www.esquerdadiario.com.br / Veja online / Newsletter
Esquerda Diário
Esquerda Diário

Martes 25 de Septiembre de 2018
06:31 hs.

Twitter Faceboock
A FORMA DA ÁGUA / G DEL TORO / SUBJETIVIDADE HUMANA
Del Toro: onde está a “origem do mal”?
Gilson Dantas
Brasília
Ver online

Autor do premiadíssimo A forma da água, Guillermo del Toro concedeu uma entrevista onde a “asfixiante uniformidade institucional” e outros elementos que conformam a moderna sociedade capitalista são fustigados.

Mesmo o seu tom sendo conciliador, mesmo sem consciência mais profunda sobre a “raiz do mal” ou da miséria das relações sociais e humanas reinantes, alguns insights do diretor mexicano merecem destaque pela reflexão que provocam em torno do tema: que sociedade é esta, reprodutora da solidão, da opressão contra quem pensa ou ama diferente, da discriminação e da miséria social e subjetiva?

As relações sociais dominantes não o convencem. Ele argumenta que, muitas vezes, “o monstro” ou o diferente é o mais humano do elenco, e aquele que deve ser reivindicado “diante da asfixiante uniformidade institucional”; e que ninguém torce pelos aviões que atacam o gorila King Kong.

Perguntado sobre tanta maldade, violência e deformações nas relações humanas reinantes, portanto sobre a origem do mal, e também sobre a relação indivíduo-coletividade, sua resposta:

“A coletividade pode existir sem instituições no meio. Uma família cujos membros vivem em separado, mas com a vontade de permanecerem unidos, é uma grande família”. Em seguida critica a unidade das instituições [conservadoras], que agrupam as pessoas pela ideologia [conservadora]: “O Exército, a Igreja, a Escola e a Família são estruturas que se unem e se sustentam mutuamente não pelo desejo de cada um de seus membros, mas por ideologias. E a ideologia é a morte do pensamento”. [Grifo nosso]

E a origem do mal? Sua resposta: “O caldeirão da maldade está na infância, com raras exceções. Se pudéssemos evitar em uma geração, só uma, os maus-tratos e a incompreensão, o mundo mudaria. A violência espiritual, física e moral que a família exerce à criança é o germe do horror”.

“O sonho americano – diz ele – jamais se realizou”.
E retoma a ideia que ele plasmou no seu filme A forma da água: “O que nos move à ação é a empatia. Em quase todos os meus filmes cada ser é incompleto em separado. Quando nos unimos nos completamos. A união leva à auto-aceitação e dá força aos diferentes, que, por sua condição, são invisíveis ao mundo”.

Daí em diante, na entrevista, quando se trata de abrir perspectivas ou de dar um passo adiante na questão da “origem do mal” ou do que fazer, Del Toro se perde. “A mudança virá das pessoas, dos políticos só podemos esperar politicagem”.

Não vê futuro na política dominante, burguesa, no que está correto, mas tampouco localiza o sujeito para romper com o círculo de ferro em que somos obrigados a viver dentro da sociedade burguesa: classe trabalhadora em movimento. Justamente a chave coletiva para a perspectiva comunista. Com a qual Del Toro sonha – sem dar nome aos bois – quando assume que podemos viver sem ideologia conservadora e sem instituições conservadoras, que não necessitam delas, que são instrumentos de opressão e deformação.

Cheio de razão ao denunciar que o pensamento institucional [burguês] e sua ideologia são conservadores, são a morte do pensamento, do verdadeiro afeto pelo diferente e da emancipação humana, denuncia o horror dominante, mas sem a clareza, portanto, de como superá-lo em chave revolucionária, comunista.

Qual a origem, de fato, e em que se sustentam as relações de opressão e a mesquinhez e poder de castração da família? Não é sua pergunta.

No entanto, sua sensibilidade para o problema transparece em sua obra artística inconformista.

Sua denúncia das relações sociais reinantes, imperiosas, em especial as da família dominante, é uma interessante combinação de W Reich e S Freud, apenas para citar alguns pilares da denúncia da miséria familiar reinante como fábrica de neurose, manipulação, abuso de fraqueza e do mais frágil ou, nas suas palavras, “fonte de violência espiritual, física e moral”, como “germe do horror”; Freud diria: do narcisismo, do egoísmo, da posse e vampirização de seres humanos vulneráveis.

E por fim a imagem magistral: “me deem uma, apenas uma geração sem maus-tratos e incompreensão” e o mundo mudará. E nós começaremos a mudar.

Ou, na nossa perspectiva: conquistemos relações sociais onde, para além da família [que é consequência dialética e reprodutora das relações capitalistas imperantes] sejam quebrados os mecanismos que nos separam, nos dilaceram e são a base estrutural de uma ideologia que sempre vem renascendo e engessando a subjetividade. O primeiro desses mecanismos: a exploração capitalista, a posse privada dos meios de produção, a classe trabalhadora expropriada da sua condição de sujeito social e político.

Não pode ser saudável uma sociedade onde quase um milhão de pessoas se suicidam por ano [incluindo os países sem burguesia, mas onde quem controla e usufrui do Estado é uma casta política burocrática]. Não se pode continuar culpando e medicalizando o próprio indivíduo por ser depressivo: mesmo tendo base em cada história familiar/individual, mas onde está a raiz dessa epidemia de suicídios [só no Brasil uma pessoa se mata a cada 45 minutos] senão nas relações sociais? Como as pessoas mais sensíveis podem ser saudáveis psicologicamente quando suas escolhas não são suas escolhas? Como não lutar por uma sociedade onde a igualdade de oportunidade e a diferença individual sejam respeitadas?

Esse é o nosso sonho, o sonho de todo revolucionário consequente, comunista. O sonho de que se nós entramos em ação, como revolucionários, se a classe operária se levanta, derrocando o capitalismo, liquidando a opressão, a concorrência que somos obrigados a viver para “ganhar o pão”, a família pequeno-burguesa compulsória, as relações de produção dominantes, o mundo começará a mudar.

Artistas, como o cineasta de A forma da água, podem captar esse clima individualista, reificado.

É seu melhor papel: a partir de determinada sensibilidade, o artista aspira superar uma vida que sua percepção capta como asfixia da emancipação e da diferença.

O comunismo encontra a forma para sua superação; na própria realidade.

Ou seja, a aspiração do artista, de que “unidos nos completamos”, de que o “caldeirão do mal” ou o “germe do horror” são as relações sociais e ideológicas impostas, é uma “aspiração do real”, do movimento do real.

Cabe a cada revolucionário desenvolver de forma consciente, com o programa da revolução proletária, para que esse objetivo agora consciente, comunista, possa se realizar; mas não vindo de fora [a divindade, o destino] nem de qualquer wishfull thinking utópico, e sim a partir das entranhas dessa mesma sociedade deformada. O novo que arrebenta e brota do velho. Que arrebente com essa nossa pré-história, onde ainda temos que viver, onde o sistema precisa matar o pensamento, deformar cada geração para preservar a acumulação do capital, matar a humanidade para preservar a mercadoria, a coisa e, no limite, deformar e castrar, por exemplo, a infância, em prol do fetiche da mercadoria e da posse de pessoas.

[Fonte da entrevista: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/02/cultura/1514913445_655632.html]
[Crédito da imagem: www.politicasite.com/guillermo-del-toro-forma-da-agua ]
Wishfull thinking: expressão que significa pensamento desejoso.

 
Izquierda Diario
Redes sociais
/ esquerdadiario
@EsquerdaDiario
Subscreva-se com uma mensagem de Whatsapp por seu celular
+(19) 981967381
contato@esquerdadiario.com.br
www.esquerdadiario.com.br / Avisos e notícias em seu e-mail clique aqui