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Martes 19 de Septiembre de 2017
08:48 hs.

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44 ANOS DO GOLPE PINOCHETISTA
Chile: 11 de setembro de 1973
Lara Zaramella

Chile foi o laboratório neoliberal do imperialismo na América Latina. O golpe de Estado foi organizado pelas patronais chilenas junto à CIA, à embaixada norte-americana e as Forças Armadas.

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No Chile o ascenso de massas foi expressão do enorme descontentamento social gerado pela postergação indefinida de demandas sentidas pela população como a nacionalização do cobre, recurso chave da economia do país, a reforma agrária e o problema da moradia. Nos anos 1960, o governo da Democracia Cristã (DC) não fez nenhuma mudança estrutural da situação.

As reivindicações começaram a se gerar a partir de 1971 e se traduziram em greves, paralisações e ocupações de terras. Com a organização e a experiência das massas, foi crescendo a ideia de que, para vencer, a patronal tinha que arrebatar o poder político.

A estratégia política da Unidade Popular

Os trabalhadores se ligaram sobretudo aos grandes partidos tradicionais da esquerda chilena, o Partido Socialista (PS) e o Partido Comunista (PC). Eram organizações políticas reformistas, organizavam os trabalhadores, mas não para lutar por sua independência política no caminho à tomada do poder, e sim para subordina-los a acordos com a burguesia nacional, com um programa de reformas limitadas ao capitalismo.

Assim surge a Unidade Popular (UP), coalisão entre o PS de Salvador Allende e o PC, com o pequeno Partido Radical, clássico representante da burguesia liberal e organizações menores. Ou seja, uma frente de colaboração de classes. O Movimento da Esquerda Revolucionária (MIR, em espanhol) não participou, oscilou entre o fôlego às massas e o apoio a Allende, “pressionando desde fora”.
O objetivo da UP não era a revolução e sim a consolidação do Estado manejando recursos econômicos estratégicos e fomentando o desenvolvimento de um “capitalismo nacional”. Essa estratégia chamada “via pacífica ao socialismo” supunha que os ricos e empresários renunciariam a sua propriedade e seus privilégios e que as Forças Armadas respeitariam a “democracia”.

O governo de Salvador Allende

A UP ganhou as eleições presidenciais de 1970 com um plano de medidas que incluía a nacionalização das minas de cobre, ferro e salitre em mãos de empresas imperialistas, de alguns setores industriais e grandes latifúndios.
Nacionalizou várias minas e fábricas, mas comprando ações ou indenizando os patrões. Avançou parcialmente no controle estatal do comércio exterior, na nacionalização da banca se limitou à compra de ações de bancos privados, na reforma agrária entregou as terras, mas respeitou a burguesia agrária e assim sucessivamente.

As reformas de Allende não alcançaram ou não permitiram avançar para uma verdadeira ruptura com o imperialismo: o reparto da terra em uma reforma agrária radical e a liquidação do poder da burguesia.

1972: um ano chave

Nesse ano o projeto da UP começa a cair por terra. Os empresários alimentaram a crise econômica com a sabotagem e o desabastecimento e no Congresso bloquearam qualquer iniciativa do governo. Surgem grupos fascistas como Pátria e Liberdade, enquanto que os burgueses e militares conspiravam através dos jornais como El Mercurio, entre outros. A crise se agudizava com os fechamentos pelas patronais como o dos caminhoneiros, em meio a uma enorme polarização social.

Por baixo, os trabalhadores avançaram e tomaram centenas de fábricas, muitas começaram a produzir sob controle operário, comprovando na prática que podiam e podem funcionar sem patrões. Se organizaram comitês de abastecimento, enquanto camponeses e moradores sem-teto ocupavam terras e se organizavam.

A meados do ano, os trabalhadores começaram a organizar suas lutas por zonas, superando a direção da CUT (Central dos Trabalhadores chilena), fortemente influenciada pelo PC. Surgem assim os Cordões Industriais, uma forma de organização muito avançada, embriões de poder operário e popular, que permitiam a unidade de ação da classe operária e a tomada de decisões democráticas nas bases. Um deles, o Cordão Cerrillos-Maipú (na zona sudoeste de Santiago), estava formado pelo maior cordão industrial do Chile, aproximadamente 250 empresas.
A coordenação local permitia resolver questões relacionadas com a produção e distribuição de insumos e produtos surgidos sob controle operário; e começaram a se organizar comandos para defender as posições conquistadas.

Os trabalhadores passaram a exigir do governo o passe das fábricas e oficinas à órbita estatal, questionando a propriedade privada e mostrando-se como alternativa ao poder do Estado patronal. Nessas discussões, os trabalhadores chocavam com os dirigentes do PC e do governo allendista que justificavam a devolução de empresas a seus velhos proprietários, apoiavam a lei que permitia os militares a invadir as fábricas em busca de armas e asseguraram o nomeação de Pinochet como chefe do Exército, quando o golpe já estava por vir.

A negociação com os partidos patronais no parlamento, assim como os acordos com o Alto Mando “institucionalista” das Forças Armadas, respeitando a constituição e as instituições do Estado, fechou o processo de mudança social no seio da democracia burguesa.

O desenlace do golpe

Uma primeira tentativa, o “Tanquetazo” de junho de 1973 fracassou. Apesar da advertência, Allende, o PS e o PC chamaram as massas a confiar na solidez da democracia chilena, no profissionalismo dos militares. Os trabalhadores, organizados na Coordenação Provincial dos Cordões Industriais enviaram uma carta ao presidente no início de setembro exigindo medidas urgentes para evitar o golpe em amadurecimento. Allende não só se negou a armar os trabalhadores, como também impulsionou as inspeções nas fábricas para desarmá-los.

Desorientados e desmobilizados pelos seus próprios partidos e pela CUT, os trabalhadores não puderam se preparar. O golpe do dia 11 de setembro encontra a classe operária e as massas impotentes e desarmadas. A experiência chilena foi crucial para a aplicação do Plano Condor na América do Sul, destinado a coordenar a repressão internacional. Chile se converteu na base de operações da CIA e dos serviços de inteligência da Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Bolívia, junto com a DINA (Direção de Inteligência Nacional do Chile, traduzido para o português).

A ditadura de Augusto Pinochet durou 17 sangrentos anos, os quais a burguesia restaurou sua dominação sobre os pilares do neoliberalismo em ascensão.

Fragmentos da carta enviada da Coordenação dos Cordões a Salvador Allende (05/09/1973)

“Passaram três anos, companheiro Allende e você não se apoiou nas massas e agora nós, os trabalhadores, temos desconfiança. Nós trabalhadores sentimos uma profunda frustação e desalento quando seu presidente, seu governo, seus partidos, suas organizações lhes dão uma e outra vez a ordem de retroceder em vez de avançar. Nós exigimos que não só nos informe, mas que também nos consulte sobre as decisões, que ao fim e ao cabo são definidoras para o nosso destino”.

 
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