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Miércoles 15 de Agosto de 2018
04:34 hs.

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Narrativas de luta
Afonso Machado
Campinas
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Ler ou ouvir uma boa história é algo que oferece proteína espiritual, alimento para a cachola. Nem todos se dão conta que narrativas são necessidades do nosso dia a dia. Mas não seria pedir demais, após mais um dia duro de trampo, que outros trabalhadores prestem atenção em histórias, fixem olhos e ouvidos no que quer que seja? Aí é que tá, estamos inundados com tantas narrativas que muitas vezes elas surgem como algo natural. Uma boa partida de futebol necessita de uma boa narrativa, capaz de potencializar a emoção de quem assiste/ouve o jogo, oferecendo ainda informações precisas sobre o que se passa no gramado. Isto não possui familiaridade com a literatura? O atacante de um time de futebol e o personagem de um romance, o vilão de uma telenovela e o político que surge como personagem de uma reportagem, o super herói de um filme e o herói de uma epopeia da antiguidade clássica: todos são objetos da nossa atenção, da nossa curiosidade. Entretanto, de quais narrativas realmente necessitamos, camaradas?

Retomar este tema aqui, significa mais uma vez chamar atenção para o fato de que a produção de histórias, fictícias ou não, contribui para orientar a realidade das massas. Vivemos numa época gozada em que o poder ideológico da mídia capitalista gera um tipo de jornalismo que produz ficção: não é simplesmente “ fake news “, mas uma forma ilusória de tratar o acontecimento, uma exposição do fato que paradoxalmente o oculta, resultando artificiosamente na separação entre os acontecimentos e suas determinações materiais/reais. Sustento mais uma vez que neste contexto feito de ilusões e paradoxos, a ficção literária pode ir além das narrativas midiáticas na apresentação do mundo real. Todos os povos, em todas as épocas, necessitam de histórias que explicam o que se passou e o que está rolando no momento. No ato de narrar não existe apenas a informação crua mas o fator da invenção, que pode distorcer ou potencializar a comunicação dos fatos.

A lente de aumento numa história pode servir para esticar demais o objeto e alterar sua proporção, ou então auxiliar as pessoas a enxergarem o que muitas vezes a maioria não vê. Se todo narrador deposita sua subjetividade no relato, é o desenvolvimento objetivo dos acontecimentos expostos que permite ao leitor rir, chorar, indignar-se e o mais importante: compreender o que se passa. Sendo inevitavelmente partidárias, as histórias afetam a nossa percepção, exigem juízos e tomadas de posição. Isto vale para tudo quanto é tipo de narrativa que tem por objeto as relações humanas. Ler, assistir e ouvir histórias é questão de hábito, ou seja, momentos do cotidiano em que um romance, um filme, uma novela, uma série, tornam-se parte do dia; e o dia de um trabalhador não é brinquedo: na volta do trabalho pra casa, tanto no busão quanto no metrô(além é claro do purgatório real que são as filas para qualquer serviço público necessário para os trabalhadores) mãos cansadas e olhos irritados percorrem as telinhas dos celulares. Não é tão difícil deduzir o que a maioria está lendo: notícias, fatos de maior gravidade ou bobagens que pululam pelas redes sociais. É precisamente neste momento em que o celular torna-se oraculo ou bengala cultural, que a literatura pode apresentar narrativas capazes de conduzir os homens para os seus problemas reais. Pequenos textos literários, por exemplo, podem servir como pílulas anti-burrice ou até mesmo como discretos antibióticos contra um cotidiano explicado por narrativas mentirosas.

Muito mais do que serem informadas e dispor da análise dos fatos sociais, as pessoas necessitam também de uma montagem em que os problemas da realidade sejam transmitidos com humor, brutalidade, sinceridade e imaginação; compondo assim um mosaico polvilhado por um colorido verbal. Precisamos cada vez mais de palavras pulsantes e imagens autênticas para uma população que, em boa parte, abriu seu espaço de lazer para a lógica capitalista, para os valores e gostos do patrão. Podemos, no plano da escrita, rebater as narrativas fictícias do jornalismo burguês a partir de 2 perspectivas : 1- Realizando um jornalismo capaz de interpretar criticamente a realidade objetiva. 2- Produzindo uma literatura que faz da ficção uma ponte para o mundo objetivo.

Mediante a necessidade de agir sobre o mal utilizado espaço mental dos trabalhadores, seria importante valorizar narrativas épicas . A curiosidade humana, a vontade de saber e saborear informações, confirmam a necessidade de narrativas. Mas já repararam a quantidade exorbitante de histórias escritas/filmadas que não dizem nada para além das pequenas dores do indivíduo, embriagado consigo mesmo? Se existem os micro dramas em que o coração bate distante dos problemas da classe trabalhadora, são urgentes as histórias que inflamam a sensibilidade do povo; e a épica é de grande utilidade neste sentido. O dia a dia das massas precisa ser preenchido com histórias sobre a formação do povo brasileiro, suas lutas e seus personagens rebeldes, cuja memória foi sepultada por críticos e historiadores ocupados com perfumaria teórica. Uma narrativa das boas é aquela que ao informar sobre o que aconteceu e o que acontece, desperta a imaginação do leitor, espectador e ouvinte. Aliar documento e poesia é uma qualidade que pode gerar monumentais narrativas revolucionárias , que tornam-se referências na luta política. Por isso, um texto literário de vivo interesse para o trabalhador consegue combinar , sem prejuízo artístico, reportagem, memorial e narrativa histórica.

Enquanto que a mídia capitalista recorre a recursos estéticos para distorcer o mundo, um escritor/artista comprometido em contar o que é historicamente ocultado, faz da estética uma estratégia de combate na guerra das narrativas. “ Fake News “ e circos midiáticos não podem enganar a história por muito tempo. Já o narrador combativo esforça-se por encontrar o ritmo da marcha da história.

 
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