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Sábado 18 de Agosto de 2018
07:01 hs.

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LITERATURA
Os (des)caminhos do Meio Ambiente - Carlos Walter Porto Gonçalves
Lamara Cavalcante

O livro, Os (des)caminhos do Meio Ambiente, de Carlos W. Porto Gonçalves, aborda uma reflexão sociológica e epistemológica: as relações entre ser humano, desenvolvimento e natureza. O autor discute de modo crítico e holístico a problemática social, o contexto histórico-cultural das lutas sociais e ecológicas que estimularam o surgimento do movimento ecológico.

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“Uma das principais questões sobre o pensamento ecológico, tem sido em relação com o tratamento dado pelo homem ao meio ambiente”

A obra faz uma análise de como a sociedade ocidental construiu o seu conceito de natureza, trajado por pensamentos filosóficos e práticas sociais, que ao longo do tempo instituíram o nosso mundo. Importante destacar que a moderna sociedade ocidental deve ser historizada e nos referimos a uma sociedade capitalista.
O autor trata sobre o desenvolvimento humano, desde o início do conceito biológico de população, que se deu após a publicação em 1859 da obra de Charles Darwin A origem das espécies, onde ele demonstra o que até então não tinha explicação em termos científicos, que a evolução das espécies é um fenômeno natural.

Mesmo sem ter sido a vontade inicial explícita de Darwin, sua obra acabou sendo um ataque central contra as visões teológicas dominantes na Igreja católica de Roma, mas também deu a base paradoxalmente, para a formação do pensamento Darwin-malthusiano que constitui a fonte liberal-conservadora que ainda domina a biologia, a geografia e o movimento ecológico, pois a obra de Darwin trouxe um grande alento para o imaginário dos racionalistas-iluministas do séc. XIX. A observação que poderíamos fazer é que Porto Gonçalves entende que essa visão de Darwin seria o único desdobramento possível do que da teoria.

O enfoque histórico cultural do livro, coloca o movimento ecológico como produto da relação natureza e sociedade, fundamentado como um movimento de caráter político-cultural, onde cada povo constrói seu conceito de natureza, estabelecendo ao mesmo tempo que institui suas relações sociais.

E real que durante sua viagem, Darwin leu o livro Ensaio sobre os princípios da população, de Robert Malthus, um pastor anglicano inglês, economista, que elaborou a teoria de que havia uma tendência para o crescimento da população ser maior que a do crescimento da disponibilidade de alimentos e concluía que a escassez por sua vez, acabava por provocar epidemias que dizimavam o excedente populacional, repondo o equilíbrio do sistema. Sua resposta era moral, casamentos tardios, castidade e demais. E Friedrich Engels em seu Esboço sobre Economia Política quem realiza uma crítica materialista histórica a Malthus afirmando de forma sintética que a teoria da população malthusiana é a expressão econômica de seu dogma religioso no que tange a relação entre espírito e natureza e a corrupção resultante de ambos. A tentativa é de fundir a teologia protestante com os interesses da sociedade burguesa.

A partir desta articulação a Teoria Neomalthusiana, atentou para o crescimento populacional de países subdesenvolvidos, tal crescimento provocaria a diminuição dos recursos naturais, ocasionando, por sua vez, uma escassez de alimentos, além do agravamento da pobreza e do desemprego. Importante destacar que o pensamento de Darwin migrou de um campo político-moral para a biologia.

“Conforme avançamos enquanto sociedade, o homem está destruindo a natureza” Karl Marx, a partir do estudo sistemático da obra do químico agrícola alemão Justus von Liebig, partindo de sua crítica ao malthusianismo que elabora seu conceito de “falha metabólica” se referendo a relação do homem com a natureza segundo John Bellamy Foster.

O autor avalia que tanto a biologia, a ecologia e a geografia têm tratado o homem exclusivamente como espécie biológica, sem levar em consideração a especificidade e a complexidade desse animal-homem”.

Esta análise é bem pertinente, pois mostra um aspecto importante em termos epistemológicos, que essas disciplinas se encontram prisioneiras no conceito de população, que nada mais tem a ver com a ideia de povo, inspirada nas preocupações de controle, qualidade, de medida, de informação.

Dessa forma, o conceito de população foi perdendo gradualmente a sua qualidade de povo e se transformando num conceito genérico, matemático e estatístico. Importante acrescentar que povo é um conceito rousseauniano pré-marxista e que foi Marx quem dividiu o povo em classes e frações de classe.

No chamado mundo ocidental, o nosso dia a dia está repleto de convencionalismo que colocam a cultura contra a natureza, o que deveria ser o contrário, pois ela é um dos pilares pelo qual os homens criam suas relações sociais, sua produção material, enfim sua cultura.

“Estávamos acostumados à ideia de que nossa fisiologia, nossa anatomia descende da dos primatas. Deveríamos habituar-nos à ideia de que o mesmo acontece com o nosso corpo social” por isso é tão importante entender de forma não mecanicista o desenvolvimento das sociedades e os processos de mudança social.
Como o próprio autor coloca “não existem palavras naturais para falar de natureza, as palavras são criadas e instituídas em contextos sociais específicos e também por esse modo o conceito de natureza não é natural...”

Já o conceito de ecossistema vem a ser algo menos ambíguo que o de natureza, porque ele compreende tanto meio físico como as interações entre os seres que o habitam, sendo assim só existe por conta destas interações.

Agora no século XXI, a tradicional dicotomia homem-natureza que conformou o saber na sociedade ocidental volta a ser questionada. A questão ambiental parece exigir um novo paradigma onde a natureza e cultura não caiam uma fora da outra.

“O papel da evolução biológica na evolução social e cultural do homem é muito maior do que se pensava”

O fato de as sociedades humanas desenvolverem ao longo do tempo um patrimônio de saber sem o qual o indivíduo no interior de uma sociedade-cultura não consegue viver, não quer dizer que os homens “saltaram” da natureza para a cultura.

A sociedade moderna teima em ignorar que a cultura não exclui a natureza, mas que se desenvolve no interior dela, realizando novas sínteses de matéria e energia novas formas de mediação entre o homem e o seu outro orgânico-inorgânico. Entre a cabeça que pensa e o mundo que está à nossa frente, o corpo que é o que cada um de nós tem para estar no mundo. E o corpo não admite a separação entre o homem e a natureza: ele comporta os dois indissociavelmente. Esse corpo não só é descendente fisiológico dos primatas, mas se descobriu sob novas formas, um meio de socialização que neles já estava presente.

Para mudar a relação homem-natureza é preciso, um planejamento democrático, anticapitalista e socialista, é preciso entender a complexidade cultural desenvolvida sob condições ecológicas novas.

 
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