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Martes 24 de Octubre de 2017
02:46 hs.

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LITERATURA
Pais e Filhos: a polêmica obra em debate com a intelectualidade Russa
Jéssica Antunes

Pais e Filhos, de Ivan Turguêniev, é uma grande obra literária que marcou um dos momentos mais decisivos da história Russa. O romance foi escrito em 1862, apenas um ano após a Reforma Emancipadora que causou um forte impacto econômico e social no país ao pôr fim à servidão dos camponeses, e em meio à uma verdadeira ebulição política e ideológica, em especial na juventude intelectual do país.

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O choque geracional entre a primeira geração da intelligentsia russa (como era chamada a intelectualidade do país sob o czarismo), aristocrática, decadente, supersticiosa e conservadora, e a segunda geração radical e progressista, em especial sobre os ideais que deveriam guiar a nação, é o debate central da obra escrita em vinte e oito capítulos de fluída leitura. E também o era em toda a intelligentsia russa frente o aumento da massiva insatisfação com a autocracia czarista e a lentidão com que as reformas e direitos sociais avançavam no país. Apesar de sua curta extensão, Pais e Filhos consegue captar e traduzir em alto nível estético e profunda sensibilidade uma série de forças sociais contraditórias que tencionavam a atmosfera nacional.

O fato de acertar em cheio a ferida aberta na sociedade da época inscreveu definitivamente a obra-prima de Turgueniev na história da Rússia, sendo considerado o fundador dos chamados “romances ideológicos”. Pais e Filhos teve tamanha repercussão que ocupou lugar nos mais acalorados debates tanto dos círculos radicais como dos conservadores, sendo apunhalado por ambos os lados. Sua publicação coincidiu com o início de uma série de atentados contra sedes de instituições do regime czarista, e o surgimento de movimentos revolucionários organizados, muitos denominados com um termo popularizado pela obra: “niilistas”. Diante disso, o autor chegou a ser responsabilizado por tais atos, mesmo não os defendendo e nem ao menos o dito “niilismo”.

A encarnação do niilista na obra de Turguêniev dá-se através da figura de Bazárov, jovem médico, de personalidade soberba, que “não acredita em coisa alguma”. É descrito como aquele “que não se curva perante nenhuma autoridade e que não admite como artigo de fé nenhum princípio”. Segundo o próprio Bazárov: "Na época atual o mais útil é negar. Por isso negamos”. Essa ideologia radical do protagonista representava as ideias dominantes da geração de 1860, a geração “filha” da primeira camada da intelligentsia russa.

Outro representante dos “filhos” é Arkádi Kirsanov, jovem estudante discípulo de Bazárov, mas que em todo o romance o é mais por sua amizade e estima àquele do que por convicção aos ideais niilistas. Em realidade, Arkádi sempre deixou transparecer ideias mais reformistas, e um tanto quanto românticas e idealizadas tais quais as da antiga geração da intelligentsia. Em certa passagem, ao chegar em sua terra natal evidencia essas tendências reformistas, ao pensar: “Não é muito rica essa região, não impressiona pela opulência e pelo trabalho. Não pode ficar assim; impõem-se reformas... Mas como executá-las, como inicia-las?”. Na casa de sua família se passa importante parte da trama, ao hospedarem Bazárov.

No outro polo, representando o extremo da geração “dos pais”, se encontra Páviel Pietróvitch, militar reformado e tio de Arkádi. Páviel encarna a aristocracia romântica e idealista, à inglesa, sempre caracterizado por sua elegância e sua defesa intransigente da cultura, dos valores e dos princípios tradicionais. Turguêniev usa-o ao lado de Bazárov como modelos extremos das duas gerações em conflito, assim como costumava citar Hamlet e Dom Quixote como outros notáveis exemplares.

Seu irmão, pai de Arkádi, Nikolau Pietróvitch, é também um representante da geração de 1840, entretanto representa um setor dessa geração menos avesso, e um tanto conformado, às inerentes mudanças que virão com a nova geração. Assim se expressa Nikolau sobre o conflito geracional narrado, ao admirar “os filhos”: “Ao mesmo tempo, sinto que possuem algo que não temos, uma certa superioridade sobre nós... Mocidade? Não. Não é só mocidade. O seu predomínio não consiste possivelmente no fato de serem eles menos aristocratas do que nós?”

Ademais essas personagens centrais, figuram na história, dentre outras menos relevantes para o enredo, Ana e Kátia Odíntsova. A primeira, viúva, madura e inteligente, a segunda, sua protegida e irmã mais nova. Após tranquila estadia na casa dos familiares de Arkádi, os jovens se hospedam na luxuosa casa da bela viúva, onde ambos, num primeiro momento, se apaixonam por ela. Ana também se interessa por Bazárov, mas termina por não batalhar pela consumação de seu amor. Aos poucos, Arkádi vai se afastando da sombra de seu amigo e mentor e, aproximando-se cada vez mais da geração dos pais. Apaixona-se por Kátia com quem vem a casar ao final do romance, tal qual seu pai, tendo o final mais feliz dentre as personagens, assinalando o segmento ideológico aprovado pelo autor.

Bazárov, por sua vez, após sofrer a angústia e desilusão de amar, contra todas as suas crenças anti-sentimentais, retira-se para a casa de seus pais, afim de estudar e reordenar as forças do espírito. Turgueniev então, sentencia o jovem, os ideais da vanguarda da geração de 1860, o niilismo e sua proposta de destruição para a Rússia à morte. Quase que por um acaso o protagonista se contamina de tifo e morre. Em sua agonia, ironicamente afirma: "Vá lá negar a morte. Ela é que me nega e basta".

O que poderia ser um romance ameno da vida russa, constitui-se num importante debate ideológico sobre os rumos do país na pena de Ivan Tugueniev. Os movimentos revolucionários desatados nesta década eclodiram por toda a Rússia, após o assassinato do czar Alexandre II em 1881 e ascensão de seu filho cessaram completamente as reformas. As tensões entre os conservadores e revolucionários aumentaram a cada década, culminando na grande Revolução de 1917, protagonizada pelos trabalhadores e camponeses, que varreu o czarismo e instaurou na Rússia um Estado Soviético que concedeu os mais amplos direitos sociais já vistos.

Ivan Sergeievich Turguêniev foi um dos mais proeminentes romancistas e dramaturgos russos. Nasceu em 1818 no seio de uma família abastada. Estudou Filosofia em São Petesburgo e na Alemanha. Morou grande parte de sua vida na Europa. Escreveu seis romances, contos e peças consolidando uma obra de grande relevância. Morreu em 1883, em Paris, acometido por um câncer.

 
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