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Martes 13 de Noviembre de 2018
13:18 hs.

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MARX 200 ANOS / MARXISMO /
Um Marx à altura do nosso tempo
Gilson Dantas
Brasília
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Há elementos que deixam evidente um renascimento do interesse por Marx.

Ao mesmo tempo, uma pergunta se impõe: se Marx não morreu, qual o Marx que mais tem a ver com os desafios do nosso tempo?

Este pode ser um primeiro interrogante.

Por outro lado, ao contrário de outros tempos, o marxismo atual toma a forma de inúmeros marxismos. Houve um tempo – que não reivindicamos - em que a versão chamada “marxista-leninista”, dos manuais da URSS stalinizada era hegemônica na esquerda de mais visibilidade [no Brasil do “Partidão”, só para tomar um exemplo] e também nas universidades; e até na literatura, os grandes referentes ou derivavam ou se inspiravam naquele “marxismo” [stalinismo] marcado pela colaboração de classe e por grandes traições.

Hoje não se pode falar de um marxismo hegemônico. Proliferaram por todo lado e claramente segue de pé uma verdadeira constelação de marxismos, de “espectros” de Marx, da universidade aos grupos de esquerda, do neomarxismo, do marxismo “aggiornato”[reciclado], dos pós-marxismos e que tais.

Certamente que isso ocorre nos marcos de um retorno a Marx, em especial [como destaca G Gutierrez no seu #200Marx?] depois do capitalismo ter mergulhado na crise que se arrasta desde 2008. Mas este autor também se coloca a questão: com que critério examinar cada avanço no marxismo, cada grande interpretação do nosso tempo, cada grande reflexão teórica marxista no sentido de saber em que medida se aproxima do núcleo duro do pensamento de Marx para hoje?

E também: como definir um critério que, ao final de contas, não será necessariamente consensual? E que já não integrará um pensamento dominante hegemônico do marxismo? Mais que isso: mesmo grandes referentes marxistas, a exemplo de Lukács, de Engels, adotam critérios – para definir o marxismo – que não se identificam entre si; o primeiro, Lukács, entende que a essência do marxismo é o método, enquanto Engels – mais corretamente - define o marxismo como “a teoria da revolução proletária”.

E assim por diante, com o chamado “marxismo ocidental” definindo um marxismo menos vinculado à luta de classes; e dos pós-marxistas tipo Laclau e Moffe, nem falar. Perceptivelmente, vão se distanciando de qualquer núcleo duro. Sem falarmos naqueles autores que engessam Marx ao seu próprio tempo, século XIX, propagando uma espécie de marxismo memorialístico, de museu e impotente.

Para uma boa parte da esquerda acadêmica no Brasil, por exemplo, o marxismo ou Marx se tornaram uma vaga e remota referência nos seus trabalhos.

Parecem ignorar solenemente um Marx cuja teoria da história e da política revolucionária foi desenvolvida nos marcos de uma militância de vida para transformar o mundo, criando a I Internacional e se comprometendo com núcleos operários em várias cidades europeias nessa mesma direção.

Nesta nota, em todo caso, tentemos partir de uma ideia que pode ser muito útil para o desafio aqui proposto.

Que é a seguinte: todo e qualquer autor, todo e qualquer estudioso ou operário que se acerque dessa questão [do que é o marxismo hoje, por exemplo, ou do que é o mais decisivo de Marx para hoje] irá partir de sua visão particular de Marx.

Dito de outra maneira, não vai estudar ou tentar entender Marx em abstrato, a partir do nada. Seu ponto de partida será sua visão de mundo, pessoal, ou seu estágio real e atual em termos de concepção de mundo, que será mais passiva, mais ativa, mais acomodada ou menos e assim por diante.

Por exemplo, será previsível que um professor universitário acomodado, descomprometido com a luta de classes direta e com a vida confortável de classe média afluente, ao ler Marx procure ver [ou “recorte” como dizem os acadêmicos] um determinado Marx; que não será o mesmo de quem parte de um o total inconformismo com esse mundo capitalista degradado, decadente e que assume, na prática, sincera intenção de mudá-lo.

Dito isso isto, que, em todo caso, é bem básico, estamos diante de uma questão igualmente seminal. O público com o qual Marx sonhava era a classe trabalhadora [isso pode ser conferido na carta de Marx a Carlo Cafiero quando este reescreveu O capital em formato popular]. O público e o sujeito político que pode transformar o mundo é a classe operária, são os trabalhadores organizados em partido.
Ou, em outras palavras, o marxismo é uma teoria cuja prática somente pode ser levada adiante de forma eficiente pelo proletariado.

O marxismo é indissociável – não será este seu núcleo duro? – da prática política da classe operária para abolir o capitalismo, transitar ao socialismo.

Podemos então nos perguntar: se adotamos esse olhar, uma perspectiva que não separa a teoria da prática, não estará então bem definido, ou definido a la K Marx, um critério, uma perspectiva de leitura de Marx atualíssima e que nos levará a perceber, de saída, nos múltiplos marxismos do nosso tempo, um problema básico?

Senão vejamos: em seu tempo, Marx buscou ou não unificar sua teoria à prática adequada ou funcional a cada dada conjuntura histórica?

Quando ele levantou a I Internacional, quando se envolveu intensamente com o fenômeno histórico proletário da Comuna de Paris, quando polemizou com o programa do novo partido proletário, a social-democracia alemã [Gotha-Erfurt], quando lançou as bases da mais poderosa crítica ao capitalismo [O capital] ele não estava fazendo justamente isso? Não estava em luta ou em busca do programa e da estratégia para a revolução proletária? Ou para assentar as bases da revolução proletária [tarefa que em seu tempo não poderia ser mais que isso: assentar as bases]?

Se concordamos com isso, o problema posto no início desta nota fica mais fácil de ser abordado, por mais complexo que, de fato, ele seja em seu conteúdo.

Por que ficaria mais fácil? Porque se fizermos uma observação “de campo”, por mais rápida que seja, e quando examinemos os fenômenos políticos do nosso tempo – como o neorreformismo europeu, do Podemos ao Syriza, os experimentos de Corbyn e Sanders, respectivamente na Inglaterra e nos Estados Unidos, também fenômenos como o PSOL e o lulo-petismo no Brasil – iremos nos dar conta da brutal ausência de correntes operárias com peso operário mas com perfil bem delimitado de classe e anticapitalista.

Correntes que não alimentam ilusões em qualquer reforma ou convivência com o capitalismo, com qualquer amálgama político com partidos da patronal e que, portanto, retomando o que pode ser entendido como o fundamental do marxismo de Marx e Engels, procure organizar o proletariado de forma independente da burguesia para a tomada e construção de um poder político onde o socialismo seja obra dos próprios trabalhadores. Organizados politicamente [com seus órgãos de auto-atividade de massas].

O fenômeno de esquerda da FIT na Argentina é uma exceção nesse sentido, já que se propõe a dar a batalha nesses termos [sobretudo, de forma mais consciente, o PTS].

Dito isto, é possível imaginar que um marxismo ou um Marx à altura do nosso tempo não poderá deixar de estar ocupado com a luta por uma estratégia e um programa – unindo teoria e prática – que, na atual conjuntura, represente, dialeticamente e cotidianamente, a luta política por um poder dos trabalhadores.

Isso seria, nas palavras de G Gutierrez, no citado artigo, publicado na revista Ideas de Izquerda de 10/06/18, construir “um ethos militante anticapitalista sob pena de que o grande interesse atual por Marx não se coloque à altura do personagem”.

 
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