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Lunes 16 de Julio de 2018
01:38 hs.

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LITERATURA E REVOLUÇÃO
Os 50 anos da publicação de Literatura e Revolução, de Leon Trotski, no Brasil (PARTE 3)
Afonso Machado
Campinas
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A atitude que a Revolução deveria adotar diante da arte foi uma questão que atravessou o século XX e atingiu particularmente o ano de 1968 como uma ardente chuva de meteoros. Em Literatura e Revolução Trotski afirma: "(...) Nossa concepção marxista do condicionamento social objetivo e da utilidade social da arte não significa, quando traduzida para a linguagem política, o desejo de dominar a arte por meio de decretos e prescrições. É falso que só consideramos nova e revolucionária a arte que fala do operário (...)". Para aqueles intelectuais brasileiros que em 68 bebiam nas fontes duvidosas da Revolução Cultural Chinesa (1966-76) , cultuando o Livro Vermelho: Citações do Comandante Mao Tsé Tung, ou que ainda não suspeitavam das pressões burocráticas presentes no debate estético cubano, inaugurado pela Revolução de 1959, o raciocínio de Trotski soava "muito liberal".

O prefácio de Moniz Bandeira (escrito em 1968 para a referida obra Literatura e Revolução), provavelmente na intenção de dialogar com a conjuntura política/cultural de esquerda da época, coloca Mao Tsé Tung e Fidel Castro como estando próximos da crítica de Trotski ao “esquerdismo literário“ e à intervenção burocrática na produção artística. Neste sentido “A escola do Realismo Socialista não conseguiu (...) impor seus cânones estéreis a todos os países onde a revolução triunfou depois de 1945“. É certo que no interior das revoluções chinesa e cubana, tomadas como modelos políticos por muitos marxistas brasileiros da época, o debate estético não descambava automaticamente para a arte subordinada à propaganda estatal. Mas entrando em contradição com suas próprias declarações, Mao e Fidel falavam uma coisa sobre a importância da liberdade dos assuntos artísticos (Moniz Bandeira transcreve declarações de ambos os líderes) enquanto que os desdobramentos políticos e culturais dos países que dirigiam, insinuavam outra coisa.

Parte significativa das manifestações artísticas chinesas que datam da época da chamada Revolução Cultural, apresenta figuras estereotipadas do "herói proletário", além de realizarem um culto particular à personalidade de Mao. O clima asfixiante, sectário, autoritário e histérico da Revolução Cultural Chinesa tornava pouco propicio o livre desenvolvimento das formas artísticas revolucionárias.

No contexto cubano, burocratas e influentes intelectuais marxistas patrulhavam a vida cultural e visavam um controle maior sobre as atividades dos cineastas do ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos), embora não se adotasse oficialmente na Ilha o Realismo Socialista. Todavia, seja no caso chinês, no caso cubano ou no de qualquer outro Estado proletário deformado, não se pode generalizar quando o assunto é arte: não podemos agir de modo similar à crítica burguesa e dizer que toda a arte produzida nestes contextos políticos é simplesmente uma porcaria. As contradições/deformações revolucionárias presentes nos processos políticos da Revolução chinesa (1949) e da Revolução cubana (1959), foram dimensionadas ao longo de décadas no campo da arte e da literatura. É preciso pesquisar estes legados artísticos a partir de um rigoroso critério marxista, valorizando eventuais contribuições estéticas, debatendo erros e possíveis conquistas, e levando em conta suas especificidades históricas. O mesmo vale para a “arte de esquerda“ feita no interior dos países capitalistas, incluso o caso brasileiro.

Um número considerável de artistas de esquerda brasileiros, ainda atordoados com o Golpe de 31 de março de 1964, procurava em meados de 1968 resistir contra a ditadura através de mensagens políticas que atacavam o regime militar. Até aí, tudo certo, atitude crítica legitima. Porém, existiam sérias limitações comunicativas nesta atitude: além de terem como ouvintes, leitores e espectadores somente militantes de classe média(como nos referimos nas Partes 1 e 2 desta série de artigos, a ditadura havia destruído em grande medida a comunicação direta com as massas), a orientação nacionalista impedia uma apreensão marxista satisfatória sobre as complexas inquietações culturais daquele momento. O resultado envolvia intolerância frente a tudo aquilo que não se encaixava na cartilha. Vejamos um caso concreto. Num debate sobre tropicalismo com estudantes e intelectuais na FAU, em junho de 1968, Caetano Veloso e Gilberto Gil tiveram seus pontos de vista sabotados durante o evento: bombinhas estouravam perto da mesa aonde estava a dupla de compositores, além de bananas atiradas nos convidados tropicalistas. O projeto estético da tropicália era visto pela maioria dos estudantes presentes no debate como “suspeito“ e “alienante“. A utilização de guitarras elétricas na música popular brasileira era símbolo de uma heresia sujeita à rótulos como “entreguismo“ ao imperialismo norte americano. Sem perder de vista as ambiguidades comerciais do tropicalismo (em parte comprometedoras), havia neste movimento uma perspectiva antropofágica e um sabor anárquico que se não podem ser a rigor considerados revolucionários, eram (e talvez ainda sejam) elos importantes para a elaboração da arte revolucionária no Brasil: paródia, violência poética e assimilação de contraditórios componentes culturais oferecem vitalidade à arte contestadora.

Artistas que não possuem um entendimento marxista da realidade podem realizar a arte que contribui com a Revolução? Trotski, no seu livro, não considerava os futuristas(antes boêmios do que proletários) revolucionários, mas assinalava sua importância artística para a Revolução "(...) O futurismo russo expressou de início a revolta dos boêmios, isto é, da ala esquerda semipauperizada da intelligentisa contra o caráter de casta e fechado da estética burguesa. Pelas roupagens dessa revolta poética sentia-se a pressão de forças sociais profundas que o próprio futurismo não percebia (...)“. Os futuristas russos, que procuravam aderir sinceramente ao comunismo, contribuíam com uma arte de transição cujo eixo ideológico não estava na falecida Rússia czarista mas sim no futuro da República dos sovietes.

Em 1968, não seriam os boêmios da chamada contracultura, os tropicalistas apegados à sonoridade do rock e às formas de expressão do underground, forças representativas de uma pressão social contra a cultura dominante (em sintonia com movimentos internacionais de juventude), que forneciam para a arte brasileira as novas roupagens da revolta poética? Haveria naquele momento uma direção política revolucionária capaz de realizar uma reflexão científica sobre estes elementos (contra) culturais e sua possível contribuição na luta contra a ditadura militar? Aqui o anacronismo parece uma tentação, mas está longe de sê-lo. O entendimento científico do processo histórico brasileiro e mundial, coloca para artistas e pensadores uma conclusão inequívoca: em seus variados estágios de desenvolvimento econômico, o capitalismo é gerador de contradições sociais que assumem uma forma aguda e explosiva no contexto da expressão artística. Das primeiras fábricas da Revolução industrial até à espetacularização das mercadorias na era da grande mídia, a arte (em suas manifestações e tendências fundamentais) protesta contra um mundo desequilibrado, contra um modelo de sociedade em que a contradição econômica é geradora de contradições psicológicas exteriorizadas na linguagem artística.

Se existem artistas cuja educação política revolucionária contribui com a criação de obras que atuam enquanto produtos históricos avançados (e que logo expressam conscientemente a luta de classes), existem também aqueles artistas cuja intuição e inconformismo carregam (mesmo que muitas vezes estes mesmos artistas não saibam ou ignorem) a mesma evidência histórica: as autênticas manifestações artísticas do nosso tempo se rebelam contra a ideologia dominante. Criar/produzir artisticamente só pode significar a condenação da cultura estabelecida. Trotski mostra em seu livro que a crítica marxista está além da dualidade entre a concepção artística abertamente tendenciosa e a concepção que defende a chamada “arte pura“. Para a dialética marxista a arte serve, sempre e independentemente das ideias e convicções dos artistas, ao movimento real da história (a arte não escapa das ideologias e dos conflitos de classe). Mas se o marxismo explica o significado de qualquer manifestação artística de acordo com as determinações da história, ele necessita ao mesmo tempo de estudos sobre a forma artística: esta é também produto da individualidade de quem faz arte. Existe um nível de autonomia na produção artística que deve ser compreendido e assegurado.

Trotski valoriza, mesmo com reservas críticas, os estudos que a Escola de Poesia Formalista da Rússia realizava sobre o caráter semântico da atividade literária. A questão é que os militantes de esquerda precisam servir-se de estudos sobre os materiais da arte, sobre as especificidades estéticas, mesmo quando estas últimas possuem outras filiações filosóficas. Não se trata de ecletismo mas de compreender o quanto as pesquisas formais contribuem para ampliar, desenvolver os recursos da expressão artística. Portanto os marxistas devem estar abertos para interpretar sem negligência as reviravoltas artísticas. Infelizmente uma parte da juventude de esquerda em 1968 não estava disposta a isso. É por isso que Caetano Veloso em seu violento discurso dirigido a estudantes nacionalistas de esquerda (estes últimos vaiavam Caetano e os Mutantes durante da execução da canção É Proibido Proibir, no Tuca), tem toda razão quando afirma “vocês não estão entendendo nada!“, ou ainda, “se vocês, em política, forem como são em estética, estamos feitos!“. É uma contradição de termos ser revolucionário em política e reacionário em arte. E no final das contas, a ditadura partiu pra cima tanto da esquerda nacionalista quanto dos tropicalistas.

O livro de Trotski poderia ter tido grande utilidade para militantes de 68, se o grosso da esquerda estivesse livre de preconceitos e reducionismos estéticos provenientes de tendências políticas que deformavam o marxismo. Para o desenvolvimento histórico da arte na Revolução, não existem receitas abstratas mas uma reflexão a partir do que existe e contribui para combater os valores da classe dominante. Esta é uma lição que também bate fundo em 2018.

 
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