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Sábado 20 de Octubre de 2018
07:48 hs.

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TRIBUNA ABERTA
Malraux e Trotsky: A questão da estratégia revolucionária através da literatura
Afonso Machado
Campinas
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O dever intelectual de combater o fascismo hoje, de enfrentar discursos de intolerância e se opor às práticas políticas autoritárias, mobiliza todas as armas da crítica. Todavia a crítica não pode atingir seus objetivos sem a estratégia correta, sem a leitura correta das condições políticas objetivas, sem a interpretação objetiva da história. Sabe-se que as tarefas do intelectual de esquerda são mais difíceis perante as complexas formas de alienação que atuam desfavoravelmente no combate ideológico. Condição distinta é a da extrema direita, em que seus fabricantes de notícias falsas recorrem a recursos toscos, aos juízos generalizantes e logo sem consistência teórica. Mas vamos ao que interessa: as referências políticas e culturais que abastecem as trincheiras de esquerda. Seja no âmbito literário, seja no âmbito político, a questão da reflexão histórica acerca das estratégias da esquerda se faz sempre presente. Quem passa por aqui sabe que olhamos constantemente para o espelho da história: é lá no fundo que visualizamos as polêmicas questões políticas presentes na obra de artistas e escritores como, por exemplo, o francês André Malraux.

Em sua aventurosa, turbulenta e contraditória trajetória intelectual, Malraux legou através de romances e ensaios questões que o intelectual de esquerda não pode deixar de prestar atenção. Ainda que ele não possa ser exatamente entendido enquanto um escritor marxista, o autor foi uma figura importantíssima nos debates culturais da esquerda dos anos de 1930, erguendo mais de uma vez sua voz contra o fascismo. Talvez suas principais contribuições estejam nos romances Os Conquistadores(1928) e A Condição Humana(1933). Ambos expressam a experiência política do autor junto aos comunistas chineses, num dos momentos mais trágicos do século passado. Dramas existenciais de personagens captados em toda sua riqueza/complexidade psicológica e a questão da estratégia política revolucionária, definem os enredos destas obras ambientadas no convulsivo processo revolucionário chinês.

Os primeiros e sangrentos passos da Revolução chinesa remetem à década de 1920, quando o Partido Nacionalista(Kuomintang) conviveu de modo ambíguo com o PCC(Partido Comunista Chinês). Em 1925 o carrasco Chiang Kai Shek encabeçou as tropas do Kuomintang e partiu pra cima dos comunistas. A burocracia stalinista, que cedeu às pressões da ala nacionalista do Kuomintang, ordenou aos operários chineses entregarem suas armas. Sendo assim o stalinismo torna-se o responsável por um erro político/militar cuja raiz está na equivocada aliança entre burguesia e proletariado no combate ao imperialismo. A envolvente prosa de Malraux lida com esta tragédia revolucionária, denunciando de modo soberbo em A Condição Humana o esmagamento que Chiang Kai Shek realiza sobre o movimento operário: ser atirado na fornalha de um trem foi o destino de muitos revolucionários chineses. Tanto este romance como o anterior (Os Conquistadores) levantam um problema político que até o presente momento dá o tom dos debates da esquerda, ou seja, a questão da estratégia política correta. Os romances de Malraux chamaram a atenção de ninguém menos que Leon Trotski.

Seguramente um dos episódios literários e políticos mais interessantes do século passado foi o debate entre Malraux e Trotski sobre a Revolução chinesa. Em um comentário enviado ao Nouvelle Revue Française , Trotski considera o romance Os Conquistadores(que remete à greve geral dirigida por Cantão no ano de 1925) uma crônica ficcional cuja qualidade “ excepcional “ estaria prejudicada pelo individualismo e pelo “ capricho estético “ do autor. O revolucionário russo ataca a partir do personagem Borodine , delegado do Komintern, a estratégia soviética: o fracasso dos comunistas chineses está no compromisso do Partido Comunista com a burguesia. Sendo assim as linhas gerais do debate político entre trotskismo e stalinismo toma por objeto a literatura, quer dizer, a maneira como a escrita de Malraux exprime os primórdios da Revolução chinesa.

Em resposta a Trotski, Malraux afirmou que o Partido Comunista Chinês não poderia ter naquele momento uma existência independente frente à burguesia. Todavia com o romance A Condição Humana, Malraux está aparentemente influenciado pela visão de Trotski: a tentativa revolucionária de 1927 é narrada criticamente, expondo inclusive o conflito entre comunistas e a burocracia do Partido. Os dramas de personagens revolucionários como o líder Kyo recebem destaque, levantando assim dúvidas sobre a direção política do Komintern. Trotski entusiasmou-se com o romance que recebeu elogios rasgados; ele pensava ter encontrado um artista notável para o movimento trotskista. Mas a relação amistosa entre Malraux e Trotski(o primeiro defendeu publicamente o segundo das perseguições que este sofrera na França) não iria durar muito: durante a Guerra civil espanhola(1936-39) Malraux alinha-se às posições do Partido Comunista, o que tornou incompatível seu diálogo com o trotskismo.

Os romances de Malraux são exemplos de como a literatura não é passa tempo de literatos mas um campo importante para pensarmos, a partir dos mecanismos da arte, a realidade política. Diante de tantas notícias falsas que inundam as redes sociais, a literatura pode ser diferentemente de tantos textos e vídeos mentirosos, uma fonte para refletirmos sobre o nosso tempo.

 
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