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Martes 25 de Septiembre de 2018
17:53 hs.

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MARXISMO
Plekhanov: um pioneiro na crítica literária marxista
Afonso Machado
Campinas

George Plekhanov é um clássico do pensamento marxista, inclusive no âmbito dos problemas estéticos. Certamente que enquanto pioneiro, suas trilhas seriam alargadas, corrigidas e até mesmo questionadas por outros marxistas. Afinal de contas, o Materialismo Histórico Dialético é um pensamento vivo, em constante movimento, sempre pronto a questionar-se, sempre pronto para reavaliar suas análises mediante às transformações da realidade histórica.

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O campo da crítica literária não é exceção, sendo que ela não pode viver de surdez dogmática: o que a crítica literária marxista necessita sempre é de agilidade conceitual para entender como a literatura participa da história. A crítica literária de caráter militante, exige que estudemos como a literatura foi concebida pelos herdeiros de Marx e Engels. No caso de Plekhanov , encontramos um pensador injustiçado: rótulos gratuitos como os de mecanicista ou biologista, feitos muitas vezes por gente que não leu suas obras, acabam por não fazer justiça às suas contribuições para tratar das questões artísticas; ainda que o autor russo incorra sobre mecanicismo, devemos avaliar seu papel original. Ele foi um dos grandes responsáveis por realizar através de livros, artigos e folhetos uma divulgação sistemática do pensamento de Marx e Engels, fazendo com que o marxismo fosse levado a sério na Rússia como movimento intelectual revolucionário, expressão dos interesses históricos da classe trabalhadora.

É fácil ter má vontade com Plekhanov: além de demonstrações de ortodoxia, o pensador russo foi um menchevique incorrigível, que não sacou as conquistas políticas/teóricas do bolchevismo de Lenin. Porém, isto tudo é suficiente para taxar a obra de Plekhanov como um zero na contribuição do pensamento materialista e militante? É preciso saber reler os clássicos. Obras como A Concepção materialista da História(1895) trazem uma sólida análise do legado filosófico de Marx, expondo que para o marxismo a história é a chave de todo conhecimento(economia, política, filosofia, arte etc). No tocante aos problemas estéticos, Plekhanov tentou dar um passo além na contradição entre autonomia da obra de arte e seu condicionamento social. O grande barato dos seus escritos sobre literatura e arte, mora numa ênfase sobre a interdependência entre arte e sociedade, entre literatura e luta de classes.

Enquanto crítico literário Plekhanov desmistificou o conceito de beleza, colocando-o na corrente sanguínea da história: formando um todo, uma unidade, forma e conteúdo não se separam nunca das determinações ideológicas de uma época. Todos os militantes marxistas deveriam ler obras como A Arte E A Vida Social(1912). Fazendo as devidas considerações sobre seus momentos de inflexibilidade, sobretudo na maneira por vezes determinista com que os fenômenos estéticos são encarados, o autor toca numa ferida política que muitos literatos procuram desviar como moscas mal humoradas: a arte é utilitarista ou um fim em si mesma? As respostas variam, inclusive hoje, nos meios marxistas. Plekhanov estabelece uma análise que não dá margem para a mera opinião do crítico fechado nas questões de gosto: a questão artística/literária não deve ser encarada a partir do que deveria ser, mas de acordo com o que ela é, ou seja, a arte somente pode ser entendida enquanto expressão de uma realidade social concreta.

A literatura integra-se a um processo geral de construção da história. Portanto Plekhanov é um autor que matou no ninho a doutrina escapista da arte pela arte. Segundo o autor: (...) “ A tendência da arte pela arte surge quando existe um divórcio entre os artistas e o meio social que os rodeia “(...). Enquanto crítico militante, ele sabia qual era a missão histórica da análise marxista no tocante à literatura: para o marxismo a arte contribui com o desenvolvimento da consciência humana, visto que as manifestações artísticas, situadas na superestrutura, expressam ideologias, revelam as lutas sociais. Gostem ou não os chamados pós modernos, a literatura é sempre expressão ideológica de uma época. Isto ocorre independentemente da vontade do escritor. O caráter ideológico da literatura surge de um jeito ou de outro, seja entre artistas conservadores, artistas revolucionários e artistas que flutuam de olhos fechados. Quando se escreve/se discute literatura, só podemos compreender seus elos históricos e logo seu significado, não a partir do que os escritores e artistas deveriam ter feito, mas a partir daquilo que fizeram a fazem.

Quais seriam as limitações da crítica de Plekhanov? Ele afirmou que a arte e a literatura são o espelho da vida social. Um primeiro e rápido olhar marxista tende a assinar embaixo e colocar um ponto final. No entanto, o melhor da crítica literária marxista, sobretudo após os fenômenos de vanguarda do século XX, sabe que a obra de arte está além do mero reflexo : sim, a arte faz enxergar a época em que ela foi produzida, mas este “ reflexo “ possui um nível de complexidade, uma margem de ação/intervenção sobre o real, sendo necessário abordar com maior profundidade o sentido específico do estético. Plekhanov acertou quando afirmou em A Concepção Materialista da História, que as mudanças nas relações sociais interferem na psicologia da sociedade e logo na formação de novas necessidades estéticas.

Entretanto, o papel político da arte na história não envolve uma relação mecanicista entre infraestrutura e superestrutura: dentro das relações entre a base econômica e a superestrutura, existem também outras mediações para entendermos as questões da arte, inclusive mediações culturais(a vida do artista, suas influências estéticas, filosóficas, religiosas etc). Se por um lado Plekhanov ensina sobre o condicionamento histórico da arte, por outro ele reduz as especificidades da Estética.

Plekhanov foi um importante herdeiro das ideias de Marx e Engels. Tratando-se de arte e literatura, ele nos mostra que “ não se trata de chorar, nem rir, mas de compreender “.

 
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