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Viernes 17 de Agosto de 2018
15:28 hs.

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COPA DO MUNDO
A copa do mundo mais impopular e os reflexos da crise nacional
Ítalo Gimenes
Campinas

O que leva a que os brasileiros, culturalmente associados à paixão pelo futebol, demonstrem índices recordes de desinteresse pela Copa do Mundo? A forma que o brasileiro sente esse evento, expressa ânimo e torce pela vitória do próprio país na disputa, está intrinsecamente ligado a como sente o aprofundamento da crise nacional em seus distintos âmbitos.

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Nessa terça-feira, 12, a Folha de São Paulo divulgou uma pesquisa em que revela o nível histórico de desinteresse pela Copa do Mundo dentre os brasileiros, desde 1994, quando esse tipo de pesquisa começou a ser realizada. Foram 2.824 pessoas ouvidas em 174 municípios.

Em janeiro, foi calculado um índice de 42% de brasileiros que disseram não ter nenhum interesse pelo evento, mas que saltou para 53% nas vésperas do início dos jogos, sendo que o pior índice foi em 2014 – ano das manifestações "Não vai ter Copa" - não passou dos 36%. O começo dos jogos será na próxima quinta-feira, mas a seleção brasileira estreará somente no próximo domingo.

Chama a atenção que os maiores índices de desinteresse se dão entre as mulheres (61%), pessoas entre 35 a 44 anos (57%) e trabalhadores com renda até dois salários mínimos (54%). São justamente aqueles mais afetados com a crise social imposta no país, com altos índices de desemprego, subempregos, salários rebaixados. As mulheres, em especial negras, maioria nos cargos terceirizados ou precários, são as que mais sofrem com o desemprego e o aumento da exploração. Os baixos salários se traduzem uma miséria crescente e um amargor com as condições de vida, em especial com o sucateamento de serviços de saúde, hospitais, creches, escolas. Serão os trabalhadores já ingressados no mercado de trabalho que sentirão mais imediatamente as consequências detestáveis Reforma da Previdência, pois os imporá ao menos mais 10 anos de trabalho e uma aposentadoria miserável.

Nessas condições é complicado a população ter animo para torcer pelo próprio país. Mesmo com a seleção desse ano estar sendo bem vista por uma série de especialistas, que colocam o time brasileiro dentre os cinco mais fortes da competição, ou mesmo com o técnico Tite sendo muito bem avaliado pelos torcedores, 48% dos torcedores acreditam que seleção pode vencer, o que também é um índice baixo para os parâmetros nacionais.

Projeções cada vez menos otimistas de crescimento na economia, alta no dólar e as tendências recessivas colocadas, aumentam a descrença na volta do emprego e nas melhoras das condições de vida. A paralisação de caminhoneiros, que alentou esperanças acumuladas pelo ódio às reformas, o aumento no custo de vida e o aumento nos combustíveis, esteve a todo momento direcionada por demandas patronais que exigiam maiores custeios do estado para baratear o diesel e preservar seus lucros. O governo cedeu aos patrões e agora deverá descontar da saúde, seguro-desemprego e dezenas de programas sociais, para pagar a conta dos patrões do agronegócio e dos transportes, enquanto mantem a gasolina e o gás de cozinha nas alturas.

Essa situação que a população vem sentindo na pele é diretamente associada as manifestações de direita que tinham como "uniforme" a camiseta do Brasil da CBF. Ficaram conhecidos como coxinhas e "patos amarelos da paulista", desde o golpe de 2016, além disso também o futebol da Copa se "aburguesou", se afastou de algo popular, os jogadores vivem como milionários vivendo no exterior e usando roupas de marca. O extremo oposto do que a população possa se identificar, é difícil ter espírito torcedor para um time onde os jogadores ganham milhões enquanto a população amarga o desemprego e os cortes.

O elemento novo que traz essa pesquisa, é o quanto não expressa um limite do chamado "pão e circo", ou seja, uma ideia que a classe dominante garante seu poder por alimento e distrações. Em meio a crise política nacional certamente Temer e outros governantes esperavam que a Copa fosse um elemento de distração das grandes massas à crise nacional, contudo não é o que estamos vendo. Esse dado mostra como a politização e a indignação popular seguem vivas.

É a confluência desses elementos de crise social, econômica e política que influem sobre como a população sente o país, ainda que seja expresso de forma não tão direta e não tão clara como uma (breve) análise do processo histórico de crise orgânica do país. É o que leva tanto a desmoralização frente à Copa da Rússia, quanto a euforia das Jornadas de Junho de 2013 ou a possibilidade dos trabalhadores pararem o país em um processo de greve geral, como a que começou a se gestionar no dia 28 de abril de 2017. Sentimentos que podem se confluir com expressões à direita na conjuntura, como à esquerda. Uma possibilidade histórica para que os trabalhadores deem a sua alternativa e vençam o projeto capitalista de país erguendo um governo próprio, confluindo com um ânimo das massas por soluções radicais a cada amargura cotidiana para que sejam os próprios patrões e capitalistas a pagarem pela crise.

 
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