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Miércoles 24 de Mayo de 2017
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A influência de Clausewitz e Da Guerra no pensamento de Lênin
André Augusto
Natal | @AcierAndy

Queremos neste texto dialogar com os méritos do trabalho do intelectual italiano Clemente Ancona, “A influência de Da Guerra de Clausewitz no pensamento marxista de Marx a Lênin”, no item que dedica à influência do pensamento do general prussiano em Lênin. Ancona faz um interessante percurso entre os autores da socialdemocracia e do marxismo que foram influenciados pela obra de Clausewitz para distintos fins; trataremos da temática desenvolvida sobre Marx e Engels, Jean Jaurès e Franz Mehring, apenas no que tange a facilitar o objetivo de entrar na discussão sobre Lênin. Teria o revolucionário russo sido influenciado por Clausewitz em sua teoria da revolução?

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Ilustração: Romualdo Nicola

Ancona parte de uma distinção importante entre o curso das investigações de Lênin sobre a obra de Clausewitz daquela feita por Marx e Engels, Jaurès e Mehring (de todos estes, apenas Jean Jaurès não fazia oposição ao sistema capitalista, buscando em sua obra L’Armée Nouvelle uma “reforma democrática” no exército republicano francês contra o revanchismo e o chauvinismo imperantes). Lênin não empreendeu a análise das obras de Clausewitz no quadro de um programa de investigações especificamente militares. Seus estudos no campo militar nunca tiveram um caráter orgânico – com a exceção do estudo da própria obra Da Guerra, que empreendeu no início de 1915, o ano mais sangrento da Primeira Guerra Mundial.

Esse desenvolvimento nos assuntos da guerra e da arte militar tem paralelos com o curso do desenvolvimento do pensamento militar de Leon Trotsky, dirigente máximo da revolução russa ao lado de Lênin. O criador e general do Exército Vermelho não é mencionado por Clemente Ancona neste trabalho, um ponto fraco importante, uma vez que a influência de Clausewitz no pensamento marxista clássico está muito longe de ter terminado em Lênin, tendo ganhado uma profundidade ímpar com Trotsky, como mostra o coronel Harold W. Nelson no trabalho “Trotsky e a arte da insurreição: 1905 a 1917”. Trotsky desenvolveu seu pensamento militar profundamente vinculado à luta de classes, passando pelas experiências concretas de 1905 e a função de correspondente de guerra nos Bálcãs e durante a Primeira Guerra, ainda que seus estudos também tivessem seguido uma linha descontínua (o que não o impediu de alcançar a estatura de grande estratega na insurreição de 1917).

O pouco conhecimento até hoje sobre os estudos militares de Lênin anteriores a 1915, entretanto, não significa que seja difícil encontrar seu interesse frequente em questões de tática e estratégia militares, de organização, desde os primeiros anos de sua atividade política.

Esse é talvez uma das grandes contribuições de Clemente Ancona ao estudo da evolução do pensamento estratégico em Lênin: que Lênin, ainda que de maneira inorgânica, buscou incorporar as questões da arte militar em chave marxista, na medida em que tinham validez teórica não apenas para a ação armada em sentido estrito, mas também para a luta política entre as classes sociais, para a revolução.

E acompanha este desenvolvimento com uma periodização própria entre 1904 a 1914, como introdução à “virada” de 1915 e seu estudo exaustivo de Da Guerra, de Clausewitz.

Já desde 1904, após a publicação do Que fazer?, já é possível individualizar elementos concernentes tanto a questões propriamente militares como a problemas de ação revolucionária que revelam uma preparação nada primitiva na teoria militar. Ancona faz notar que, no período de 1904 a 1907 – que compreende a guerra russo-japonesa e a primeira revolução russa – existe uma notável quantidade de escritos de Lênin sobre a organização e a ação armada insurrecional, e o conhecimento de textos de história e até mesmo técnica militar por parte do dirigente bolchevique. No texto “A queda de Port Arthur”, de janeiro de 1905, Lênin enumera uma série de critérios de interpretação dos fatos militares elaborados por Marx e Engels (que tinham Clausewitz entre suas principais fontes), como o caráter de massa da guerra moderna (posteriores à revolução francesa), o nexo entre a estrutura econômica do país e a capacidade técnico-militar, a guerra como consequência inevitável do desenvolvimento das contradições de uma sociedade dividida em classes, entre outros. Se nesse período as fontes teóricas principais de Lênin sobre a luta insurrecional foram Marx e Engels, no aspecto mais especificamente técnico da guerra tem interesse os prefácios de Lênin para o livro do general communard G. P. Clauseret (“Sobre a luta nas ruas”), e um estudo do revolucionário russo Filatov sobre as fortificações nas insurreições populares.

Já nos sete anos seguintes, entre 1907 a 1914 – que compreendem em sua maior parte os anos da reação czarista após a derrota de 1905, assim como as premissas de um novo ascenso da luta de classes a partir de 1912 – se conhece com pouca precisão como seguiu o curso do estudos militares de Lênin. Ancona elenca artigos e textos em que o dirigente bolchevique apenas sintetiza e aplica os conceitos militares adquiridos anteriormente, em análises referentes às guerras balcânicas de 1912-1913, ou polêmicas com a ala oportunista da Segunda Internacional sobre o militarismo (não aparecem com relevo as importantes reflexões acerca dos problemas da Comuna de Paris, escritos em 1905 e 1911, em que Lênin busca justamente aplicar os conceitos à luta de classes).

Tem especial importância, entretanto, nesse período, dois artigos de luta político no seio da socialdemocracia internacional: um de 1908 e outro de 1913. No primeiro escrito, criticando as posições patrióticas de setores da socialdemocracia alemã (Bebel, Vollmar, Noske), de pacifistas como Jaurès e de anarquistas como Hervé, Lênin antecipou de maneira fragmentária o julgamento que formularia em 1914-1915 acerca da posição da classe operária frente à guerra imperialista, e já denunciando a confusão entre o caráter “defensivo ou ofensivo da guerra” que levaria os principais partidos da II Internacional a justificar, em 1914, sua capitulação ao imperialismo europeu. No segundo escrito, Lênin também antecipa um núcleo importante de discussão do binômio clausewitziano entre guerra e política, assimilando destramente a guerra como instrumento auxiliar especial da política e a serviço desta.

Virada em 1915, Da Guerra

Clemente Ancona sustenta que além de Marx e Engels, Lênin se serviu decididamente dos avanços teóricos realizados por Franz Mehring na historiografia militar (como na obra Krieg und Politik [Guerra e Política]), que dentro da socialdemocracia alemã foi o primeiro marxista a desenvolver dialeticamente a relação entre guerra e política e a natureza de classe da guerra (a guerra como “contradição secundária na sociedade dividida em classes”, subordinada à política), tomando Clausewitz para rechaçar a oposição feita pela ala oportunista da II Internacional entre “guerra defensiva” e “guerra ofensiva”, enxergando-os como momentos táticos distintos e combináveis dentro do conflito militar.

Nos últimos meses de 1914 e primeiros meses de 1915 – durante os quais Lênin enunciou com toda clareza a posição dos bolcheviques frente à guerra imperialista – foram esses textos de Mehring acerca dos problemas militares, saídos nas imprensas socialdemocrata alemã e suíça, grandes fontes para o dirigente russo, além dos boletins de guerra oriundos da frente de batalha.

Ancona aponta, entretanto, que o grande mergulho de Lênin na obra clausewitziana tem uma inflexão em 1915, quando Lênin examina as obras póstumas do general prussiano e especialmente Da Guerra. Não é difícil individualizar nos escritos prévios a 1915 ideias afins ao prussiano, mas a referência utilizada é sempre de “segunda mão”, notavelmente de Engels e Mehring. Segundo Ancona, de fato, antes de 1915 o nome de Clausewitz não aparece em nenhum lugar dos escritos de Lênin; posteriormente aparece com frequência. E para confirmar a tese deste “momento de virada” (também marcado pela leitura da Lógica de Hegel), em 1915 se destaca o grosso caderno de notas e extratos feitos por Lênin sobre alguns capítulos da obra magna de Clausewitz.

Não é nossa intenção desenvolver o conteúdo dos apontamentos significativos que faz Lênin em seus “Cadernos filosóficos” sobre a obra de Clausewitz (que chamaram a atenção mesmo de teóricos da direita como Carl Schmitt, Marx Vichniac, Raymond Garthoff e John Erickson). Trata-se de um processo de aprendizagem e assimilação crítica permanente de Lênin num momento vulcânico da história mundial e da luta de classes, em que a avidez por abranger o núcleo prático da arte da guerra se combina com a refutação de todo idealismo e a postura política reacionária de Clausewitz (que apesar das críticas sempre esteve ligado ao serviço da monarquia prussiana). Por exemplo, não dedica uma linha aos 23 primeiros parágrafos do capítulo introdutório de Da Guerra, que contém elementos chave do método clausewitziano (definição do conceito da guerra e a relação da violência com os meios da guerra, entre outros).

Entretanto, Lênin agarrou firmemente os temas fundamentais: o nexo entre guerra e política; a relação entre defensiva e ofensiva; a importância do fator moral na guerra, junto ao fator material; a função do Estado Maior; a assimilação crítica da concepção clausewitziana entre o povo e a guerra; entre outros. Esses temas, assim como a máxima que sintetiza para Lênin a abordagem que deve ser feita pelos marxistas do fenômeno de todas as guerras, “a guerra é a continuação da política por outros meios”, está presente nas obras centrais do dirigente bolchevique sobre a luta política contra o oportunismo da socialdemocracia internacional frente a guerra imperialista: “A bancarrota da II Internacional”, “O socialismo e a guerra”, “A guerra e a revolução”.

A guerra é a continuação da política por outros meios (a saber, pela violência). Esta famosa tese pertence a Clausewitz, um dos homens que escreveu com mais profundidade sobre os temas militares. Com toda razão, os marxistas consideraram esta tese como a base teórica das ideias sobre a importância de cada guerra em particular. Justamente desse ponto de vista examinaram Marx e Engels as diferentes guerras”, diz em “O socialismo e a guerra”. “Com referência à guerra, a tese fundamental da dialética, que Plekhanov tergiversa tão desavergonhadamente, para comprazer a burguesia, diz que a guerra é uma simples continuação da política por outros meios [precisamente os violentos]. Tal é a fórmula de Clausewitz, um dos grandes historiadores militares, cujas ideias foram estimuladas por Hegel. E tal foi sempre o ponto de vista de Marx e Engels, que consideravam toda guerra como a continuação da política das potências dadas, interessadas – e das distintas classes existentes nelas – em um momento dado”, diz em “A bancarrota da II Internacional”.

Tudo havia sido dito antes do contato com Da Guerra?

O mérito de Ancona está em posicionar corretamente a importância do pensamento estratégico no marxismo, e o lugar específico da arte militar no seio da estratégia revolucionária, ligada à luta de classes naquele que foi junto a Trotsky o grande estratega da Revolução de Outubro. Este, que foi um dos desenvolvimentos mais importantes do marxismo no século XX, foi abandonado pela esquerda na segunda metade do século passado. Recuperar este arsenal para o marxismo do século XXI pressupõe batalhar contra o senso comum “antiestratégico” daquela esquerda que renuncia a pensar todas as implicações da revolução.

Especificamente sobre Lênin, Ancona acerta em definir que, se não se pode negar que a fórmula clausewitziana havia desempenhado um importante papel na conformação da posição de Lênin e dos bolcheviques diante da guerra de 1914-1918, não é menos verdadeiro que a substância desta posição havia amadurecido independentemente da influência de Clausewitz.

Entretanto, achamos que há algo na opinião de Ancona que merece reparos. Certamente o marxismo, como ciência da revolução e arte da estratégia, não está subordinada ao pensamento de Clausewitz, e sim assimila criticamente os melhores elementos de sua teoria da guerra. Apesar disso, não é verdade que não houve mudanças e evoluções substanciais na concepção revolucionária de Lênin após 1915 e a leitura de Da Guerra.

Ancona conclui “Não foi decisiva a ajuda de Clausewitz (apesar de muito importante) na elaboração da ‘teoria da revolução proletária’ na medida em que as linhas essenciais desta última foram traçadas antes da leitura de Da Guerra”.

Cumpre dizer que Lênin modificou radicalmente a perspectiva de sua “teoria da revolução” no calor dos acontecimentos de 1917, e especialmente a partir de abril daquele ano. Mesmo hoje há uma significativa corrente de historiadores que defende que o bolchevismo “chegou plenamente armado em 1917”, enxergando o período que transcorre entre as origens do movimento bolchevique em 1903 e a tomada do poder em 1917 como um cordão retilíneo e constante. O objetivo deste pensamento é relativizar as polêmicas ardentes no seio do POSDR e do próprio bolchevismo, assim como diluir as mudanças radicais que significaram trabalhos de Lênin como as Cartas de Longe e as Teses de Abril.

Não se trata do objetivo de Ancona. Mas cumpre esclarecer este mito do partido bolchevique como uma organização monolítica de pensamento único, que entrou em 1917 tão perfeitamente equipada e armada como Atena saída da testa de Zeus. Sendo decisivas ou não, vemos aqui “linhas essenciais” retraçadas após o estudo de Clausewitz, sempre segundo o norte estratégico do marxismo.

O certo é que nem Lênin, nem os bolcheviques, chegaram completamente armados ideológica e estrategicamente no ano da revolução de Outubro. Lênin, em todo o período abrangido por Ancona, ainda aderia à chamada “ditadura democrática de operários e camponeses”, uma fórmula que não respondia ao caráter de classe do poder que deveria substituir o czarismo (que classe definiria o conteúdo social da ditadura?). Deste ponto de vista, o bolchevismo ainda não elevava sua teoria da revolução à altura dos acontecimentos. O único a desafiar este “dogma do velho bolchevismo” desde 1905 foi Trotsky, que colocava com clareza a mecânica revolucionária que elevaria o proletariado como dirigente das tarefas democráticas do restante da nação, levadas a cabo por uma ditadura do proletariado apoiada pelo campesinato pobre, tarefas democráticas que se combinariam rapidamente com as primeiras tarefas da revolução socialista, dando um caráter permanente à revolução.

As “Cartas de Longe” escritas por Lênin, exilado na Suíça, em março de 1917, são uma primeira aproximação com esta perspectiva colocada por Trotsky, e um giro radical frente a sua formulação anterior, na luta por abandonar o “velho bolchevismo” e rearmar estrategicamente os bolcheviques para a tomada do poder pelos sovietes. As “Teses de Abril”, documento escrito em abril de 1917, aprofundam a “mudança copernicana” iniciada nas Cartas de Longe, e colocam Lênin em rota de colisão com o conservadorismo passivo que se desenvolvia na direção partidária daquele então (Stálin, Kamenev, Bukharin, entre outros que se adaptavam ao Governo Provisório burguês, aos sovietes conciliadores e à continuidade da guerra imperialista). Nas “Teses”, Lênin estipula com clareza que nada, a não ser a falta de preparação e organização necessária, impedia que o resultado da queda do czarismo em fevereiro tivesse sido a ditadura do proletariado, e que todas as energias revolucionárias deveriam preparar este objetivo: a tomada do poder pelo proletariado em armas, apoiado pelo campesinato.

Tal mudança política atingiu uma dimensão teórica chave: a questão do Estado. Esta temática havia sido pouco desenvolvida depois do 18 Brumário de Luís Bonaparte e dos escritos sobre a Comuna de Paris, ambos de Marx. Os trabalhos de Lênin no primeiro semestre de 1917 prepararam as bases para uma obra teórica crucial do século XX: O Estado e a Revolução, de setembro do mesmo ano, onde se resgata a concepção marxista do Estado ligado à tarefa concreta da tomada do poder pelos trabalhadores.

Como diz Trotsky, “a partir de então, nada de essencial me separava de Lênin”. Adotando a posição de Lênin acerca da necessidade da independência completa do partido bolchevique, Trotsky coloca sua linha política em convergência com a de “Vladimir Ilitch”, uma fusão que preparava o triunfo de Outubro.

Sem ir mais longe para os nossos propósitos, está claro que não há uma continuidade linear e sem obstáculos entre o passado bolchevique e 1917, mas uma dialética complexa entre continuidade e ruptura, de preservação da qualidade revolucionária de um partido temperado na luta de classes e na intransigência contra a colaboração com a burguesia liberal, ao mesmo tempo que a superação de velhas concepções dogmáticas que contribuíam a que o partido bolchevique não estivesse à altura da história.

A reflexão sobre Clausewitz e Da Guerra, com a enorme riqueza de conceitos políticos e definições estratégicas para combater a capitulação socialdemocrata à guerra imperialista, e a percepção do objetivo central da guerra de classes, de aniquilamento do inimigo para a construção de uma sociedade superior sem antagonismos entre classes e estados, não foi de menor importância para a conclusão de Lênin em rearmar o bolchevismo em direção à ditadura do proletariado contra as vacilações do “velho bolchevismo”, ou seja, as antigas concepções que havia defendido no passado mas que se tornava imprescindível superar. E superou com êxito formidável.

 
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