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Miércoles 26 de Junio de 2019
04:10 hs.

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[DOSSIÊ] O FEMINISMO ANTIPUNITIVISTA
Vozes do feminismo antipunitivista
Redação

Essa semana, após a denúncia das Atrizes Argentinas, se escutaram distintas vozes de feministas sobre como enfrentar e combater a violência machista. A antropóloga Rita Segato e a socióloga María Pía López foram algumas das vozes, que tiveram repercussão nesses dias. A primeira foi entrevistada por Reynaldo Sietecase e Mariana Carbajal na Radio Con Vos; a segunda publicou uma coluna no diário Página/12. Para além das diferenças que temos com as referências feministas mencionadas, seus comentários aportam ao amplo debate que sacude a sociedade nesses dias.

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tradução: Gabriel Soares e Letícia Parks

Para Segato, a denúncia das atrizes da relevo à sentença que há poucos dias deixou impunes os feminicidas de Lucía Pérez: “por um lado temos uma justiça que da uma sentença absurda, impossível de aceitar para a sociedade. Por outro lado, este grito das atrizes, que é um contrapeso muito importante que nos alenta a seguir lutando”, reflete.

Mais adiante, Segato também sustenta que “a justiça é seletiva”, e o demonstra particularmente ao falar do chamado “método do escracho”. “É do que falei no Senado quando o governo quis utilizar o sofrimento das mulheres para ampliar as prisões, para castigar o povo, em geral o povo pobre”. “Aí está a complexidade do punitivismo”, que também tem sua expressão no movimento de mulheres.

“O feminismo não pode se construir como uma política do inimigo, porque se não caímos no mesmo caminho”, pondo em risco as conquistas do movimento, sustena. “Ainda que sejam os homens, com todas as injustiças que cometem contra nós mulheres, nossa política não pode ser uma política do inimigo, ou inevitavelmente nos constituiremos em um fascismo”.

Segato também falou das denúncias entre pares, entre adolescentes, das denúncia que há nas escolas secundárias e nas universidades, onde as próprias adolescentes e jovens estão recebendo denúncias contra seus pares, companheiros de curso.

“Muitos desses casos tem a ver com situações do passado, quando essas adolescentes também tinha outro paradigma que não é o que hoje está em questão” da mão do movimento de mulheres, das mobilizações por Ni uma menos, afirma a jornalista Mariana Carbajal. “Essas denúncias estão tornando esses jovens párias, estigmatizados, expulsos, marcados. Aí há um tema interessante para pensar, porque as adolescentes não tem todas as ferramentas para tramitar essas situações”, adverte. “Se trata de pensar como construímos para o futuro uma sociedade que queremos inclusiva. Há que refletir, porque senão cairemos no linchamento”, afirma.

Para Segato, o tema esconde “um extremo sofrimento”. “Nós mulheres sempre fomos linchadas, sempre fomos as bruxas. Então parece uma vingança: ‘agora nós é que vamos linchar’”, interpela emulando a mensagem que transmite esse método do escracho.

“eu não quero os vídeos do meu antagonista, não quero os vícios do poder. Meu feminismo é o de um horizonte aberto, porque estamos construindo outra história”, sublinha, e adiciona: “não quero um feminismo que durma com um advogado debaixo da almofada. Outro aspecto do punitivismo é esse: ‘alguém me tocou o seio, então chamo um advogado’. Estamos aprendendo a negociar cara a cara”, afirma, e sublinha que “o que queremos não é punir, mas corrigir a sociedade, porque estamos chegando em uma catástrofe”.

A saída coletiva é central

María Pía López, socióloga, ensaísta e pesquisadora da UBA, também deu sua opinião sobre a denúncia feita pela Actrices Argentinas em nota publicada no Página12.

A nota, intitulada "Un sano exemplar", resgata a estratégia usada por esse grupo para exigir "a revisão das práticas da indústria cultural, o sistema de chantagem, pressão por contratos, insegurança no emprego". A saída coletiva é central. Transforma cada um militante.

López analisa e tenta demonstrar a diferença entre uma ação coletiva "com a multiplicação de escrachos virtuais como lógica punitivista".

Nesse sentido, ele menciona casos particulares em que as armadas coletivas conseguem dar a contenção necessária para denunciar pessoas com poder e ressonância pública. Afirma, neste assunto, que essas denúncias "vão além da ação em redes ou da denúncia entre pares. Elas se configuram como ações políticas, que se conectam e constituem um novo repertório de lutas".

Diante dessas novas situações, ela questiona e pergunta sobre o papel que as mulheres devem ter para poder discernir "diferenças de poder, pela punição e gradação de penas".

Por fim, ressaltou a importância da ação realizada pela Actrices Argentinas, enfatizando, sobretudo, o marco de solidariedade e cuidado que permitiu que a coletiva de imprensa começasse por denunciar um caso individual, mas cujo objetivo é questionar um problema muito mais profundo.

López ressalta o valor da denúncia, no entanto, ressalta, "que é menos no conteúdo da denúncia do que na força que se configura e deixa insinuada".

 
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