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Jueves 23 de Noviembre de 2017
10:08 hs.

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ARGENTINA
Quem é a Frente de Esquerda que se fortalece na Argentina?
Chico Nery
Professor da rede pública de Campinas
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No dia 15 de outubro, ocorreram as eleições argentinas. Seguindo a tendência de distintos países da América Latina na atualidade, as urnas mostraram um fortalecimento da direita, com o presidente Macri e sua coalizão “Cambiemos” saindo como os principais vencedores.

Com um projeto privatista e de ataque aos trabalhadores, seguramente o ano de 2018 será de uma tentativa de ajustes contra a classe operária e os setores populares. Inspirado em Temer, o presidente argentino já anuncia que tentará levar adiante reformas contra o povo pobre a juventude. Cristina Kirchner e o kirchnerismo sofreram uma derrota importante, ainda que com uma votação em Buenos Aires que lhes deu alguma sobrevida.

Mesmo nesse cenário adverso de uma eleição polarizada entre as duas principais forças políticas da ordem, a esquerda radical argentina se fortaleceu. A FIT(Frente de Izquierda e de los Trabajadores) cresceu 40% das “primarias”(prévias eleitorais, que pelo regime anti-democrático, faz com que disputem de fato as eleições apenas os que ultrapassam um piso proscritivo de 1,5%) para as eleições definitivas ocorridas no último dia 15.

Elegendo deputados federais, deputados estaduais, senadores regionais, deputados provinciais e vereadores, a FIT realizou sua melhor eleição e terá uma bancada de 40 parlamentares em 2018. Em 6 anos de curta existência , se consolida e cresce como uma das principais forças políticas da Argentina, enraizada na classe trabalhadora, na juventude e nas camadas progressistas da população.

Mas quem é a FIT? Por que essa frente classista e anticapitalista é um exemplo para o conjunto dos trabalhadores latino-americanos? Que lições ela deixa para os trabalhadores e jovens brasileiros?

Uma esquerda que não teme dizer seu nome

Com propostas claras de enfrentamento contra a casta política, e deixando claro seu posicionamento de classe ao lado dos trabalhadores, a FIT vem se enraizando desde seu surgimento em 2011. E não se consolida de qualquer forma: sem se aliar a nenhuma variante reformista ou de centro-esquerda, é a prova explícita que existe espaço para as ideias anticapitalistas quando defendidas com coerência e personalidade, de forma inventiva e enraizada em setores populares. Passo a passo, seu crescimento se consolida, despertando simpatia entre os trabalhadores e a juventude argentina de norte ao sul do país.

Encabeçada pelo PTS, organização trotskista que constrói junto a diversas organizações no mundo um agrupamento internacional chamado Fração Trotskista e a rede internacional de diários La Izquierda Diario, da qual o portal brasileiro Esquerda Diário organizado pelo Movimento Revolucionário de Trabalhadores faz parte, a FIT é composta também pelo Partido Obrero, Izquierda Socialista e outras organizações.

Ao longo desses últimos anos, o PTS veio defendendo dentro da FIT, em suas propagandas e no parlamento a redução da jornada de trabalho sem redução de salário, para que todos tenham emprego; defendeu as riquezas naturais do país contra o roubo das empresas imperialistas; que o salário dos deputados fossem igual a de uma professora; a estatização das fábricas que demitissem sob controle operário; a efetivação de todos os terceirizados, assim como o direito dos povos originários, que teve no recente desaparecimento de Santiago Maldonado um enorme símbolo nacional. Mesmo com um ato na véspera da eleição, o peso da FIT foi enorme nas ruas frente ao assassinato de mais um jovem ativista na argentina.

Com um método democrático distinto da esquerda brasileira, os cargos conquistados são rotativos entre as organizações que compõe a FIT, a partir do tamanho de suas forças, de acordo com os resultados eleitorais. Longe de ser uma frente composta por organizações onde as polêmicas e divergências ficam escondidas em nome da "unidade da esquerda", ao contrário, as discussões são feitas publicamente, pois o PTS acredita que essa é a única forma de que a FIT possa contribuir para o desenvolvimento de uma influência maior das ideias revolucionárias. Longe de “enfraquecer” a FIT, ela vem avançando como mostram as urnas.

Além disso, os deputados do PTS quando assumem os cargos ganham o mesmo que um trabalhador de qualificação média, sendo o restante do dinheiro doado para as greves, lutas e mobilizações.

É possível enfrentar a direita na Argentina e no Brasil

Diante de um kirchnerismo que falava em nome dos trabalhadores mas buscava pactuar com os empresários(semelhante ao papel desempenhado pelo PT no Brasil), a FIT mostra que é possível construir uma alternativa à esquerda frente ao fortalecimento da direita e ao esgotamento desses projetos conciliadores na América Latina que não conseguiram dar passos para modificar questões estruturais em nossos países. Recentemente a luta dos operários de PEPSICO , encabeçada por trabalhadores que militam no PTS e são parte da comissão interna da fábrica, ganhou simpatia em todo o país em uma grande batalha na defesa do emprego e se tornou um símbolo para frear momentaneamente os anúncios da reforma trabalhista, que Macri seguramente irá retomar.

Aos que se preocupam com o fortalecimento da direita e do imperialismo no Brasil, que lutaram contra o golpe e a reforma trabalhista, deveriam olhar atentamente as lições que a FIT deixam para nós. Somente com mobilizações organizadas em cada local de trabalho, com os parlamentares construindo através das tribunas essas lutas e sem negociatas, tomando o lado de fato da nossa classe, é possível se preparar para a dura luta contra a direita. Tudo o que a CUT e o PT não fizeram nos últimos meses, quando desmobilizaram a última greve geral, e buscam mesmo após o golpe costurar acordos com o PMDB e os piores coronéis da política do nordeste, como Lula vem fazendo em sua caravana. É tempo de uma alternativa anticapitalista dos trabalhadores como mostra o PTS através de sua intervenção na FIT, e nós do MRT achamos que é possível construir essa alternativa em nosso país.

Deputado dos trabalhadores

O kirchnerismo, tenta, a todo custo, tratar a FIT como uma “frente de classe média”. Se é verdade que a FIT busca sim aumentar sua influência nos setores intelectualizados, contando com pesquisadores de renome e artistas como seus apoiadores, e tendo nas escolas e universidades milhares de ativistas que levam adiante suas campanhas, Cristina Kirchner e seus aliados fracassaram com esse argumento diante da inserção orgânica que a FIT vem desenvolvendo nos setores mais explorados da classe trabalhadora . Símbolo claro disso é que o avanço da Frente de Esquerda veio acompanhado de um claro retrocesso do peronismo(principal expoente histórico de conciliação nos sindicatos) nas últimas eleições.

Em Neuquen, Raul Godoy, operário de Zanon, fábrica ocupada e sob controle dos trabalhadores, símbolo da grande luta de 2001, foi um dos primeiros deputados eleitos ao longo da história da FIT. Enquanto deputado estadual, denunciou a privatização do petróleo e esteve ao lado dos povos originários na região. A aposta de que as ruas é o lugar prioritário da FIT e de seus parlamentares tem sido correta. A confiança de amplas camadas populares em uma frente que não é formada por políticos profissionais que querem enriquecer, mas em trabalhadores e parlamentares que estão nas ruas, tem em Raul um grande exemplo da inserção que o PTS veio conquistando no movimento operário argentino.

Myriam e o grande movimento de mulheres

Myriam Bregman, vereadora eleita em Buenos Aires com quase 7% e 130 mil votos, é uma figura meteórica na esquerda argentina. É uma das advogadas de maior respeito nas causas populares do país, estando à frente do caso de desaparecimento de Jorge Julio Lopez, da luta de Pepsico e de uma série de causas populares. Demolidora nos debates, Myriam veio se destacando e simboliza todo o movimento pelos direitos das mulheres que teve nas mobilizações massivas do Ni una menos(Nenhuma menos) grande expressão, assim como o forte movimento de direitos humanos que existe por lá, de memória e punição aos militares da ditadura que executaram e desapareceram com 30 mil pessoas.

Nico é a voz da juventude

Vem de Mendoza uma das provas da vivacidade da Frente de Esquerda. Após todo um debate interno entre as distintas forças da FIT, Nicolas de Caño, despertou a simpatia de milhares de jovens trabalhadores enquanto jovem deputado federal, foi candidato a presidente, e em 2017, transferindo-se para Buenos Aires em mais uma aposta, Del Caño contribiu com a melhor eleição da história da FIT na capital com quase 500 mil votos. Além de se eleger como deputado federal, aumentou a bancada da FIT puxando 1 cargo, assim como também fez Myriam. Com audácia, mostra que o PTS não constrói figuras cristalizadas para décadas, mas sim que a luta pela revolução tem na renovação e na juventude trabalhadora um sujeito fundamental, e é isso que ajuda a explicar um percentual muito maior de votantes na juventude. Longe de uma disputa meramente eleitoral, sua transferência para Buenos Aires está ligada a necessidade estratégica de avançar a influência trotskista sobre setores da juventude trabalhadora no principal centro estratégico do país, algo que o meio milhão de votos mostra.

É essa audácia que permite que mesmo com a saída de Nico, principal figura em Mendoza, o PTS se consolide no estado, tendo a FIT recebido 125 mil votos(11,7%) com a também jovem Noelia Barbito, elegendo assim 5 vereadores, 1 senador estadual e 1 deputado estadual.

Lixeiro, com orgulho: o gari trotskista Alejandro Vilca

Nas eleições de 2017 quem roubou a cena vem de uma das provinciais mais pobres da Argentina. É de Jujuy, no norte do país e divisa com a Bolívia que vem Alejandro Vilca, um gari, indígena kolla, e dirigente do PTS. Simbolizando os trabalhadores e o povo pobre do estado, Vilca que carrega com orgulho diariamente os lixos da cidade, tornou-se um símbolo da independência da classe: com mais de 18% no estado e com quase 26% na capital, arrastou milhares e a FIT conquistou com Vilca 4 deputados estaduais e 5 vereadores.

FIT: uma grande frente anticapitalista na América Latina

A FIT se consolida como uma frente anticapitalista de dimensões importantes. Se frente ao fortalecimento da direita no mundo, existem setores novos da esquerda mundial que despertam expectativas, estes caminham para rumos distintos. É o caso do Syriza, que na Grécia não respeitou o plebiscito popular e implementou os ataques da União Européia contra os trabalhadores, e do Podemos no Estado Espanhol, que prefere ficar em cima do muro para negociar com o rei, do que estar ao lado do povo catalão, uma vergonha. Melenchon na França e Sanders nos EUA também mostram que estão longe de construírem alternativas decididas a se enfrentar com o sistema capitalista.

Diferente disso, o PTS aposta na construção de uma Frente que contribua para os trabalhadores avançarem na independência de classe, sabendo que é fundamental que a classe trabalhadora argentina avance para botar de pé um grande partido revolucionário e internacionalista para se enfrentar com o capitalismo, inspirando o restante da América Latina. Com 20 mil pessoas em novembro do ano passado enchendo um estádio de futebol e agora com 1,2 milhões de votos, o PTS mostra sua disposição junto a FIT em dar essa batalha por construir essa alternativa dos trabalhadores que fusione o marximo com dezenas de milhares de trabalhadores, mulheres, jovens e LGBTs.

Em termos de comparação com o Brasil, para se ter dimensão, a FIT teve para deputados federais a nível nacional o triplo da votação do PSOL na última eleição. A proporção dos quase 5% de votos por lá significariam aqui quase 6 milhões de votantes. Votações bem mais expressivas que a maior parte dos parlamentares do PSOL, e que deixam a importante referência da necessidade urgente do enraizamento desse partido na classe trabalhadora para sua massificação e avanço estratégico. Tarefa essa que nós do MRT nos propomos a contribuir, como temos feito em distintas categorias, e chegando até centenas de locais de trabalho e estudo país afora como o crescimento do Esquerda Diário, que atingiu cerca de 800 mil visualizações no último mês. Até o momento, infelizmente, a direção do PSOL nega a ampliação do partido para setores revolucionários como o MRT, decisão que segue há dois anos.

Os 1,2 milhões de votos para a FIT se consolidam de norte ao sul do país. A Frente se enraíza no centro estratégico da capital de Buenos Aires com os quase 7% de Myriam e os 5% no estado com Nico, mas no norte em Jujuy com 18% e Vilca, alcançando 7,8% em Salta, descendo até a Mendoza de 11,7%, 6% em Neuquen e 9,7% no extremo sul de Santa Cruz, e boas votações no restante das províncias. Com 40 parlamentares espalhados na Argentina em 2018, é uma frente enraizada nacionalmente que terá a responsabilidade de preparar uma dura luta para se enfrentar contra a reforma trabalhista que Macri tentará levar adiante.

É preciso seguir esse exemplo no Brasil e na América Latina: com uma estratégia anticapitalista e uma perspectiva revolucionária e de massas para influenciar a juventude e os trabalhadores, é possível se enfrentar com o fortalecimento de Bolsonaro e da direita em nosso continente. Internacionalista, o PTS colocou no centro do último 1º de maio argentino, a luta contra o golpe no Brasil. A FIT e PTS nos deixam um grande exemplo a ser refletido pelos que lutam pela transformação social no Brasil e em todo o continente. Se é verdade que a direita se fortalece e teremos duras batalhas, também é certo que pela esquerda são tempos de ideias radicais.

 
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