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Domingo 22 de Julio de 2018
05:57 hs.

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REVOLUÇÃO RUSSA
Trotski conta a História da Revolução Russa
Afonso Machado
Campinas

As relações entre Literatura e Ciência histórica num clássico marxista

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Encostados nos balcões dos botecos de norte a sul, trabalhadores brasileiros assistem através de um labirinto de telas imagens da velha mãe Rússia. A Copa do mundo é pretexto para inúmeras reportagens que trazem curiosidades históricas, retratos culturais e toda aquela típica badalação midiática que não vai além da curiosidade do turista diletante. O triste nisso tudo é que aquele operário brasileiro, surrado pela crise econômica e que acerta penosamente a conta do copinho de cachaça, na maioria das vezes nunca ouviu falar da Revolução russa. Não lhe ocorre que a virada de mesa dos bolcheviques em Outubro de 1917, foi a maior conquista histórica internacional da sua classe. Os trabalhadores brasileiros precisam que alguém conte a eles com precisão científica e beleza literária a saga desta grandiosa Revolução proletária. Ninguém melhor do que Leon Trotski para realizar esta tarefa.

Enquanto um dos mais significativos escritores revolucionários do século XX, Trotski apresenta sua obra prima no colossal livro A História da Revolução Russa(1932-33). Nos seus 3 volumes esta obra, frequentemente citada nesta coluna, comprova que no campo da prosa a riqueza de informações históricas pode e deve ser expressa com ritmo literário. A narrativa envolta num estilo exuberante é necessária para tratar do evento portador de uma tempestade social. Além de dar vida aos acontecimentos históricos, a escrita de Trotski leva o leitor a percorrer cada linha como um ladrão de fogo disposto a incendiar a vida social com a Revolução. O leitor torna-se um Prometeu materialista não porque aprendeu friamente o desenrolar do processo revolucionário russo, mas porque sentiu/enxergou nas imagens poéticas dos fatos históricos o movimento molecular que leva à libertação dos filhos da fome.

Antes de refletirmos um pouco sobre o peso literário e a significação historiográfica do livro de Trotski, pensemos rapidamente na importância de se falar na Revolução russa hoje. Logicamente a mídia capitalista possui todo cuidado para sustentar as mentiras de sempre. Os profissionais capitalistas da comunicação sabem bem que um evento histórico do porte da Revolução russa, poderia influenciar a imaginação política das massas. Portanto nenhum espanto quando imagens tenebrosas ficam temperando narrativas jornalísticas, nas quais a figura do bolchevique surge como o bicho papão que segura a bandeira vermelha. Já para a mídia de esquerda, existe a tentativa de reabilitar a memória da Revolução de 1917(e sabemos que no ano passado, quando todos nós meditamos sobre o centenário da Revolução, ocorreram vários eventos neste sentido). Os esforços de rememoração das lutas revolucionárias precisam continuar, cabendo salientar mais uma vez que existe um imprescindível componente estético a ser considerado na hora de narrarmos as revoluções sociais. É precisamente este sentido estético, em toda sua extensão literária, que Trotski aproveita numa prosa empenhada na construção do retrato objetivo do evento histórico.

Trotski não caiu no reino encantado das recordações pessoais e nem na mera coletânea de aventuras. Em A História da Revolução Russa ele faz a opção literária de colocar o texto na terceira pessoa e assim mandar bala na reconstituição dos acontecimentos históricos. Esta estratégia impede com que o subjetivismo do escritor se faça presente na obra. Sua narrativa se propõe não apenas em relatar os fatos mas explicar porque estes se deram de uma maneira e não de outra. Embora todos os escritores, inclusos historiadores e jornalistas, depositem sua subjetividade na narrativa(como poderia ser diferente?) a objetividade não é ilusão, não é mera questão de opinião filosófica: o mundo sensível, a realidade da luta de classes, existe fora/independentemente do pensamento de quem escreve.

Abordar a realidade objetiva é uma necessidade do intelectual engajado, do escritor comprometido em fazer da sua pena uma arma política. E era isso mesmo que estava em questão quando Trotski escreve seu livro: exilado, o dirigente revolucionário viu-se diante do perigo da manipulação dos fatos históricos realizada pelo stalinismo. Aliás não iria demorar muito para que a doutrina estética do Realismo socialista passasse a adulterar fatos históricos da Revolução russa através de romances, pinturas, fotografias e filmes. Sendo uma figura que o stalinismo queria apagar da história, Trotski compõe uma narrativa revolucionária que conta através de provas documentais o complexo percurso da Revolução de 1917. É a abordagem científica que o marxismo fornece o caminho trilhado por cada parágrafo desta trilogia.

É recorrente lermos comentários em que a A História da Revolução Russa é encarada unicamente como obra literária. Isto em parte faz sentido, visto que a obra constrói cenários, personagens e situações dentro de uma representação épica que inquestionavelmente oferece uma importante armadura para o romance político. Inclusive a contribuição estética da obra é evidente se levarmos em conta que durante o início dos anos de 1930 , ou seja a era da depressão econômica, escritores de esquerda debatiam em várias partes do planeta a questão da literatura revolucionária.

Todavia é um erro grave separar o primor literário do texto da sua análise política: é o que alguns autores procuram fazer quando referem-se ao livro de Trotski, elogiando a composição de sua prosa mas desdenhando sua veracidade histórica, ignorando sua análise quanto ao significado político da Revolução proletária. Este ponto de vista conservador é desproporcional no caso de Trotski, afinal não é possível neste autor separarmos o escritor do político, o historiador do revolucionário. Naturalmente é possível que leitores possam discordar da análise e do pensamento de Trotski, mas ao fraturar sua escrita ocorre a dissociação da forma e do conteúdo, o que compromete o sentido da obra. O livro de Trotski pode ser saboreado enquanto literatura desde que não se perca de vista o fio condutor da Ciência histórica na sua elaboração.

A trilogia A História da Revolução Russa foi escrita ao longo de 13 meses sobre os espinhos do exílio. Trata-se de um dos maiores dramas já escritos sobre a luta de classes. Nesta obra existe uma contribuição inestimável da literatura para o marxismo e do marxismo para a literatura: é a representação inovadora das massas proletárias e camponesas, concebidas como o personagem coletivo que move a história. É um estudo científico que traz em imagens a transformação da consciência das massas nas ruas, nos bairros operários, nas assembleias, nas frentes de combate, nas fábricas, no campo... O proletariado assume uma proporção heroica no livro, não para idealizar o real mas para expor de acordo com a altura das circunstâncias históricas que os trabalhadores são os verdadeiros protagonistas do nosso tempo. Operários, soldados, marinheiros e camponeses formam o rosto do personagem coletivo que assume a direção da história.

Como acentua Irving Howe, A História da Revolução Russa é um épico em tom e proporção. Citações cortantes, reflexões políticas, detalhes instigantes, caracterizações poéticas dos acontecimentos, realismo implacável, o desenho zombeteiro dos personagens históricos que debatiam-se pateticamente diante da onda revolucionária, o movimento visual das massas em luta... Sem dúvida um poderoso mosaico é formado, evidenciando a classe operária como criadora política diante das exigências da história: é a “ inevitabilidade “ da Revolução no curso dos acontecimentos, no seu movimento desigual e combinado, que substitui na obra a pretensa posição de austeridade do historiador clássico pela atitude militante do escritor revolucionário.

Na obra a paixão não adultera/deforma as situações históricas na medida em que tais situações são expressas de acordo com a representação literária que lhe é correspondente: gestos, cenas e conflitos são inseparáveis das emoções específicas que os constituem. Trotski não esconde seu partidarismo. Sabemos que além da neutralidade ser papo furado, a própria luta de classes pressupõe um lado a ser escolhido: o livro traz a percepção histórica do dirigente revolucionário que interpreta o evento histórico, no qual embora ele próprio tenha sido um personagem chave, o encara a partir da ação revolucionária do personagem coletivo(o proletariado).

Para representar os episódios presentes entre os meses de fevereiro e outubro de 1917( quer dizer, o intervalo de tempo em que a terra tremeu, abriu-se , tragou e mandou para as profundezas do passado o czarismo e a classe dominante), Trotski traça uma narrativa em que o proletariado, o Partido revolucionário e seu principal líder, ou seja Lenin, apresentam-se como as forças constitutivas da Revolução.

Expor simultaneamente numa obra “ o braço da história, o punho dos trabalhadores e o cérebro do Partido “(Howe) envolve a costura de uma trama específica: é a combinação de personagens e mecanismos que por entre as estratégias de insurreição realizam/constroem a ação heroica revolucionária.

É preciso não confundir alhos com bugalhos quando Trotski exalta os feitos dos trabalhadores e de Lenin: isto nada tem a ver com a cegueira burocrática do stalinismo cultural, ou seja, a idealização jdanovista dos eventos históricos. Se o operariado é o personagem coletivo apresentado como protagonista da narrativa, é porque a Revolução é sua obra e não a obra de burocratas contra-revolucionários. Se Lenin recebe destaque, não é porque ele seria uma espécie “ deus proletário “ que fez tudo sozinho(personalismo) mas porque ele foi o principal dirigente que interpretou e expressou com perspicácia política os interesses históricos da classe operária; esta última por sua vez não é instrumento do Partido revolucionário: é o proletariado que faz do Partido revolucionário seu principal instrumento de luta.

Romancistas, historiadores e jornalistas que não acreditam na história mas apenas em relatos subjetivistas da mesma, são tristes profissionais da cultura. Trotski ensina que o intelectual é um revolucionário que também interpreta e faz história. Mais importante do que os gols da Copa do mundo na Rússia, é descobrir que a Revolução russa saiu na frente no histórico placar do proletariado contra a burguesia.

 
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