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Lunes 20 de Agosto de 2018
07:47 hs.

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ENTREVISTA COM A KIWI COMPANHIA DE TEATRO
Entrevista: Kiwi Companhia de Teatro fala sobre participação no 27º Festival de Curitiba e a situação da arte anticapitalista
Débora Torres

Surgida em 1996, a Kiwi Companhia de Teatro que tem como principais influências o teatro épico dialético de Bertold Brecht e o teatro documentário de Erwin Piscator. Além dos espetáculos, desde o início de sua jornada, organizou cursos, oficinas e debates sobre a encenação e a dramaturgia contemporâneas.

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Foto: Annelize Tozetto/Divulgação – Blog do Arcanjo/UOL

Selecionada pelo Programa de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo em 2007 a companhia realizou o projeto Teatro/mercadoria – Espetáculo e miséria simbólica, que incluía apresentações teatrais, oficinas, debates e a realização de dois eventos multiculturais (festa & ideias). Desde 2013 a cia publica o caderno de estudos Contrapelo, com o objetivo de fazer e pensar o teatro, contribuindo para a construção do pensamento crítico a respeito da sociedade brasileira.

De 2009 a 2014 ganhou diversos prêmios e editais, o que permitiu que novos projetos e experimentações tomassem forma e circulassem, tais como a performance Carne – Histórias em pedaços, que em 2009 foi apresentada em Bogotá (Colômbia) no 7º Encuentro Ciudadanias en Cena, organizado pelo Instituto Hemisférico de Performance y Política.

No primeiro semestre de 2015 o grupo desenvolveu o projeto Manual de autodefesa intelectual, que incluiu diversas atividades, estreou no Sesc Belenzinho e fez segunda temporada no Galpão do Folias, em São Paulo. Em 2017 estreou Fome.doc

Apresentações e debates sempre vivos, pulsantes, mostrando a arte como ferramenta de movimento e diálogo, contrapondo o que a indústria cultural nos oferta como opção.

Em 2018 o grupo foi convidado para apresentar Manual de autodefesa intelectual na mostra oficial da 27ª Edição do Festival de Teatro de Curitiba.

Nesta edição, durante a apresentação da cia Kiwi, chamou a atenção a intervenção de uma senhora do público, alegando não querer ver no teatro conteúdo político.

Paguei ingresso para ver teatro e não ouvir sobre política”, grita mulher do público durante leitura de texto no início da apresentação. A atriz Fernanda Azevedo fazia a leitura, em nome da cia, mencionando os ataques ao direitos sociais e criticando a violência do Estado; incluindo o caso do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes, além dos assassinatos de lideranças populares pelo Brasil e de cinco rappers em Maricá.

Nós do Esquerda Diário, conversamos com Fernanda Azevedo e Fernando Kinas sobre o ocorrido e outras questões. Veja abaixo:

ED: Desde o ano passado, diversos foram os momentos em que peças, performances e exposições foram reprimidos e censurados. Além do sucateamento de programas culturais e leis de incentivo. Ao mesmo tempo, a classe trabalhadora vem sofrendo diversos ataques aos seus direitos básicos, através da implementação da reforma da previdência, por exemplo e de todos os desdobramentos do golpe. Qual foi o impacto e os desdobramentos para a Kiwi Companhia de Teatro e como, no seu ponto de vista, essas coisas se relacionam?

Kiwi: Nós partimos do princípio que a arte é uma manifestação política. Entendendo política como tudo o que diz respeito à pólis, à organização social. Mesmo os que defendem a visão de autonomia da arte estão manifestando uma evidente posição política e, muitas vezes, com empenho para dissimular este posicionamento. Se mesmo em tempos de expansão da indústria cultural, da transformação de todas as instâncias da vida em mercadoria e de retrocesso social, algumas manifestações artísticas conseguem furar o bloqueio do moralismo retrógrado, da ignorância programada e dos ideais neoliberais, é natural que as forças obscurantistas que sempre ocuparam posições de poder se manifestem e ataquem estes setores rebeldes e desobedientes.

A crise política e social atual atinge o conjunto dos trabalhadores e trabalhadoras, entre eles, obviamente, a categoria artística. Os artistas sofrem há muitos anos com a falta de assistência social e direitos trabalhistas, além de uma política cultural regida pelas leis de mercado -exemplificada pelas leis de renúncia fiscal que beneficiam os grandes empresários através da isenção de impostos, garantindo assim a divulgação de suas marcas e construindo um capital simbólico a um custo muito baixo. Desde o início do período de “redemocratização” pós ditadura civil-militar boa parte da decisão sobre a produção cultural está nas mãos dos departamentos de marketing de empresas privadas ou de capital misto (como a Petrobrás), principalmente através da lei Rouanet. Poucos foram os projetos de socialização e democratização do acesso à produção e fruição dos bens simbólicos implementados pelos governos que se seguiram ao período da ditadura brasileira.

Embora reconhecendo diferenças de tratamento, a criação de programas e editais mais democráticos e a abertura para o diálogo com a sociedade civil a respeito da construção de uma política de Estado para a cultura e as artes no Brasil durante os 13 anos de governo petista, também é preciso reconhecer que houve poucos avanços estruturais. Os programas e iniciativas destes sucessivos governos não se transformaram em leis que garantiriam a arte e a cultura como direitos sociais perenes; caminhou-se quase nada em relação aos processos de distribuição de verba pública através do Fundo de Nacional de Cultura e ao aumento de orçamento do Ministério da Cultura. Com o golpe de 2016, os trabalhadores da cultura, que já viviam em estado de precariedade, são brutalmente atingidos, em primeiro lugar, com a extinção do Ministério da Cultura e, depois de seu retorno por conta da pressão social, pela diminuição das verbas (que fica em penúltimo lugar entre as dotações dos ministérios) e a transformação do MinC em carcaça inútil, sem poderes, sem verba e sem voz ativa.

O aumento das perseguições políticas e dos ataques por parte dos setores obscurantistas e de extrema direita, porque eles sempre existiram!, representam a nova fase da luta de classes que o golpe de 2016 potencializou. Este recrudescimento da violência talvez se explique pela força criticadas manifestações culturais e artísticas, apesar das inúmeras formas de apaziguamento, apagamento e também de acomodação a que estamos submetidos.

ED: As peças de vocês tem como marca levar adiante conteúdo que expressa um posicionamento político claro. Recentemente houve a intervenção de uma pessoa do público contestando o caráter político do espetáculo que estavam apresentando. Conta pra gente um pouco como foi.

Kiwi: O dia da nossa estreia no Festival de Curitiba tinha sido bastante agitado. Na praça Santos Andrade acontecia um comício com importantes figuras da centro-esquerda e da esquerda brasileiras, finalizando a caravana de Lula pelo sul do país. Neste mesmo dia o deputado de extrema-direita Jair Bolsonaro chegava na capital paranaense destilando seu discurso calculado de ódio contra o PT, a esquerda, os comunistas e o povo oprimido.

Além disso, os acontecimentos recentes, como a continuidade do extermínio pela polícia de jovens negros e periféricos, o assassinato de mais uma liderança camponesa na luta pela reforma agrária, o sofrimento dado pela retirada de direitos sociais e trabalhistas e empobrecimento da população brasileira, a imposição da intervenção militar no Rio de Janeiro e o brutal assassinato da vereadora do Psol carioca Marielle Franco e do motorista Andreson Gomes, nos obrigavam, coerente com o histórico do nosso grupo, a nos posicionar de forma ainda mais direta e contundente contra estas violências.

Preparamos então um curto texto que seria lido no início da apresentação, como já fizemos em muitas outras ocasiões. Durante a apresentação do dia 28 de março, ainda no início da leitura desta lista terrível de acontecimentos, uma senhora do público levanta a voz para dizer que tinha comprado seu ingresso para ver teatro e não para ouvir política. A maior parte do público manifestou-se para que ela respeitasse o trabalho ou se retirasse. A leitura do texto foi finalizada e reafirmamos que, para nós, o teatro é também um espaço de assembleia, portanto, um espaço político.

Esta nossa manifestação inicial era coerente, e mesmo necessária, levando em conta o trabalho cênico proposto. “Manual de autodefesa intelectual”, como o título da peça indica, pretende revelar mecanismos que levam à credulidade e à mistificação na sociedade contemporânea (discutimos da mídia hegemônica às religiões, passando pela publicidade, ciência, filosofia etc.) a fim de abrir um espaço para o pensamento crítico informado.

Um advogado presente na apresentação de Curitiba, José Carlos Portella Jr., descreveu assim o ocorrido: “A peça tratou justamente disto: como a direita usa de paralogismos e pensamentos circulares para estruturar um discurso de pura falácia e justificar todo tipo de violência real e simbólica contra quem eles entendem que merece desaparecer ou perecer.” O que a senhora (ou cliente, como ela mesma se denominou) que se manifestou contra o debate de questões sociais no teatro e tentou calar nossa voz não percebeu é que ela também estava ali fazendo política! De forma autoritária, típica de uma relação mercantil brutal (”Eu pago e faço o que eu quero!”), esta senhora queria ”consumir” um teatro que correspondesse à sua visão de mundo. Ou ainda, um teatro que a fizesse esquecer o mundo, entrando no espaço da fantasia e da ideologia narcotizante (como se pode ver em algumas telenovelas e no telejornalismo das grandes emissoras de TV).

Na “sociedade do espetáculo”, como denunciava Guy Debord, onde a ficção, a ilusão e a espetacularização da vida são os motores de uma realidade criada pelos donos do poder para controlar toda possibilidade de rebeldia, libertação e construção de uma sociedade justa e igualitária, talvez caiba à arte a tarefa de colocar o real em cena, com os recursos da arte, para desvendar os mecanismos da opressão e da dominação sociais.

ED: Diante desse cenário, pensam que os coletivos e artistas que pretendem uma arte revolucionária e anticapitalista devem se posicionar? Nos últimos anos, sobretudo o teatro , tem levantado bandeiras como “arte não é mercadoria” e “trabalhadores é hora de perder a paciência”. Se há uma bandeira para ser hasteado hoje, qual é?

Kiwi: Diante da tragédia do capitalismo e, em especial, do atual regime antidemocrático que se instalou a partir do golpe de 2016, não só o teatro mas todos os setores sociais que lutam por democracia e pelos direitos sociais da população brasileira tem, mais do que resistir, apresentar-se de corpo presente na luta diária, organizar-se coletivamente e construir uma proposta de esquerda e popular para o país. O governo que aí está é um representante de forças que há séculos estão dando as cartas não só nestas terras, mas em toda a América Latina. Latifundiários, banqueiros e especuladores do mercado financeiro, industriais e empresários que compram políticos e controlam o Estado, a cúpula da Igreja católica (que inicialmente apoiou a ditadura civil-militar de 1964, não esqueçamos!), as Igrejas pentecostais que vendem o alívio às dores do povo pelo preço da alienação política, a grande mídia oligárquica, estes são alguns dos nossos alvos. É a este sistema brutal e desumanizador que não podemos nos curvar. Algumas lideranças populares nas favelas cariocas tem como bandeira hoje “manter-se vivos”. É nossa obrigação militante não morrer e não deixar que matem nossos companheiros e companheiras que lutam por dignidade e justiça. É também nossa tarefa não deixar que morra a solidariedade entre os oprimidos e a crença de que outra sociedade é possível.

Para terminar esta reflexão deixamos aqui as palavras de uma grande figura, combatente dos mais lúcidos e queridos dos últimos tempos:

“Como se reconhece nosso contemporâneo, o homo resignatus? Como se reconhecem nossos políticos bem moderados, os da direita do centro, da direita recentrada, assim como os da esquerda do centro, da esquerda recentrada? Como se reconhecem nossos intelectuais domésticos, especuladores da Bolsa ousados durante o dia e pregadores moralizantes durante a noite?

Por seus joelhos esfolados de tantas ajoelhações e genuflexões diante dos novos fetiches e dos velhos ídolos! Por suas costas curvas de tantos sapos engolidos e reverências vergadas diante do altar dos mercados! Por seu sangue gelado e por sua impassibilidade anfíbia diante da ordem impiedosa das coisas! Por sua soberba indiferença, de tantos acomodamentos e tantas renúncias consentidas!

Por que nós, que jamais fomos verdadeiramente modernos, deveríamos acordar de repente pós-modernos? Por que nós, que jamais fomos indiferentes, deveríamos nos descobrir de repente cínicos? Por que nós, que jamais renunciamos a rir de tudo – mas não com qualquer pessoa -, deveríamos a partir de agora nos contentar em zombar de nada?

Além da modernidade e da pós-modernidade, resta-nos a força irredutível da indignação, que é exatamente o contrário do hábito e da resignação. Mesmo que ainda se ignore o que poderia ser a justiça do justo, resta a dignidade e a incondicional recusa da injustiça.

A indignação é um começo. Uma maneira de se levantar e de entrar em ação. É preciso indignar-se, insurgir-se e só depois ver no que dá. É preciso indignar-se apaixonadamente, antes mesmo de descobrir as razões desta paixão. Estabelecer-se os princípios antes de serem calculados os interesses e as oportunidades.”.

Os irredutíveis – Teoremas da resistência para o tempo presente, Daniel Bensaid.

E, em homenagem à cidade de Curitiba:

"Me enterrem com os trotskistas na cova comum dos idealistas onde jazem aqueles que o poder não corrompeu. Me enterrem com meu coração na beira do rio onde o joelho ferido tocou a pedra da paixão."

Paulo Leminsk

Para saber mais e acompanhar a agenda, acesse: http://www.kiwiciadeteatro.com.br/

 
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