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Lunes 26 de Agosto de 2019
01:10 hs.

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RESENHA
“Democracia em vertigem”: entre a repulsa ao golpe e os limites da narrativa petista
Amanda Navarro

O filme “Democracia em vertigem”, com roteiro e direção de Petra Costa, foi lançado na Netflix no último 19 e conquistou setores progressistas da sociedade, ensejando a retomada das discussões em torno do golpe. Em tempos de vazamento das informações da Lava Jato, o golpe de 2016 volta com força ao debate e ao imaginário de todos os setores, impondo inclusive que parte da própria esquerda, aquela que legitimou as ações arbitrárias da Lava Jato sob o semblante de “luta contra a corrupção”, tenha de retomar a controvérsia e buscar se relocalizar diante dos fatos. Nesse sentido, o documentário de Petra Costa demonstra perfeito timming ao nos relembrar dos caminhos tortuosos da política nacional nos últimos anos. Construído por meio de relatos pessoais da autora intercalados pela situação política do país desde que nascera, ainda sob a ditadura civil-empresarial-militar, o filme, mesmo que traga à baila uma questão fundamental, carrega consigo um tom dramático e uma quase ausência de crítica ao papel que o PT cumpriu desde o processo de redemocratização até o golpe e seus desdobramentos.

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O pilar de onde parte todo o filme-documentário é a redemocratização e disto se desdobram todas as análises de Petra ao longo da narrativa. Fica evidente que a produção emana o sentimento de “resgatar a democracia em ruinas” logo nos primeiros momentos: com imagens do Palácio da Alvorada, Petra Costa inicia o filme afirmando temer que a “democracia no Brasil seja apenas um sonho efêmero”. Retomando os processos de luta da década de 80, onde o país foi invadido por centenas de greves operárias massivas contra a ditadura, Petra se apoia inteiramente na Constituinte de 88 como o pilar da verdadeira democracia, e nem por um minuto questiona a "redemocratização" do país como fruto de um pacto entre militares e burguesia para dar vazão à insatisfação da classe trabalhadora com o regime militar. É deste marco que o filme parte para avaliar, sob uma visão maniqueísta da política brasileira, os desdobramentos que nos levaram à eleição de Jair Bolsonaro em 2018.

Com imagens de Lula, aos 33 anos, se colocando como um dos principais líderes sindicais deste processo, a impressão que passa é de um mártir que irá conduzir o país a uma verdadeira democracia com participação das diferentes camadas da sociedade, e principalmente, a classe trabalhadora. Petra narra que, na época, eram 443 parlamentares e apenas 2 representavam a classe trabalhadora e com imagens de lula sendo erguido por pessoas, ela completa dizendo que para seus pais, ex-militantes do PCB, Lula carregava consigo um ideal dos trabalhadores como futuros sujeitos políticos e abrindo caminho para a democracia.

As massivas greves de 80 tornam-se no filme-documentário uma mera “cereja do bolo” da redemocratização brasileira, enquanto as energias fundamentais estão concentradas na figura de Lula e na criação do Partido dos Trabalhadores. Ainda que não seja o foco, vale ressaltar a falta de visão crítica sobre um debate fundamental: o papel conciliador que Lula desempenhou durante este intenso processo de luta de classes, conciliando com patronais e com a burguesia e traindo greves dos metalúrgicos do ABC.

É ignorando este fato histórico fundamental que o filme coloca que, após disputar 3 eleições seguidas, apenas em 2002 o PT opta por coligações para se eleger e conciliar. Assim, o filme coloca a primeira “desilusão” com a possibilidade de uma democracia real, com representatividade coerente dos trabalhadores: Lula buscava fazer alianças com partidos da burguesia oligarca do Brasil. Depois, em seu governo seguinte, o PT inicia uma nova aliança, agora com o maior partido do parlamento, cuja existência é intrínseca e construída como acordo desde a constituinte de 88: o PMDB. Ainda assim, os próprios recortes escolhidos de campanhas de Lula desde 89 mostram a adaptação progressiva de um discurso mais “pró-operário” para um discurso “pró-burguês" e nacional-desenvolvimentista, que durante todos os governos da figura petista se materializou em outras dezenas de formas. “Os bancos nunca lucraram tanto como em meus governos” é uma das máximas em que se mostrou depois que este sonho de “trabalhadores” como sujeito políticos, não passava de uma ilusão na democracia burguesa, e de que seria possível jogar o jogo pelas regras dos capitalistas e obter resultados transformadores.

No momento seguinte, Petra não coloca a questão fundamental do momento político que atravessou o segundo governo Lula, e a situação econômica e política do país em sua narrativa parecem não ter ligação alguma com o boom econômico que invadiu a América Latina, impulsionado pela demanda chinesa por commodities, e que ganhou ainda mais relevância nos primeiros anos após a grande crise nos Estados Unidos de 2008. De fato, a miséria foi reduzida e através de programas de transferência de renda, políticas de ampliação à educação como o PROUNI e REUNI, foram sendo implementadas. Na realidade, este pequeno salto não teve custo zero aos trabalhadores, como se comprovaria posteriormente. O boom econômico possibilitou políticas que na prática impactavam a vida dos mais pobres, porém estavam intimamente ligadas ao pagamento religioso da dívida pública e ao enriquecimento de centenas de empresas nacionais, como a Odebretch, e fomento do agronegócio no Brasil. Nas palavras de um dos homens entrevistado por Petra: é o governo dos ricos que dá aos pobres as migalhas. Além disso, não se coloca em nenhum momento que este aumento das condições econômicas da classe trabalhadora se deu em base ao endividamento através da facilitação de crédito, para fazer lucrar ainda mais os banqueiros, e também ao aumento de trabalhos precários, uma vez que houve um aumento 85% número de terceirizados no governo petista¹.

Ao não fazer tais ligações, estas contradições, entre as coligações com partidos da direita tradicional e as melhoras na situação econômica da classe trabalhadora, assumem novamente uma uma visão maniqueísta. Fica evidente que a falta de exposição destes elementos fundamentais da luta de classes e da situação econômica internacional, bem como do papel fundamental que o imperialismo cumpriu, atribui um caráter da luta entre o “bem e o mal”. Por exemplo, sobre a descoberta do Pré-Sal, o filme-documentário afirma que “o que parecia uma benção, logo se tornaria uma maldição”. Se é possível avaliar em termos de “maldição ou benção”, não seria a descoberta de uma das maiores reservas de petróleo do mundo, e sim, como esta se tornaria objeto de disputa do imperialismo diante do fato de que a Petrobras é uma petrolífera estatal. Assim, a “maldição”, na realidade, é a espoliação capitalista que se tornaria cada dia mais evidente e mais necessária diante da brutal crise que arrastava os países imperialistas, em especial os estados unidos.

Os governos de Dilma já se iniciam diante deste cenário de crise, e enfrentam o levante de Junho de 2013, que Petra coloca como algo que iria mudar o curso da política Brasileira e de fato mudou. Opondo imagens de grupos lutando contra a presença de partidos nos atos, queimando bandeiras do PT e grupos em defesa da “democracia”, Petra deixa a impressão de que ali estaria o germe do que mais tarde chamaríamos de “onda bolsonarista”. Esta possibilidade se aproxima da narrativa de que junho existia em si um elemento que daria curso ao bolsonarismo, que por sua vez é típica do petismo, que busca esconder os duros ataques que Dilma implementava aos trabalhadores e à juventude. Junho de 2013 foi um dos principais levantes na luta de classes desde 1980, encabeçado principalmente pela juventude, que terminou congregando uma série de reivindicações para além do aumento do transporte, e que levou ao fim da etapa da restauração burguesa e ao início de uma etapa de crise orgânica no país. Ignorar os elementos fundamentais de junho e os levantes de trabalhadores que vieram em 2014, como os garis no Rio de Janeiro, é servil ao partido que foi responsável por abrir espaço para que a direita pudesse se construir e se fortalecer na indignação crescente das massas aos ajustes e ataques em curso.
A luta do “bem”, que toma corpo como os “defensores da democracia” e o mal, “a direita fisiológica desde a ditadura”, prossegue até chegar à narrativa petista do golpe. Assim, atribuiu ao Aécio Neves, que perdeu as eleições de 2014 para Dilma, como o “libertador de forças obscuras” ao requerer o impeachment de Dilma ao questionar a legitimidade das eleições.

Com um rico acervo de entrevistas com Dilma Roussef, Petra atribui à ex-presidente uma máscara muito mais à esquerda do que de fato se viu. Ex-guerrilheira, Dilma fala sobre tortura que enfrentou, e isto combinado à imagem da votação do Impeachment onde Jair Bolsonaro faz saudações ao Coronel Brilhante Ustra, torturador de Dilma, nos traz de volta a garganta o ódio latente aos ratos da ditadura. Petra indica que o golpe teve seus presságios por Dilma retirar cargos do PMDB, por implementar medidas anti-corrupção e por atacar os banqueiros. Entretanto, esta visão embeleza a figura de Dilma, que avançava com cortes na educação, cultura e na saúde, e a partir disso, coloca no centro do golpe o PT e não a classe trabalhadora. O golpe de 2016 esteve à serviço de garantir ataques mais profundos e mais rápidos do que o Dilma Rousseff era capaz de fazer, inclusive pressionada pela própria base do PT e sua crescente impopularidade.

A Lava Jato também é parte do filme-documentário, trazendo à luz novamente os áudios vazados, o famoso powerpoint dos procuradores contra Lula e os discursos de Moro, que hoje soam ainda mais sínicos e irônicos. Ainda que muito falada, a Lava Jato aparece através do relato de sua mãe como um instrumento que em um primeiro momento pareceria ter resultado positivo, entretanto depois se comprovou como uma arma contra a democracia, com viés parcial e partidário. A lava-jato, que atacou a Petrobras afim de tornar ainda mais atraente e facilitar as vendas às grandes petroleiras imperialistas, como Exxon e Shell, acabou cumprindo o papel de dar cabo ao golpe que na realidade foi a ferramenta para garantir que os ataques contra a classe trabalhadora pudessem sem implementados ao passo que desejava a burguesia. A partir disto, manipulando inteiramente as eleições e sequestrando o direito básico e legítimo da população decidir em quem votar, a prisão arbitrária de Lula não estava à serviço, em um primeiro momento, de eleger Bolsonaro, e sim de garantir que fosse eleita a figura da direita capaz de aplicar os ataques, que até o primeiro turno se concretizava na persona de Geraldo Alckmin (PSDB). Entretanto, pela lacuna deixada em 2013, onde não havia uma direção capaz de dar uma resposta verdadeiramente revolucionária capaz de enfrentar os ataques do governo contra os trabalhadores, o canalizador desta insatisfação foi Bolsonaro, que se vendeu como um “outsider” e congregou em si todo o ódio anti-petista latente.

De 2013 até hoje, intensos processos de luta tomaram as ruas do país e passam pouco notáveis, ou até mesmo não passam, aos olhos de Petra. O levante de mulheres contra o PL 5069 em 2015, que atacaria ainda mais as mulheres e representava um verdadeiro retrocesso ao direito ao aborto em casos atualmente legalizados, não aparece no filme-documentário. Milhares de mulheres tomaram as ruas contra Eduardo Cunha, autor do projeto, mentor do golpe na Câmara e presidente da casa na época, pelo direito ao aborto legal, seguro e gratuito². Tampouco, o filme retoma a Greve Geral do dia 28 de abril, contra a reforma da previdência de Temer ou as centenas de ocupações de secundaristas em defesa da educação e contra os ataques dos governos em 2015 e 2016. O tom dramático que segue quase linear ao longo do filme-documentário poderia se equilibrar se Petra tivesse optado por escolher mostrar que a força da classe trabalhadora e da juventude, que rechaçavam o golpe e as figuras da extrema-direita reacionária, estava pulsante.

Outro importante agente deste cenário político ignorado por Petra são as centrais sindicais. Sem nenhuma menção, ainda que breve, ao papel traidor da CUT, dirigida pelo PT e pela CTB, dirigida pelo PCdoB, é impossível entender até o final o que significou este processo de 2013 até o atual cenário político. A burocracia sindical é o agente da burguesia no seio da classe trabalhadora, que desde as greves de 80 agiu ativamente para separar as pautas políticas das pautas econômicas, restringindo a luta dos trabalhadores à pequenas conquistas cotidianas, sem questionar a profunda relação com a situação política. Durante o gradualismo lulista, as greves se restringiam às conquistas salariais e econômicas da classe, para negociar migalhas com os patrões que lucravam como nunca. A partir de 2013, uma crise política profunda se abriu no país, respaldada pelo aumento crescente dos ataques econômicos contra a população, então o papel traidor das centrais sindicais tornou-se ainda mais evidentes. A CUT e a CTB não mobilizaram os trabalhadores contra o golpe institucional que veio para aprofundar os ataques de Dilma e tampouco mobilizou os trabalhadores contra a reforma trabalhista, que foi aprovada por Temer, mesmo com sua baixa popularidade. Agora, diante da reforma da previdência, a mãe de todas as reformas, o papel de freio que cumpre a burocracia continua primando, minando as greves e separando esta luta contra a defesa da educação, impedindo a força imparável da aliança entre juventude e trabalhadores.

O filme documentário traz à luz uma série de fatos e faz uma retrospectiva dos acontecimentos políticos fundamentais que nos trouxeram aqui. E isso não é pouco, tendo em vista que o golpe institucional, judiciário-parlamentar, de 2016 não apenas sobrevive, como apenas se aprofundou de lá para cá, com eleições manipuladas e um Bolsonaro presidente no meio. Assim, Petra joga novamente nas mãos de milhares de brasileiros uma série discussões fundamentais e assisti-lo é necessário. Em pleno governo Bolsonaro, muitos se questionam como chegamos até aqui e recordar todo este caminho é fundamental para tirarmos as lições corretas, e assim, o filme documentário de Petra Costa cumpre tal papel. Entretanto, sem superar a narrativa petista sobre tal processo, não vai até o fundo em desvendar o papel dos acordos e conchavos do PT em pavimentar o caminho para a consolidação desta extrema direita reacionária, como a bancada do Boi, Bala e da Bíblia que hoje buscam se unificar pela aprovação da nefasta reforma da previdência. Com moldes dramáticos e que nos guiam à subjetivização de elementos bastante materiais, que não se dão a partir de índoles ou da eterna luta entre o “bem e o mal”, e sim, entre uma série de alas do jogo político para que seja a classe trabalhadora que pague pela crise capitalista, Petra nos indica que mais do que nunca, é necessário superar a narrativa petista. É urgente que identifiquemos os agentes deste jogo político, denunciando a burocracia e seu papel de freio, bem como a conciliação histórica do PT, para que possamos construir uma alternativa à esquerda do PT, com independência de classe, sobre as bases de uma programa operário e revolucionário para dar uma resposta à crise capitalista.

1 https://esquerdadiario.com.br/Do-avanco-da-terceirizacao-nos-governo-do-PT-ao-PL4302-dos-golpistas-como-foi-possivel

2 https://www.esquerdadiario.com.br/Lutar-contra-o-PL-5069-e-pelo-direito-ao-aborto-legal-seguro-e-gratuito-3602

 
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