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Jueves 19 de Septiembre de 2019
20:47 hs.

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POLICIAMENTO “JAPONÊS” NA UNICAMP
Policiamento japonês e "Campus Tranquilo" ou universidade viva e aberta?
Cássia Silva
estudante de Ciências Sociais na Unicamp e militante da Faísca
Vitória Camargo
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Nesta semana, como publicamos aqui , o Secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre Moraes, declarou que as universidades estaduais paulistas devem adotar, a partir de setembro, o modelo japonês, conhecido como Koban, de "polícia comunitária". Segundo o modelo, o policiamento estaria mais voltado à prevenção e às especificidades de cada comunidade e teria como objetivo atender simultaneamente aos interesses dos estudantes, dos funcionários e do corpo docente das universidades.

Enquanto na USP a proposta tem como objetivo aparente o reforço contra os casos recentes de furtos, assaltos e, principalmente, estupros no campus, na Unicamp, poderá ser somado ao programa intitulado de "Campus Tranquilo" da Reitoria. O Campus Tranquilo foi a “resposta” da reitoria ao assassinato do estudante Denis Casagrande, em 2013, após ser derrotada em seu intento de afirmar um convênio com a Polícia Militar, devido a uma grande negativa da comunidade acadêmica e pela organização dos estudantes, que ocuparam a reitoria contra essa medida. Além de mudar os uniformes da guarda universitária e aumentar sua circulação, também fez com que a universidade passasse a desenvolver mais atividades culturais, cumprindo seu suposto tripé: “Prevenção, informação e convívio”. Na USP, que firmou convênio com a PM desde 2011, e na Unicamp os “programas de segurança” não significaram a redução das situações de violência nos campus. Na USP os casos de roubos e assaltos aumentaram em mais de 5% e, recentemente, uma estudante foi estuprada na praça do relógio. Nesse primeiro semestre na Unicamp, nos arredores do campus Barão Geraldo e da moradia estudantil, ao menos dois casos de estupros foram registrados, bem como uma sequência de denúncias fizeram relembrar a onda de estupros do ano de 2011. A discussão de “segurança” colocada pelas reitorias paulistas tem como objetivo fundamental preservar a universidade de elite, manter longe a população que já não possuí qualquer direito nesses centros “de excelência” bem como desarticular os estudantes e setores da universidade que querem combater seus projetos privatistas.

A reitoria da Unicamp, aliada à AMOC (Associação de Moradores da Cidade Universitária), da qual fazem parte também professores e funcionários do alto escalão da burocracia acadêmica, tem empreendido também, ora de forma aberta, ora velada, uma perseguição sistemática às festas e atividades promovidas por vários CAs (Centros Acadêmicos). Assim, ao mesmo tempo em que, na formulação do projeto, mostra-se a favor da vivência na UNICAMP, na prática, valendo-se até de um discurso que culpa e rechaça a presença da população de Campinas que não tem acesso cotidianamente ao campus, a reitoria age contrariamente à articulação das entidades pela ocupação do espaço da universidade, que deveria ser público.

Desse modo, esse novo modelo de policiamento viria para reforçar o projeto de universidade que a reitoria tem tentado implementar, de uma universidade a serviço da produção para as grandes empresas, que é estruturada sobre a terceirização do trabalho de centenas de mulheres negras e na qual não há lugar para a imensa maioria da juventude. No lugar de promover a abertura do campus à comunidade, por meio de arte, cultura e de possibilitar maior acesso ao conhecimento produzido nos institutos - por uma minoria, que deve passar no filtro social que é o vestibular, e dirigido ao lucro das empresas -, o maior policiamento intensifica a dicotomia universidade-população. Maior policiamento, "de prevenção", japonês, significa um aumento do abismo que já existe entre a Unicamp e a população de Campinas.

Marie Castaneda, coordenadora do CACH, relembrou a luta dos estudantes contra a presença da Polícia Militar no campus em 2013: “Paramos 48 cursos da UNICAMP para expulsar a Policia Militar do Campus. Desde então continuamos organizando festas em resistência à universidade fechada e esvaziada da Reitoria. São festas políticas que visam não só promover a vivência no campus em combate ao produtivismo que serve às patentes e pesquisas das multinacionais, mas também abrir as portas da Unicamp para a população e juventude da cidade, através dos espaços artísticos e culturais.

Marie complementou: “Pouco antes das férias de julho, as diretorias de alguns institutos chamaram os centros acadêmicos que haviam promovido atividades culturais e, em coro com a Reitoria, buscaram ameaçar aqueles que estão contra que a Universidade esteja cada vez mais afastada da população. No IFCH, o CACH foi chamado para uma reunião com o diretor do Instituto, professor Jorge Coli, que apresentou fotos tiradas pela segurança do campus e afirmou que é um absurdo encher o instituto com milhares de pessoas, que não era político, mas sim barbárie. Assim como travamos com força o debate sobre vivência desde 2013, seguiremos em luta pela vivência e, inclusive, organizando atividades culturais que combatam as opressões, papel do qual a reitoria se omite. Chamaremos na volta às aulas os centros acadêmicos e estudantes para construirmos grandes espaços de vivência.”

Espaços vivos, com circulação de pessoas, estão sendo cada vez mais cerceados com a presença da polícia, seja militar ou civil. Um exemplo disso são as próprias UPPs nos morros cariocas, em que, cada vez mais, morrem pretos pobres na mão da polícia "pacificadora". Na Unicamp, os espaços dos estudantes e da população sofrerão um ataque certeiro com uma maior inserção da polícia no Campus, bem como nossa liberdade de manifestação política, com o objetivo de superar o elitismo, para que a universidade sirva à classe trabalhadora Festas produzidas com um teor político, de ocupação do espaço público, por exemplo, serão ainda mais perseguidas. Esse projeto também vai à contramão do combate às opressões, a partir do esvaziamento do campus, dado que a polícia não só não garante a proteção dos setores oprimidos, como, muitas vezes, torna-se omissa ou mesmo agente da opressão.

Os espaços que nós, estudantes da Unicamp, queremos ocupar estão cada vez mais ameaçados, e o conhecimento produzido aqui se volta mais acirradamente para a indústria. A Unicamp, definitivamente, não pode ser mais vista pela comunidade como apenas um hospital. Aqui temos cultura, arte e tecnologia, que devem, sim, servir à população e à classe trabalhadora.

Que não sejamos policiados e vigiados para preservar a elite em uma universidade fechada, mas que nos voltemos à comunidade ao nosso redor!

 
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