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Viernes 21 de Septiembre de 2018
18:20 hs.

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O amor tem uma história
Tatiana Cozzarelli

No decorrer da história, o amor está a serviço da classe dominante. Como seria o amor no socialismo?

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Alexandra Kollontai foi um (a) dos (as) escritores (as) bolcheviques mais prolíficos (as) sobre a questão de gênero, amor e casamento. Como qualquer bom marxista, Kollontai via o amor não como um sentimento eterno e imutável, mas como uma construção histórica – que mudou drasticamente com o tempo. O amor tem uma história, e no decorrer da história, tem sido usado para organizar a sociedade segundo os interesses de uma pequena classe dominante. Como Kollontai argumenta em seu texto Abram Alas Para o Eros Alado, em “todos os estágios do desenvolvimento histórico, a sociedade estabeleceu normas que definem quando e sob qual circunstância o amor é ‘legal’ (ou seja, corresponde aos interesses de um dado setor social) e quando e sob qual circunstância o amor é pecaminoso e criminoso (ou seja, contradiz os anseios de dada sociedade). ”

A obra A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, de Engels busca traçar cientificamente o desenvolvimento da unidade do núcleo familiar que leva à família burguesa. Ele argumenta que, antes do surgimento da propriedade privada, as sociedades não eram organizadas com base em unidades familiares, e não havia divisão estrita entre uma família e outra; em vez disso, grupos organizavam coletivamente o cuidado com as crianças e a produção. É apenas com o surgimento da propriedade privada que a unidade familiar foi criada para passar as posses para a próxima geração. Mais tarde, com o desenvolvimento do capitalismo, há a formação da família “burguesa”; o proletariado não tinha propriedade para deixar de herança, portanto, não tinha sentido existir a unidade familiar separada do resto da comunidade.

Engels considera o fim das relações matriarcais e o estabelecimento da unidade familiar a “derrota histórica do sexo feminino”. A criação da família patriarcal precedeu o capitalismo e se tornou a base das estruturas social e econômica no capitalismo. Ideologicamente, é naturalizado como a única forma de expressar e organizar relações amorosas.

O Amor no Capitalismo

Como a maioria das pessoas pode dizer, o capitalismo tem tudo a ver com competição e individualismo. Embora isso seja verdade, é apenas uma parte da história. Não é apenas com o indivíduo com quem se deve preocupar – é com a unidade familiar individual. Ao contrário de cidades ou tribos, o bloco central da sociedade capitalista é o núcleo familiar. Arrancados de qualquer tipo de consciência coletiva, o capitalismo determina que nos importemos com nosso cônjuge e nossos filhos mais do que com outras pessoas da nossa comunidade e significativamente mais do que quaisquer outras pessoas do mundo.

Se o núcleo familiar é essencial para a manutenção de um sistema de exploração e propriedade privada, o amor no capitalismo é uma cilada para garantir as funções econômicas das unidades familiares. Kollontai diz, “Conscientes de que a estabilidade da família – a unidade econômica na qual o sistema burguês se baseia – exigia que seus membros fossem ligados por mais do que apenas laços econômicos, as ideologias revolucionárias da burguesia em ascensão propagaram uma nova moral ideal de amor que abraçou tanto a carne quanto a alma.” Em outras palavras, o amor moderno, ligado ao casamento, foi inventado pelo capitalismo.

Afinal, a unidade familiar garante serviços de cuidados infantis, alimentação, e lavanderia sem custo para o estado o para os capitalistas, a maioria dos quais é destinado às mulheres; a família garante competição externa, mas o altruísmo dentro da família, particularmente na forma do trabalho não remunerado das mulheres. Como Kollontai argumenta, “Toda a moralidade da burguesia foi direcionada para a concentração de capital. O ideal era que o casal trabalhasse junto para melhorar seu bem-estar e aumentar a riqueza de sua unidade familiar particular, separada do resto da sociedade. ”

O sistema acima mencionado estabelece uma série de limites importantes sobre o amor, incluindo a necessidade econômica de permanecer em relacionamentos e a falta de tempo para a intimidade. Socialismo significaria a libertação dessas restrições; significaria o amor libertador sendo o “Eros alado” que Kollontai descreve.

Socialismo e o Fim da Família

Para os bolcheviques, o amor livre e a libertação das mulheres eram um componente central de uma revolução socialista. Eles escreveram e debateram extensivamente sobre o assunto, além de ter a mais avançada legislação sobre o direito das mulheres que o mundo já viu. Os bolcheviques legalizaram o aborto, e descriminalizaram a homossexualidade, e o estado começou a tomar para si o trabalho não remunerado das mulheres, através de restaurantes públicos e creches.

Esses foram apenas os primeiros passos em direção à ideia bolchevique de fim da família, considerada tanto capitalista quanto patriarcal. Foram apenas os primeiros passos em direção à abolição do trabalho doméstico compulsório, socializando o trabalho reprodutivo e incluindo-o na economia planificada. Trotsky escreveu que, “A revolução fez um esforço heroico para destruir o chamado ’lar familiar’ – aquela instituição arcaica, abafada e estagnada na qual as mulheres da classe trabalhadora entram em trabalho de parto da infância até a morte. O lugar da família como um pequeno empreendimento fechado deveria ser ocupado, de acordo com os planos, por um sistema acabado de assistência social e moradia: maternidades, creches, jardins de infância, escolas, refeitórios sociais, lavanderias sociais, locais para primeiros-socorros, hospitais, sanatórios, organizações atléticas, teatros, cinemas, etc. A absorção completa das funções domésticas da família pelas instituições da sociedade socialista, unindo todas as gerações em solidariedade e ajuda mútua, trazendo à mulher, e assim, para o casal amoroso, uma libertação real dos grilhões de mil anos” (Trotsky, A Revolução Traída).

Amor-camaradagem: o Amor no Socialismo

“O amor moderno sempre peca porque absorve os pensamentos e sentimentos de ‘corações amorosos’ e isola o par amoroso do coletivo. Na sociedade futura, essa separação não vai apenas se tornar supérflua, como também psicologicamente inconcebível. ”

O fim da família como uma unidade social e econômica formará a base do amor livre, onde as pessoas poderão entrar e sair de relacionamentos segundo sua vontade e sem medo de consequências econômicas. Isso formará a base da igualdade entre homens e mulheres, e eliminará o imperativo estrutural dos papéis de gênero. Isso abrirá a sociedade para o amor como uma camaradagem expansiva e não como uma possessão privada. Como Kollontai argumenta, já dentro do capitalismo, o amor não está confinado ao casamento; de amigos a casos extraconjugais e então a triângulos amorosos, o amor está transbordando.

Ainda segundo Kollontai, a expansão do amor para além de um parceiro romântico é parte integrante do socialismo, e poderia fortalecer e solidificar a nascente União Soviética. Ela escreve, “Certamente é importante e desejável do ponto de vista do proletariado que as emoções das pessoas se desenvolvam em níveis mais amplos e mais ricos? E certamente a complexidade da psique humana e as muitas facetas de experiências emocionais devem ajudar no crescimento dos laços intelectuais e emocionais entre as pessoas, o que torna o coletivo mais forte? ” O amor fora do casamento é antagônico ao capitalismo. No socialismo, o amor iria se expandir para se tornar algo que nem mesmo Kollontai se aventurou a descrever minuciosamente.

Ainda assim, ela usa o conceito de camarada para descrever o amor no socialismo. Para um bolchevique, um camarada é o mais alto termo de respeito – eram pessoas com as quais você estava disposto a morrer na luta; a mais profunda das conexões e solidariedade com milhares de pessoas, muitas delas estranhas unidas por um objetivo revolucionário. Kollontai diz, “A nova sociedade comunista está sendo construída com base no princípio de camaradagem e solidariedade. Solidariedade não é apenas uma consciência de interesses em comum; depende também dos laços intelectuais e emocionais que ligam os membros do coletivo. Para que um sistema social seja construído sobre solidariedade e cooperação, é essencial que as pessoas sejam capazes de amar e se emocionar. A ideologia proletária, portanto, busca educar e encorajar todos os membros da classe trabalhadora a ser capaz de responder ao sofrimento e às necessidades de outros membros da classe, a uma compreensão sensível dos outros e a uma consciência completa da relação do indivíduo com o coletivo. Todas essas ’emoções’ – sensibilidade, compaixão, simpatia e capacidade de resposta – vêm de apenas uma fonte: elas são aspectos do amor, não no estreito sentido sexual, mas no sentido amplo da palavra.”

O amor que Kollontai descreve não procura possuir ninguém, pois sob o comunismo, a ideia de posse será obsoleta. Não mais “seja meu”, não mais tentar possuir o corpo ou os desejos de alguém. Em vez disso, a sociedade encorajaria o amor, o cuidado e a compaixão por todos.

Muito já foi dito sobre a epidemia de depressão no capitalismo. O The Guardian publicou um artigo intitulado “O neoliberalismo está criando a solidão” argumentando que a epidemia em massa de depressão e ansiedade tem suas bases no capitalismo. Lá diz que “seres humanos, os mamíferos ultra sociais, cujos cérebros estão preparados para responder a outras pessoas, estão sendo desmembrados. Embora nosso bem-estar seja totalmente ligado à vida dos outros, em todo canto nos é dito que vamos prosperar através do interesse próprio competitivo e individualismo extremo.” O tipo de coletividade e amor-camarada que Kollontai descreve é a única coisa que pode colocar um fim ao vazio de nossas vidas isoladas e fragmentadas. Ninguém pode ser nossa outra metade, satisfazer todas as nossas vontades e curar todas as nossas feridas, apesar da insistência do capitalismo de que elas possam. Kollontai diz, “A coletividade do espírito pode então derrotar a autossuficiência individualista, e o ‘frio da solidão interior’ do qual as pessoas na cultura burguesa tentaram escapar através do amor e do casamento desaparecerá.” No socialismo, haverá um entendimento de que o amor pelos seus amigos, seus vizinhos, e sua família é de igual importância em relação ao amor romântico; é assim que vamos preencher o vazio neoliberal que o The Guardian descreve.

No capitalismo nós somos economicamente isolados, enquanto vivemos buscamos e raramente encontramos algum tipo de conexão social. No socialismo, conexão, solidariedade, e camaradagem seriam reforçadas pelas estruturas sociais e pela economia.

O caminho à frente

Então, como construímos uma sociedade na qual o “Eros alado” é possível? Uma sociedade em que o amor-camarada é possível?

Mesmo dentro do sistema existente, podemos e devemos tirar lições da visão de Kollontai – rejeitando o ciúme, a possessividade e o imperativo de colocar nossos parceiros românticos em primeiro lugar. No entanto, o amor no capitalismo – incompleto, falho e limitado – é enormemente lucrativo para a burguesia. Assim, o tipo de amor que Kollontai descreve pode apenas ser real depois de uma revolução socialista que destrói o estado capitalista. O amor-camarada apenas será hegemônico no comunismo, quando a família como existe hoje será uma memória distante e haverá condições materiais para entrar e sair de relacionamentos, para ter seu coração quebrado e se apaixonar profundamente por amigos, amantes e tudo o que há no meio do caminho.

Na União Soviética, as tentativas de construir um novo tipo de sociedade fracassaram devido à falta de condições materiais para o comunismo e a burocratização stalinista que buscava reforçar a ideia de família tradicional. Isso não significa que não devemos lutar pelo tipo de sociedade em que o “Eros alado” prosperaria.

Nesse Dia dos Namorados, eu comemoro e luto pelo Eros alado – pela construção do amor-camarada no aqui e agora e para que criemos estratégias, lutemos e nos organizemos para um futuro comunista – o único tipo de sociedade na história moderna onde a expressão mais verdadeira de amor prevaleceu.

Traduzido por: Pammella Teixeira

 
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