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Domingo 17 de Diciembre de 2017
12:47 hs.

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CULTURA
Entrevista com o Desvio Coletivo
Fábio Nunes
Vale do Paraíba

Arte e política

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PRISCILLA TOSCANO - O Desvio Coletivo nasceu em 2011 à partir de um curso de extensão universitária em Performance realizado no Instituto de Artes da UNESP em parceria com Laboratório de Práticas Performativas da USP. Marcos Bulhões e eu fizemos parte da fundação do coletivo e hoje dividimos a direção artística do grupo que é produzido por Leandro Brasílio e Marie Auip (Sofá Amarelo | Produção e Arte) que também atuam como performers e compõem o núcleo fixo ao lado de Viny Psoa (direção de vídeo) e Rodrigo Severo (coordenação técnica e performer). Somos uma rede de criação em arte contemporânea que a cada obra do repertório reúne artistas de diversas linguagens. Nossa pesquisa se divide em três vertentes: Teatro Performativo Relacional, Intervenções Urbanas e Vídeo Performance. Em relação as criações teatrais, nossa perspectiva está em permear a cena com estímulos que emanam da Performance Arte colocando o público sempre em um papel ativo, inserindo-o em um jogo com os performers para vivenciar experiências artísticas. Com as Intervenções Urbanas nosso foco está em inverter a lógica da rua como simples local de deslocamento reafirmando-a como espaço de apropriação, memória e pertencimento. Poder levar às ruas imagens que assaltem e resgatem as pessoas do automatismo do cotidiano e levá-las a refletir sobre questões sociais e políticas é o principal combustível que nos instiga a pensar e produzir manifestações artísticas que dialoguem com o espaço urbano. Já o interesse na realização de vídeo performances surgiu como desdobramento de nossa pesquisa em Intervenção Urbana, onde pensamos o vídeo não apenas como registro da ação e sim como elemento que existe para potencializar essa a Performance e estendê-la para meios de grande alcance como é o caso da internet. Consideramos que levar o impacto de nossas imagens ao alcance da internet é tão importante quanto o ato de realizá-las ao vivo, já que vivemos numa sociedade hiperconectada. Os principais trabalhos do grupo são: “Cegos”- Performance Urbana selecionada para compor a programação do Circuito Sesc Palco Giratório 2014, realizada em diversas mostras e festivais no Brasil e no exterior, contemplada pelo Prêmio FUNARTE Myriam Muniz de Teatro 2015; “Pulsão” – Espetáculo selecionado para compor a programação da I Bienal Internacional de Teatro da USP; “Que morram os artistas” – Espetáculo encomendado pelo Sesc SP para compor a programação da exposição Máquina Tadeusz Kantor; “Matrimônios” – Performance Urbana realizada no Chile no X Encontro do Instituto Hemisférico de Performance e em São Paulo na edição de 2016 do festival Satyrianas; dentre outros.

Fabio Nunes - Cegos

PRISCILLA TOSCANO - A intervenção urbana Cegos representa homens e mulheres condicionados a fomentar a existência de um sistema social petrificado, automatizado e aprisionado às normas impostas pelos poderes no eixo político, financeiro, religioso, jurídico e midiático de nossa sociedade. No atual contexto brasileiro é inevitável que essa imagem seja associada a uma elite política/empresarial suja, corrupta, criminosa e vendida ao capital financeiro. Trata-se de uma ação artística que só ganha sentido ao ser realizada na rua, por isso a classificamos como Performance Urbana. Ela acontece em deslocamento e elegemos o trajeto dessa caminhada levando em consideração uma rota onde possamos passar diante de edifícios símbolos de poder, como exemplo os prédios de serviços públicos (prefeituras, palácios de governo, secretarias, justiça federal, etc...) e, como nossa crítica está direcionada a diversos eixos do poder, também optamos por inserir em nossos trajetos, percursos nos quais hajam igrejas (independente da religião), bancos (públicos e privados), edifícios nos quais a mídia hegemônica opera, além dos edifícios onde nossos políticos exercem seus mandatos etc.

LEANDRO BRASILIO - Um dos aspectos mais interessantes de CEGOS que é o coro de pessoas que participam da ação é oriundo do workshop sobre intervenção urbana e performance que ministramos em cada cidade que a ação é realizada. Qualquer pessoa interessada, mesmo que não tenha nenhuma experiência artística, pode participar e dar a sua opinião sobre o que considera a “cegueira” local, contribuindo assim para a criação de uma cartografia política e poética, a partir do pertencimento de quem vive naquele local, e não de uma visão do grupo, que na maioria das vezes só conhece a cidade por conta da viagem para a apresentação. Nesse sentido, o trabalho ganha potência política por problematizar uma visão dos moradores em relação com o seu território. A partir disso, CEGOS pode ganhar várias leituras pois existem situação muito peculiares que somente os moradores reconhecem ou compreendem, como por exemplo, a indicação de uma casa de chá que é frequentada pela elite da cidade como um símbolo de poder. Obviamente que nós do Desvio não teríamos essa percepção estando na cidade por um curto período, e se fossemos criar uma cartografia pela nossa visão nos recorreríamos ao eixo político-administrativo, por serem símbolos de poder mais óbvios. Isso fez com que CEGOS, em muitas experiências, tenha se tornado um instrumento que expresse em tempo real situações vivenciadas na cidade, tendo como argumento o assunto que foi capa de jornal do dia, ou assunto mais falado da semana etc. Assim, CEGOS é também uma resposta artística e poética ao momento social para os assuntos mais discutidos dentro de um contexto de tempo e espaço.

Fabio Nunes - A Prefeitura de São Paulo congelou as verbas da cultura e declarou guerra a arte de rua. Comentem.

LEANDRO BRASILIO - A Atual gestão, tanto da Secretaria Municipal de Cultura, quando da Prefeitura da cidade de São Paulo; num panorama histórico, desenvolve as políticas públicas para a cultura após amplo debate entre poder público e sociedade civil, a fim de contemplar a maior diversidade artística e cultural possível. São Paulo, uma das maiores cidades do mundo, de referência global, sempre foi uma cidade que encampou pensamentos progressistas em relação à cultura, o que foi acompanhado pelos seus secretários e gestores, tendo em sua linha do tempo grandes pensadores e estudiosos ocupando o cargo de secretário municipal de Cultura; figuras que influenciaram o pensamento e a transformação social da sua época. A perseguição infundada que o poder público da cidade de São Paulo travou em relação a expressão artística realizada no espaço urbano reflete diretamente uma visão de mundo partidária, de caráter excludente, que não considera a rua como território legítimo de ser ocupado, mas apenas como espaços de passagem. Esse pensamento é observado não apenas em relação às manifestações artísticas, mas em outros níveis, assim como com os moradores de rua, por exemplo. Essa guerra é resultado de um recrudescimento do ódio generalizado que vem fazendo do nosso planeta, vide os resultados das últimas eleições no mundo ou a situação dos refugiados de várias partes, um lugar cada vez mais cruel e intragável. São Paulo, com sua importância histórica e social, sempre pioneira de pensamentos que influenciaram e foram determinantes para gerações futuras, com essa nova gestão, sob o pretexto de uma cidade linda, tem se tornado um não espaço, coberto pela fuligem cinza das engrenagens de um sistema perverso e desigual, que prefere fechar os olhos para os movimentos e clamores sociais de grande parte da população em prol de interesses de uma classe média egoísta e politicamente confusa, que prefere viver numa cidade triste e desumana, do que numa cidade pautada pela diversidade e pelo pensamento progressista que quase sempre a acompanhou. Este é realmente um momento muito triste para a história da nossa São Paulo.

PRISCILLA TOSCANO - A prefeitura não tem demonstrado nenhum respeito pelos trabalhadores da cultura em nossa cidade. O que vem acontecendo é mais que declarar guerra a arte de rua, é um total desmonte da cultura inviabilizando a continuidade das atividades do Programa Vocacional, Piá, Escola Municipal de Iniciação Artística, Fomento à Dança, Fomento ao Teatro, Fomento das Periferias, Fomento ao Circo, o Programa Jovem Monitor Cultural e os editais VAI I e VAI II, aniquilando totalmente processos, espaços e histórias que construímos a duras penas. O congelamento em 47% da verba já aprovada na câmara municipal em 2016 quebra absolutamente todo o trabalho construído há anos, coloca em risco a existência de inúmeros projetos e inviabiliza o funcionamento de diversos espaços culturais. Esse corte na Secretaria da Cultura é o quarto maior entre as 22 secretarias, apesar de seu orçamento ser um dos menores da cidade. A cultura detém menos de 1% do orçamento e pouco contribui para o equilíbrio das contas públicas. A atual gestão tem mantido uma conduta arbitrária com pouco e muitas vezes sem nenhum diálogo com a classe artística.

Fábio Nunes - Vivemos uma forte crise econômica e política. A direita reacionária avança. A classe trabalhadora e a juventude ensaiam respostas. Qual o papel da arte neste barulho todo?

PRISCILLA TOSCANO - Acredito na Arte como ferramenta de luta e transformação. Quando vou a manifestações e vejo diversas pessoas e grupos se utilizando de recursos estéticos e diferentes linguagens artísticas para traduzirem suas reivindicações percebo que isso revela a importância da arte na vida em sociedade e na formação de sujeitos críticos capazes de promover lutas significantes na história do país. Penso que a Arte tem seu papel no fortalecimento das lutas sociais, e que o fazer artístico não está restrito a um grupo de favorecidos que detêm os conceitos e formas dessa expressão fazendo dela (a Arte) objeto intocável sagrado que só pode ser feita e apreciada por uma pequena elite detentora de saberes. Infelizmente somos reféns de uma mídia hegemônica que obedece aos próprios interesses a aos interesses dos grupos mais poderosos desse país. A maior parte da sociedade é formada por uma massa que é humilhada pelo pouco acesso a educação em contrapartida as inúmeras horas de exposição a uma televisão que emburrece o telespectador. Pequenos movimentos de resistência comunicativa sobrevivem na internet, mas são fagulhas em meio ao colapso da democracia e da liberdade de expressão, e que facilmente serão esmagados no curso que a história tem seguido. Acho que a maior dificuldade do artista é sobreviver a tudo isso e continuar produzindo uma arte de resistência que esteja fora do espaço burguês de consumo, fora dos próprios teatros, museus e galerias, que esteja nas ruas e espaços públicos, promovendo debates, levantando perguntas, tirando as pessoas de suas zonas de conforto e criando movimentos que fortaleçam e aumentem as redes de resistência dos grupos que lutam pela democracia e pelos direitos dos trabalhadores, dos estudantes, das crianças, das mulheres, dos negros e da população LGBT. Me pergunto como continuar com tais posturas e produções artísticas sem ser aniquilada por um sistema que tudo devora e normatiza e que tem tentado inclusive transformar em produto essas lutas, revertendo a própria lógica dos movimentos de resistência sem que percebamos.

LEANDRO BRASILIO - O sistema capitalista, estruturado para ser excludente, tenta eliminar as diversas vozes das minorias que ecoam por todos os cantos do mundo; naturalizar situações de exploração e subserviência, tem sido o maior intento de um sistema que visa o lucro e a felicidade baseada exclusivamente no poder de consumo, a qualquer custo. A expressão artística, ao meu ver, surge como instrumento capaz de devolver o poder de fala as minorias sociais, que são responsáveis por eternizar versões da história não contadas pelos meios de comunicação hegemônicos. Obviamente que existem expressões artísticas que foram coaptadas, dando azo a uma indústria cultura igualmente perversa e desigual. No entanto, o poder de mobilização que a arte pode proporcionar, através das suas mais diversas manifestações, é no que temos que nos apegar; a carga reflexiva que uma expressão artística é capaz de carregar é algo que pode ultrapassar fronteiras e romper barreiras no alargamento da compreensão dos fatos e dos fenômenos sociais a que estamos submetidos.

Nesse sentido, apenas para contextualizar, o trabalho que o Desvio Coletivo desenvolve, na minha visão, é um poderoso meio de comunicação radical, que coloca na pauta do dia não apenas os assuntos de interesse do capital. É uma expressão artística que tem lugar na inquietação, que somente se torna vital quando encontramos um grupo de pessoas que se dispõem e refletir, não apenas no discurso, mas na prática, assuntos que perpassam vários campos de suas vidas.

Leandro Brasilio: Produção | Desvio Coletivo
Priscilla Toscano: Direção | Desvio Coletivo
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