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Lunes 20 de Agosto de 2018
18:59 hs.

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A histórica "primavera docente" que fez tremer os EUA
Jéssica Antunes

Nos últimos meses os Estados Unidos foi atravessado pela maior onda de greves da educação da história do país, que ficou conhecida como "Primavera docente", chegando a vários estados e levantando a defesa de investimentos suficientes para garantir condições dignas de trabalho e estudo na educação pública do país.

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Milhares de professoras, professores e trabalhadores da educação fizeram parte das greves em diversos estados do gigante imperialista Estados Unidos. Todos esses estados são conhecidos como "Trumpistas", foram base da eleição do reacionário governo do republicano Donald Trump. Ao mesmo tempo, nas eleições primárias quando se define entre os diferentes possíveis candidatos de cada partido qual será o oficial, esses mesmos estados escolheram o autodenominado socialista Bernie Sanders para disputar pelos democratas, tendo esse perdido para Hillary Clinton, candidata identificada como representante do establishment, ou seja, da ordem vigente, preferiram levar ao poder o radicalismo de direita de Trump ao votar na continuidade das coisas com Hillary. Essa busca por saídas radicais à direita e a esquerda é possivelmente um sintoma do que caracterizamos por uma etapa de "crise orgânica", conceito do marxista Antonio Gramsci para expressar uma crise de conjunto na ordem dominante. Assim como a Primavera Docente é um limitante à esquerda na situação dessa etapa.

Contexto

A grande maioria desses estados são localizados no sul do país, são pobres e estão sendo duramente atacados com cortes orçamentários desde o estouro da crise econômica mundial em 2008, com a queda do Lehman Brothers. Estima-se que nesses estados somente os cortes na educação giram em torno dos 20%, e em muitos deles as limitações estabelecidas para a mudança desse cenário são enormes. Outra marca de alguns desses estados é a proibição das greves, o que os docentes levaram a dar outros nomes a esse tradicional método operário, também a não obrigatoriedade do imposto sindical, nesse sentido o montante enviado dos salários para os sindicatos pelo Estado é bastante baixo, fazendo com que as burocracias sindicais, que se sustentam sobre esse tipo de privilégio material, tenham pouco peso e pouco controle sobre os professores. Assim como uma baixa taxa de sindicalização docente e de legitimidade, como é o caso de Oklahoma, entre outros. Por isso essas imensas greves tem a importante característica de acontecer por fora do controle dos sindicatos, que na grande maioria das vezes se colocam, por suas direções traidoras, como um dos maiores empecilhos para a vitória operária.

Realidade muito comum para nós professores brasileiros, as escolas dos estados do Sul estão em péssimas condições, faltam pressupostos básicas como carteiras, livros, materiais pedagógicos, insumos, chegando ao cúmulo de que muitas escolas apenas funcionem quatro dias por semana, pois falta dinheiro para o funcionamento do quinto dia. Os professores, não menos precarizados que do que as escolas, são obrigados a trabalhar em vários empregos para atingir o mínimo para sobreviver, é provável que nesses estados os governadores pensem como o golpista brasileiro Geraldo Alckmin, que ser professor "tem que ser por amor e não por salário".

As professoras e professores entram em cena

Tudo começou na Virgínia Ocidental, no início de março, logo após a vitória dos mineiros que conquistou 5% de reajuste salarial e melhorias no convenio de saúde, os professores com um dos mais baixos salários do país fizeram a lição de casa e, se organizando através do Facebook, entrarem em greve à revelia de seu sindicato, que tentou inutilmente acabar com a greve no seu terceiro dia. Numa luta de 9 dias sem precedentes no estado, a categoria 75% feminina recebeu amplo apoio popular e sem arrego conquistou também os 5% de reajuste salarial, que foi estendido para todos os funcionários públicos, além de terem barrado diversas reformas contra a educação. A partir de suas assembleias, denunciavam o benefício de grandes corporações com a precarização da educação, e organizavam a distribuição de alimentos às crianças pobres que dependiam da escola para comer, uma medida que conquistou e comoveu a população local. Uma nova geração docente que se fez famosa por "violar a lei" que não permite greves e vencer, deixou um recado no dia de sua vitória "se pudemos vencer, todos podem, não somos professores especiais".

Atendendo ao chamado, os docentes de Kentucky, Nova Jeresey e Oklahoma entraram em greve. Com reajuste de 20%, os professores e trabalhadores da educação de Oklahoma mantiveram a greve em defesa de mais verbas para educação e condições dignas de trabalho e estudo. Nesse momento a organização docente se espalhava pelo país, e ficou conhecida como "Rebelião do Estado Vermelho". Com um corte de verbas que chega a 28%, uma professora que havia protagonizado a última greve do estado em 1990, disser ter aprendido que "não podemos confiar nos parlamentares. Tudo que nos deram nos tiraram nos anos seguintes!". Denunciando a falta de materiais, escolas caindo aos pedaços e a miséria salarial imposta pelos governos, os professores entraram em greve sem o apoio de qualquer aparato sindical, e nos primeiros dias houve entrega massiva de atestados médicos. Com o fortalecimento da luta, os dois maiores sindicatos docentes tiveram que garantir seu respaldo, ainda que por fora da organização de base da greve que acontecia de forma diferente e espontânea em cada local do estado.

"Não se preocupem, dou aula para o primeiro ano e estou acostumado a esperar para ser ouvido", dizia um dos cartazes. Ignorados e decepcionados com seus parlamentares, os professores denunciavam seus privilégios as custas do suor da população, exigiam que o dinheiro para a educação fosse retirado dos lucros dos grandes empresários capitalistas, e ao mesmo tempo tinham que enfrentar os infiltrados do governo nas manifestações com intuito de causar brigas e confusões. Após 9 dias nos quais os professores defendiam que a greve precisava ir até conquistar integralmente as reivindicações, os mesmos sindicatos que os apoiaram agora impuseram junto ao governo o fim da greve, com 20% de reajuste salarial, mas sem garantias do aumento dos investimentos na educação.

No Arizona a greve durou 7 dias, e se enfrentava diretamente com o avanço da privatização que nesse país, assim como no Colorado, acontece a passos largos em todos os níveis de ensino, o que os professores identificam como uma forma de lucrar com a precarização. Muitos dos professores grevistas fazem parte da "geração milennium", formados a partir de financiamentos públicos que com a precariedade do trabalho docente nunca pôde ser quitado com o estado, arrastando dívidas milionárias. Além da questão salarial, de investimentos e estrutura básica das unidades de ensino pra garantir dignidade, os professores neste estado levantaram também os direitos dos imigrantes, muitos desses pais de seus alunos. Para eles, os problemas que enfrentaram são "sistemicos" e pra enfrentar-los até o final é preciso "avançar na consciência de classe" e na organização a nível nacional. Após conquistarem um reajuste salarial histórico, e ficarem conhecidos como o movimento #RedforED (#VermelhoPelaEducação), os docentes voltaram para as salas de aula, apontando que a guerra ainda não havia terminado.

Imagens da Carolina do Norte, nos fazem lembrar nossa vitoriosa greve de professores e trabalhadores municipais que dobrou o golpista João Doria:

As mobilizações seguem agora na Carolina do Norte e as autoridades esperam que seja o fim da primavera docente. Estima-se que seja a maior onda de greves da história dos EUA, provando que apesar da eleição de Trump a situação ainda não se fechou pela direita, e que os trabalhadores quando organizados e confiando apenas em suas próprias forças podem enfrentar as leis antigreves das democracias dos ricos e as burocracias sindicais traidoras. Os professores se levantam em todo o mundo e são a linha de frente da necessária resistência pra que sejam os capitalistas a pagarem pela sua própria crise, e não os trabalhadores. É nessa perspectiva e apoiados nesses exemplos que aqui no Brasil construímos o movimento nacional Nossa Classe Educação.

 
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