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Martes 16 de Enero de 2018
15:49 hs.

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CRÔNICA
Todo vagão tem um pouco de navio negreiro
Caio Afonso

"Morando longe do trabalho: todo vagao tem um pouco de navio negreiro". Trazemos aqui a crônica enviada por um trabalhador para nossa mídia. O Esquerda Diário é uma mídia militante, que está ao lado da luta dos trabalhadores, contra os patrões, contra os políticos capitalistas e a direita, para que possamos ter outra vida, lutando contra o capitalismo. Envie denúncias, crônicas do seu local de trabalho, de sua cidade, do transporte, da saúde, da educação. Escreva para o inbox da página.

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Celular, fone de ouvido, livro, palavras cruzadas, sono. Cada pessoa tem sua estratégia pra tentar suportar a hora da condução. É uma questão de sobrevivência, de sanidade mental, conseguir transformar esse tempo morto em algo minimamente útil ou prazeroso.

No meu caso sei que deveria tá estudando. Só que hoje finalmente consegui sair de casa mais cedo, quero dizer ainda mais cedo, pra conseguir fazer a viagem contrária e ir pro trabalho sentado. Meu amigo que trabalha no metrô me disse que eles chamam isso de “viagem negativa” – aquela coisa, quando a piada já vem pronta. Na minha cidade é bem comum. Como é uma das últimas da linha, as pessoas voltam uma estação e aí dá pra gente ir sentado.

É só assim pra conseguir ter algum conforto. A minha cidade ainda é a segunda estação, depois que passa a terceira irmão, abraço. Daí em diante, conseguiu entrar agradece. Uma vez vi um pixo no trem, “todo vagão tem um pouco de navio negreiro”. Se você for parar pra pensar, é isso mesmo. Mão de obra. É isso que a gente é, todo mundo aqui nesse vagão. É por isso que a gente suporta esse aperto. Por causa das contas pra pagar.

É difícil mas essa é a rotina de quem mora longe. Acordar cedo, cada vez mais cedo, é uma necessidade. Eu acabei de começar no trabalho, ainda tô em fase de experiência. Noventa dias assim, posso ser demitido sem mais nem menos. Então é bom não dar motivo. Por isso tô acordando meia hora mais cedo por garantia. Só pra garantir. Depender do transporte público atual significa tá sujeito a um efeito bola de neve. As vezes você tá no seu horário, mas o trem precisa parar pra “aguardar movimentação do trem à frente”, e depois no metrô acontece de ter “usuário na via”. Tá cada dia mais comum, acho que o suicídio e a crise andam junto de certa forma.

Não quero perder esse emprego. Na real, não posso perder esse emprego. Em casa é só minha mãe, e já passou da hora de eu ajudar a véia. Não é o emprego dos sonhos. Nem de longe. Seis dias por semana, seis quase sete horas ao dia logado num sistema, recebendo ligações. Pausa lanche, 20 minutos, e duas pausa dez. É isso, só o que tem.

Antes dele fiz várias entrevistas, mas quando falava onde morava percebia as coisas desandarem. “Você não acha que é muito longe?” - eu acho sim, mas qual a opção se na minha cidade não tem emprego? “É tranquilo. Todos da minha cidade costumam trabalhar por aqui”. “É que minha questão aqui é também a sua qualidade de vida” - sei, depois do dinheiro do vale transporte e do meu rendimento pode até ser.

Com o tempo você entende. Da minha casa até o trabalho, são 3 conduções que eu pego. Nunca vi nenhuma empresa que pagasse mais que o valor da integração. Mas já vi empresa que pagasse menos. Pra conseguir o emprego, tive que omitir uma das conduções. A terceira passagem sai do meu bolso, e ela acabou de aumentar.

Lembro das aulas de história. A campanha dos trabalhadores, todo o movimento que se fez pela redução da jornada de trabalho. Oito horas de trabalho, oito horas de lazer, e oito horas de descanso. Fico pensando, onde se encaixam minhas 4 horas de transporte todo dia?

As aulas de geografia também me vêm em mente. Cidades dormitório. Lembro quando o professor apresentou esse conceito. Assim dessa forma. A palavra cidade vindo ligada a palavra dormitório. Estranhei. Até então pensava cidade como algo múltiplo. Pra mim uma cidade deveria ter educação, saúde, lazer, cultura e emprego. Como uma cidade pode ser reduzida a dormitório?

Sem emprego, sem lazer, sem cultura, e nem saúde ou educação. Quem mora lá já tá ligado, pra qualquer coisa o jeito é se deslocar pra São Paulo. É um fato. Todos trabalham fora, alguns optam desde cedo por estudar também, médico e hospital se você não quiser se arriscar também é bom buscar fora. Lá é bom de viver, sossegado, mas não tem trabalho. Só que não dá pra sobreviver sem trabalhar. Como faz?

 
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