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Martes 4 de Diciembre de 2018
17:04 hs.

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A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.15
A era do dólar: o imperialismo depois da II Guerra
Gilson Dantas
Brasília
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Com o triunfo econômico dos Estados Unidos após a II Guerra, inicia-se a era do dólar como “moeda mundial”, ou do “padrão-dólar”.

A era do livre-câmbio ou do “padrão-ouro” durou até a I Guerra. Dali em diante entrou em crise. Cada país foi abandonando este padrão monetário e passando a emitir mais ou menos livremente sua moeda. O lastro-ouro estaria “de volta” em 1944 (Bretton Woods) quando os Estados Unidos se impuseram, como detentores de quase todo o ouro do mundo, e estabeleceram sua moeda como equivalente-ouro na proporção de 35 dólares por cada onça de ouro.

Os países ricos, na prática, aceitaram a hegemonia norte-americana e, portanto, o dólar como moeda mundial. O país que obtivesse poupança (divisas de exportação, por exemplo), preferia guardar suas reservas em forma de dólares. Dólar era tão bom quanto ouro e rendia mais que o ouro uma vez aplicado no Tesouro norte-americano.

Em suma, em todas as esferas, da monetária à industrial, a II Guerra significou a afirmação da hegemonia da economia imperialista norte-americana sobre o mundo capitalista.

“A II Guerra Mundial acelerou consideravelmente esse processo de concentração internacional do capital. A Grã-Bretanha, que era a primeira potência exportadora de capitais antes da Guerra Mundial, viu-se obrigada agora a liquidar uma ampla parte de suas inversões de outros países para financiar a guerra: essa ‘desinversão’ é calculada em 17 bilhões de dólares. Além disso, os capitalistas americanos afluem constantemente em direção a este país.

A França, a Holanda, a Bélgica perdem uma parte de seus investimentos em outros países e se convertem ao mesmo tempo em áreas de investimentos para capitais estrangeiros, sobretudo americanos. O Japão depois de ter conseguido, em 1942-45, estender o raio de ação de seus capitais a todo o Sudeste Asiático, entra em derrocada e tem que abrir suas próprias portas aos capitais americanos. A mesma coisa acontece com a Itália e a Alemanha. Este último país que, em 1940 a 1945 tinha inundado com seus capitais a maior parte da Europa e da Rússia Ocidental, passou por sua vez a ser inundado por capitais americanos depois da derrota” (MANDEL, 1972: 102).

Portanto, se é verdade que tinha havido um ciclo de prosperidade norte-americana nos anos 20, pós I Guerra Mundial, como foi mencionado em outro momento, mas será sobre as ruínas e a devastação da II Guerra que a economia mundial encontrará seu primeiro, embora fugaz, grande ciclo de crescimento econômico.
Celebrizado como os anos de ouro do capitalismo (não duraram uma geração) foram o suficiente para reafirmar a crença de que o capitalismo tinha superado sua história de crises, ou pelo menos de crises graves.

E também foi o suficiente para a propagação do “mito keynesiano”, da ideia de que gastos públicos (em obras públicas civis) e planejamento foram os responsáveis pela superação da Depressão e pela retomada econômica excepcional. A própria força mundial assumida pelo dólar passou a ser vista – mistificadamente – como resultado de pacto entre as nações livremente acordado.

Não passam de relatos de valor de face fundamentalmente ideológico.

A força do dólar
A força do dólar (Bretton Woods) foi resultado da força econômica de uma determinada potência imperialista na economia mundial e de forma alguma foi resultado de diálogo ou acordo econômico pacífico entre nações.

Em uma economia mundial sob concorrência brutal e com o imperialismo de primeira ordem tratando de impor-se sobre os demais, é improvável qualquer acordo duradouro na esfera de uma variável dependente como é a moeda. Esta foi a experiência histórica da economia mundial e, por isso mesmo, a história do ‘equilíbrio instável’ do dólar, mantido como economia mundial após seu deslastreamento (fim do padrão-ouro estabelecido após a II Guerra) era enfraquecido a cada crise.

Quando se discute crise da moeda é essencial pesquisar sobre seu substrato econômico. A libra, moeda lastreada em ouro durante mais de duas gerações, conversível em ouro, entrou em crise quando seu rival econômico, os Estados Unidos, bem mais desenvolvidos, já detinham boa parte do ouro do mundo. O dólar, lastreado em ouro e conversível durante 26 anos, entrou em crise quando rivais econômicos (Japão, Alemanha) começaram a ganhar a corrida da produtividade industrial em relação aos Estados Unidos no final dos anos 1960 e o ouro já não estava tão concentrado nos cofres norte-americanos.

Nos dois casos instala-se na economia mundial uma grave crise e a potência hegemônica, portadora da ‘moeda mundial’ se vê enfraquecida frente a rivais, o lastro-ouro se mostra não mais sustentável e, por fim, impõe-se uma reforma que permita um novo padrão, embora instável, de equilíbrio (como foi o caso do equilíbrio inglês, mais orgânico; e também como veio a ser o norte-americano do seu período de crescimento no pós-II Guerra, agora excepcional e instável).

[Retomando a análise sobre o boom pós-II Guerra, a novidade, pouco enxergada por muitos analistas de época, é que aquele crescimento, além de ter contado, para poder existir, com condições históricas e políticas [o apoio dos grandes PCs stalinistas e o pacto de Yalta] muito especiais, deu-se através da exacerbação de processos parasitários (crédito, capital fictício, economia armamentista) e de contradições que continuaram operando no seio da economia para aflorarem ali no início dos anos 70 levando a economia global à sua mais longa crise.]

Prosperidade e colaboração política
Aquela fase de prosperidade – e desenvolvimento parcial das forças produtivas - seria impensável, como vem sendo argumentado, sem intervenção pesada do Estado no restabelecimento do equilíbrio para a acumulação do capital.

Foi essencial para aquele crescimento capitalista do pós-II Guerra, como parte da recuperação da taxa de lucro (motor da acumulação do capital), que os governos pudessem impor maiores taxas de exploração do que as de antes da guerra.

No argumento de Bach, o boom do pós-II Guerra está longe de representar força orgânica do sistema. A condição deste novo “equilíbrio” foram duas guerras mundiais de destruição maciça e o pacto com o stalinismo e, além disso, uma espetacular e sem precedentes intervenção direta do Estado na economia, alterando tendências do ciclo, mas gerando resultados que sequer seus dirigentes podem prever (1999: 27).

Aqui, novamente, o papel do Estado foi crucial. O mesmo Estado que acionara a indústria de guerra, que movimentava o crédito público maciço na era do boom e assumia medidas de sustentação de uma aristocracia operária e também adotava mecanismos defensivos de proteção social.

A base para esta ação do Estado – contando com a imprescindível e colossal destruição de forças produtivas, sobretudo capitais europeus – foi a mais profunda exploração do trabalho e a garantia de uma certa “paz social” forçada, graças à já mencionada colaboração dos PCs, a começar do PC da URSS (PCUS), no sentido de que a classe trabalhadora europeia apertasse os cintos e fosse contido e desviado qualquer ímpeto revolucionário. Esta foi, em grande medida, a história daquelas décadas. E a história do período do acordo de Yalta [Stálin-imperialismo].

A reconstrução econômica europeia contou com ajuda financeira dos Estados Unidos (Plano Marshall) que procuravam evitar riscos de revoluções sociais naquele continente. Na periferia, os Estados Unidos contaram com o indispensável apoio das ditaduras militares para esmagar a ferro e fogo as revoluções coloniais que radicalizavam.

Mas jamais se deve deixar de destacar que, sem a garantia da URSS, que saiu politicamente prestigiada da guerra, de que nenhum PC sob seu controle – e todos estavam sob seu controle – iria tomar o poder em lugar algum à semelhança de 1917 na Rússia, certamente o capitalismo não encontraria o equilíbrio econômico para qualquer boom europeu.

Quanto à celebrada política keynesiana, de dirigismo estatal e gastos públicos, ela irá revelar toda sua impotência poucos anos depois, quando a economia não mais for capaz de manter aquelas taxas de crescimento do pós-Guerra. O keynesianismo teve um papel mais ideológico, no sentido de encobrir as reais causas do crescimento econômico, do que mesmo como afirmação de uma nova política civil para o capitalismo ou sequer como testemunho da possibilidade de regular a economia capitalista mundial. No entanto, as “ilusões keynesianas” no período pós-Guerra tinham sua razão de ser:

“A entrada em vigor da política keynesiana do mundo capitalista imediatamente depois da II Guerra Mundial era o duplo resultado dos ensinamentos da depressão dos anos 30 e dos êxitos econômicos em matéria de realização do pleno emprego ao longo dos anos de guerra. A depressão tinha revelado a impotência do tradicional mecanismo deflacionista da crise para segurar a reativação que tinha colocado a necessidade do recurso aos meios mais aptos de preservar o equilíbrio social, que não era o desemprego, o estancamento e a miséria.
De sua parte, a guerra tinha demonstrado eficiência do dirigismo estatal na realização do crescimento, através de uma certa inflação, e o objetivo prioritário dos anos pós-guerra era a conquista do pleno emprego e o crescimento econômico através de uma fina articulação das políticas monetárias, fiscal e orçamentária. Através deste `ajuste de precisão` da economia, acreditava-se poder nivelar no ciclo econômico e, sobretudo, libertá-lo das pressões que trazem convulsões sociais” (GILL, 2002: 663).

Nada disso foi conseguido tomando-se o médio prazo: o boom logo se esgotaria. E para tentar resumir o significado daqueles anos de boom depois da II Guerra, pode-se dizer que, na verdade, a economia mundial capitalista estava – embora em condições históricas excepcionais – construindo prosperidade a partir da devastação promovida pela crise e pela guerra. E tratou-se de um padrão de crescimento logo rompido. A prosperidade que durou quase vinte anos foi, pouco a pouco, perdendo sua força propulsora. Caía a taxa média de lucro.

O maior credor do seio da economia mundial do pós-Guerra, os Estados Unidos, revelavam os primeiros sinais de esgotamento de seu papel hegemônico. Seu peso industrial já não era o mesmo, com o crescimento econômico dos rivais japoneses e alemães e aparecia o déficit na balança comercial (os Estados Unidos estavam comprando mais do que exportando).

O dólar perdia sua força frente a economias mais competitivas industrialmente e que mostravam capacidade produtiva para inundar os Estados Unidos com mercadorias mais baratas. O ‘equilíbrio norte-americano’ logo se romperia.

E aqui, tem importância remarcar um item raramente enfatizado nos livros de economia. Ou seja, o papel da intervenção econômica, mas também política dos governos na luta para preservar seu equilíbrio instável.

Intervenção política e econômica do Estado
O capitalismo da era dos oligopólios, o capitalismo moderno, imperialista, já não mais consegue encontrar apenas através das livres leis da economia, o equilíbrio necessário para tentar crescer após as crises. O exemplo da Grande Depressão, do crack de 1929, é terminante a este respeito. A intervenção política dos Estados Unidos tratando de impor mundialmente sua hegemonia (militar e política) no pós-II Guerra, não deixa de ser um fator político [ou “extra-econômico”] sem o qual não é possível entender o essencial da economia mundial.

A economia capitalista mundial em época na qual seu crescimento já não é orgânico e enfrenta resistência social revolucionária, tem mostrado que não sai da estagnação pelas livres forças do mercado e que, portanto, necessita do Estado cada vez mais, não apenas para se safar da crise mas, ao mesmo tempo, para funcionar e ganhar sobrevida.

A simples análise da dinâmica econômica do boom – suas tendências e processos econômicos – como já foi mostrado, não tem o poder de explicar porque a França ou a Itália se mantiveram de pé e crescendo naquele período convulsivo em que os trabalhadores e guerrilheiros comunistas (partisans, partiggiani) tinham o poder político ao alcance da mão, mas suas direções optaram pela estratégia de colaboração com a classe dirigente imersa em profunda crise e colapso de pós-Guerra.

De Gaulle, chegou a reconhecer isso em suas memórias, onde presta um específico tributo aos dirigentes do PCF, ao seu papel de bombeiro contra o incêndio político que ameaçava o capitalismo europeu no final dos anos 1960.

Em suma, não é convincente tentar explicar o boom por razões apenas ou principalmente endógenas, da economia strictu sensu. Esta explicação poderia ser em alguma medida aceitável para a fase de crescimento orgânico da economia mundial (fim século XIX).

Por sua vez, o Estado não tem o poder de intervir para evitar a crise e nem impedir seu alcance destrutivo pleno, mas intervém, e tem que fazê-lo, para salvar o sistema. Intervém com recursos públicos para alterar o ciclo eco¬nômico.Existe a consciência, por parte de suas direções mais “esclarecidas”, de que os mecanismos cíclicos e semilivres de recessão e recuperação econômica, que se davam até o crack de 1929, são inaceitáveis: passa a ser questão de sobrevivência e vida ou morte do sistema a maior intervenção do Estado sobre a economia (BACH: 2008).

E aqui é essencial lembrar que a intervenção do Estado pode adotar medidas e estratégias de caráter civil de gastos públicos, pacotes financeiros ou nacionalizações (como em 2008 ou, antes, em toda a primeira fase do New Deal de Roosevelt nos anos 30), mas também pode mergulhar na economia de guerra (primeira opção da Alemanha, com o partido nazista e, em seguida, dos Estados Unidos de Roosevelt).

Neste ponto economia e política estão unidas mais que nunca. Forçar a sociedade, sobretudo os trabalhadores, a aceitarem o encargo colossal e mais pesado da crise econômica do sistema requer ação política e ideológica do Estado em grande escala. A crise de 2008/09, com seus pacotes de trilhões de dólares, ilustra este argumento de forma eloquente. A era daquele boom é esclarecedora a este respeito. O prestígio da URSS foi usado, pelas direções burocráticas da classe operária, para barrar a ameaça revolucionária anticapitalista que varria Itália, França e Grécia: novamente, e de outra forma, política operando para salvar um sistema em dêbacle econômica.

BACH, Paula, 1999. Introducción a Naturaleza y dinâmica del capitalismo y la economia de transición, León Trotsky, Buenos Aires, Ceip, p. 9 a 29,
BACH, Paula, 2008. La ´cuestión monetária y el equilíbrio capitalista´, Suplementos Econocrítica n.7, 23 de octubre de 2008, Buenos Aires.
GILL, Louis, 2002. Fundamentos y límites del capiralismo. Madrid: Editorial Trotta.
MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economía marxista, 2 volumes. México: Ediciones Era.

[Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas].
Continua na nota n.16.

 
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