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Martes 18 de Diciembre de 2018
20:14 hs.

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FEMINISMO
Café com Pagu: literatura, marxismo e feminismo
Afonso Machado
Campinas

Neste perturbador cenário político brasileiro as mulheres trabalhadoras estão se destacando como protagonistas. Elas encaram de frente pequenas e grandes violências de um sistema que escraviza ambos os sexos.

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Sabemos que a luta de classes dispensa príncipes e sapos, sendo que a emancipação do proletariado não é possível nos quadros do machismo. Aliás as mulheres precisam se destacar no palco das lutas políticas por obvias razões históricas: uma das lições que Engels apresenta na sua obra A Origem Da Família, Da Propriedade Privada e do Estado (1884), é que a história das civilizações não se separa do processo de controle e violência sobre o corpo da mulher.

Todos nós, homens e mulheres de esquerda, aprendemos diariamente a combater as
tristes amarras da cultura patriarcal, que estão internalizadas e logo presentes nas
representações do desejo. Este é um processo dialético, de constante autocrítica(e
jamais de culpa ou de discursos patrulheiros) para que possamos construir novas
relações em que Eros reine e espante os grilos fantasmas da moral burguesa. Para que a histórica intersecção entre a luta operária e a luta das mulheres ganhe força inclusive na cultura, precisamos de referências na literatura brasileira. Proponho assim um café com a escritora Patrícia Galvão.

Menina, ler a obra de Pagu é estabelecer um libertário encontro geracional em que
funde-se literatura, marxismo e feminismo. Pagu foi uma mulher revolucionária em
atos e palavras; aliás quem tem contato com a obra da autora descobre que palavras
também podem ser atos revolucionários. A artista e militante brasileira Patrícia
Galvão, que colocou letras e corpo na luta anticapitalista, formou-se na escola
iconoclasta do modernismo e fez da emancipação da mulher e das ideias comunistas
um mesmo gesto de rebelião contra todo atraso político e cultural que até hoje
perduram na vida brasileira. Se você pretende ler outros artigos desta coluna, não será difícil encontrar várias outras referências e análises feitas ao trabalho da escritora. Isto porque a escrita de Patrícia foi, sob o ponto de vista estético e político, muito mais longe do que a prosa de muitos marmanjos que tentaram fazer da literatura brasileira um território exclusivamente masculino. Mas qual a razão para insistir aqui na literatura de Patrícia Galvão? Infelizmente a produção literária de Pagu não é suficientemente debatida. Geralmente a escritora é encarada como personalidade rebelde ou escandalosa, mas sua literatura aparece como algo secundário. Pensa-se na figura histórica e menos no seu trabalho literário. Mas além de não podermos dissociar sua vida da sua obra(pois trata-se, como muito bem definiu Augusto de Campos, de VIDA-OBRA) existe uma grandiosa contribuição literária da autora para os debates culturais da esquerda hoje. Seja no âmbito do romance, da memória ou da crítica literária, Pagu quebrou tudo: a autora viveu intensamente a literatura e a política, apresentando-se sobretudo durante a década de 1930 como uma artista libertária a serviço da revolução social.

Se você é uma militante que está na luta feminista e socialista, não pode deixar de
devorar cada página do romance Parque Industrial (1933). Esta obra que Patrícia assina com o pseudônimo de Mara Lobo, é um banho de realismo e invenção que dá um chega pra lá no feminismo de proveniência pequeno burguesa e nos padrões estéticos do stalinismo cultural. Não vou entrar aqui nos aspectos biográficos da escritora, quer dizer, a passagem barulhenta pelo modernismo paulista, as relações
conflituosas/contraditórias com o Partido Comunista, as prisões, torturas, exílio etc.
Existe na trajetória intelectual da autora um momento pouco estudado, ou seja, o
período da década de 40 : esta época, que procurei enfatizar no meu livro
Modernidade e a Estética do Credo Vermelho, corresponde ao momento em que
Patrícia Galvão torna-se uma defensora da arte revolucionária independente,
disparando contra o Realismo Socialista e realizando um notável trabalho de crítica e
produção literária ao lado de outros autores da pesada como Geraldo Ferraz(seu
companheiro). Todavia pretendo enfatizar rapidamente aqui a importância do “
romance proletário “ Parque Industrial para as feministas dos nossos dias.
Parque Industrial é um romance cuja importância histórica vem sendo acentuada por
alguns críticos e historiadores de uns anos pra cá. Estes esforços presentes em artigos, ensaios e livros assinados por estudiosos e militantes(me orgulho de tomar parte nesta batalha através do meu referido estudo) acentuam a necessidade do romance social brasileiro sair dos lugares comuns, das fórmulas convencionais que tratam de questões revolucionárias. O Romance de 30 representou o ápice da prosa moderna brasileira, tendo como temática recorrente os conflitos sociais presentes nos contextos rurais/regionais, tal como atestam as importantíssimas obras dos ficcionistas do nordeste. Neste mesmo contexto literário, Pagu apresenta uma inovação: ela coloca em cena os trabalhadores urbanos de São Paulo, o proletariado, através de uma prosa que conjuga realismo e técnicas de vanguarda. Influenciada pela escrita telegráfica do seu então companheiro Oswald de Andrade, Pagu rompe com as estruturas convencionais do gênero do romance ao apresentar uma obra a um só tempo didática e modernista. Com Parque Industrial a autora procurou elaborar uma escrita rápida, veloz, fragmentada, que se comunica diretamente com o leitor operário. É dentro da tensão estética entre o Realismo Socialista e a arte de vanguarda, que Pagu contradiz o primeiro ao reinventar a maneira de expor o cotidiano proletário, em especial a vida da mulher proletária. O romance apresenta histórias tristes sobre mulheres operárias.

São mulheres duplamente roubadas, agredidas, esmagadas: o corpo da mulher
proletária é sugado pela Mais Valia e ao mesmo tempo destroçado por uma sociedade em que este mesmo corpo é tido como um território a ser confiscado pelos homens. Não existe no romance de Pagu um retrato que traz uma atitude puritana. A escritora expõe com franqueza e extrema liberdade as relações sexuais e de produção, registrando/denunciando como a mulher proletária da época falava, se comportava, se expressava acerca da sua realidade econômica e política. Em seus curtos capítulos Parque Industrial é uma narrativa realista que foca a condição feminina em diferentes ambientes sociais: não existe uma dissociação entre gênero e classe, tal como muita gente na área das ciências humanas procura realizar. Sem medo de ser panfletária mas ao mesmo tempo comprometida com sua verdade interior, Pagu passa longe do humanismo burguês e apresenta um romance revolucionário. E nós com isso? Bem, além do livro de Pagu ser uma leitura indispensável(o que envolve a consideração de suas contribuições estéticas mas ao mesmo tempo a crítica quanto às suas ingênuas apologias ao stalinismo), é preciso despertar as comunistas e feministas para a produção literária: necessitamos de romances ousados, que ao tratarem da vida das mulheres trabalhadoras do Brasil de hoje, possam se comunicar com as mesmas. Parque Industrial é uma proposta inovadora para a literatura revolucionária brasileira.

Neste momento, em que mulheres erguem a voz contra as ameaças fascistas, esta
concepção literária ancorada na rebeldia e na inventividade de Patrícia Galvão, precisa florescer com novos “ romances proletários “.

 
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