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Domingo 24 de Septiembre de 2017
14:26 hs.

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VIOLÊNCIA DOMÉSTICA
Violência doméstica e o mercado de trabalho
Patrícia Galvão, Secretaria de Mulheres do Sintusp

Em recente pesquisa da Universidade Federal do Ceará em parceria com o Instituto Maria da Penha, realizada em 9 capitais do nordeste, foi abordado o tema da violência doméstica e os impactos no mercado de trabalho. Os dados são assustadores e revelam a intrínseca relação entre a opressão machista e a exploração das mulheres trabalhadoras.

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A Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher entrevistou, entre os meses de março a julho de 2016, 10 mil mulheres em nove capitais nordestinas (Fortaleza, Salvador, Recife, Teresina, Aracaju, Natal, São Luís, Maceió e João Pessoa). O relatório da pesquisa foi publicado em duas partes: A primeira, no final de 2016 constatou-se a assustadora realidade: 3 em cada 10 mulheres no nordeste foi vítima de violência doméstica (Leia mais aqui: No Nordeste, 3 em cada 10 mulheres sofrem violência doméstica). A segunda parte foi publicada no dia 20 de agosto de 2017 e trata da Violência Doméstica e seu impacto no mercado de trabalho e na produtividade das mulheres.

Dados levantados

Saúde mental

Os dados levantados pela pesquisa revelam que a violência doméstica traz impactos brutais na saúde mental das mulheres. Em Teresina, quase metade das mulheres (48%) afirmam ter a saúde mental afetada por conta da violência doméstica sofrida. A violência doméstica afeta profundamente a vida das mulheres. Além dos danos físicos imediatos, as vítimas frequentemente apresentam danos psicológicos profundos. Os dados colhidos pela pesquisa mostram a necessidade de acolhimento e tratamento psicológico à vítimas.

Os dados referentes à saúde mental, no entanto, não significam que a mulher que afirma não estar com a saúde mental debilitada não carregue o peso da violência nos ombros. Em relação ao seu cotidiano e seu estado emocional, mas de 60% (do total nas 9 capitais) se dizem estressadas e mais de 74% se dizem infelizes, além de não dormirem bem, não se sentirem seguras a tomar decisões e terem dificuldades de concentração. O impacto da violência sofrida toma proporções ainda maiores quando analisamos a vida cotidiana dessas mulheres.

Insatisfação com o emprego

A insatisfação com o emprego atual também é frequente. Enquanto entre as mulheres que não sofreram violência doméstica 43% estão satisfeitas com o emprego atual, entre as vítimas de violência doméstica esse número cai para 33%. Já é absurdo que mais das metade das mulheres, e da classe trabalhadora em geral, não se sinta satisfeita com seu trabalho, que ocupa no mínimo 1/3 do seu tempo. Mas, no caso das mulheres vítimas de violência fica mais evidente ainda a insatisfação quando se trata de um emprego cujas normas não incluam nenhuma possibilidade de apoio quando se está física e emocionalmente incapacitada de comparecer ao trabalho.

Faltas e tempo no emprego

De acordo com os dados levantados na pesquisa, 22% das mulheres de Salvador afirmam que a violência sofrida interferiu em seu trabalho, resultando em queda de rendimento e faltas. Em média, dentre as mulheres vítimas de violência que reportaram faltas no trabalho, o número de faltas em um ano é cerca de 18 dias. Essas faltas resultam em descontos nos salários e demissões, aprofundando a vulnerabilidade dessas mulheres.

Mais um dado alarmante, 23% das mulheres vítimas de violência doméstica afirmam já terem recusado ou desistido de alguma oportunidade de emprego o parceiro era contra. Também essa mulher fica menos tempo empregada no mesmo local. Enquanto média de permanência no trabalho entre as mulheres que não foram vítimas de violência é de 74 meses, as vítimas de violência ficam cerca de 58 meses no mesmo emprego. As faltas, atrasos e queda do rendimento traz consigo demissões.

Salários

Em relação aos salários também é possível notar que as mulheres que sofreram violência ganham cerca de 10% menos que as que não sofreram. Em Fortaleza essa diferença salarial chega a assustadores 34%. Isso num país onde as mulheres já ganham em média 17% a menos que os homens e, no caso das mulheres negras o abismo salarial em comparação aos homens brancos chega a 60%. Essa mulher, que precisa buscar independência financeira do agressor, acaba sendo submetida à baixíssimos salários.

A situação é ainda mais cruel se compararmos as mulheres negras e brancas. A média salarial de uma mulher branca que não sofre violência doméstica é de R$ 11,42 por hora enquanto do outro lado a mulher negra vítima de violência recebe cerca de R$ 7,74 por hora. Mulheres brancas vítimas de violência recebem em média R$ 9,79 por hora. A combinação de machismo + racismo + capitalismo é devastadora.

A lei Maria da Penha, cujo intuito era Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, completou 11 anos no último mês. Porém os índices de violência doméstica continuam assustadores. O Brasil, de acordo com o Mapa da Violência de 2015, é o 5º país no ranking de violências contra a mulher. A cada 11 minutos uma mulher é estuprada, a cada 1 hora e meia uma mulher é assassinada vítima de feminicídio. Uma mulher em cada três mulheres já foi vítima de algum tipo de violência. A cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas.

Leia mais: Mapa da violência no Brasil revela: aumenta o feminicídio no país

As estatísticas são aterrorizantes, e ainda é muito difícil conseguir dados precisos sobre o número de vítimas de violência doméstica, pois os casos são subnotificados. Muitas mulheres se vêm presas ao relacionamento com o agressor, pois a relação de dependência financeira é muito forte. Ganhando menos e estando mais sujeitas a precarização e demissões, acabam sujeitas a violência do parceiro para não ficarem desamparadas financeiramente.

Quando analisamos os dados acima vemos que as vítimas, por conta da própria situação de violência física e mental, mesmo quando empregadas, estão mais sujeitas a demissões e a empregos precários. Precisando se afastar do agressor, se vêm forçadas a aceitar salários inferiores. Como consequência das agressões, também faltam mais ao trabalho (por vergonha ou por danos emocionais ou físicos) e estão mais sujeitas a demissões.

No sistema capitalista, pouco importa se você sofre violência. Vão oferecer os menores salários e as piores condições de trabalho aos que mais sofrem opressão, pois se valem da vulnerabilidade para conseguir maiores lucros. A mulher, além de toda a violência a que foi submetida, encontra-se sem amparo: aceita o pior salário, nas piores condições e ainda assim enfrenta dificuldades em abandonar o agressor. Nem a justiça ou o estado conseguem efetivamente protege-la. Nem querem.

O governo golpista de Temer aprofundou ainda mais os ataques às mulheres e à classe trabalhadora. Além dos ataques às gestantes, que passam a poder trabalhar em locais insalubres colocando em risco a vida do feto e o próprio direito à maternidade, a flexibilização das leis trabalhistas aumentam a vulnerabilidade das mulheres, favorecendo a terceirização e a precarização.

A reforma da previdência pretende aumentar o tempo de trabalho dos trabalhadores e é um ataque frontal às mulheres. Para as mulheres sujeitas a dupla e triplas jornadas isso significa mais exploração e trabalhar até morrer.

Sabemos que o estado capitalista é o responsável por perpetuar o machismo e o combate à violência de gênero passa por combater esse sistema que lucra com a vida das mulheres.

Por isso, nós mulheres do Pão e Rosas levantamos a exigência por um plano emergencial de combate à violência:

- Com a construção imediata de casas de abrigo emergenciais para mulheres em situação de violência, e um plano de moradias a curto prazo para que não sejam obrigadas a viver com seus agressores;

- Por subsídio estatal e licenças trabalhistas para as mulheres vítimas de violência;

- Criação e coordenação de equipes interdisciplinares para prevenção, atendimento e assistência a mulheres vítimas de violência;

- Impostos progressivos às grandes fortunas e fim do pagamento da dívida pública para custeio dessas medidas;

- Além da legalização do aborto garantido pelo SUS e

- Educação sexual e de gênero nas escolas.

Nem uma a menos!
Basta de mulheres vítimas da violência machista e do capitalismo!

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