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Miércoles 21 de Noviembre de 2018
00:39 hs.

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NOTAS PARA UMA HISTÓRIA DA CLASSE TRABALHADORA PARA TRABALHADORES /
O filho do porteiro de colégio e os “filhinhos de papai”
Marcio Ruzon
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Uma das características fundamentais, realmente estruturais, da sociedade capitalista é a de conseguir internalizar nas pessoas a ideia de que o capital é levantado pelo esforço do capitalista. Como se os milionários criassem sua riqueza.
No caso do trabalhador e sua família, claro que sim, ele ganha o pão apenas com o suor do seu trabalho mal pago e discriminado.

No caso dos donos do poder econômico, nada mais falso.

No caso da própria classe média afluente e rica, isso tampouco é verdade: podem ser bem pagos pelo Estado ou até engordar sua conta bancária em seu pequeno negócio, mas sua maior afluência e riqueza depende da exploração do trabalho alheio [caso do “agricultor familiar” que explora três, cinco ou mais peões ou da dona de um salão de beleza que tem várias funcionárias fazendo andar o seu negócio]. No caso do alto funcionário de Estado, dos deputados, coronéis e juízes, sabemos que seus gordos vencimentos chegam ao seu bolso a partir dos impostos – destes vem o orçamento público – cuja carga é mais pesada sobre a classe trabalhadora.

De todas as formas, o que não se pode negar é que toda riqueza, todo conforto inclusive da classe média rica, é produzido apenas e somente pela classe trabalhadora, a mais explorada da nossa sociedade. Seja a da indústria, dos serviços, do campo e de todos os postos de trabalho realmente existentes.

No entanto, a alienação continua. O que reina é a ideologia de que todo rico é rico porque ganhou seu dinheiro por sua habilidade e imaginação, por sua “capacidade gerencial e administrativa” e nunca pelo suor do trabalho alheio. Seriamente, ninguém pode negar: quem levanta a riqueza do dono da fábrica, da empresa de serviços, de toda empresa é, invariavelmente, o empregado, o operário.

Mas, naturalmente, não é isso que se ensina nas escolas e, quanto à Igreja, ela ensina exatamente o contrário [fica rico quem “serve” a Deus ou então quem não for rico aqui, terá seu lugar no céu e ideologias do tipo]. Aliás, jamais se pode minimizar o papel da Igreja na preservação da exploração capitalista, no ocultamento das classes sociais, na ilusão de que, no final, um Cristo a todos salvará e premiará pelo sofrimento do trabalhador em vida e que tanto enriquece aos donos do capital.

A alienação se reproduz a cada geração e só implode quando eclodem revoluções, quando o proletariado se organiza como sujeito, quando vai à luta, se conscientiza da sua força.

Pois bem, é essa alienação que explica, no final de contas, o descaso e o deboche com o qual os “filhinhos de papai” [filhos da classe média que pode frequentar os colégios de elite] são educados a tratar o trabalhador comum, terceirizado, que mantém a escola de pé e funcionando.

Uma resposta profunda a esse deboche, do filho de rico em relação ao trabalhador pobre, postada no Facebook [e publicada HuffPostBrasil], vale a pena ser divulgada aqui, no Esquerda Diário.

O documento é a resposta do filho de um porteiro de um colégio de elite, porteiro que é tratado, na lógica dos “filhinhos de papai” como uma pessoa que “não deu certo”, “não venceu na vida”.

A isso a ideologia burguesa reduz o ser humano esmagado pelo capitalismo, tolhido em todas as suas potencialidades e que dedicou sua vida a zelar pelo colégio de filho de rico.

Reproduzimos a seguir a carta do filho do porteiro contra o deboche de um setor da pequeno-burguesia alienada no trato com porteiros e precarizados em geral.

Ao Colégio Marista:
Meu pai aposentou-se como porteiro. O mesmo que vocês têm aí na entrada do Colégio, que os pais “que deram certo” passam e nem cumprimentam.

Então, falando do meu pai, ele trabalhava feito um condenado (aliás, mesmo depois que se aposentou teve que voltar à portaria pra completar a renda). O que meu pai recebia de salário era uma mensalidade que as famílias “que deram certo” pagam pra vocês ensinarem essa ética (ou falta dela) aos estudantes.

Ele tinha uma Barra forte preta e com ela ia de sol a sol, chuva a chuva, noite a noite, cuidar de fábricas ou de condomínios ao estilo que os alunos moram ou que os pais “que deram certo” trabalham como Diretores, Gerentes.

Aprendi a profissão com meu pai. Fui porteiro por anos. Vi o que é você comer em pé ou no banheiro porque não tem ninguém pra substituí-lo nos intervalos. Cansei de atender pessoas na guarita enquanto mastigava um ovo frio.
Já usei papelão como mesa em cima da privada para almoçar.

Colégio Marista, meu pai não deu certo. Criou três filhos junto com a minha mãe que ficava apreensiva em casa: -” Será que ele volta?” Porque meu pai pegava estradas perigosas de madrugada, aliando-se ao fato de muitas vezes cuidar de galpões abandonados,que era alvo de bandidos.

Mas ele não deu certo.
Conseguiu sustentar 3 filhos (e minha mãe administrando como uma Economista) com pouco mais de um salário, hoje todos bem e com família, mas infelizmente ele não deu certo.

Meu pai não é desses pais bacanas que param aí na frente do Colégio, com Cherokees, Tucson, sorrindo pra quem convém e pisando nos descartáveis.
Meu pai tem um Palio que vive quebrando, e mesmo debilitado pela idade, levava todos os netos às escolas públicas. Levava e buscava.

Mas, que pena! Meu pai não deu certo.
Quem deram certo foram essas famílias que dependem da faxineira, do porteiro, do zelador, da cantineira, do gari, da empregada doméstica. Eles deram certo!
Ainda bem que muita gente “dá errado” na vida, senão quem iria preparar o lanche dos filhos que vão para o Colégio Marista? O pai? A mãe? Não sabem nem como ligar um fogão! Mas deram certo, não é?

Fique um dia sem um gari na sua rua e no dia seguinte você já está ligando na prefeitura fazendo birra! Ué? Pega uma vassoura e varre! Você não “deu certo”?
Fique sem porteiro no condomínio e mundo para. Não sabem descer pra atender o motoboy? Tem medo de quem seja? Pode ser um ladrão, não é? Deixa que o porteiro arrisca (sem seguro de vida) a vida por você (com seguro de vida).
Gente que não deu certo existe pra isso: mimar os que deram certo.

Tenho orgulho de ter um pai que não deu certo, Colégio Marista. E eu tenho orgulho de não ter dado certo também. Já pensou, criar minha filha num ambiente que debocha de profissões, que em vez de promover a isonomia e empatia, fomenta a segregação e a eugenia?

Deus me livre!
Aliás, por falar em deus, vocês são de formação católica certo?

Se nada der certo, vocês vão virar carpinteiro também? Embora eu sendo agnóstico, respeito muito um carpinteiro que “não deu certo” e que vocês finjem amar. Que feio, Colégio! Ensinando crianças a desprezarem seu Mestre?

Enfim, falei demais. Obrigado pela lição de hoje. Talvez tenha sido o único ensinamento que vocês deixaram:

Se nada der certo, vou para o Colégio Marista. Lá pelo menos eu posso esconder meu ser vazio atrás de um patrimônio que consegui pisando nos outros.
Viu, a lição de vocês acabou ´dando certo´!”

Obs – Este documento teria sido escrito por conta de um evento ocorrido no Colégio Marista em 2015, no Rio Grande do Sul. O mesmo evento, também teria ocorrido no Instituto Evangélico de Novo Hamburgo, também no RGS, e constou de uma festa cujo tema seria: o que aconteceria caso aqueles estudantes “não passassem no vestibular”. Virariam porteiros, faxineiros, entregadores de pizza, vendedores ambulantes, lixeiros; e foram estas as fantasias dos alunos naquele dia de festa, evento que tanto indignou o filho do porteiro [mencionado como Márcio Ruzon].

Mesmo não tendo sido possível identificar a fidelidade dos dados [do texto que está disponível, com comentários, aqui], no entanto, o texto e o evento são completamente plausíveis, são expressão do que ocorre cotidianamente na nossa sociedade onde a classe trabalhadora, ou se revolta e se levanta como sujeito político ou será sempre relegada ao deboche e exploração pelas famílias coxinhas e pelo grande capital.

 
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