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Sábado 15 de Diciembre de 2018
14:24 hs.

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ARTE E CULTURA
Café, literatura e a história da luta de classes
Afonso Machado
Campinas

Café, literatura e a história da luta de classes por Afonso Machado.

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Chega aí camaradas, não façam cerimônias. Tenho um bule cheio de café do bom e um tipo de papo que vocês não vão encontrar tão facilmente por aí. Não que a minha conversa seja lá muito boa, já que tenho o costume de falar/ escrever demais da conta. Mas asseguro que a intenção é boa, que a prosa é apaixonada e que pretende-se aqui falar de coisas muitas vezes esquecidas e infelizmente desconhecidas por muitos trabalhadores. Vamos falar de história, ou melhor, vamos pensar as situações sociais que na sua verdade merecem a produção de histórias capazes de formigar a imaginação do povo. Não são histórias pra boi dormir mas sim narrativas cuja finalidade é ajudar a acordar outros trabalhadores. Já informo de cara que estes goles de café acabam sempre por tratar da questão da arte revolucionária, tema central desta coluna e a principal bandeira levantada por um montão de artigos que assino por aqui.

Vamos é prosear sobre arte e política, sobre histórias entranhadas nas lutas sociais. Calma! Não quero que vocês votem em mim, não sou e não levo o menor jeito para candidato nas próximas eleições. Também não quero converte-los a nenhuma religião. Não sou nenhum sabichão mas apenas um escritor que ao considerar o fato de vocês também poderem ser(se quiserem) escritores, acredita na possibilidade dos trabalhadores serem autores que produzem literatura, fazem política e estudam a história da humanidade. Se permitem um palpite, seria muito proveitoso divulgar que os trabalhadores fazem história por atos e palavras(e escrever também é agir). Podemos trocar ideias sobre isso aqui embaixo deste pé de mangueira florida, ali no portão da fábrica, perto da loja ou da empresa que vocês trabalham, na beira do porto, no ponto de ônibus, no boteco etc.

Falou em história e muita gente já vem com imagens de reis, generais, imperadores, papas, presidentes, colonizadores, celebridades e por aí vai. É como se a humanidade tivesse sido construída por gente importante, homens poderosos, grandes personalidades... Ouvindo histórias sobre os faraós do Egito antigo ou sobre as monarquias europeias da Idade moderna, quem poderia negar que a realeza é um bom negócio? Pois é, mas até o trono aonde o rei se senta é fruto da atividade de trabalhadores, assim como palácios, templos e edifícios em geral. Não sei se vocês estão de acordo, mas é muito triste saber que desde os tempos dos palácios da Babilônia até os edifícios luxuosos das grandes cidades capitalistas, grande parte das populações, que pegou e pega no batente, não "aparece", não recebe destaque nas narrativas históricas/literárias. Olha só, tenho pra mim que toda riqueza foi ao longo dos tempos sempre apropriada por uma cambada de exploradores e safados. Senão como explicar, por exemplo, que na Corte do rei francês Luiz XIV comia-se do bom e do melhor, vestia-se o que havia de mais caro, enquanto que camponeses escavavam a terra sem parar e sobreviviam com um pouco de pão negro e raízes?

Se é muito gostoso ouvir histórias sobre outras épocas, não podemos deixar de constatar que a desigualdade social ocupa o centro da história das civilizações. Os testemunhos escritos e as imagens dos povos nos levam a pensar que a divisão da sociedade em classes, a propriedade privada da terra e dos meios de produção são o ponto de partida de qualquer história sincera/verdadeira a ser contada. Não caiam no conto do vigário de que em história a verdade não existe ou que a literatura só trata de historinhas enfeitadas. Não se acanhe: mecha a colher na caneca misturando o ficcional e o histórico para fazer a cabeça ferver com ideias políticas revolucionárias. Esse café é amargo e verdadeiro: ao longo da história, trabalhadores sustentaram com o seu suor o conjunto da sociedade, enquanto que as classes dominantes viveram às custas disso tudo. Se todas as histórias precisam de personagens, aqui os protagonistas são os trabalhadores.

Para nós, o famoso “Era uma vez..." começa sempre com as lutas (certo, o tal do "Era uma vez..." não é necessário, estou apenas tirando onda). Lutas? Sim, são as lutas dos trabalhadores de diferentes momentos históricos contra a exploração e a opressão. Muito mais do que contar histórias trataremos das hipóteses de elaboração de narrativas revolucionárias hoje em dia.
Afinal de contas, existe muita poesia nas lutas sociais. Olhemos para nós: com quais personagens históricos podemos nos identificar? Quais histórias podem nos tocar? Quais histórias possuem relações/semelhanças políticas com o papel que ocupamos na produção econômica da sociedade? Pensando na história do Brasil não podemos nos solidarizar com donatários, senhores de engenho, bandeirantes, nobres, oligarquias, ditadores e outros personagens opressores. Usemos nossa criatividade para tratar de mulheres e homens do povo que foram valentes e andam apagados da nossa memória. Quando estivermos na quitanda comprando laranjas ou descansando numa praça, pensaremos e contaremos a terceiros estas histórias de gente popular e valente.

Como narrar tudo isso de modo revolucionário? Como fazer com que essas ideias passem a influenciar a literatura brasileira com novos romances e novos contos, escritos por nós mesmos? Não faço a menor ideia mas vamos tentar, vamos arriscar um ponto de vista. Este semestre vai ser tenso, os trabalhadores brasileiros precisam saber quais são os enredos fundamentais e quais são as suas falas para lutar pela sua própria libertação. Quais autores e artistas nos ajudam a apreciar e produzir literatura revolucionária? Em tempos de conservadorismo político, precisamos esquentar a água, passar o café e pensar as histórias que realmente importam. Tragam a caneca de alumínio e vamos prosear.

 
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