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Miércoles 15 de Agosto de 2018
04:34 hs.

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- LITERATURA E COMUNISMO -
A qualidade literária do Manifesto Comunista
Afonso Machado
Campinas

Não adianta fechar as janelas, trancar a porta, esconder o cofre, chamar a polícia e tapar os ouvidos. Aquele espectro que rondou a Europa em 1848, ainda paira sobre as esquinas históricas de boa parte do planeta em 2018, ameaçando a fortuna e o sono dos ricos. A burguesia fica assombrada porque enquanto única responsável pelas cenas de horror protagonizadas por milhões de famintos, sabe muito bem que o espectro do comunismo é real, é feito de carne e osso, é uma resposta revolucionária que pode colocar fim ao reino do capital. Para os trabalhadores organizados na luta, não se trata de um espectro mas sim de uma visão de mundo, de um projeto político emancipador. O Manifesto Comunista(1848) redigido por Karl Marx e Friedrich Engels, mantem invicta sua estatura política e ao mesmo tempo estilística: a maneira como o processo histórico é narrado e sintetizado conta com imagens estrondosas.

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O texto de Marx e Engels poderia ter apresentado, a exemplo de tantos outros documentos do movimento operário do século XIX, uma escrita chocha, meramente reivindicatória e desprovida de uma concepção de história. Mas a opção de ambos os pensadores foi a de apresentar uma concepção revolucionária de história, expressa numa prosa radiante e de caráter militante. Existe uma proeza literária no manifesto em que a sua necessária concisão( ou seja um formato enxuto que funcionava como programa teórico e prático da Liga dos Comunista) coexiste com o vigor de suas imagens didáticas. Esta qualidade acende o fogo de uma narrativa que ajudou a dissipar toda aquela nevoa filosófica da cultura alemã daquele período.

Mostram-se evidentes, cristalinas, as palavras cuja validade política atinge o proletariado de todos os países. Para tal foi necessária uma atitude realista adotada pelos pais do socialismo científico: afim de desmistificar as abstrações liberais, em que todos seriam iguais e possuem os mesmos direitos, Marx e Engels expuseram uma síntese da trajetória e da condição dos homens sem recorrer ao “ Photoshop “, sem fazer uso de retoques idealistas, realizando com maestria o dever de todo escritor revolucionário, ou seja, falar das coisas como elas realmente foram e são. Desnecessário dizer que uma das características literárias da escrita da dupla comunista, é a de despertar a indignação social no leitor sem incorrer sobre qualquer prejuízo científico.

Enquanto produto intelectual da atmosfera política da Revolução de 1848, o Manifesto Comunista é a flor mais incandescente da Primavera dos Povos. O texto revela um instrumental teórico que fixou os pés da luta de classes no solo da economia. Em sua tarefa de elucidar que o fim da propriedade burguesa será inevitável, será um acontecimento dentro do capítulo final de uma saga que iniciou-se no período histórico da antiguidade, esta pequena obra puxa o leitor pelos olhos e exige que ele assuma uma posição de classe; afinal, a luta de classes é “ o motor da história “.

O texto mostra que o burguês é o personagem que se destacou historicamente pelas suas contribuições revolucionárias. A burguesia é a protagonista no cenário histórico da modernidade: ela está em cena no momento em que a servidão medieval é abalada pelo fortalecimento das relações capitalistas nas cidades europeias, quando a expansão comercial e marítima trouxe a colonização da América e finalmente quando o vapor e a maquinaria industrial revolucionaram a produção de mercadorias. A burguesia destruiu verdades religiosas e laços de sangue. Todavia a burguesia mergulhou tudo o que existe “ na água gelada do cálculo egoísta “: “ o pagamento em dinheiro “ trouxe a escravização assalariada do proletariado e a conversão da cultura e de todas as relações humanas em mercadoria, construindo um mundo alienado.

Tanto quem pensa a política quanto a literatura, não pode ignorar o novo quadro histórico apresentado pelo Manifesto: nas relações capitalistas internacionais, as ideias se distanciam da estreiteza nacional e assumem um caráter internacional, gerando desdobramentos específicos na realidade histórica de cada país. É dentro desta evidência provocada pelas relações econômicas que tornam o mundo menor, que a classe trabalhadora deverá assumir as rédeas da luta política e herdar a cultura mundial acumulada. A própria atividade literária precisa sob o ponto de vista político, ser concebida segundo um critério materialista e revolucionário. É por isso que Marx e Engels não poupam críticas aos literatos alemães do movimento “Verdadeiro Socialismo “, cujas obras expressam um olhar idealista, conservador, de proveniência pequeno burguesa e logo desenraizado das reais contradições sociais geradas pelo curso da história.

A grande lição subversiva do Manifesto Comunista é que a história reservou ao operário o papel de novo protagonista revolucionário: são os trabalhadores que podem encerrar a tragédia que iniciou-se com as primeiras civilizações e finalmente fechar as cortinas da sociedade de classes; e este papel heroico não é ficção que saiu da cabeça de Marx e Engels, mas sim fruto de um cuidadoso exame histórico apresentado no texto: é de boca aberta que o leitor percebe que a solidez dos regimes políticos de todas as épocas, que exploraram gerações e gerações de trabalhadores que sustentaram nas costas os diferentes modos de produção, “ se desmancha no ar!” Se a burguesia “ treme “ diante desta evidência, o operário sente-se capaz de romper “as correntes “ que o prendem/exploram. Atualmente é perfeitamente possível que o Manifesto Comunista( quando lido corretamente e integrando na rotina militante que realiza a educação política) possibilite a um trabalhador erguer os olhos e trancar os punhos: é o momento em que o trabalhador descobre-se como ator e não espectador da história.

Marx e Engels são narradores militantes que apresentam publicamente uma prosa extraída da leitura objetiva dos processos sociais. Desta prosa emana uma poesia que exige ação política revolucionária. Quer dizer, os fatos políticos são expostos sem frescura acadêmica e sem aquela fraseologia vazia que até hoje enfeita os discursos garbosos nos congressos, senados e parlamentos. Logo o impacto político do Manifesto Comunista pode ser medido não apenas pelas suas ideias revolucionárias, mas pela maneira como estas mesmas ideias revolucionárias são expostas: podemos extrair uma poética de um texto que mostrou de modo claro, científico e terrivelmente épico a história da humanidade. A clareza com que a reflexão política pontual e a informação histórica são estruturadas, não impedem que elas potencializem o seu significado através de imagens condensadas e expressas na temperatura borbulhante de uma caldeira filosófica.

Hoje, quando intelectuais medrosos e mal intencionados professam a era do “ pós tudo “, em que supostos novos paradigmas tratam de um ilusório “ mundo pós-industrial “, cuja única participação possível residiria em atitudes que “ nascem de dentro do coraçãozinho “, o Manifesto Comunista bota medo porque conta realmente como foi a história e como podemos toma-la pelas nossas mãos.

 
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