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Domingo 18 de Agosto de 2019
06:47 hs.

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IMIGRAÇÃO EUROPA
Entenda o papel do imperialismo por trás das tragédias migratórias
André Acier
Natal | @AcierAndy

Em todo o ano de 2015, mais de 340 mil imigrantes “ilegais” chegaram à Europa. No mesmo período no mediterrâneo morreram mais de 2600 pessoas e centenas faleceram asfixiados em contêineres de caminhão, como ocorreu na Áustria.

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São mulheres, homens e crianças que fogem da Síria, do Iraque e do Afeganistão, países do norte e do centro da África, atravessados por guerras e graves crises sociais, conseqüências da intervenção imperialista na região.

Mas onde se encontra o papel do imperialismo nos fluxos migratórios, e podemos dizer também olhando de outro viés, neste formidável fator de transformação social que é a migração, que hoje cria uma classe trabalhadora tão plurinacional e multicultural?

Como mostramos no gráfico acima, os maiores provedores de imigrantes para a Europa são justamente os países que mais sofreram a opressão imperialista nas últimas décadas, Mostraremos abaixo um breve percurso histórico destes países.

Neste gráfico, podemos ver por que meios os imigrantes chegam à Europa, caminhos cada vez mais perigosos para atravessar a barreira da xenofobia capitalista.

Abaixo, vemos os países que mais recebem refugiados, que também são os que mais utilizam mão de obra hiperflexibilizada para diminuir salários e direitos, à cabeça de todos, a Alemanha.


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Kosovo

Por incrível que pareça, o maior contingente de pedidos de asilo em 2015 vem do Kosovo. São 48,875 imigrantes oriundos da região. Este território, localizado na península dos Bálcãs, tendo feito parte do Império Romano, Otomano e da Iugoslávia, é disputado hoje pela Albânia e pela Sérvia. Entre março e junho de 1999 foi palco da chamada Guerra do Kosovo, em que as forças armadas da OTAN devastaram a região no bombardeio contra a Iugoslávia de Slobodan Milosevic. O resultado da guerra e os posteriores conflitos entre albaneses e sérvios deu origem a um enorme êxodo de refugiados, segundo a ACNUR, de 978.000 pessoas, exiladas em Montenegro, na Bósnia-Herzegovina, na Albânia, Sérvia e Macedônia.

O governo alemão, que participou do massacre junto aos EUA e à OTAN, desintegrando os Bálcãs em nações incapazes de manter-se economicamente, hoje nega asilo aos refugiados de Kosovo e de toda a região dos Bálcãs, pois segundo a chanceler Merkel, “não são mais perseguidos políticos, então não há razão para aceitá-los”, diferenciando-os dos “imigrantes legais”.

(Foto dos destroços no Kosovo após o bombardeio de 1999)

A Sérvia proporciona 6.335 refugiados para a Europa ocidental.

Síria

Um de cada cinco imigrantes no mundo é sírio. Os bombardeios norteamericanos e das potências européias contra o regime assassino de Bashar El Assad e os ataques do exército ditatorial deixaram a economia devastada, com uma inflação de 600%, sofrendo de desabastecimento e falta de insumos médicos. O banho de sangue em que o facínora Assad mergulhou o país é difícil de qualificar.

(Marcha de refugiados sírios na província de Yarmouk, em 2011)

Fruto destas intervenções imperialistas para derrotar a primavera árabe, o auxílio de Turquia, Arábia Saudita e Israel no financiamento do yihadismo, além do desmoronamento do islamismo moderado, surgiu o Estado Islâmico, que com um regime de terror reacionário intensificou a perseguição de sunitas e principalmente xiitas na Síria e no Iraque, num conflito que já cobrou a vida de 230.000 pessoas e causou a fuga de 11 milhões de habitantes de seus lares, segundo a ACNUR (Agência das nações Unidas para Refugiados).

Afeganistão, Paquistão e Iraque

Em 7 de outubro de 2001, a força internacional liderada pelos Estados Unidos deu início aos bombardeios no Afeganistão em resposta aos atentados terroristas perpetrados pela Al-Qaeda pouco menos de um mês antes, em 11 de setembro. O Iraque seria invadido em 2003. O mesmo fundamentalismo islâmico alimentado, treinado e financiado pelo Pentágono na década de 1980 para servir de “cinturão verde” contra o avanço da ex-União Soviética no Afeganistão e na Ásia Central, agora era base da teoria da “guerra ao terror” para garantir o controle das reservas de petróleo e gás do Oriente Médio aos Estados Unidos.

(Imagem tirada pelo próprio exército americano no Afeganistão, ostentando as siglas da "SS" - Schutzstaffel, divisão de assalto - nazista)

As guerras no Afeganistão e no Paquistão deixaram quase 150 mil soldados e civis mortos desde 2001. Outros 162 mil ficaram feridos. O Afeganistão ainda responde pela emissão do maior número de refugiados no mundo, e o vizinho Paquistão é o país que abriga o maior contingente, com cerca de 1,6 milhão deles. O Iraque, em permanente guerra civil e praticamente um “Estado falido”, também proporciona 7.295 refugiados à Europa.

Albânia

Estreitamente ligada ao Kosovo e afetada pelos ataques da OTAN em 1999, a Albânia é também um país extremamente pobre, com um PIB de apenas 12 bilhões de euros, tendo perdido parte do seu território em diversas incursões e guerras desde a Primeira Guerra dos Bálcãs em 1912. Em 1997 a Alemanha e a Itália invadiram o país para sufocar uma revolta popular contra o governo que havia deixado a população na miséria econômica. Esta crise daria origem à guerrilha do Exército de Libertação do Kosovo, que estouraria na Guerra do Kosovo dois anos depois. 8,200 albaneses solicitam asilo na Europa ocidental.

Ucrânia

Os confrontos desatados com a retirada do ex-presidente Viktor Yanúkovich, entre os Estados Unidos e a Alemanha de um lado (que a despeito de suas divergências, têm o desejo comum de retirar a Ucrânia da zona de influência política da Rússia) e o reacionário regime de Putin na Rússia deterioraram tremendamente a situação econômica do leste ucraniano, principalmente as províncias de Donetsky e Lugansk, onde se situa boa parte da indústria energética e do carvão da Ucrânia. O país perdeu mais de 25% do PIB desde o início da guerra civil em 2014. O número de pessoas deslocadas pelo conflito na Ucrânia alcançou agora a marca de 1,1 milhão enquanto o número total de refugiados chega a 700 mil, incluindo os 542 mil que fugiram para a Rússia e os 80 mil que foram para a Bielorussia.

(Imagem dos combates em Debaltsev, região do conflito entre o governo ucraniano e as províncias do leste)

Líbia

A Líbia promove as maiores tragédias migratórias do Mediterrâneo desde 2011 com o estouro da guerra civil no país, que resultaria na queda do ditador Kadafi através dos bombardeios da OTAN. Logo depois, a Itália, a França e a Inglaterra repartiram entre si os despojos petrolíferos e instalaram seus monopólios sobre o massacre de 50 mil pessoas.

Todos os dias centenas de africanos líbios são sepultados nas águas costeiras da Itália, próximo à ilha de Lampedusa. Em abril, um barco que afundou com 700 pessoas a bordo provinha da Líbia. A prática ausência de um Estado na Líbia, com dois governos situados em Tobruk e em Trípoli, favoreceu a expansão das máfias que traficam imigrantes, especialmente subsaarianos. Cerca de 1.100 líbios – os que conseguiram atravessar o túmulo mediterrâneo – se enfrentam com o inferno migratório na Europa.

África

Sem mencionar os séculos de colonialismo anglo-francês na África, desde 2011, o Reino Unido é o principal aliado norteamericano nos bombardeios na Península Arábica e no Chifre da África, na Etiópia, no Djibuti, na Somália, no Sudão do Sul, na República Centro-Africana e na República Democrática do Congo. Em importante livro, "A Segunda Guerra Fria", o brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira mostra o longo histórico de ocupações do exército britânico, que hoje ocupa o Sudão do Sul durante uma guerra civil sangrenta entre o governo local e sete milícias. Demonstra também como o governo francês não fica atrás: a França é o país que mais coordenou ataques militares na África nos últimos anos, participando de invasões no Mali, em Níger, na República Centro-Africana, no Chade, na Somália e no Sudão.

O Mali, invadido pela França em 2012, proporciona cerca de 2000 imigrantes à Europa.

Por estes mapas e dados, fica claro que o fenômeno migratório e suas tragédias cotidianas são uma continuidade quase que espelhar da política militarista dos governos norteamericano e europeus (incluindo a Rússia) na Ásia, na África e no Leste europeu.

Nativa e estrangeira: a mesma classe trabalhadora! Plenos direitos aos imigrantes e refugiados, abaixo o racismo e a xenofobia

Para uma classe trabalhadora que, como diz o pesquisador italiano Pietro Basso, é crescentemente internacional em sua composição e extensão, e que durante a crise mundial vê as condições de trabalho e de vida entre nativos e imigrantes identificarem-se cada vez mais, a burguesia opõe um racismo institucional que busca incessantemente acrescentar às velhas desigualdades de classe e de gênero, novas desigualdades de base étnica, nacional e religiosa, a fim de enfraquecer a luta comum pela emancipação dos trabalhadores.

A burguesia se utiliza, portanto, das divisões entre fronteiras nacionais para atiçar o antagonismo entre trabalhadores nativos e imigrantes, entre trabalhadores imigrantes de diferentes nacionalidades e inclusive entre os de uma mesma nacionalidade. Quando um trabalhador nativo culpa um trabalhador imigrante pelo desemprego ou baixos salários, o único que ganha com isso é o capitalista.

Isso porque, apesar do reacionário discurso anti-imigratório, a intenção não é impedir a imigração: os estados capitalistas não podem dispensar de um certo volume de trabalho imigrante, de trabalhadores temporários hiperflexíveis que, constrangidos pela sua própria situação, sejam obrigados a aceitar qualquer sacrifício e a superexploração do trabalho.

Pelo contrário, quando os trabalhadores se enfrentam contra o mecanismo capitalista de lançar os trabalhadores de distintas nacionalidades uns contra os outros, para lutar juntos pelos direitos sociais e políticos, contra a xenofobia e o racismo e a islamofobia, contra todo tipo de opressão às mulheres trabalhadoras imigrantes, por trabalho digno, isso fortalece o conjunto da classe trabalhadora contra os capitalistas de toda a Europa.

Frente ao aumento da xenofobia e das políticas reacionárias de fortalecer as fronteiras nacionais e dividir os trabalhadores, é necessário enfatizar o conteúdo do internacionalismo que ligue indissoluvelmente a defesa de plenos direitos sociais e políticos para os imigrantes à luta anti-imperialista da classe trabalhadora européia contra os estados nacionais capitalistas e suas fronteiras.

As importantes ações em solidariedade aos refugiados e imigrantes na Europa, como a marcha de 20 mil pessoas em Viena na Áustria, a manifestação de 10 mil pessoas em Dresden (capital dos movimentos neonazistas na Alemanha), e as dezenas de milhares de pessoas na Islândia que ofereceram suas casas aos refugiados contra a autorização do governo são grandes passos para uma campanha internacional que funda os interesses dos trabalhadores através das fronteiras e etnias contra o imperialismo europeu.

 
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