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Lunes 21 de Octubre de 2019
18:16 hs.

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MATRICULAS USP
Letras USP: desvendando a ’Turma Lotada’
Jéssica Antunes

Nesta última semana saiu o resultado das matrículas dos estudantes da FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) da Universidade de São Paulo, o que nós, estudantes de Letras, costumamos chamar de “consolidações”. São mais de 5000 estudantes, apenas na Letras, que descobrem quais matérias vão ter o direito ou não de cursar no semestre seguinte.

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As matrículas são feitas de forma interativa, no sistema Júpiter Web, desde as inscrições até o resultado final. Nesta ocasião, todo semestre é o mesmo problema, quando muitos estudantes se depararam com o status de “Turma Lotada” para as matérias nas quais se inscreverem, o que significa que não conseguirão cursá-las. O que nós estudantes conhecemos por “ser chutado”.

O problema disso, é que os estudantes tem uma grade de matérias, que também contam como “créditos” que precisam cursar para tirarem seu diploma, na medida em que são “chutados” das matérias o diploma vai ficando cada vez mais distante. Fazendo com que fiquem atrasados nos estudos que precisa realizar para a sua formação ou pesquisa

A última esperança dos estudantes para terem o direito de exercer o “livre pensar” universitário, será os “requerimentos”, que devem iniciar no dia 01 de setembro, segundo oCalendário Escolar de 2015. Com os quais alguns alunos serão selecionados para algumas “vagas remanescentes” das turmas lotadas.

Por que a “turma está lotada”?

É de se estranhar o fato de que na Universidade que é considerada a Melhor da América Latina, os alunos não possam fazer as matérias que julgam necessárias para a sua formação, e inclusive algumas que são obrigatórias.

A ultima grande contratação de professores no curso foi a mais de 10 anos, em 2002, desde então matérias foram fechadas, e professores se aposentaram, contudo a demanda de alunos não diminuiu, pelo contrario. Hoje com a crise instaurada na Universidade, cuja responsabilidade recai na falta de investimentos nas três estaduais paulistas por parte do governo do PSDB, esse quadro de falta de professores vem se agravando (política de precarização orquestrada pelo governo Dilma e do PT nacionalmente, com o corte de 9 bilhões na Educação contra o qual entraram em greve os professores federais).

Esse processo também toca a USP, e cabe uma reflexão específica para a Letras, sendo o maior do país e da USP, recebemos o segundo menor orçamento da universidade. Ao mesmo tempo em que recebemos o maior número de alunos por ano. A lista de contradições é enorme. O resultado final, que se mostra nas “turmas lotadas”, é que não há vagas para todos, não há lugar nas salas e o prédio não comporta. E também por não haver contratação de professores pra abrir novas turmas.

Somada aos cortes na educação, e a própria “crise financeira” da USP, os primeiros traços de precarização são cirúrgicos, atingindo principalmente a graduação, e das humanas, que na graduação são pouco rentáveis. Isso faz com que todos esses cursos recebam um repasse na universidade muito inferior ao necessário e em comparação à outros cursos. Por outro lado, são os cursos que formam os professores, o que nos mostra já aonde se inicia a precarização da educação em nosso sistema educacional.

Quem está “sendo chutado”?

Sendo necessário selecionar os estudantes, já que não há vagas para todos, deve haver a adoção de critérios, que constam no próprio sistema Jupiter. O primeiro deles é o “período ideal”, ou seja, se você está fazendo essa matéria “atrasado” ou “adiantado”, você está fora do período ideal estipulado pela diretoria. Neste caso, você perde a “prioridade” para conseguir a matéria. O segundo critério é a média ponderada do aluno, ou seja, o “desempate” é através da melhor nota. A conhecida meritocracia, onde o “mais ideal” se dá melhor.

É preciso apontar, que no geral, os estudantes que possuem o “período ideal e a nota ideal” não tem o “perfil” do estudante que trabalha o dia inteiro antes ou após a aula. Nem o das mulheres mães ou do estudante da escola pública mais precarizada. O que quero explicitar, é que são os setores oriundos da classe trabalhadora, e os setores mais oprimidos como as travestis e os negros, os afetados com esta meritocracia. Por sua condição social estão fora do "perfil ideal" desejado pela USP, e por isso vão encontrar inúmeras dificuldades para alcançá-lo e deixar de "ser chutado".

A desistência compulsória

Desde o vestibular já fica apontado para estes setores que a USP não é lugar para ele. O vestibular é a primeira barreira a ser quebrada, o primeiro “chute” recebido. Para exemplificar, a maior parte dos 82% dos estudantes brasileiros que cursam o ensino básico na escola pública (segundo o Censo Escolar 2014, divulgado pelo Inep), são barrados por essa avaliação. Por isso dentro da Universidade só representam, e pela primeira vez na história, injustos 32,3%.

Os estudantes que conseguem entrar precisam enfrentar muito mais do que “turmas lotadas”. Na Letras, todo ano acontece um segundo vestibular, conhecido por nós como “ranqueamento”, onde quem tem as melhores notas ficam com as “melhores posições no ranking” e escolhem suas habilitações - que são como especializações - enquanto os que estão “fora do ideal” são “chutados” novamente.

A falta de políticas de permanência estudantil efetiva para todos, é também uma grande barreira para muitos estudantes de baixa renda, mães e LGBT’s. Desta forma, depois de tantos “chutes”, muitos desses estudantes vão desistindo de completar o curso. Talvez essa evasão seja funcional em um prédio provisório há 40 anos, que claramente não comporta a média de 850 estudantes que ingressam anualmente no curso.

Desistir? Não, resistir

Esta é uma situação já vem mostrando seus limites, com atos e greves que estouraram pelo país contra os cortes orçamentários na Educação feitos pelo governo Dilma, que tendem deixar as Universidades cada vez mais excludentes. Nenhum estudante pode ficar sem vaga nas matérias, nas moradias, nas creches. É preciso exigir o direito universal à educação.

É preciso uma universidade que realmente seja voltada para os filhos dos trabalhadores estudarem. Para isso precisamos que os estudantes debatam em cada sala de aula o que querem para seu curso, quais as suas necessidades e interesses.

 
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