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Martes 19 de Junio de 2018
03:38 hs.

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TEORIA
Fim do trabalho ou fetichismo da robótica?
Paula Bach
Buenos Aires
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A tese do fim do trabalho está de volta. Seus representantes: um setor do mainstream como “tecno-otimista”. A hipótese: que as novas tecnologias tais como a inteligência artificial, big data, Internet das coisas, impressoras 3D, nanotecnologia, a biotecnologia, ou a robótica ameaçam a própria existência do trabalho assalariado.
A questão exige duas distinções. A primeira é que apesar de no decorrer do processo de investimento o capital se servir das qualidades da tecnologia para forjar uma massa crescente de desempregados estruturais, é diferente sustentar que efetivamente ele possa existir ou subsistir no imediato ou longo prazo, desvinculando-se progressivamente do trabalho assalariado.

A segunda exige diferenciar entre as qualidades físicas, materiais, úteis dos produtos tecnológicos e as características próprias do processo de valorização do capital. São as qualidades físicas – o valor de uso – daqueles avanços o que marcará o destino do trabalho assalariado? Sustentaremos que a chave remete uma vez mais ao movimento contraditório entre valor de uso e valor de troca. Dualidade que não por coincidência permitiu a Marx descobrir a diferença entre trabalho e força de trabalho, e a especificidade do modo capitalista de produção.

Os precursores

Lembremos que enquanto André Gorz escrevia nos anos 1980 o Adeus ao proletariado e Jeremy Rifkin nos anos 1990, O fim do trabalho, o capital estava se lançando numa “nova empresa”. Era uma dupla meta: derrubar o chamado “Estado de Bem-Estar” e os empregos industriais de certa qualidade nos países centrais, captando ao mesmo tempo fontes de mão-de-obra barata offshore. Essa mistura antecedida pelos avanços do reaganismo-tatcherismo e a restauração capitalista na Europa do Leste, URSS e China, operou fundamentalmente através de duas fases.

Até meados da década de 1990 se produz um dinâmico – ainda que de curto alcance – processo de investimento no território norte-americano sustentado nas comunicações (TIC). Um pouco mais tarde a produtividade reagia duplicando sua taxa de crescimento média registrada entre 1972 e 1996. A contínua deslocalização industrial desde os anos 1980 avançou internamente (em direção a regiões de menores salários e menor ou nula organização sindical) e exteriormente para o México, Sudeste Asiático e a Índia, pondo claramente aquela dualidade da ação. Naquele momento o modus operandi do capital lembra o diagnóstico prematuro de Marx na Miséria da Filosofia – relembrado oportunamente por Frederic Jamenson. Marx dizia que na Inglaterra

...as greves serviram constantemente de motivo para inventar e usar novas máquinas. As máquinas eram, por assim dizer, a arma que os capitalistas empregavam para sufocar a rebeldia dos operários qualificados2.
Se nos EUA – como no Reino Unido – as greves e suas derrotas haviam ocorrido fundamentalmente nos anos 1980, não há dúvidas que o impulso tecnológico dos anos 1990 contribuiu para consolidá-las, forjando um exército industrial de reserva permanente.

O auge do investimento e da produtividade se esgota durante os primeiros anos da década de 2000. No mesmo período a China entra na OMC, atraindo grande parte do investimento norte-americano e transformando-se em novo destino privilegiado do outsourcing. Se ao redor da ascensão das denominadas “ponto com” e da exportação de capitais se montou uma imensa bolha creditícia, o crescimento norte-americano dos anos 1990 mostrou bases internas relativamente genuínas. Já durante a década de 2000, pelo contrário, o crescimento se dá quase exclusivamente na bolha imobiliária e o elemento genuíno fica localizado essencialmente fora, e muito particularmente na China. E justamente – por essas questões do desenvolvimento desigual e combinado – ao mesmo tempo em que o aumento da produtividade da economia norte-americana retornava aos pobres parâmetros do período pós 1970, a produtividade da economia chinesa crescia a cerca de 10,7% em média durante a década de 2000.

A tríade tecnologia, outsorcing3,e liberação de fluxos de capitais internacionais, desatou uma orgia combinada de financeirização e exportação de capital, desfigurando a velha classe trabalhadora do “Estado de Bem-Estar” e reconfigurando por sua vez uma nova classe internacional qualitativamente mais barata e mais precária. Como resultado dessa “destruição criativa” se obtém uma complexa e macabra trama de múltiplas dimensões. Por um lado, degradação de antigas zonas industriais – como a região do Rust Belt no meio oeste norte-americano – com criação de desemprego interno estrutural. Processo que combina eliminação de algumas ocupações, de um lado, e outros trabalhos e tarefas de baixa qualificação4 que resultaram vítimas da ação combinada tanto da substituição como da deslocalização5, de outro.

Tal como assinalam Frank Levy e Richard Murmane as tarefas simples que podem ser feitas por computadores, também podem se explicar facilmente à grande distância e por isso são suscetíveis de deslocalizar-se6. A questão conduz à segunda dimensão de exportação de trabalhos de baixa qualificação a regiões em processo de industrialização dinâmica – principalmente asiáticas – onde cresceram velozmente os empregos formais em manufatura e serviços, com salários mais baratos, ritmos extenuantes de trabalho e condições deploráveis. Existe uma terceira dimensão de países “periféricos” de crescimento lento ou desigual nos quais as migrações rurais terminaram favorecendo o aumento das massas de pobres urbanos empregados majoritariamente na economia informal7. Por último, assinalemos a geração de polos tecnológicos de novas tarefas e trabalhos altamente qualificados – como Silicon Valley em São Francisco – muitas vezes cobertos com força de trabalho ainda mais barata proveniente de migrações.

O notável é que como balanço final deste processo, e longe das predições de Gorz e Rifkin, no momento culminante do período neoliberal e prévio ao estalar da crise de 2008, não só a força de trabalho a serviço do capital não havia diminuído, como havia duplicado8. Como assinala David Harvey:

A incorporação do campesinato chinês, indiano e de grande parte do sudoeste asiático (junto com Turquia e Egito e alguns países latino-americanos...)9 à força de trabalho assalariada global desde a década de 1980, junto com a integração do que era o bloco soviético, significou um enorme aumento (e não diminuição) da força de trabalho assalariada global muito acima do que corresponderia ao aumento vegetativo da população.

Se o conceito de “jobless recovery” em países como os Estados Unidos ou Reino Unido durante os anos 1990 é válido em termos locais, é parcial para o funcionamento “global” do capital. Por exemplo e com respeito à indústria a OIT avaliava em 2006 que:

...como porcentagem do emprego total (mundial, NdeR), representava aproximadamente 21% tanto em 1995 como em 2005. Essa falta de variação oculta um descenso na proporção do emprego industrial no emprego total de 28,7% em 1995 a 24,8% em 2005 em vários países industrializados e um aumento proporcional em alguns dos maiores países em desenvolvimento. Em todos os países em desenvolvimento a proporção do emprego industrial no emprego total aumentou de 19,4% em 1995 a 20,2% em 2005. Um reduzido número de países teve um aumento importante no emprego total na indústria e um aumento em proporção do emprego na indústria em relação com o emprego total durante o mesmo período. Entre esses países figuram: Brasil, China, Indonésia, México, Paquistão, Federação da Rússia, África do Sul, Turquia, Vietnã10.

A conclusão reside na criação de massas de desempregados e pobres a fim de recriar uma força de trabalho maior, desigual, precarizada, explorada e vulnerável em seu conjunto. A ciência mostra que o verdadeiro problema do capital não era o excesso de trabalho, mas a escassez da mão-de-obra barata.

Diferentes naturezas

Retomando a nova tese do fim do trabalho, resulta forçoso distinguir entre a capacidade material tecnológica disponível para reduzir o tempo de trabalho necessário – como problema genérico – e a necessidade do capital de absorver tempo de trabalho para sua valorização, como problema especificamente capitalista. Diferentemente do que afirmam os denominados “tecno-otimistas”, é preciso ressaltar que não são as “qualidades físicas” dos novos avanços tecnológicos – sua forma útil – o dado que dará a pauta de se o capitalismo avança para uma redução do tempo do trabalho humano.

Em um sentido os chamados “tecno-pessimistas”11 –no que se refere à sua faceta estancacionista tecnológica – raciocinam com uma lógica abstrata similar à dos “tecno-otimistas”, salvo que insistem nos limites da capacidade material (física) atual das novas tecnologias para a substituição do trabalho humano. Ao contrário desse modo de pensar, parte significativa das pistas para a solução do enigma devem ser buscadas não na “natureza” do capital. Porque resulta que uma coisa é a tecnologia entendida em termos de sua capacidade de criar valores de uso – e de liberar tempo de trabalho necessário – e outra distinta é a tecnologia entendida como meio para a criação de valores de troca, e é essa última qualidade que resulta verdadeiramente “útil” ao capital. O capital é um valor de troca em busca de vias para sua valorização que despreza o valor de uso mais que enquanto veículo necessário de valor e mais-valia, isto é de lucro. O capital fixo não tem a capacidade de gerar valores inteiramente novos e é por isso que, se por um lado a força de trabalho é um “custo” que o capital quer reduzir, por outro, o trabalho é a fonte única do lucro genuíno – que ele anseia aumentar. A tecnologia como instrumento produtor de mais-valia relativa representa a ferramenta privilegiada para combinar essa dupla aspiração – ainda quando no mesmo processo termine por corroer a taxa de rentabilidade.

Dizia Marx em “Fragmento sobre as máquinas”:

O capital mesmo é a contradição no processo (pelo fato de) que tende a reduzir a um mínimo o tempo de trabalho, enquanto que por outro lado põe o tempo do trabalho como única medida e fonte da riqueza. Diminui pois, o tempo de trabalho na forma de tempo de trabalho necessário, para aumentá-lo na forma de trabalho excedente como condição – question de vie et de mort – do necessário 12.
E referindo-se ao processo de incorporação da maquinaria reflete que:
Através desse processo efetivamente se reduz a um mínimo o quanto de trabalho necessário para a produção de um objeto dado, mas só para que um máximo de trabalho se valorize ao máximo em tais objetos13.

Se o mecanismo de redução de tempo de trabalho necessário e incremento especular do excedente – que em última análise consiste em reduzir salários e aumentar lucros – se expressa de modo mais sofisticado e acabado no processo de incorporação de tecnologias e produção de mais-valia relativa, representa em verdade o desejo e a necessidade permanente do capital e pode por isso verificar-se como resultado do movimento conjunto da produção de mais-valia relativa e absoluta. Vejamos.

Em busca do tempo perdido

Naquele processo combinado que desenhou o formato neoliberal o capital deu uma vigência macabra ao raciocínio de Marx. Se o tempo de trabalho necessário para produzir cada mercadoria se reduziu progressivamente em um polo e como consequência disso milhões perderam antigos empregos de certa qualidade, se tratou de ocupar a muitos milhões mais em piores condições e por maior quantidade de tempo, a fim de valorizar o capital por meio da produção de uma massa irracionalmente crescente de mercadorias. O trabalho excedente não só se acrescentou como subproduto automático relativo à redução do trabalho necessárro nos lugares de aplicação de tecnologia poupadora de força de trabalho, como também – e particularmente – como consequência da superexploração – aumento da mais-valia absoluta – em parte dos próprios trabalhadores dos países centrais, mas muito especialmente de grandes massas que antes se achavam por fora da esfera de ação do capital. Harvey recorda com pertinência que entre os antídotos possíveis à queda da taxa de lucro Marx propôs “uma taxa fenomenal do crescimento da força de trabalho total que aumentará a massa do capital produzido ainda que a taxa de lucro individual caia”14.

A resultante consistiu não só na maximização do trabalho excedente em termos da quantidade de tempo médio individual necessário para produzir o equivalente aos bens que atendem a necessidades diárias (historicamente determinadas), mas também em termos das possibilidades de absorção de mercados massivos cujas receitas diminuíram, pelo menos relativamente, em relação à magnitude da riqueza criada. O capital incorporava novas tecnologias e agregava tempo de trabalho excedente, destruindo e criando – obrigatoriamente – novas tarefas, empregos e "necessidades" não estritamente necessárias.

Nesse processo de pôr o “tempo de trabalho como única medida e fonte de riqueza" o trabalho excedente torna-se cada vez mais supérfluo na medida em que o trabalho necessário diminui, uma questão que resulta em um aumento exponencial da riqueza que aparece enfrentada não só às verdadeiras possibilidades sociais mas às possibilidades de realização de capital. Não é difícil ver esses resultados nas últimas décadas. A natureza irracional de produção de mercadorias se verifica em grande parte em um esquema no qual o capital reduz - como observado por Harvey15- sistematicamente o tempo de duração de bens de consumo através da produção de mercadorias cada vez mais perecíveis -tablets, notebooks, carros, vestuário.

Vale a pena notar que o interesse por limitar ao mínimo a duração dos bens como uma forma de realizar o valor de troca se apresenta como explicitamente oposto à utilidade das coisas, - na medida em que conscientemente procura reduzir tempo de vida útil. Um esquema aberrantemente irracional que escolhe aumentar o tempo de trabalho humano e reduzir o tempo de vida de produtos, coexiste com crescente massas uperexploradas e carentes que sequer alcançam a renda mínima para satisfazer suas necessidades básicas.

O capital fecha o círculo com o sistema de crédito que durante o boom hipotecário em meados dos anos 2000 alcançou inclusive faixas de renda muito baixas principalmente nos Estados Unidos, mas também no Reino Unido, Espanha ou França. Um sistema que amplia o mercado consumidor e, ao mesmo tempo, como analisado por Costas Lapavitsas16– extrai cotas de mais-valia com juros bancários. Harvey 17 aborda a questão num contexto mais amplo de "acumulação por espoliação", com empréstimos hipotecários que colocam a moradia cada vez mais como "valor de troca", isto é como uma forma de introduzir novos valores de uso- e que depois da crise de 2008, muitas vezes terminou em expropriação pura e simples.

Breve reflexão final

Como é sabido os limites do esquema neoliberal aumentaram na crise de 2008 e caracterizaram a fraca recuperação posterior. O "círculo virtuoso" de mobilidade internacional de capitais, com o aumento da financeirização, "revolução tecnológica", abertura de novas áreas para a acumulação (China em particular), fontes novas e abundantes de mão de obra barata, mercados e crédito ao consumo, está mostrando vários sintomas esgotamento. O conceito de "estagnação secular" expressa justamente a impotência de um investimento que cresce a apenas metade do já combalido período do pós-1970 nos países centrais, e que não reage às fluidas massas de dinheiro barato. É sensato pensar que o capital internacional se encontra na busca por uma "nova empresa".

Tudo indica que a nova tese do "fim do trabalho" incorpora um discurso intimidatório que encobre intenções provavelmente mais sombrias do que as neoliberais. Os imigrantes "ameaçam" os trabalhadores desde as fronteiras e os "robôs" desde a natureza imutável da "economia" - que, é claro, não tem nada a ver com as relações entre os homens. A ideia da renda universal cidadã, assume na verdade o novo discurso do “fim do trabalho”. A tarefa do momento é unir o que o capital divide. Dividir as horas de trabalho existentes entre empregados e desempregados, entre nativos e imigrantes, qualificados e precários, adultos e jovens, homens e mulheres, sem cortes salariais, é uma medida impiedosa contra o lucro capitalista. É no entanto, a única maneira para que a humanidade se reaproprie da arte e da ciência como sua própria obra. Acreditem ou não, há vida para além do capital.

1. Jameson, Fredric, Representar El Capital, Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica, 2013.
2. Marx, Karl, Miseria de la filosofía, Marxist Internet Archive, 2010.
3. Entre os trabalhos espremidos ou em declive pelo avanço tecnológico destacam-se entre outros, os vendedores de enciclopédias – que sentido terão com o Wikipedia? – os trabalhadores dos Blockbuster ou a tarefa de caixa de banco, que ainda está longe de desaparecer mas cresce a um ritmo muito menos que o emprego total devido à proliferação dos caixas eletrônicos.
4. Alguns exemplos de empregos de baixa qualificação de maquinaria, tarefas de distribuição, reparação, empregos de oficinas e administração.
5. Levy, Frank y Murmane, Richard, Dancing with Robots: Human Skills for Computerized Work, Third Way Foundation, 2013.
6. Ídem.
7. “Cambios en el mundo del trabajo”, Organización Internacional del Trabajo, Genebra, 2006.
8. Ídem.
9. Harvey, David, Diecisiete contradicciones y el fin del capitalismo, Madrid, Traficantes de sueños, 2014.
10. “Cambios en el…”, ob. cit.
11. Há que reconhecer que os “tecno-pessimistas”, não obstante, tem um pensamento muito mais sensato.
12. Elementos fundamentales para la crítica de la economía política (Grundrisse) 1857-1858, México, Siglo XXI editores, 1982.
13. Ídem.
14. Harvey, ob. cit.
15. Ídem.
16. Lapavitsas, Costas, “Capitalismo financierizado, crisis y expropiación financiera”, Huellas de EE. UU. 1, mayo 2011.
17. Harvey, ob. cit.

 
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