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Sábado 22 de Septiembre de 2018
17:24 hs.

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A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ NOTA N.8
Por que a economia capitalista necessita transformar prosperidade em crise e destruição de forças produtivas?
Gilson Dantas
Brasília
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O porquê das crises na economia mundial

Qualquer narrativa preliminar da história da moderna economia mundial revelará uma sucessão de instabilidades, um processo que alterna prosperidade e crise.

Ou seja, a cada fase de prosperidade se sucede uma crise (interrupção, queda) nos investimentos privados, um agravamento agudo do desemprego, tudo isso seguido de um período de recessão (ou mesmo de depressão, um tipo de recessão qualitativamente bem mais profunda).

Isto tem sido assim desde o século XVIII, do capitalismo concorrencial, até os dias atuais. Mudam formas, profundidade, extensão geográfica da crise, país-sede ou país que desencadeia a crise mundial, assim como a periodicidade das crises, mas invariavelmente a prosperidade é seguida da crise, e, nesta, crédito e investimentos privados encolhem e a calamidade social se instala. Certamente, em tempos do imperialismo, o processo assume uma qualidade distinta, superior, de proporções mundiais e com amplas consequências nas esferas política, interestatal e da luta de classes. Lenin foi o autor que demarcou bem essa mudança qualitativa.

Economia mundial deveria ser pensada nesses marcos. Não é, portanto, razoável pensar a economia mundial e, ao mesmo tempo, desconsiderar ou relativizar o problema das crises.

Este paradoxo da crise que surge da prosperidade econômica, é próprio do capitalismo, mas não das economias anteriores a ele, nas quais, as crises eram de escassez (e onde a catástrofe social ou ambiental é que interrompia a produção e gerava a escassez, a sub-produção).

[Esta calamidade social do nosso tempo se dá nos marcos de um paradoxo tipicamente capitalista: em meio à fartura de mão de obra e de plantas industriais e equipamentos parados e ociosos numa ponta e carências sociais maciças a serem atendidas na outra ponta; mas que, para o capital, não representam demanda solvável].

Ou seja, em outras épocas históricas – em outros modos de produção – a catástrofe gerava a crise, agora é o contrário.

Estamos, portanto, diante de um fenômeno completamente novo: um tipo de crise que vem a ser característico da economia capitalista e mais marcadamente nítido e grave quando esta economia toma conformação internacional, imperialista.

Tais crises surgem da própria economia, de uma economia que até a véspera funcionava ‘normalmente’, sob certo equilíbrio macroeconômico e que, de forma aparentemente brusca, repentina, mergulha na catástrofe, com fábricas que funcionavam normalmente, que produziam roupas, calçados, alimentos e, que repentinamente, interrompem a produção e lançam massas humanas no desemprego e na miséria.

[Falar em equilíbrio, nesse contexto, somente pode ter o significado de equilíbrio instável, de um sistema que só pode viver, em outras palavras, sob desequilíbrio dinâmico, no argumento de Shaikh (2007), e como veremos depois e, sobretudo na explicação de Trotski (1999)].

A primeira conclusão é, portanto, clara: tais crises de escassez são deflagradas por razões puramente econômicas. Não se trata de algum terremoto, cheia, epidemia ou guerra que mata parte da população. Dito de outra forma, na economia industrial capitalista, a catástrofe é lenta e silenciosamente construída pela própria economia e suas leis.

Mas é preciso ir mais longe e constatar um fato, por assim dizer, ainda mais chocante para o senso comum: as crises e a instabilidade econômica, não apenas se repetem (são recorrentes desde que existe o capitalismo) como constituem condição de sua própria sobrevivência. Tudo ao contrário, vale repetir, da história econômica anterior ao capitalismo.

Crise: uma necessidade da economia capitalista

Desde os estudos de Marx que se sabe que o sistema baseado na produção generalizada de mercadorias industriais alterna fases de crescimento a fases de interrupção na produção. A prosperidade tem um limite, dado internamente pelo próprio movimento da economia.

Das inúmeras crises que o capitalismo apresentou em sua história, todas surgem da prosperidade, surgem do crescimento. Se esta já era uma marca da Inglaterra, primeira nação destacadamente industrial e capitalista, também passou a ser, agora na era da economia capitalista mundial, uma característica da economia mundial.

Uma primeira consideração, neste caso, é a de que um sistema que fosse voltado para a produção de bens de uso (e não de mercadorias), e que, portanto, produzisse apenas aquilo que vai ser usado, não teria motivo para atravessar crises de paralisia da produção, como ocorre com o capitalismo (sociedade baseada na produção assalariada de mercadorias para o lucro) que produz sem o controle de qualquer plano.

A verdade é que cada capitalista produz para obter seu lucro. Não existe – como se tentou explicar em outra nota – um plano guiando a economia internacional, não há um corpo de planejadores que a organize e a conduza conscientemente.

Ou seja, primeiro se produz, de forma capitalista para o mercado, depois “as coisas” se ajustam, a produção e o mercado, se “juntam”. A crise surge quando se acumulam mercadorias e capitais diante de uma taxa de lucro que não cresce na mesma velocidade (na verdade, historicamente, torna-se decrescente).

Chega-se ao momento do ajuste, através da desvalorização de capitais, destruição de meios de produção, descarte de mercadorias. Temos aqui o auge da crise.

Aqui é essencial levar em conta uma característica crucial do capitalismo. Que é a seguinte: tomando-se o sistema capitalista de conjunto, faz parte da lógica do sistema que o próprio acúmulo de capitais fixos em máquinas e equipamentos, por exemplo, termine conduzindo a uma queda da rentabilidade, a um declínio da taxa média de lucro que é o elemento de fundo de toda crise importante do capital.

[Existe uma tendência secular à queda da taxa média de lucro. Quanto mais o capital é eficiente, quanto mais se tecnifica, mais tende a cair a taxa de lucro para a média dos capitalistas.

Para entender essa tendência do sistema a armar crises mais sérias quanto mais se moderniza, ver sobretudo O Capital (MARX, 1968), mas também se pode consultar GILL (2002), SANTÍN (1986), MANDEL (1972), ROSDOLSKY (2001), dentre outros. As notas regulares e atuais, de autores como Paula Bach, Esteban Mercatante, Juan Chingo, sobre a crise capitalista dos nossos dias são da maior importância [saem no Esquerda Diário].

Nesse caso, qual o processo básico formulado por Marx? Para permanecer de pé, o capitalismo precisa manter alta a taxa de lucro, mas ao produzir e vender cada vez mais riquezas, o valor da riqueza produzida vai sendo minado, já que ele será – o valor da riqueza, das novas mercadorias produzidas – cada vez menor; por conta de que o trabalho vivo será proporção cada vez menor do capital].

As crises, de superprodução de capitais (de superprodução de mercadorias que não são vendáveis, portanto), são reveladoras da existência de uma massa excedente de capital em relação à taxa de lucro que – foi argumentado – tende a decrescer. Instala-se um desequilíbrio mais grave, o qual a crise procura, de forma turbulenta e destrutiva, restabelecer. É preciso depreciar e queimar capitais, empresas, mercadorias e equipamentos, destruir para que os capitais restantes, mais centralizados, reconstituam a taxa de lucro. E desapareçam os valores produzidos em excesso.

Em outras palavras, a patronal – tomada de conjunto, e no seu funcionamento como sistema – precisa reduzir custos de mão-de-obra, precisa desempregar, descartar trabalho, achatar salários, queimar capitais. Caso contrário, em ambiente de baixa rentabilidade, o capital perde sua motivação para produzir, isto é, acumular mais-valia.

Não é demais reiterar: esta é a forma normal de sobrevida da economia mundial capitalista e as crises são aqueles momentos em que os capitais mais fracos quebram, fábricas fecham, o desemprego campeia, concentram-se os capitais, de forma que, ao final desta verdadeira catástrofe (social e econômica) a taxa de lucro suba e o capital, agora mais concentrado, encontre sua motivação essencial para continuar investindo e se acumulando (o que ocorrerá se ele encontrar a taxa de lucro).

Eis, portanto, a necessidade (e, ao mesmo tempo, para o sistema, o papel saneador das crises): acumulou-se capital em excesso em relação à rentabilidade, grandes massas de capitais que não encontram o ambiente lucrativo de que necessitam para seguir sua acumulação.

“A dificuldade crescente da valorização do capital se expressa finalmente em uma queda efetiva da taxa de lucro, lentificação ou detenção da acumulação, isto é, nas crises, na sobreprodução de mercadorias, sobreacumulação do capital e um crescimento da super-população relativa” (...). A crise começa em indústrias específicas, para propagar-se em seguida ao conjunto da economia. Pode ser desencadeada através de uma súbita derrocada, como a crise de 1929, através de quebras espetaculares e pânico na bolsa, e ser seguida por uma longa depressão da atividade econômica geral (GILL, 2002: 541).

[Continua na Nota n.9, brevemente no ED].
[Crédito de imagem: Блог форекс трейдера Андрея Малахова - Пентаграмма прибыли]

Referências:

GILL, Louis, 2002. Fundamentos y límites del capitalismo. Madrid: Editorial Trotta.
MANDEL, Ernest, 1972. Tratado de economia marxista, 2 volumes. México: E. Era.
ROLSDOLSKY, Roman, 2001. Gênese e estrutura de O capital de Karl Marx. Rio de Janeiro: EDUERJ/Contraponto.
SANTIN, J A Moral, RAYMOND, Henry, 1986. La acumulación del capital y sus crisis. Madrid: Akal.
SHAIKH, Anwar, 2007. Valor, acumulación y crisis. Buenos Aires: E Razón y Revolución.
TROTSKI, Leon, 1999. Naturaleza y dinâmica del capitalismo y la economia de transición. Buenos Aires: Ceip León Trotsky.

Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: {{}} acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas.

 
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