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Jueves 17 de Octubre de 2019
08:38 hs.

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EDITORIAL MRT
A cínica entrevista do ex-presidente do PT e a necessidade de uma estratégia baseada na luta de classes
Diana Assunção
São Paulo | @dianaassuncaoED

Enquanto o congresso debate a continuidade da votação da previdência e prepara novos ataques aos direitos trabalhistas, o ministro Weintraub avança na privatização da educação com o programa Future-se e Sérgio Moro tenta fortalecer seus poderes arbitrários, o ex-presidente do PT culpa os trabalhadores pela atual situação.

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Neste domingo, a Folha de São Paulo apresentou uma entrevista com lideranças de partidos de oposição ao governo Bolsonaro, em especial o PT onde todos buscavam abordar as dificuldades que enfrentaram como oposição pra impedir que os ataques, muitos já em curso, fossem implementados. O tom da entrevista é de transmitir a ideia de que é preciso mudar de tática pra conseguir fazer frente ao governo, sempre sugerindo que para isso é necessário buscar mais alianças ao centro: mirando empresários, a FIESP talvez e na política o centrão.

Mas o ponto mais instigante da entrevista são as declarações de Rui Falcão, ex-presidente do PT e atualmente deputado federal por São Paulo. Falcão começa afirmando que "não podemos ficar apenas na via parlamentar", para depois dizer que "a falta de mobilização da sociedade contra a reforma da Previdência (...) se refletiu no dia da votação da matéria na Câmara, em primeiro turno. Era um negócio desolador, não tinha nem 20 pessoas nas galerias do plenário". Longe de ser algum tipo de auto-crítica petista ou busca por uma nova estratégia, aqui se expressa o mais profundo da estratégia parlamentar do PT: lamentar a derrota culpando a falta de mobilização dos trabalhadores.

Rui Falcão somente "esqueceu" de dizer que a "falta de mobilização" tem uma das suas principais causas a política das centrais sindicais, uma delas dirigida pelo PT, no caso a maior delas a CUT. E não se trata de um problema recente. O PT quando era governo federal estimulou a desorganização e desmobilização da classe trabalhadora, repetiu os métodos dos partidos tradicionais da burguesia no poder e foi desmoralizando a classe trabalhadora com ataques que fazia, especialmente com os ajustes de Dilma, e com suas alianças com a direita, o que foi abrindo espaço para o golpe institucional, a prisão arbitrária de Lula e as eleições manipuladas, tornando o PT uma engrenagem crucial na construção da passividade no terreno da luta de classes. Isso agora se reflete em que sequer organizam assembleias nos locais de trabalho ou uma paralisação séria no 14J, como parte de impedir a auto-organização dos trabalhadores, separar a mobilização contra a reforma da previdência da luta massiva dos estudantes e usar a aprovação da reforma da previdência, junto com todas as outras centrais, como moeda de troca pra impedir a retirada do imposto sindical.

O "negócio desolador" que Rui Falcão se refere no dia da aprovação em primeiro turno da reforma da previdência, nós denunciamos como uma verdadeira vergonha: o problema não era que havia menos de 20 pessoas, o problema era que as centrais sindicais, com grande responsabilidade da CUT e da CTB - esta, dirigida pelo PCdoB - não haviam convocado nenhum tipo de manifestação, sequer no dia, mas menos ainda o que era o correto, ter levado adiante um plano de luta efetivo para barrar os ataques e evitar que se chegasse no dia da aprovação com sentimento de derrota consumada entre as massas, sentimento este construído por estas direções.

Mas, mais do que isso: na mesma Brasília de Bolsonaro e dos políticos reacionários que querem descarregar a crise em nossas costas, a poucos quilômetros, ocorria o 57º Congresso da UNE, no mesmo dia da aprovação em primeiro turno da Reforma da Previdência! Nada se falou sobre a reforma na abertura deste Congresso, era uma festa como se nada estivesse acontecendo. A festa teria sido linda se não fosse uma delegação de jovens trotskistas que levantou uma enorme faixa perguntando "Porque os governadores do PT e do PCdoB apoiam a reforma da previdência? Parem de negociar nosso futuro!". Ou seja, o "negócio desolador" que entristeceu Rui Falcão contou com apoio e incentivo dos governadores de seu próprio partido que soltaram algumas cartas ao governo Bolsonaro pra alterar uma ou outra coisa na reforma e principalmente pra expandi-la para municípios e estados.

O fato é que o tom de lamento e de que "nossos inimigos são muito espertos e tem estratégias, precisamos nos renovar" é um discurso para lavar a cara desta política do PT, de conciliação de classes e de um projeto de país que abriu espaço pra vários dos setores que foram o pilar do golpe institucional. A todo este projeto a política de contenção da luta de classes foi um fator decisivo, então não se trata da "não mobilização frente a reforma da previdência" e sim da construção sistemática da desmoralização e passividade dos trabalhadores que passam a acreditar cada vez menos em suas próprias forças. A estratégia parlamentar é funcional a esse objetivo: os parlamentares do PT - e inclusive de outros partidos - ficam posando de lutadores "obstruindo" a votação, mas o tempo que ganham com as obstruções é utilizado para nada. De que serve obstruir a votação se no dia da votação efetiva não é chamado nenhuma mobilização nas ruas? Porque devemos acreditar que a força de um punhado de parlamentares vai ser maior do que a força da classe trabalhadora organizada desde a base?

A cereja do bolo de suas declarações é quando diz que o problema mesmo é a estrutura atual da classe. Não é mais o chão da fábrica, agora é muito difícil de organizar. A constatação de que a precarização e terceirização fragmentou muito a classe trabalhadora, em especial mulheres, negros e juventude, deveria levar a conclusão de que é preciso a unidade das fileiras operárias. Rui Falcão declara isso como se a CUT ou a CTB não tivessem sido coniventes com o trabalho precário ou como se a política destas centrais não fosse a de separar por completo os setores precários das categorias de efetivos, sempre evitando levantar as bandeiras decisivas pra unidade das fileiras operárias como a efetivação imediata de todos os trabalhadores. Nós temos orgulho de ter sido parte, como minoria do Sindicato dos Trabalhadores da USP, de uma série de lutas em defesa dos terceirizados. Somente com políticas de unidade em todo o país é possível enfrentar esse problema estrutural, o que se negam a fazer, tornando essas lutas totalmente excepcionais. Foi a continuidade da política nefasta que essas direções tiveram durante todo o período neoliberal, onde essas burocracias seguiam fazendo campanhas salariais rotineiras e se negavam a impulsionar qualquer luta em defesa dos empregos efetivos e postos de trabalho. Com uma estratégia de meramente se manter na diretoria dos sindicatos, como um fim em si, só importava para eles que os filiados aos sindicatos vissem no sindicato um defensor do poder de compra do seu salário. Foi essa postura em décadas que construiu essa situação na classe trabalhadora.

Neste mesmo sentido, da separação de pautas, as declarações de que "nos desfocamos" da luta principal contra a Reforma da Previdência, rechaçando as declarações reacionárias da Ministra Damares Alves, por exemplo, é lamentável. É um mantra repetido por Ciro Gomes várias vezes, que o PT também endossa, e nessa entrevista até mesmo o presidente do PSOL corrobora. Ou seja, o PT, ao mesmo tempo que impede qualquer tipo de mobilização contra a reforma da previdência, também quer dizer que não devemos enfrentar toda a reação no âmbito da luta das mulheres e dos direitos democráticos que está em curso neste momento no Brasil. Por acaso, por exemplo, a declaração de Bolsonaro hoje dizendo que sabe como o pai de Felipe Santa Cruz, presidente da OAB, desapareceu na ditadura militar deve ser tratada como "cortina de fumaça"?

As últimas semanas foram marcadas por um aprofundamento do autoritarismo do governo diante de acontecimentos brutais que seguirão na impunidade. São muitos os exemplos, como a portaria 666 para expulsão de estrangeiros, a perseguição ao jornalista Glenn Greenwald, mas também o assassinato de um assentado do MST em uma manifestação, o ataque à uma militante trans do PSOL em São Paulo, o ataque a uma aldeia indígena culminando no assassinato de uma liderança indígena, que Bolsonaro duvida ter sido assassinada defendendo ainda por cima a legalização do garimpo. A declaração sobre um desaparecido da ditadura militar é ainda mais grotesca. Todos esses elementos não estão por fora de um governo que se sente fortalecido após a aprovação da Reforma da Previdência. Por isso, separar as lutas é um problema fundamental de estratégia.

Ao contrário, mais do que nunca, devemos unir fortemente a pauta das mulheres com a pauta da classe trabalhadora, inclusive num país onde a classe trabalhadora já é metade feminina. A pauta pelos direitos democráticos com a pauta da classe trabalhadora. É ainda mais nefasta essa separação que fazem da luta econômica com a luta pelos direitos democráticos no marco em que todas as pesquisas mostram que as mulheres, negros e LGBT são os maiores opositores aos planos de Bolsonaro, assim como a juventude, que é particularmente sensível aos temas democráticos. É um absurdo contrassenso atestar que a fragmentação da classe trabalhadora é um fator contra sua capacidade de resistência e conscientemente dizer que é um erro hierarquizar pautas que podem ligar a luta econômica dos trabalhadores com o setor mais dinâmico mundialmente e no Brasil na resistência aos ataques. Mostra como essas direções oposicionistas tem em si uma lógica de pensar um sindicalismo corporativista que é incapaz de se renovar. Por outro lado, um movimento feminista que aceita essa divisão não pode ser nenhuma alternativa para as mulheres.

Por isso, viemos batalhando por uma política anti-burocrática, exigindo desde as mobilizações do 15 e 30M uma unificação entre a juventude e a classe trabalhadora, unindo como uma só luta a batalha contra a reforma da previdência, contra os ataques na educação como o programa Future-se, pelos direitos das mulheres e neste momento também contra todo o autoritarismo que se aprofunda no governo Bolsonaro. Denunciamos a política das centrais que deveriam romper as negociações e colocar de pé um verdadeiro plano de luta pra enfrentar todos os ataques. Agora as lágrimas de lamento de Rui Falcão não passam de lágrimas de crocodilo. Nosso diálogo com o PSOL, e com os partidos à esquerda do PT, em todo esse período foi debatendo a necessidade de conformarem um pólo anti-burocrático, de independência de classe, que exigisse das centrais sindicais uma política totalmente oposta a que estavam levando, que apenas serviu pra construir a derrota com a reforma da previdência. Não debater isso agora significará seguir com a mesma estratégia, ou mantendo o silêncio que os parlamentares do PSOL mantém em relação a toda esta política petista.

É preciso batalhar uma estratégia baseada na luta de classes

A atual conjuntura e as experiências com os primeiros meses de bolsonarismo mostram que nossos inimigos são poderosos porque são fruto de um golpe institucional com interesses imperialistas por trás, mas mostram também que, sem superar a política de conciliação de classes e a ilusão reformista e parlamentarista de gradualmente evitar ataques, não haverá saída pra classe trabalhadora e pra juventude. É preciso desde já batalhar por uma estratégia baseada na luta de classes para enfrentar os ataques em curso.

Nós do MRT colocamos nossas forças pra essa perspectiva, por isso damos tanta importância pra debater o balanço de cada batalha: quem se dá desafios profundos e estratégicos não pode abrir mão de tirar lições de cada uma das batalhas que travamos e principalmente do papel das direções. Impulsionar um portal digital como o Esquerda Diário, parte da rede internacional de diários digitais, que vem se expandindo com o Suplemento Teórico Ideias de Esquerda e com o recém lançado PODCAST do Esquerda Diário sobre política internacional, é parte da batalha pra chegar em milhões de trabalhadores e jovens em todo o país com uma política de independência de classe que denuncie a brutalidade da reforma da previdência, cada um dos direitos democráticos que são atacados e todo o autoritarismo judiciário que se mostrou com a operação Lava-Jato. Assim como é parte de fortalecer o marxismo revolucionário e internacionalista para contribuir em forjar uma vanguarda nacional e internacional que tenha clareza das ideias essenciais para enfrentar os capitalistas e seus representantes políticos.

Construímos a juventude Faísca, que recentemente batalhou por essa política durante o 57º Congresso da UNE, reunindo centenas de jovens em todo o país para batalhar pela auto-organização da juventude e levantando todas as bandeiras da juventude trabalhadora. Frente ao chamado da UNE no dia 13 de agosto, seguiremos batalhando por uma política não "testemunhal" e que unifique a luta contra a reforma da previdência, com a luta contra os ataques na educação e contra todo autoritarismo em curso. Para isso é preciso organizar desde já milhares de assembleias em todo o país, pois o crucial é tomar as ruas massivamente e avançar na auto-organização em cada local de estudo, para que o movimento estudantil que fez uma das maiores mobilizações, possa cumprir um papel decisivo na luta contra Bolsonaro e seus ataques, sendo uma faísca para a classe trabalhadora entrar em cena superando suas direções burocráticas.

Estas batalhas damos como parte de nossa corrente internacional, a Fração Trotskista pela Reconstrução da IV Internacional, que neste momento encara uma fundamental batalha nas eleições argentinas para que a esquerda unificada em torno de um programa de independência de classe possa impor uma potente mensagem contra os poderosos do FMI que com Macri querem destruir o futuro da juventude e a vida dos trabalhadores.

Acompanhe toda segunda-feira o editorial semanal do Movimento Revolucionário de Trabalhadores e conheça nossas ideias.

 
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