De Virginia Woolf a Carolina Maria de Jesus: gênero e classe na literatura

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Ilustração: Juan Chirioca

Por Fernando Pardal e Lara Zaramella

este texto foi baseado na oficina do Grupo de Estudos de Cultura e Marxismo realizada na calourada da Letras USP

 

Era preciso ser uma espécie de incendiária para dizer a si mesma:

Ah, mas eles não podem comprar a literatura também!

A literatura é franqueada a todos. (…)

Tranque suas bibliotecas, se quiser, mas não há portão, nem fechadura,

nem trinco que você consiga colocar na liberdade de minha mente.

– Virginia Woolf, “Um teto todo seu”

 

Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você.

Todos tem um ideal. O meu é gostar de ler

– Carolina Maria de Jesus, “Quarto de Despejo”

O preço do feijão/ não cabe no poema.

O preço/ do arroz/não cabe no poema./

Só cabe no poema/ o homem sem estômago/

a mulher de nuvens/ a fruta sem preço.

– Ferreira Gullar, “Não há vagas”

        Virginia Woolf, tendo se consagrado como um nome incontestavelmente pertencente ao panteão dos grandes autores literários de todos os tempos, teve que enfrentar para isso os imensos obstáculos que se colocavam para que uma mulher inglesa – em um país recém-saído da marcadamente repressiva era Vitoriana – pudesse se alçar como uma intelectual e artista. Tendo sofrido na pele a opressão e discriminação às mulheres, não deixou de colocar este como um tema fundamental dos diferentes gêneros de sua escrita.

        Um de seus textos mais conhecidos, um marco precursor no estudo histórico da repressão às mulheres quanto às possibilidades de exercer uma profissão, de criar artisticamente, foi o ensaio “Um teto todo seu”, publicado em 1929. O ensaio procura responder perguntas como: “Por que um sexo era tão próspero e o outro, tão pobre? Que efeito tinha a pobreza na ficção? Quais as condições necessárias para a criação de obras de arte?”.

        Revolvendo os livros de história, Virginia relembra como na Idade Média surrar as esposas era um “direito legítimo” dos esposos, e duzentos anos depois estes ainda eram “amos e senhores” de mulheres que nunca os escolheram. Mas, Woolf aponta também uma situação paradoxal: como “musa” nas obras de ficção a mulher era idolatrada, enquanto como sujeito social era completamente oprimida: “Uma criatura muito estranha, complexa, emerge então. Na imaginação, ela é da mais alta importância; em termos práticos, é completamente insignificante. Atravessa a poesia de uma ponta à outra; por pouco está ausente da história. Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era escrava de qualquer rapazola cujos pais lhe enfiassem uma aliança no dedo. Algumas das mais inspiradas palavras, alguns dos mais profundos pensamentos saem-lhe dos lábios na literatura; na vida real, mal sabia ler e escrever e era propriedade do marido.

        Ela, então, discorre sobre Judith, uma fictícia irmã de Shakespeare que cria para pensar sobre a condição da mulher no século XVI. Em sua ficção, Judith termina por se suicidar, sem conseguir tornar-se uma artista reconhecida como o irmão. E Virginia conclui: “qualquer mulher nascida com um grande talento no século XVI teria certamente enlouquecido, se matado com um tiro, ou terminado seus dias em algum chalé isolado, fora da cidade, meio bruxa, meio feiticeira, temida e ridicularizada. Pois não é preciso muito conhecimento de psicologia para se ter certeza de que uma jovem altamente dotada que tentasse usar sua veia poética teria sido tão contrariada e impedida pelas outras pessoas, tão torturada e dilacerada pelos próprios instintos conflitantes, que teria decerto perdido a saúde física e mental.

        E, tratando longamente de inúmeras dificuldades enfrentadas por qualquer mulher que ousasse escrever, Virginia vê o ponto de virada quando as mulheres conseguem fazer da escrita um ofício, e viver de seu próprio trabalho: “A extrema atividade mental que se revelou entre as mulheres no final do século XVIII — as conversas, as reuniões, a redação de ensaios sobre Shakespeare, a tradução dos clássicos — baseou-se no sólido fato de que as mulheres podiam ganhar dinheiro escrevendo. O dinheiro dignifica aquilo que é frívolo quando não é remunerado. Talvez ainda fosse de bom-tom torcer o nariz para as ‘literatas com ânsias de escrevinhar’, mas não se podia negar que elas conseguiam pôr dinheiro na bolsa.

        Ela própria fazia parte dessa transformação, tendo ainda que superar imensos obstáculos em relação aos direitos do gênero masculino – como o fato de que seus irmãos frequentaram a universidade, enquanto Virginia teve que ser autodidata – e trouxe isso como tema de sua atividade literária. De fato, como Virginia coloca, as mulheres das classes médias começaram a conquistar a duras penas um espaço possível para serem sujeito, e exercerem o ofício da escrita de forma remunerada. Mas era um caminho longe de estar disponível a todas, e outra opção frequente era, como Woolf especulava a respeito das mulheres do século XVI, a loucura. Em seu conto “Phyllis e Rosamond”, de 1906, uma mulher intelectual e independente, ao conversar com outra que fora criada como uma escrava dos salões e do projeto de vida do casamento “bem sucedido” apontava para essa “saída” do cativeiro imposto:

“Não consigo lhe fazer entender que, por um lado, nós não temos cabeça; e, por outro, que não nos deixariam usá-la, se tivéssemos. Ainda bem que a misericórdia de Deus soube nos fazer adequadas à nossa situação; Rosamond, sim, poderia ter feito alguma coisa; mas agora ela já passou da idade”.

“Meu Deus!”, exclamou Sylvia. “Que masmorra! Fosse comigo, eu daria tiros, atearia fogo, pularia pela janela; ao menos faça alguma coisa!”

Maria Rita Kehl, ao tratar do tema da feminilidade e da histeria como fenômeno social dessa época, afirmou: “A histeria é a ‘salvação das mulheres’ justamente porque é a expressão (possível) da experiência das mulheres, em um período em que os ideais tradicionais de feminilidade (ideais produzidos a partir das necessidades da nova ordem familiar burguesa) entraram em profundo desacordo com as recentes aspirações de algumas dessas mulheres enquanto sujeitos.” Exatamente como apontado por Sylvia no conto de Woolf.

        Saltando algumas décadas, e indo à periferia do sistema capitalista, encontraríamos uma outra mulher, com dificuldades ainda muito maiores do que as que enfrentou Virginia para poder escrever. Negra, tendo cursado apenas dois anos de ensino formal, moradora da favela do Canindé, às margens do rio Tietê, em São Paulo, Carolina Maria de Jesus era a “espécie de incendiária” que Virginia via nas precursoras do século XIX na Inglaterra, sem o que seria impossível uma mulher em sua condição social tornar-se uma autora mundialmente conhecida.

A determinação de Carolina era impressionante: após ser vítima de duas prisões motivadas pelo monstruoso racismo de seu meio – em uma delas, torturada, teve o braço quebrado para “confessar” o roubo que nunca cometeu de um dinheiro na Igreja; na outra, foi presa por ler um livro espírita, acusada de “bruxaria” – decidiu migrar, sozinha, de Sacramento, MG, para a desafiadora São Paulo. Decidida a ser escritora, chegou a tentar a sorte no Rio de Janeiro motivada pelo sucesso em publicar um poema na Folha da Manhã; não conseguindo, voltou. Segundo seu biógrafo, Tom Farias, Carolina peregrinava nas redações de jornais tentando vender seus escritos, se autodenominando como a “poetisa negra”. Em um depoimento, Carolina conta parte dessa busca, e como chegou finalmente a publicar seu primeiro livro, “Quarto de despejo”: “Cansei de suplicar às editoras do país e pedi à editora Seleções [do Reader’s Digest] nos Estados Unidos se queria publicar meus livros em troca de casa e comida e enviei uns manuscritos para eles ler. Devolveram-me… Depois que conheci o repórter [Audálio Dantas] tudo transformou-se. E eu enalteço o repórter por gratidão.

        Denunciando com uma força vital avassaladora e uma crueza inaudita a brutalidade da vida na favela, permeada por um olhar sensível, poético e vigoroso, “Quarto de despejo” se tornou um imenso sucesso de vendas, sendo traduzido em 16 idiomas até hoje, e publicado em 46 países. O sucesso, é claro, seria o pretexto para novas manifestações de racismo, dessa vez velados sob o conveniente rótulo do julgamento “estético”. Um deles veio do renomado crítico Otto Maria Carpeaux, que em 1964 publicou o texto “Romance e Sociologia” no jornal Correio da Manhã, no qual afirma que “como meros documentos” são apreciadas “obras não-literárias” como o livro de Carolina. Mas conclui que mesmo sua importância sociológica seria reduzida, pois esta dependeria diretamente de “seu valor literário”. Outras formas de diminuir Carolina e sua escrita foram aventadas, como o julgamento de Wilson Martins de que as edições feitas pelo jornalista Audálio Dantas seriam suficientes para que se atribuísse a autoria do livro a ele (opiniões como essa também foram comuns, e algumas iam mais longe, dizendo que o repórter era o escritor, de fato, do livro como um todo).

        Julgamentos como estes não foram, e continuam não sendo, raros. A escrita de Carolina não seria literatura pela “falta de valor estético”. Contudo, qualquer exame minimamente criterioso da história da literatura pode facilmente jogar por terra esse véu, mostrando, por exemplo, que pouco há de comum entre o “valor estético” de um Shakespeare e um Paulo Leminski; de um Guimarães Rosa ou um Cervantes; de um Maiakóvski ou de um Olavo Bilac. Sintetizando com as palavras do crítico Terry Eagleton: “(…) podemos pensar na literatura menos como uma qualidade inerente, ou como um conjunto de qualidades evidenciadas por certos tipos de escritos que vão desde Beowulf até Virginia Woolf, do que como as várias maneiras pelas quais as pessoas se relacionam com a escrita. (…) Não existe uma ‘essência’ da literatura. ‘Literatura’ talvez signifique (…) qualquer tipo de escrita que, por alguma razão, seja altamente valorizada. (…) Qualquer ideia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade estável e bem definida, tal como a entomologia é o estudo dos insetos, pode ser abandonada como uma quimera.” Ou, nas palavras de Raymond Williams: “É relativamente difícil ver a ‘literatura’ como um conceito. No seu uso habitual parece não ser mais do que descrição específica, e aquilo descrito é então, via de regra, tão valorizado que há uma imediata e imperceptível transferência dos valores específicos de obras particulares e tipos de obras para aquilo que opera como um conceito mas ainda assim é firmemente encarado como algo prático e verdadeiro.

        Assim, tal como a fictícia Judith criada por Virginia Woolf – simbolizando milhares de mulheres caladas pela força do patriarcado – tiveram sua escrita inviabilizada não por uma “incapacidade congênita” de escrever, mas sim por motivos políticos e ideológicos ligados à opressão de sua época, críticos como Carpeaux (que, diga-se de passagem, chegou a dizer que via uma “verdade antropológica” no racismo) procuram usar a fachada do “estético” para diminuir a voz de Carolina; não nos enganemos: a atitude é política, e motivada pelo desejo de calar uma voz negra, feminina e proletária, que, superando todos os obstáculos impostos, havia se tornado uma escritora e chegado a publicar.

        Mas o que havia de tão perigoso em Carolina? Tal como na sua postura diante da opressão e exploração, que enfrentou de cabeça erguida para se fazer escritora, na sua literatura o questionamento transborda por todos os poros. A fome, principal personagem do “Quarto de despejo”, é a motivadora do ódio de classe contra os políticos: “O que o senhor juscelino tem de aproveitável é a voz. Parece um sabiá e sua voz é agradável aos ouvidos. E agora, o sabiá está residindo na gaiola de ouro que é o catete. Cuidado sabiá, para não perder essa gaiola, porque os gatos quando estão com fome contempla as aves nas gaiolas. E os favelados são os gatos. Tem fome.” Ou Eu quando estou com fome quero matar o Jânio, quero enforcar o Adhemar e queimar o Juscelino. As dificuldades corta o afeto do povo pelos políticos”.

        Carolina tem uma pungente consciência de que a escrita é uma arma: “Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê o seu povo oprimido.” E constantemente usa da ameaça “vou te colocar no meu livro” quando se vê vítima de uma injustiça.

        Como Virginia, e a partir de sua vivência, questionou o papel da mulher no casamento, como propriedade do marido, e na sociedade em geral. Em “Phyllis e Rosamond”, Virginia descreve a vida de duas mulheres de classe média/alta criadas para o casamento. Phyllis, quando indagada por uma mulher independente sobre sua ocupação, responde:

’Que faço eu?’, ecoou Phyllis, ‘Oh, mando servir o jantar e arrumo as flores’.

(…) Esta é a minha ocupação. E eu gostaria que não fosse! Não se esqueça, miss Tristam, de que a maioria das moças de família são escravas e não convém que você me insulte por lhe ter acontecido ser livre. (…).

Somos criadas, sabe, apenas para sair à noite e dizer coisas gentis e, bem, suponho que para nos casarmos. (…).

Já Carolina, sempre se manteve resolutamente distante do casamento, sabendo que era uma forma de preservar sua independência: “Elas alude que não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas. Elas tem marido. Mas, são obrigadas a pedir esmolas. São sustentadas por associações de caridade.

Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer espécie de trabalho para mantê-los. E elas, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor. A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barracão ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos socegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas.

Não casei e não estou descontente. Os que preferiu-me eram soezes e as condições que eles me impunham eram horríveis.

O casamento, instrumento de posse e dominação masculina, de violência e controle das mulheres, era questionado na literatura e na vida de ambas, cada qual à sua maneira.

Virginia via na independência material da mulher a primeira condição para a possibilidade da escrita: “a mulher precisa ter dinheiro e um teto todo dela se pretende mesmo escrever ficção”. E coloca como essa questão foi um desafio em sua vida, se resolvendo quando inesperadamente uma tia morreu lhe deixando uma herança: “A sociedade me dá galinha e café, cama e moradia, em troca de um certo número de pedaços de papel que me foram deixados por uma tia, pela única razão de eu ter o mesmo nome que ela.” Mas conheceu as dificuldades para uma mulher da classe média viver de seu próprio trabalho: “Antes disso, eu ganhara a vida mendigando trabalhos esporádicos nos jornais, fazendo reportagens sobre um espetáculo de burros aqui ou um casamento ali; ganhara algumas libras endereçando envelopes, lendo para senhoras idosas, fazendo flores artificiais, ensinando o alfabeto a crianças pequenas num jardim de infância. Tais eram as principais ocupações abertas às mulheres antes de 1918.

Para Carolina, a mesma questão se coloca, e de forma muito mais dramática. Tendo trabalhado como empregada doméstica por anos ao chegar em São Paulo, a primeira gravidez de Carolina fez com que fosse descartada, não sendo mais conveniente para trabalhar “em casa de família”; passou a viver como catadora de materiais recicláveis, como papelão ou metal. Não à toa, em uma entrevista, sua filha Vera Eunice afirmou sobre a mãe: “Ela escrevia quando tinha paz, escrevia quando tinha comida em casa”. Sua independência financeira e o orgulho relativo são evidenciados na sua escrita, como quando diz que não sustenta os filhos com “pão de igreja”. Mas Carolina retrata dolorosamente como o fantasma da necessidade material, que, diferente de Virginia, a assombrou permanentemente, é o obstáculo concreto para tudo: “Atualmente somos escravos do custo de vida“, ou, em outro trecho marcante: “no dia 13 de maio de 1958 eu lutava contra a escravatura atual, a fome!”. Para ela, o tempo para a leitura, para a escrita, precisa ser duramente conquistado a cada dia:Li um conto. Quando iniciei outro surgiu os filhos pedindo pão.” Mencionamos anteriormente como o ódio de Carolina aos políticos vinha motivado pela fome. Virginia, por outro lado, tem uma aguda consciência do quanto a herança de sua tia significou para suas possibilidades de vida: “é impressionante a mudança de ânimo que uma renda fixa promove. Nenhuma força no mundo pode arrancar-me minhas quinhentas libras. Comida, casa e roupas são minhas para sempre. Assim, cessam não apenas o esforço e o trabalho árduo, mas também o ódio e a amargura.” A amargura das quais se livrara Virginia permanecerão como grandes marcas e temas da escrita de Carolina. E também se tornam carne daquilo que é o “belo” em sua literatura. Carolina, para ser publicada, passou pelo crivo de uma grande editora e também de Audálio Dantas, que admite seus critérios particulares de corte e composição do texto, inclusive diminuindo a presença do tema decisivo em “Quarto de despejo” – a fome: “A fome aparece no texto com uma frequência irritante. Personagem trágica, inarredável. (…) No tratamento que dei ao original, muitas vezes, por excessiva presença, a Amarela [a fome] saiu de cena, mas não de modo a diminuir a sua importância na tragédia favelada”. Carolina transmite a seus leitores tanto as dores e sofrimentos imensos causados pela fome, quanto a alegria imensa de se ter o que comer, quando há:

Para mim o mundo em vez de evoluir está retornando a primitividade. Quem não conhece a fome há de dizer: ‘Quem escreve isso é louco’. Mas quem passa fome há de dizer:

– Muito bem, Carolina. Os generos alimenticios deve ser ao alcance de todos.

Como é horrível ver um filho comer e perguntar : ‘Tem mais?’. Essa palavra ‘tem mais’ fica oscilando dentro do cerebro de uma mãe que olha as panela e não tem mais.

Fiz a comida. Achei bonito a gordura frigindo na panela. Que espetáculo deslumbrante! As crianças sorrindo vendo a comida ferver nas panelas. Ainda mais quando é arroz e feijão, é um dia de festa para eles.

Resolvi tomar uma media e comprar um pão. Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as arvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos.

… A comida no estomago é como o combustivel nas maquinas. Passei a trabalhar mais depressa. O meu corpo deixou de pesar. Comecei andar mais depressa. Eu tinha a impressão que eu deslizava no espaço. Comecei a sorrir como se estivesse presenciando um lindo espetáculo. E havera espetaculo mais lindo do que ter o que comer? Parece que eu estava comendo pela primeira vez na minha vida.

A tragédia da fome, que Carolina retrata de forma aguda e dolorosa, recoloca duramente as exigências de Virginia, que nunca havia passado fome, para que a mulher possa escrever: é preciso ter comido para poder criar. Talvez mais do que em qualquer outra passagem, isso se mostra em um dos poucos trechos de “Quarto de despejo” em que Carolina encontra espaço, em meio às duras exigências da vida, para falar da beleza da natureza – antes de lembrar novamente da fome:

O céu é belo, digno de contemplar porque as nuvens vagueiam e formam paisagens deslumbrantes. As brisas suaves perpassam conduzindo os perfumes das flores. E o astro rei sempre pontual para despontar-se e recluir-se. As aves percorrem o espaço demonstrando contentamento. A noite surge as estrelas cintilantes para adornar o céu azul. Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que existe.

A obra de Carolina, ainda em sua maior parte inédita nos cadernos que recolhia do lixo para poder escrever, tem momentos distintos, em que se afasta do tema que a perseguia a cada dia e se volta a outras questões, tal como no conto “Onde estaes felicidade”, publicado em 2014. Mas é patente como a dureza e a presença constante da luta cotidiana pela sobrevivência marcam sua escrita. Em Virginia Woolf, contudo, as inquietações voltam-se para a exploração do mundo interior. Uma das pioneiras da técnica conhecida como “fluxo de consciência”, na qual a voz narrativa da personagem volta-se para o mundo interno e para as divagações e especulações solitárias da mente, podemos associar a recorrência dessa forma tanto à forte presença da subjetividade e do individualismo na modernidade, mas também ao fato de que às mulheres – com todas as restrições impostas pela sociedade patriarcal – o mundo interior era o mais disponível à exploração. A própria autora refletiu sobre essa distinção também em “Um teto todo seu”: “E como o romance tem essa correspondência com a vida real, seus valores são, numa certa medida, os da vida real. Mas é óbvio que os valores das mulheres diferem, com freqüência, dos que foram estabelecidos pelo outro sexo; isso decerto acontece. E, no entanto, são os valores masculinos que prevalecem. (…) Esse é um livro importante, pressupõe o crítico, porque lida com a guerra. Esse é um livro insignificante, pois lida com os sentimentos das mulheres numa sala de visitas.

Carolina e Virginia se fizeram escritoras enfrentando, como expusemos, mil dificuldades impostas às mulheres – e, no caso de Carolina, ainda se sobrepondo ao racismo e à miséria de uma trabalhadora. Hoje, ainda, milhões, bilhões de mulheres são todos os dias submetidas à exploração e opressão que são uma regra no capitalismo. Camponesas na China, sem teto no Brasil, operárias na Índia: o mundo impõe às mulheres, aos negros, aos trabalhadores vidas que nos impedem de viver plenamente. Virginia Woolf, olhando para o passado, disse: “Quando (…) lemos sobre uma feiticeira atirada às águas, sobre uma mulher possuída por demônios, sobre uma bruxa que vendia ervas, ou até sobre um homem muito notável que tinha mãe, então penso estarmos na trilha de uma romancista perdida, uma poetisa reprimida, de alguma Jane Austen muda e inglória, alguma Emily Brontë que fazia saltar os miolos no pantanal ou careteava pelas estradas, enlouquecida pela tortura que o talento lhe impunha.” Hoje, ainda, são milhões as mulheres cujo talento é sufocado pela brutalidade do mundo capitalista.

Como afirmou Virginia, “As obras-primas não são frutos isolados e solitários; são o resultado de muitos anos de pensar em conjunto, de um pensar através do corpo das pessoas, de modo que a experiência da massa está por trás da voz isolada.” E a possibilidade de que cada um tome para si a condição de sujeito de sua própria vida até o fim é um objetivo que só podemos nos dar coletivamente, por meio da luta pelo fim do capitalismo – um sistema cuja essência reside na exploração, na opressão e na miséria. Lutamos por uma sociedade em que, como apontou Trotski:

“A construção social e a auto-educação psicofísica vão se tornar duas faces de um só processo. E todas as artes – literatura, teatro, pintura, escultura, música e arquitetura – darão a esse processo uma forma sublime. Mais exatamente, a forma que revestirá o processo de edificação cultural e de auto-educação do homem comunista desenvolverá ao mais alto grau os elementos vivos da arte contemporânea.

O homem irá se tornar incomparavelmente mais forte, mais sábio e mais sutil. Seu corpo será mais harmonioso, seus movimentos mais rítmicos, sua voz mais melodiosa. As formas de sua existência adquirirão qualidades dinamicamente dramáticas. A espécie humana, na sua generalidade, atingirá o talhe de um Aristóteles, de um Goethe, de um Marx. E sobre ela se levantarão novos cumes.”

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