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Sábado 22 de Septiembre de 2018
17:35 hs.

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GLOBO DE OURO
Oprah presidenta dos EUA?
Celeste Murillo
Argentina | @rompe_teclas

Seu discurso na cerimônia do Globo de Ouro a transformou na “esperança feminista” e até mesmo em potencial candidata presidencial em 2020. O que há por trás do discurso de Oprah Winfrey?

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O discurso da popular apresentadora e empresária Oprah Winfrey na 75ª cerimônia do Globo de Ouro emocionou e gerou uma onda de simpatia nas redes sociais. Fãs e personalidades a colocaram no pedestal da “esperança feminista” e até mesmo como potencial candidata do Partido Democrata para desafiar Trump em 2020.
Diferente de outros anos, os discursos feministas estiveram no centro da cerimônia. Ainda no tapete vermelho, o Globo de Ouro esteve tingindo pela iniciativa do coletivo de atrizes que se somaram ao movimento #metoo e #TIMESUP e o com os discursos dos direitos das mulheres; de igualdade salarial, descriminação e da luta contra o assédio e a violência.

Seguindo o tom de um ano marcado pelo movimento de mulheres que teve variadas expressões ao redor do mundo, o Globo de Ouro de 2018 teve discursos como o de Elisabeth Moss citando a escritora Margaret Atwood disse “Fomos as que saiamos nos jornais, estávamos entre as linhas, no espaço em branco das histórias (...) Já não vivemos nas margens das histórias, somos as histórias, somos as linhas e escrevemos nós mesmas”.

Oprah: esperança feminista?

O discurso de Oprah Winfrey foi o momento culminante da cerimônia. A Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood lhe entregou o prêmio Cecil B. de Mille por representar um “exemplo a ser seguido pelas mulheres e jovens” e por “ser uma das mulheres mais influentes de nossos tempos”. Este prêmio tem um conteúdo profundamente político e foi escolhido para destacar personalidade a tom do momento. Foi o caso em 2017 quando foi entregue a Meryl Streep, um prêmio ao “feminismo Clinton” e ao movimento anti-Trump.

Este ano, quase como uma cobrança de uma fatura das críticas a este feminismo “demasiadamente branco” foi eleita Oprah, uma esfinge da elite negra que é apresentada como um exemplo do que é possível para que a comunidade negra dos EUA triunfe, ou, ao menos, para um setor desta comunidade. A escolha desta figura não pode ser vista de forma ingênua, a indústria cinematográfica não elegeu qualquer personalidade negra, escolheu uma mulher milionária e influente.

Seu emotivo discurso falou muito mais do momento ao redor dela do que dela mesma. “Em 1982, Sidney [Poitier] recebeu o prêmio Cecil D.DeMille justamente aqui no Globo de Ouro, e não é à toa que muitas meninas vêm como me converto na primeira mulher negra a receber esta mesma honra.” Em suas palavras não faltaram referências às mulheres que não tem o poder de levantar sua voz contra a opressão e a violência. A história de Recy Taylor, uma mulher negra que foi sequestra e estupra por 6 homens brancos em 1944. Os homens nunca foram condenados. Uma mostra potente da impunidade que esta sociedade garante para a violência machista. “Falar e dizer a verdade é a ferramenta mais poderosa que todos nós temos”, disse Oprah que se declarou “inspirada e orgulhosa das mulheres que se sentiram empoderadas para falar de suas experiências.”

Estas palavras despertaram a justa simpatia entre feministas e ativistas que, em nosso país, discutem e denunciam diariamente os discursos misóginos ou a ausência das reivindicações das mulheres nos grandes meios de comunicação.

O debate marcado pelo movimento #metoo faz parecer que “o importante” está no debate. Entretanto, ainda é difícil desmontar o silêncio que rodeia a violência cotidiana que sofrem milhões de mulheres, em sua maioria trabalhadoras e pobres. Violências que aparecem de formas mais naturalizadas pelos meios de comunicação, pelo establishment e pela própria indústria cultural que hoje se escandaliza com os assédios e abusos. Isso acontece porque a opressão e as diferentes formas de violência que sofrem a maioria das mulheres são funcionais e necessárias para manter o domínio de uma classe social que vive graças a exploração das jornadas intermináveis, das más condições e dos baixos salários destas mesmas mulheres.

Oprah, progressista ou porta-voz da meritocracia?

Por trás da emoção que seu discurso provocou, existe outro que foi mantido guardado durante os últimos 30 anos, sob as determinações do neoliberalismo, o qual Oprah é uma porta-voz. De fato, uma das pessoas que a apresentava a alguns meses como “a esperanças dos democratas” para 2020 a comparava com Donald Trump. Alguém que fez uma fortuna de 3 bilhões de dólares “sem controversas. Ela encarna o American Dream”. Não há controvérsia em atesourar semelhante fortuna em uma sociedade com milhões de pobres, onde a comunidade negra e as mulheres estão sub-representadas?

O programa de Oprah Winfrey move multidões. Seu talk show com histórias de vida e sua revista O especialmente dirigida às mulheres está repleta de frases e propostas para aguentar a vida em uma sociedade altamente competitiva, alienada e desigual. A revista “busca ajudar as mulheres a verem cada experiência e desafio como uma oportunidade de crescer e descobrir o melhor de si mesmas. Convencer as mulheres que o verdadeiro objetivo é se transformar em quem realmente querem ser”, assim “se sentiriam menos ansiosas emocionalmente e reduziriam o “burnout””.

A superação pessoal é a marca registrada de Oprah, assim como sua filantropia e sua empatia com a ansiedade e precarização que a vida na sociedade capitalista atual provocam. Frequentemente ela utiliza sua própria história para mostrar que é possível deixar a pobreza para trás e ter êxitos. Se a Oprah conseguiu por que não conseguiriam seus milhões de telespectadores? “Não se queixem do que vocês tem. Usem o que tiverem. Usar menos que o máximo do que lhe é dado, é um pecado. Cada uma de nós tem o poder da grandeza”. Janice Peck, fez um estudo do discurso de Oprah (compilado em The New Prophets of Capital), nele ela ressalta que o empreendimento de Oprah “é uma mistura de práticas ideológicas que ajudam a legitimar um mundo de desigualdade crescente e cada vez com menos possibilidades, [ela faz isso] ao promover e encarnar a configuração de si mesma como compatível com este mundo”.

Nos dias posteriores a cerimônia se escutram vozes que sonharam com uma Oprah argentina [ou brasileira, nota da tradução] e se lamentaram pela pobre atuação de nossa comunidade artística em casos de assédio como o ocorrido com a atriz Calu Rivero. Seria Oprah a porta-voz que precisamos para os direitos das mulheres?

O que afasta este discurso de “superar seus próprios limites” da meritocracia que nos injetam diariamente os ideólogos da direita “moderna” na Argentina, com a marca de Durán Barba ou a filosofia barata de Alejandro Rozitchner? Oprah é porta-voz de uma ideologia que convida a se adaptar a um mundo cada vez mais insuportável, especialmente para as maiorias. Trata-se do contrário das expectativas de transformar o mundo que muitas e muitos fãs de Oprah podem sentir. Não é por acaso que ela foi escolhida para falar para milhões de mulheres que suspeitam, com uma justa impaciência, da promessa de igualdade de gênero nesta sociedade que só pode oferecer esta igualdade a uma minoria.

Ilusórias ou reais, as possiblidades que Oprah seja candidata falam muito mais do desespero do Partido Democrata (que pela via de um ex-diretor da campanha de Obama disse que receberiam Oprah de braços abertos) e também da crise profunda no sistema bipartidarista dos EUA que já ficou evidente na última eleição presidencial, resultando na eleição de Donald Trump.

 
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