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Lunes 28 de Mayo de 2018
05:09 hs.

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JOGOS DE INVERNO E AS CORÉIAS
Jogos Olímpicos, geopolítica e crise na península da Coréia
Claudia Cinatti
Buenos Aires | @ClaudiaCinatti

Nesta sexta-feira foram inaugurados os Jogos Olímpicos de Inverno na Coréia do Sul. Por trás do cenário esportivo se esconde a geopolítica da crise e o risco de uma guerra, convencional ou nuclear, na península coreana.

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No dia 9 de fevereiro foram inaugurados os Jogos Olímpicos de Inverno no gélido condado de Pyeongchang, na Coréia do Sul. Está obviamente o atrativo da competição esportiva, mas por trás está a cena geopolítica dos jogos, que leva por agora grande parte da atenção internacional. Não é para menos, já que nos últimos meses um dos esportes favoritos dos analistas é calcular a porcentagem de risco de uma guerra, convencional ou nuclear, na península coreana, em que estarão envolvidos nada menos que Estados Unidos, China e Rússia.

O governo de Trump está em uma cruzada para aumentar a pressão sobre o regime norte-coreano de Kim Jong-um, que no último ano mostrou avanços significativos no desenvolvimento do armamento nuclear. Até agora, a política de apertar a China para que discipline seu aliado díscolo norte-coreano, não deu resultados. A administração Trump se debate no dilema entre lançar ou não um ataque militar seletivo. Como a certeza dos custos por hora lhe vem ganhando a partida às probabilidades de êxito da operação, há uma relativa paralisia na ação, ainda que abundem as ameaças verbais respaldadas por uma acumulação de meios para a guerra e um endurecimento das sanções econômicas.

“Uma vez mais ficou exposta a debilidade da liderança norte-americana que não pôde impedir que a Coréia do Sul tivesse sua própria política em relação o Norte”

A delegação da equipe unificada da Coréia do Norte e da Coréia do Sul, no momento de começar o desfile

Neste marco, a política de distensão do conflito com o Norte, que teve o presidente sul-coreano Moon Jae-in, não resultou funcional aos interesses de Washington. Uma vez mais ficou exposta a debilidade da liderança norte-americana que não pôde impedir que a Coréia do Sul, um de seus aliados na região, tivesse sua própria política em relação o Norte. Como se sabe, as duas Coréias decidiram participar sob a bandeira da unificação nos jogos com certo aspecto de sobreatuação, que Kim Jong-un soube aproveitar para projetar o escasso “soft power” do regime autoritário e militarista que preside. Ambos os países integram equipes comuns em algumas categorias, como o de hóquei no gelo feminino. Kim enviou cerca de 230 líderes de torcida que acompanham seus atletas, cuidadosamente selecionadas em um casting de beleza entre as estudantes dos setores mais acomodados da burocracia governante. Inclusive, não é a primeira vez que o regime norte-coreano utiliza esta “diplomacia do batom”, uma amostra sem dúvidas do sexismo estatal.

Mas mais além da nota de cor, o mais significativo é o alto nível da delegação oficial da Coréia do Norte, que inclui a Kim Yo-jong, a influente irmã mais nova do líder Kim Jong-um, que forma parte do escritório político, em que se nucleia o mais seleto do regime.
É a primeira vez que um membro da família dos Kim, que já vão pela terceira geração no estado norte-coreano, cruza a fronteira blindada com o Sul.


O que se joga cada um nesta olimpíada geopolítica?

Os Estados Unidos enviou o vice-presidente Mike Pence. Para mostrar seu desacordo com a política de esfriamento da Coréia do Sul, viajou acompanhado pelo pai de Otto Warmbier, um estudante norte-americano que estava viajando e foi detido em um campo de trabalhos forçados na Coréia do Norte, acusado de espião, morrendo pouco depois de chegar em coma aos Estados Unidos. Este senhor já tinha tido seu minuto de fama quando foi nomeado por Trump no discurso do Estado da União.


O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, a poucos metros da irmã do líder norte-coreano.

Antes de aterrissar em Seul, o vice-presidente Pence passou pelo Japão, onde anunciou que nos próximos dias seu governo anunciará a ronda mais dura de sanções econômicas contra a Coréia do Norte e reafirmou que a política estadounidense é seguir isolando o regime norte-coreano, em aberta oposição à virada em relação à reaproximação de Moon Jae-in.

Os objetivos da Coréia do Norte são, pelo menos à primeira vista, bastante transparentes, entre eles debilitar a frente de aliados dos Estados Unidos e perfurar a couraça das sanções e o isolamento internacional. Melhorar a má imagem internacional, construída sobretudo pela demonização do ocidente, ainda que o regime norte-coreano tenha seus próprios méritos em relação a isso. Sua estratégia é ser reconhecido de fato como um estado nuclear e sair do papel de vilão que os Estados Unidos o condenou.

“Tanto à China, como à Rússia, a postura ‘pacifista’ das duas Coréias as favorece, porque deixa exposta a agressividade do imperialismo norte-americano”

A China outra vez deixou correr. Faz tempo que não lhe resulta funcional a aliança com a Coréia do Norte, ainda que siga sendo um tampão para deter o avanço norte-americano em sua zona de influência. Tanto à China, como à Rússia, a postura “pacifista” das duas Coréias as favorece, porque deixa exposta a agressividade do imperialismo norte-americano. Para os bons entendedores, além disso, sempre lhes convém a exposição da debilidade dos Estados Unidos, neste caso com a ação relativamente independente da Coréia do Sul, ainda que só dure o que duram os Jogos Olímpicos.

“Quando se apague a tocha olímpica, a península coreana seguirá sendo um dos locais mais perigosos do planeta”

A pior parte é levada pela Coréia do Sul, que deve se equilibrar entre as estratégias contraditórias das grandes potências e seu vizinho do Norte. É um aliado dos Estados Unidos, que tem estacionada uma importante quantidade de tropas e armamentos. Ambos realizam exercícios militares regulares nas proximidades da Coréia do Norte. Mas tenta melhorar suas relações comerciais e políticas com a China. Com a chegada do centro-esquerdista Moon Jae-in ao governo, se reabilitou a política de aproximação com o Norte, alternada com a adesão ao guerrerismo norte-americano.

Em qualquer cenário de enfrentamento militar, será o campo de batalha, os mísseis do Norte apontam contra Seul, podendo alcançar sem dúvidas. Ou seja, no caso de que Trump opte por dar “o golpe no nariz” no regime de Kim, se decidindo por um ataque militar limitado, os mortos da aliança ocidental serão da Coréia do Sul. Disso surge seu interesse de diminuir o conflito.
O dilema da Casa Branca é que deverá escolher entre opções arriscadas, entre as quais se inclui também o risco de não atuar. Por isso, quando se apague a tocha olímpica, a península coreana seguirá sendo um dos locais mais perigosos do planeta, onde a probabilidade de um acidente geopolítico segue ocupando o lugar mais alto do pódio.

 
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