causar mal a ninguém.

Waldemar abriu a lata de cerveja e após o primeiro gole disse animadamente:

- Você é sábio Marcelão! Quem fala em Deus faz o bem.

A Inquisição ocorrida entre os séculos XV e XIX na península ibérica, torturou e executou pessoas acusadas de práticas religiosas que a Igreja Católica condenava. Os tribunais do Santo Ofício foram responsáveis, na Espanha e em Portugal, pela morte de milhares de pessoas.

A família estava toda reunida em volta da mesa, enquanto Marcelo cuidava da churrasqueira e Waldemar , cortando e servindo carnes, animava o jantar posto no quintal. Ao mesmo tempo em que a fumaça da churrasqueira machucava as folhas da enorme bananeira plantada no fundo do quintal, infecionando as feridas da árvore que chorava em segredo , Marcelo falava o quanto o Brasil era uma terra abençoada. Uma terra rica e próspera, sem furacões ou vulcões, aonde tudo que se planta dá. A mãe de Waldemar, a idosa dona Paula, concordava com o sobrinho e mastigando com dificuldade um pedaço gorduroso de linguiça frita, afirmou:

- É uma terra dos filhos de Deus, do povo cristão. Por que vocês acham que os índios ficam só reclamando de tudo que o governo faz? Eles são preguiçosos, andam pelados e ficam nessa de feitiçaria. É isso que o diabo quer! Eles sempre tiveram terras mas quem trouxe paz e dinheiro foram os que são tementes a Deus; que nem nóis.

Durante o processo de colonização da América portuguesa, inúmeras sociedades indígenas foram exterminadas. Povos nativos eram capturados pelos bandeirantes e escravizados . Outros povos indígenas foram explorados nas Missões religiosas e culturalmente submetidos a uma educação cristã.

- E tem mais... - afirmava Marcelo, empunhando para cima o espeto da churrasqueira, como a espada do soldado português quinhentista - Agora tem que trabaiá! Vagabundo não tem mais vez! Né não tio?

O velhinho sorria e balançava a cabeça afirmativamente. Talita era a única que sentia um mal estar diante daquelas falas. Ela não conseguia comer nada. Ela amava Waldemar e tinha certa afeição pelos demais. Porém, parecia que a carne do churrasco não apenas estava mal passada. A carne parecia estar crua, sendo que o sangue escorria pelos lábios daquelas bocas raivosas. Talita era uma moça calada. Todavia, ela usava muito a voz em seu emprego. Ela ligava diariamente para inúmeros celulares, inúmeros telefones fixos, e dizia de modo programado:

- Bom dia, aqui é Talita e falo em nome da empresa Barbárie Online. Informo que esta ligação está sendo gravada. Por favor, o senhor Ambrósio está? Há que horas posso falar com ele? Ok, retornarei a ligação. A empresa Barbárie Online agradece, tenha um ótimo dia.

Porém, interrompendo a frase decorada, muitas pessoas que atendiam a ligação agiam com extrema violência verbal , respondendo com incrível estupidez. Talita era mandada para o inferno, para a puta que pariu, para o raio que a parta... Cansada, completamente esgotada, ela olhava agora com melancolia o espetáculo direitista dos primos Waldemar e Marcelo. Waldemar disse:

- É por isso que eu amo a Talita: ela não tem medo de serviço, não reclama. Não é feita essas feministas cheias de mi mi mi.

Marcelo completou:

- Negócio de assédio, exploração, violência contra a mulher, é frescura. Isso nunca existiu. É coisa de mocinha de esquerda que fica fazendo drama sobre tudo.

Logo nos primeiros tempos da Primeira Revolução industrial, tecelãs eram exploradas em jornadas de trabalho que ultrapassavam 16 horas diárias. O mesmo vestido que as operárias produziam com as próprias mãos, não poderia ser comprado por nenhuma delas em uma loja: o preço do vestido era maior do que o salário das operárias. Este mesmo salário por sua vez não atendia ás necessidades básicas de sobrevivência das trabalhadoras.

Talita estava com o estômago embrulhado. Enquanto todos comiam ali com ferocidade bestial, Talita que tanto sentia a necessidade de responder aos insultos diários, ficou pensando que pessoas mortas, inclusive aquelas que foram injustiçadas, deveriam ter suas versões dos acontecimentos. Os personagens históricos que eram insultados naquele churrasco, mereciam uma réplica. Talita não sabia mas desejou ouvir o que presos políticos, cristãos novos, indígenas e operárias de diferentes épocas, responderiam aquelas pessoas que faziam parte da sua família.

O vento da noite balançava a bananeira, derrubava o varal do quintal e trazia misteriosamente as vozes dos mortos.

OBSERVAÇÃO: Esta é uma pequena obra de ficção. Com exceção dos fatos históricos destacados no texto , personagens e lugares foram inventados.

 
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