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Martes 27 de Junio de 2017
07:32 hs.

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PÃO E ROSAS - IDENTIDADE DE GÊNERO E ANTAGONISMO DE CLASSE NO CAPITALISMO
Prólogo à segunda edição brasileira, por Diana Assunção

Pão e Rosas. Quando entendi pela primeira vez o significado destas duas palavras juntas compreendi o sentido mais profundo da luta pela transformação radical da sociedade.

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Pão e Rosas. Quando entendi pela primeira vez o significado destas duas palavras juntas compreendi o sentido mais profundo da luta pela transformação radical da sociedade. Esta luta guarda em si não somente a indignação e revolta contra um sistema baseado na miséria, exploração e opressão, mas guarda também a esperança de uma vida que pode ser bela, que pode ser integralmente dedicada ao desenvolvimento livre da humanidade. Por isso, lutar pelo “pão” significa lutar por todas as condições materiais para a subsistência digna e abundante e lutar pelas “rosas” significa lutar pela beleza, pela arte, pela cultura, pela poesia da vida. Isso é impossível sob a bota do capitalismo. Pão e Rosas é, portanto, lutar por uma sociedade comunista.

No ano do centenário da Revolução Russa, a maior obra da classe operária internacional, podemos examinar as lições deste acontecimento histórico para refletir a atualidade da luta pela libertação das mulheres em uma perspectiva socialista e revolucionária de enfrentamento com o modo de produção capitalista. É com este objetivo que a Edições ISKRA traz ao público brasileiro a segunda edição do livro Pão e Rosas – Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo, de Andrea D’Atri.

Este livro perpassa grandes acontecimentos do século XIX e XX e os principais debates do feminismo internacional para analisar através do materialismo histórico e dialético a relação entre opressão e exploração como forma de perpetuação da dominação capitalista, que se reinventa, se apropria e se moderniza nas formas de exploração. Como dizia Rosa Luxemburgo “o capitalismo é um sistema de discriminação na exploração, ao mesmo tempo em que é de exploração sistemática de toda forma de discriminação”. Por isso, em meio a tantos debates pós-modernos que diluem a atualidade da luta revolucionária e anticapitalista, o livro Pão e Rosas – Identidade de gênero e antagonismo de classe no capitalismo traz a urgente leitura sobre o papel do marxismo na luta das mulheres.

O marxismo revolucionário, que no século XX teve sua continuidade através do Partido Bolchevique, defendeu com a maior energia a luta pela verdadeira emancipação das mulheres. Isso esteve com força nas lições de 1917 e na enorme preocupação em planificar a economia soviética para garantir as possibilidades materiais de libertação das mulheres. Os bolcheviques nunca tiveram uma visão romântica sobre a emancipação das mulheres, senão que consideravam, em especial seus principais dirigentes como Lenin e Trotsky, que a igualdade das mulheres deveria ser uma igualdade não apenas na lei, mas também na vida. O que significava um enorme combate dentro da própria revolução russa para deixar para trás todos os preconceitos e atrasos advindos da sociedade patriarcal, com as contradições do capitalismo nascente e os velhos traços feudais na sociedade russa.
Mas o lugar da questão de gênero na revolução ia para além das medidas mais imediatas. Acompanhava a visão histórica de que “sem libertar as mulheres não é possível existir o comunismo” e de que a tomada do poder era apenas 10% do processo revolucionário de transformação da sociedade, já em polêmica com stalinistas e toda a burocratização do Estado operário. Era necessário completar este processo a nível internacional e lançar uma verdadeira “revolução dentro da revolução” para atacar a fundo os problemas de opressão arrastados da sociedade capitalista.

Estas são grandes lições de processos revolucionários avançados, que denotam o sentido libertador e emancipatório da classe trabalhadora enquanto sujeito político que hegemonize os setores oprimidos frente a revolução, enfrentando as contradições no seio da própria classe. As mulheres precisam ver nesta classe sua principal aliada para emancipar-se destruindo o sistema capitalista e abrindo espaço pra uma sociedade livre da violência e da opressão. É com esta perspectiva que Andrea D’Atri retoma importantes acontecimentos internacionais para tratar das diferenças de classe na luta das mulheres.

Os conceitos apresentados neste livro buscam contribuir com a reflexão cada vez mais presente na atualidade sobre a estratégia de luta das mulheres. Em um momento internacional de crise econômica, onde o imperialismo norte-americano volta a mostrar sua cara mais machista e xenófoba e onde as demandas democráticas das mulheres voltam com força na sociedade, passando muitas vezes da insubordinação à institucionalização, voltar aos conceitos do feminismo das origens, os debates entre marxismo e feminismo, a discussão da pós-modernidade e do pós-feminismo passa a ser vital para que a energia dedicada em lutar contra a sociedade patriarcal não se torne fortalecimento do Estado capitalista. Para que possamos transformar cada conquista das mulheres não em estabilização da estrutura vigente, mas em ponto de apoio para destruir esta sociedade de classes. Os levantes de mulheres em todo o mundo precisam tomar a clara perspectiva anticapitalista, pois não queremos ser algumas mulheres no poder, queremos ser milhares pela nossa libertação.

Para quem vos escreve, a reedição desta publicação tem um significado especial. Porque também em 2017 se completam 10 anos da fundação em nosso país do grupo de mulheres que leva o nome deste livro, mais uma vez Pão e Rosas, grupo do qual sou fundadora. Nestes 10 anos, em intensa colaboração com nossas companheiras da Argentina, México, Chile, Venezuela, Bolívia, Uruguai, Estado Espanhol, França, Alemanha e mais recentemente dos Estados Unidos, temos buscado contribuir teoricamente para o movimento feminista internacional com uma visão marxista e revolucionária da luta das mulheres. Aqui no Brasil temos o enorme orgulho de ter como marca inconfundível do Pão e Rosas a luta contra o trabalho precário feminino, que tem rosto de mulher, de mulher negra e imigrante. Participamos de centenas de lutas operárias em vários estados do país, de centenas de mesas, conferências e atividades nas universidades, de centenas de reuniões em locais de trabalho e estudo. A cada 8 de março, a cada assassinato de mulheres, a cada mulher morta por aborto clandestino, a cada ação racista ou de preconceito sexual, a cada desmando patronal, o Pão e Rosas busca atuar de forma intransigente pelos nossos direitos e para avançar a organização das mulheres que na sociedade são as mais oprimidas e exploradas, que são as mulheres trabalhadoras.

É emocionante olhar estes 10 anos e ver uma trajetória de energia e convicção inabalável por um novo mundo. É mais emocionante ainda pensar que há 100 anos elas se atreveram, como parte da classe operária russa, a tomar o céu por assalto. É por tudo isso que este livro editado em diversos países é um livro militante. Um livro que não é para ficar na cabeceira ou na estante, mas um livro para a luta, uma ferramenta para contribuir nas ideias que possam se transformar em prática concreta pela nossa libertação. Como eu dizia no início, lutar pelo pão e pelas rosas é lutar por uma sociedade comunista, livre de toda a opressão e exploração. E para isso é necessária uma estratégia.

Atualmente, o trotskismo é ainda a corrente que guarda de forma mais profunda estas lições, entrelaçando de forma vital a luta das mulheres com a luta de classes, depositando na classe operária enquanto sujeito social a possibilidade de transformação desta sociedade, mas também alentando de forma viva e verdadeira a organização e luta de todos os setores oprimidos. É porque Trotski deixou cravado nas bandeiras de fundação da IV Internacional a palavra de ordem para “abrir passagem” à mulher trabalhadora, porque viu com os próprios olhos, no grito, na vontade e persistência da classe operária feminina russa, e também das camponesas pobres, que os que lutam com mais vontade pelo novo são os que mais sofreram com o velho. O velho é esta sociedade capitalista, e por isso, nós mulheres precisamos lutar pelo novo.

Diana Assunção
São Paulo, março de 2017

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