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Martes 20 de Agosto de 2019
20:16 hs.

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ARGENTINA
As eleições provinciais, a situação nacional Argentina e a difícil batalha da esquerda
Fernando Scolnik
Buenos Aires | @FernandoScolnik

No marco de que as direções burocráticas dos sindicatos boicotam todas as possibilidades de luta contra o FMI, e a polarização entre o Cambiemos e o peronismo, a esquerda da uma forte luta defendendo uma alternativa política dos trabalhadores contra essas variantes políticas que seguirão atacando as condições de vida do povo trabalhador depois desta campanha eleitoral.

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Neste domingo, as eleições em cinco províncias foram a antesala dos dias decisivos que terminarão de conformar o panorama eleitoral nacional na Argentina, que estará definitivamente configurado nas próximas jornadas. Nesta quarta-feira se apresentarão as alianças para os comícios nacionais e em 22 de junho as candidaturas.

Os triunfos eleitorais de Gerardo Morales em Jujuy, Gustavo Bordet em Entre Rios, Juan Manzur em Tucumán e Mariano Arcioni em Chubut, assim como de Rodolfo Suárez nas PASO [eleições Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias, prévias à eleição nacional da Argentina. NdT.] de Mendoza, confirmaram a tendência ao triunfo dos oficialismos nas distintas províncias.

Mais além das das particularidades provinciais (que analisamos em outras notas do La Izquierda Diário), as votações em estes cinco distritos confirmam também, em uma visão global, a tendência à polarização entre os candidatos dos partidos do Cambiemos e do peronismo, no marco de eleições nas quais se definem cargos executivos importantes como de governos e intendencias, além de outros legislativos.

Dentro desta polarização, é preciso assinalar, entretanto, que os partidos integrantes do Cambiemos [frente eleitoral de direita, do atual presidente Macri. NdT.] têm retrocessos importantes em províncias como Jujuy (ainda ganhando) e Tucumán. Porém, em termos gerais, entre o Cambiemos e o peronismo puderam confirmar nestas eleições, entre suas distintas listas, cerca de 80% dos votos em cada província, e inclusive mais em alguns casos.

Uma situação marcada pela traição das cúpulas sindicais

Esta tendência à polarização tem sua explicação mais profunda no fato de que apesar do forte ajuste que está sofrendo o povo trabalhador argentino nos últimos anos, e que vem se acentuando desde 2018 com a influência do FMI, todos os atores do regime político têm trabalhado em comum para que estes ataques não sejam derrotados com a luta, mas para que se encaminhe tudo ao processo eleitoral.

Depois das grandes jornadas de luta de dezembro de 2017 contra a reforma da previdência, o peronismo/kirchnerismo, todas as alas da burocracia sindical e os movimentos sociais ligados ao Papa Francisco apresentaram a consigna “Há 2019”. Se dispuseram a impedir que aquela luta continuasse até derrotar os planos de ajuste e chamaram a esperar passivamente as eleições presidenciais, no máximo com uma paralisação “dominguera” de vez em quando, para descomprimir a revolta e sem continuidade alguma.

É assim como se configurou uma situação na qual as grandes maiorias vem à via eleitoral como única maneira possível de incidir sobre o rumo político e econômico do país, abrindo caminho para um cenário favorável aos partidos majoritários com recursos milionários.

Neste marco, nas eleições provinciais, e logo nas presidenciais, Cambiemos aposta em conservar sua base eleitoral polarizando contra o kirchnerismo/peronismo e o fantasma da “volta ao passado”, para jogar suas últimas cartas num cenário eleitoral hipotético.

De sua parte, desde o peronismo (nucleado em sua grande maioria ao redor da fórmula Fernández-Fernández), se apoia em vender a ilusão de que com uma mudança de governo, tirando o macrismo, melhorarão as condições de vida do povo trabalhador.

O peronismo federal e Roberto Lavagna, por sua vez, aparecem muito diminuídos politicamente e sem chances de disputar a presidência. Expressão concreta disto é que depois de seu triunfo em Córdoba, Juan Schiaretti foi “apagado” do espaço esquematizado e saiu em viagem. Sergio Massa, de sua parte, está negociando até o último momento com a fórmula dos Fernández.

A batalha da Frente de Esquerda

Neste contexto, o PTS [Partido de los Trabajadores Socialistas. NdT.] desde a Frente de Esquerda luta por desenvolver uma alternativa política dos trabalhadores. O fazemos com a convicção de que assim como o macrismo governa sob as ordens do FMI atacando as condições de vida do povo trabalhador e avançando na entrega do país, a fórmula Fernández-Fernández vende a ilusão de que poderá “renegociar” com o FMI e dessa maneira evitar seguir adiante com o ajuste. Querem convencer de que se pode voltar à situação de crescimento dos primeiros anos do kirchnerismo, ocultando que daquela vez essa situação se deu após o arrocho e desvalorização que saqueou os salários (e ainda nos anos de crescimento que seguiram não resolveram nenhum problema estrutural como a precarização do trabalho, a pobreza, a privatização dos serviços públicos ou o domínio dos recursos estratégicos por parte do capital estrangeiro). No presente momento, ademais, diferentemente de 2003 e os anos seguintes, desta vez o pior da crise ainda não passou, mas está por vir.

Neste marco, Alberto e Cristina Fernández escondem que para qualquer novo acordo com o FMI que estenda os prazos de pagamento de uma dívida impagável, o órgão internacional exigirá em troca ainda mais ajustes, com o único fim de destinar cada centavo ao capital financeiro em detrimento do trabalho, da saúde, habitação ou da educação. Também será colocado na mesa pelo FMI a necessidade de “reformas estruturais”, leia-se, mais ataques aos aposentados e mais flexibilização trabalhista.

Contra essa perspectiva, a frente de esquerda vem defendendo a necessidade de dizer a verdade aos trabalhadores, às mulheres e à juventude, sobre a necessidade de preparar-se para enfrentar o FMI com a luta e com um programa anticapitalista. Embora as grandes maiorias não compartilhem nesse momento de nossa visão, é nossa obrigação advertir sobre os ataques que virão e a necessidade de nos prepararmos para enfrentar-los.

Nesse sentido, no terreno eleitoral, para amplificar nossa voz, buscamos ampliar a unidade da esquerda sob um programa anticapitalista de saída para a crise. Para isso chamamos a Autodeterminación y Libertad de Luis Zamora a outras organizações a ir juntos nestas eleições, para defender com mais força nossas posições.

Ao mesmo tempo, viemos dando a luta nas distintas eleições provinciais.

Em Mendoza neste domingo enfrentamos uma eleição muito dura na qual somente quatro dos dez candidatos a governador que se apresentaram nas PASO passaram para as eleições gerais. Alguns dos quais ficaram de fora perdendo suas internas, enquanto outros não superaram o excludente piso de 3%. A Frente de Esquerda, com a candidatura de Noelia Barbeito alcançando 3,66%, apesar de ter obtido menos votos que em 2015, se manteve como uma das poucas forças políticas provinciais que passa às eleições gerais, e lutará em setembro por renovar suas bancadas a serviço das lutas, contra os aparatos milionários de Cambiemos e do Peronismo. A diferença de 2015, também configurou um cenário mais complicado visto que já desde 2017 emergiu uma força política demagógica (Protectora) porém funcional ao regime e com algumas posições de direita (como sobre o direito ao aborto).

Em Jujuy, por sua vez, vindo de 3,51% com a candidatura a governador de Alejandro Vilca, a Frente de Esquerda melhora sua votação em comparação a 2015, dessa vez obtendo 4,43% aos deputados provinciais, que não alcança o sumamente antidemocrático regime provincial que exige um piso de 5% para ingressar à câmara, requisito sem o qual ele teria entrado diretamente. Se nas eleições parlamentares de 2017 a FIT [Frente de Esquerda e dos Trabalhadores, na sigla em espanhol. NdT.] pôde ser um canal para que se expressasse a revolta, no marco também de uma grande crise no peronismo e chegando quase a 15,5%, agora a FIT fez uma votação mais baixa no marco de que o regime utilizou a Julio Ferreyra, um candidato “honesto”, com traços messiânicos e de “outsider” para canalizar a ilusão de mudar o governo como parte de uma mudança nacional, dado que se trata de uma provincia que depende do financiamento nacional.

Por outro lado, a fim de fechar este artigo, em Tucumán obtemos 0,95% para governador e 1,85 para legislador na Capital, em Chubut a lista do PO [Partido Obrero. NdT.] teve 2,8% ao qual se soma 2,2% do MST [Movimiento Socialista de los Trabajadores. NdT.] dentro da esquerda. O MST também obteve 2% em Entre Rios.

Por fim, assinalamos que independentemente dos resultados que estamos obtendo nas distintas províncias, a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores seguirá contando com deputados nacionais, assim como provinciais e concelheiros nos distritos como Mendoza, Jujuy, Neuquén, Córdoba, Cidade Autônoma de Buenos Aires, entre outros, ao mesmo tempo que viemos desenvolvendo uma grande força militante para enfrentar o que vem pela frente.

Os desafios que vêm pela frente

Contra os partidos tradicionais e seus grandes aparatos, que fazem campanhas milionárias que agora serão inclusive financiadas legalmente pelos empresários, desde o PTS e a Frente de Esquerda seguiremos apostando por uma grande campanha política feita a plenos pulmões e desde baixo pelos trabalhadores, mulheres e jovens em todo o país.

Ao mesmo tempo, viemos apoiando cada luta em curso contra o ajuste, como a dos ceramistas de Neuquén que defendem 400 postos de trabalho ou da cooperativa Madygraf por manter em pé a fabrica e um centro de organização da classe operária, entre muitas outras.

Com a força de milhares desde baixo, e as referências da Frente de Esquerda em todo o país, queremos chegar até o último rincão semeando as ideias necessárias para investir nas prioridades: prioridade em acabar com a pobreza, prioridade ao trabalho, à saúde, à moradia e à educação. Não os interesses do capital financeiro internacional e os grandes empresários. Que os capitalistas paguem pela crise.

Porque não nos enganamos. Ganhem a presidência o Cambiemos ou o peronismo, não farão mais do que descarregar novos ataques sobre nós. Por isso nos preparamos para chegar com mais força às próximas etapas da crise. Para desta vez virarmos o jogo.

 
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