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Miércoles 23 de Agosto de 2017
08:38 hs.

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A ERA DO IMPERIALISMO: HISTÓRIA SUCINTA DA ECONOMIA MUNDIAL CONTEMPORÂNEA/ Nota n.3
A economia mundial é planejada? Ela funciona de acordo com algum plano global?
Gilson Dantas
Brasília
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Voltemos às origens da economia mundial capitalista.
Procuremos focar o período de passagem do século XIX para o século XXI, quando ocorrem transformações qualitativas na economia capitalista.

Que mudanças são estas?

Da mesma forma que a concorrência engendrou o monopólio, também a expansão acelerada das mais ricas economias nacionais formatou o mercado mundial, em um processo que contou com o enorme progresso na técnica industrial, rapidez dos transportes (trem e navegação a vapor) e das comunicações (telégrafo) desenvolvidos pelo capital.

“Ao poder controlar à distância a marcha das empresas e o estado das colheitas, ao poder deslocar-se em uns dias de um ponto do globo para o outro para contratar in loco o pessoal de controle dos proletários, ou para fazer pressão sobre o governador recalcitrante, os capitalistas podem correr o risco de inverter seus capitais nos pontos mais longínquos da terra. O capital se internacionaliza e o mundo se unifica no sentido literal da palavra” (MANDEL, 1972: 65).

Oligopólios locais de cada metrópole capitalista se lançam no mercado internacional e, nesse processo, tendem a se conformar potências capitalistas de alcance internacional. Nessa mesma dinâmica, tende a se desenvolver a hegemonia inglesa e, paulatinamente, a norte-americana.

[Só a título de comparação, em 1957, já em outro quadro mundial, nos marcos do boom norte-americano, os números revelam uma mudança de hegemonia, agora em favor dos Estados Unidos: como destacava Mandel (p.66) , temos a Inglaterra exportando 46 bilhões de francos, a França 6 bilhões, a Alemanha 2 e os Estados Unidos 120 bilhões de francos. É evidente, aqui, a hegemonia dos Estados Unidos ].

Desenvolvidos os oligopólios, a nova economia mundial, recém-conformada pelo processo de acumulação do capital, marcha para uma era onde já não há mais chance de equilíbrio, em especial porque pouco a pouco o conflito de interesses econômicos entre os grandes oligopólios se travará não mais por espaços vazios (“sem dono”), mas pela redivisão do bolo mundial.

Está inaugurada a era das grandes crises globais, da instabilidade crônica, das grandes guerras e a possibilidade, ao mesmo tempo, de revoluções sociais.

A obra de Lenin, Imperialismo etapa superior do capitalismo, é um marco e a referência teórica seminal desses novos tempos do imperialismo, era dos conflitos globais, dos grandes tensionamentos internacionais entre os Estados.

Unificação mundial da economia, interdependência e crises
A formatação desta economia mundial vem a ser resultado histórico de uma inexorável tendência do movimento espacial dos capitais nos marcos do modo de produção capitalista.

É importante ressaltar aqui que, nessa fase que vai do final dos anos 1700 até 1914, portanto, desde o capitalismo concorrencial até determinado ponto do monopolista, as crises próprias do processo de acumulação do capital se desenvolverão livremente ou semi-livremente. O Estado ainda não intervém como regulador com o peso que assumirá a partir do século XX ou como agente que trata de criar ativamente contratendências anticrise. Essa será sua reação, crescentemente, sobretudo depois da mais profunda crise da economia mundial, a do crack de 1930, quando o comércio e a produção mundial sofrem seu maior golpe desde a existência desse modo de produção.

Para não dar margem a qualquer tipo de mal-entendido é de suma importância esclarecer que quando se fala em equilíbrio ou em crescimento equilibrado no capitalismo, seja ele da fase pré-imperialista ou imperialista, em nenhum caso se pensa em equilíbrio no sentido dos esquemas de reprodução de Marx (de O capital); não existe tal equilíbrio no capitalismo. E nem Marx pensou naqueles esquemas para explicar a economia mundial.

O capitalismo se caracteriza por um desequilíbrio dinâmico, ou seja, o crescimento jamais é equilibrado. E, invariavelmente, gera desproporções. Esta dinâmica leva a desvalorizações parciais de porões do capital, embora elementos isolados, neste caso, não sejam o essencial para explicar as crises.

Recomendamos enfaticamente, nesse sentido, a leitura do livro El capitalismo y sus crisis, de L. Trotski (2008, Ceip, Buenos Aires, publicado pelo PTS) onde essa questão do desequilíbrio dinâmico como condição normal do capitalismo está bem desenvolvida, lado a lado com a análise histórica, metodológica e política das distintas esferas do sistema [economia, relações entre os Estados e entre as classes].

Na virada para o século XX, a economia mundial passa a estar interconectada em moldes capitalistas, o que significa que estará engendrando desequilíbrios e tensões mais fortes e, como regra, drenando riquezas e acumulando poder político em função dos países mais avançados:

“No momento em que o desenvolvimento alcance seu ponto culminante, nas vésperas da I Guerra Mundial, a circulação ainda relativamente livre de mercadorias, de capitais e de homens – ainda que já obstaculizada pelas tendências protecionistas monopolistas – fez com que todos os países se tornassem interdependentes. O capital realiza assim a socialização e a internacionalização de fato da produção em escala mundial – ainda que em benefício quase exclusivo dos países metropolitanos” (MANDEL, 1972: 81).

Aqui é necessário ressaltar um dado sobre o qual pouco se chama a atenção: aquela industrialização, muito mais que atender a objetivos “industriais”, obedece a objetivos estranhos à própria indústria.

Em palavras simples, a indústria, onde quer que ela se instale, estará dirigida pelos donos do capital, portanto, perseguirá o lucro; não pode ser entendida como indústria em si, autodeterminada; ela produzirá roupas, sapatos ou instrumentos de todo tipo, mas o objetivo do capitalista não será roupas, sapatos ou instrumentos variados e sim o lucro.

O sistema persegue a acumulação do capital. Nem a saúde dos produtores nem do meio ambiente fazem parte da lista de prioridades: o lucro (que advém da exploração do trabalho humano) vem antes.

Este lembrete é de suma importância e faz toda a diferença, uma vez que é preciso sempre considerar que, tanto o perfil quanto o comportamento e a própria distribuição espacial da industrialização, obedecerão ao comando anárquico de um capital ávido de lucro e que, uma vez em movimento, não mais pode se deter, sob pena de perecer na concorrência.

O motor dos movimentos do capital é a sua própria valorização (acumulação). Não há plano prévio e tampouco o objetivo é produzir para o consumo: a finalidade imperiosa é obter a taxa de lucro satisfatória no mercado. Ao rígido planejamento intra-fábrica, para baixar custos etc, NÃO corresponde qualquer planejamento social sério, muito menos de longo prazo. E jamais mundial.

Esta ideia, que será retomada em outras partes do livro, é crucial para que se possa entender a conformação da economia como um ente mundial. E, por essa via, as marcas que este processo terá, e em particular uma delas que nunca será demasiado enfatizar: o fato de que a economia internacional constituir-se-á sem qualquer planejamento ou coordenação centralizada ou racional.

Seu objetivo mais profundo não nasce e nem obedece a qualquer regulação ou controle social. Sua racionalidade é outra, por fora dos interesses mais profundos da coletividade humana e dos produtores [classe trabalhadora], portanto.

As crises, como se verá mais adiante, forçam o sistema a buscar – através do Estado – formas de coordenações ou regulação, mas sua racionalidade não pode deixar de ser a da acumulação do capital a partir dos capitais individuais, engendrando um processo de conjunto que funciona segundo leis tendenciais e regras que se postam para além das vontades individuais das pessoas. Sejam essas pessoas os trabalhadores (enquanto se submetam à patronal) ou os próprios capitães de indústria e seus gerentes ou acionistas principais pelo mundo afora.

Em uma frase: gestores ou detentores do capital não passam de personas da acumulação e da reprodução ampliada do capital.

De toda forma, será por esta via, através da era do capital industrial, que será estabelecida não apenas uma nova divisão mundial do trabalho – apoiada na anterior e reproduzindo e ampliando as suas desigualdades – mas somente agora pode-se falar seriamente de uma economia mundial unificada. Suas características principais já foram mencionadas: instabilidade, maior inter-dependência entre os países e, em especial, vale agora examinar, o surgimento do fenômeno do imperialismo.

[Continua na Nota n.4, brevemente no ED].
[Crédito de imagem: filme Tempos modernos, de Chaplin ]

Referências:
Ernest Mandel, Tratado de economia marxista, 1972, Ediciones Era, México.

Juntas, essas notas integram o livro Breve introdução à economia mundial contemporânea: acumulação do capital e suas crises, Brasília, 2012, G Dantas.

 
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