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Miércoles 21 de Noviembre de 2018
01:13 hs.

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A juventude precisa recuperar suas entidades para enfrentar a extrema direita e o golpismo
Vitória Camargo

Nessa terça-feira, em Curitiba, consolidou-se o veto do Tribunal Superior Eleitoral à candidatura de Lula, com anúncio oficial da chapa Fernando Haddad e Manuela D’Ávila pelo PT-PCdoB nessas eleições manipuladas pelo golpismo, que impediu o povo de decidir em quem votar. Ao mesmo tempo, embora a última pesquisa Datafolha tenha apontado um crescimento mais modesto da intenção de votos a Bolsonaro do que se esperava após facada, essa cara machista, racista e misógina da extrema direita, que quer atacar ainda mais os trabalhadores, aparece com solidez no pleito ao segundo turno. Em várias escolas, universidades e em locais de trabalho, jovens debatem e se perguntam como enfrentar todos esses setores “do ódio”, que querem cada dia mais destruir nosso futuro e nossa já cerceada liberdade nesse sistema. Seria apostando em um chamado “mal menor” como o PT, que abriu espaço para o golpe, ou mesmo em Ciro Gomes e Kátia Abreu? Qual papel nossas entidades estudantis, como a UNE e a UBES, podem cumprir em cada escola e universidade?

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A cada dia mais, não nos restam dúvidas de que o país passou por um golpe institucional em 2016, comandado pelo Judiciário, pelos reacionários do Congresso e em nome dos interesses imperialistas que requerem ataques ainda mais duros do que o PT já implementava para garantir os lucros dos capitalistas. Na alta cúpula judiciária, que não foi eleita por ninguém e é regada a privilégios, a mesma que quer entregar a Petrobrás ao mesmo tempo em que faz demagogia com a “soberania nacional” para ignorar até mesmo resolução do comitê de Direitos Humanos da ONU, vemos agora a continuidade desse golpe. Aos olhos de milhões, nesta semana, com o judiciário impedindo o povo de decidir em quem votar e vetando a candidatura de Lula, ocorreu a oficialização da chapa petista Haddad-Manuela, após inclusive declarações das Forças Armadas, que se colocam como ator político “opinando” nos rumos do país com Villas-Bôas. Com isso, o golpe abre espaço a uma extrema direita que exala ódio às mulheres, aos negros, à juventude e aos trabalhadores, com Bolsonaro, que ganha espaço como saída supostamente “radical” dos reacionários, mascarando o velho programa neoliberal de ataques, em nome de algumas das maiores fortunas do país, e oferecendo à juventude repressão, censura e desemprego. É contra ele que as mulheres brasileiras hoje se organizam para dar uma resposta, tendo nas mulheres jovens sua linha de frente.

Hoje, em meio aos milhões de desempregados no país, é a juventude um dos setores que mais sente a piora das condições de vida nos últimos anos, com seu aprofundamento após o golpe institucional. As jornadas intermitentes da Reforma Trabalhista, os postos terceirizados, os contratos temporários são realidade para a maioria de nós, quando não desempregados. Nas universidades privadas, contraímos dívidas e deixamos nossos salários. A Reforma do Ensino Médio e a nova BNCC querem aprofundar o abismo entre as escolas e as universidades públicas. Para a parcela de nós que consegue furar o filtro dos vestibulares pelo país, nas cinzas do Museu Nacional do Rio de Janeiro, de nossas memórias e no orçamento das pesquisas, vimos o que os capitalistas reservam à educação pública.

Frente a isso, muitos de nós que tomamos as ruas do país em 2013, escancarando os limites do projeto petista nos marcos da crise capitalista internacional e estivemos na linha de frente no combate ao golpe institucional em 2016, ocupando escolas e universidades, contra a PEC do Teto dos Gastos, e vimos a enorme capacidade da classe trabalhadora parar tudo em 2017, hoje nos perguntamos: como chegamos até aqui? Quais são nossas lições para enfrentar o golpismo e a extrema direita?

Como chegamos até aqui e quais lições tiramos?

Na liderança de todas as pesquisas de intenção de voto nas últimas semanas, compreendemos que o voto em Lula contém uma expressão distorcida de que hoje sentimos a degradação de nossas condições de vida, de nossos direitos sociais e de que a narrativa dos golpistas, da Lava Jato e do MBL não foi aceita por uma parcela importante da população do país. Junto a isso, temos o sentimento de que é necessário resistir à extrema direita e de que antes se vivia melhor.

Enquanto hoje vemos um setor de jovens que abraça Bolsonaro e o MBL, como sua saída “radical”, que defende o retorno da ditadura militar e quer acabar com a “ideologia de gênero” nas escolas, milhões de jovens, que nem mesmo viveram no país do lulismo, impedidos pelo Judiciário, votariam em sua figura, como “resistência passiva” aos golpistas, e uma parte importante destes agora considera quem poderá enfrentar a extrema direita e o golpismo. Essa polarização se faz marcada na juventude.

O fato é que, ao contrário do que elabora a intelectualidade petista, de que em Junho estaria o início do golpe institucional, com a juventude tomando as ruas do país e supostamente abrindo espaço às manifestações da direita, vimos em Junho um levante de massas, com a juventude à frente, apontando que não apenas não aceitaríamos que o capitalismo nos impede até mesmo o “direito de ir e vir”, atacando o transporte público, mas também já escancarando uma resposta aos reacionários, com o pastor Marco Feliciano à cabeça da Comissão de Direitos Humanos e Minorias na Câmara dos Deputados, e que tinha seu espaço aberto pelos acordos do PT. As jovens mulheres, que hoje estão na linha de frente para enfrentar Bolsonaro, os negros e LGBTs, são aqueles que mais se colocaram para lutar pelo novo em Junho.

Quando reafirmamos que o PT abriu espaço para o golpe institucional e fez acordos com essa direita reacionária que hoje se coloca na ofensiva contra a juventude, os setores oprimidos e os trabalhadores, Junho de 2013 deve ser um ponto de apoio de que partiu da juventude o questionamento ao lugar a que esse projeto de conciliação petista e de um programa que de fato não nos impediu de sentir as consequências da crise e ver nossas precárias concessões serem rifadas nos levaria. Junho demonstrou que a juventude buscava uma alternativa, que a noção falaciosa de um país onde “todos ganhassem” já não era mais aceita. O país do lulismo, onde os bancos nunca lucraram tanto, cobraria seu preço. Enquanto cerca de R$ 1 tri era transferido anualmente aos bolsos dos grandes banqueiros internacionais através da ilegal, ilegítima e fraudulenta dívida pública, o FIES engrandecia gigantescos monopólios da educação privada, como a Kroton-Anhanguera, e endividava a juventude, tendo suas vagas hoje ameaçadas. A expansão das universidades públicas, às quais foi destinado um orçamento consideravelmente menor do que às isenções bilionárias e à transferência direta às privadas, deu-se em chave precária, hoje não podendo pagar suas contas e garantir direitos elementares à permanência estudantil, com a aprovação da PEC do Teto dos Gastos.

As UPPs racistas iniciaram a repressão nos morros do Rio de Janeiro e tiveram sua continuidade e seu aprofundamento com a intervenção federal que assassinou Marielle Franco. A campanha de Dilma Roussef que prometia não ajustar teve como primeira medida de sua “pátria educadora” cortar bilhões da educação, sendo em 2015 o primeiro ano no qual foi anunciado o fechamento temporário do Museu Nacional. A campanha de Fernando Haddad, que era prefeito de São Paulo e comandou a repressão contra Junho, busca agora recontar a história do acesso à educação nos governos petistas, ignorando que não apenas abriram espaço aos monstros privatizantes e implementaram o ajuste fiscal, atacando a educação, como também, ao se colocarem como pagadores exemplares da dívida pública, reafirmaram os mecanismos de ajustes e subordinação ao imperialismo - os quais também hoje, com a continuidade da crise, significam duros ataques, e com os quais o PT jamais sonharia em romper.

Em todos esses momentos, tivemos em nossas entidades estudantis verdadeiros entraves, a serviço de uma estratégia eleitoral que constrói a passividade e a desmoralização, para que não confiemos em nossas próprias forças e, portanto, que nos reste escolher o “mal menor” que nos atacará no ano seguinte, enquanto essa democracia dos ricos e dos juízes se degrada para descarregar a crise em nossas costas.

Logo, a lógica do “mal menor”, alentada pelo necessário embate à extrema direita e aos golpistas, existe para impedir uma saída que de fato responda aos anseios da juventude, das mulheres, dos negros, dos LGBTs e dos trabalhadores, enquanto inevitavelmente permite sempre que se chegue a um “mal maior”.

Qual deve ser nossa saída?

A palavra “empreendedorismo” faz-se bastante presente quando se trata do “protagonismo juvenil” nos programas eleitorais, na TV e nos mais recentes discursos para as escolas, com disciplinas que versem inclusive sobre “projeto de vida”. De Bolsonaro a Alckmin, busca-se dialogar com essa vontade dos jovens de tomarem seu futuro nas mãos a partir da compreensão utópica e reacionária de que é a partir do esforço, do mérito e da dedicação individuais que será possível superar esse momento de crise, enquanto a maioria (com exceção de poucos bilionários que detêm fortunas equivalentes à maior parte da população) deve “apertar os cintos” e aceitar “menos direitos e algum emprego”, como disse Bolsonaro. Mesmo o PDT de Ciro, que promete um “projeto de país do desenvolvimento”, mas defende privatizações, acordos com os setores mais reacionários do agronegócio, como é a bancada ruralista de sua vice Kátia Abreu, utiliza essa ideia do papel da juventude para encobrir que, ao negociar uma “nova” Reforma Trabalhista com o mercado ou mesmo uma Reforma Previdência aos moldes da derrotada pelos professores municipais contra Dória em São Paulo, pretende nos atacar.

No entanto, o medo contido nesses discursos visa a esconder que os jovens, sim, podem ser sujeitos, como parte de serem atores coletivos que apontem a uma saída independente, que supere o PT pela esquerda no país, e que se ligue à classe trabalhadora que mostrou sua força nos grandes dias de paralisação nacional em 2017. Isso apenas se dará se compreendermos que um aspecto fundamental da desmoralização construída, que permitiu o avanço do golpe e da extrema direita, se deu a partir de nossas entidades estudantis. Assim como CUT e CTB foram pilares centrais, que traíram a greve geral do ano passado e permitiram a aprovação da Reforma Trabalhista sem resistência, a UNE, dirigida pelo PCdoB de Manuela D’Ávila e pelo PT, vem cumprindo esse papel na juventude.

Durante o processo do golpe institucional, o petismo e suas entidades, mais uma vez demonstraram que temem mais a luta de classes e a possibilidade de aí serem superados pelos estudantes, organizados democraticamente em assembleias e reuniões nos cursos, do que o Judiciário e os golpistas, com suas instituições. Com a passagem do petismo à oposição, a UNE, com dezenas de DCEs e Centros Acadêmicos, e a UBEs, nos grêmios estudantis, passou a chamar dias de luta alegóricos contra o golpe e seus ataques, não organizados pela base e sem continuidade e coordenação para que não saíssem do controle. As ocupações de 2016 na juventude não tiveram nessas entidades estudantis uma lógica para derrotar os golpistas e vencer, inclusive porque CUT e CTB passaram completamente ao léu desse processo. Sua estratégia de grandes atos que se conformam como verdadeiros palanques eleitorais, a serviço de concentrar forças em um momento único, como “demonstração de forças”, e então “dispersar” reafirma aos estudantes sua suposta incapacidade de derrotar os ataques, enquanto tem em um programa conciliador para as eleições a tentativa de repactuar com o regime político, o imperialismo e os golpistas um projeto de país, nem mesmo se colocando contra o impedimento do povo decidir em quem votar em cada lugar onde está. Contra essa concepção, que conforma uma grande burocracia no movimento estudantil, deveriam estar quaisquer setores que se coloquem como oposição de esquerda à direção das entidades estudantis.

Nós da Faísca - Anticapitalista e Revolucionária queremos, nestas eleições manipuladas pelo Judiciário, nas quais se mostra cada vez mais o combate necessário à extrema direita, debater com cada jovem e estudante que o “protagonismo” da juventude está em sua organização coletiva a partir de retomar suas entidades enquanto ferramentas de lutas nas quais possamos ser sujeitos políticos para desde aí enfrentarmos os golpistas e a direita reacionária de Bolsonaro. Para isso, precisamos compreender que a lógica do mal menor está a serviço de construir a passividade, por um lado, enquanto aponta para um programa de país que é incapaz de responder aos principais problemas sociais que hoje se colocam, levando inevitavelmente a ajustes, cortando da saúde e da educação, a privatizações, ao desemprego e à precarização do trabalho. A juventude argentina e mexicana, que se levantam na América Latina, contra os ataques à educação, a repressão e os governos, devem ser nosso exemplo.

Apenas com a mobilização independente dos jovens, dos setores oprimidos, em aliança com a classe trabalhadora, podemos apontar para uma saída que de fato responda à crise, com um programa anticapitalista, que levante o não pagamento da dívida pública que hoje nos subordina ao imperialismo e significa cortes bilionários na educação, o fim do vestibular ligado à estatização das universidades privadas sem indenização aos donos desses tubarões para de fato toda a juventude poder estudar, pleno emprego, com redução das jornadas sem redução de salário, e por mandatos revogáveis aos juízes e júris populares nos casos de corrupção. Para isso, é necessário levantar uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, na qual, debatendo os rumos do país, possamos apontar para um governo de trabalhadores de ruptura com esse sistema capitalista que nos oprime e explora.

 
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