Uma causa socialista contra Bernie 2020

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Por Juan Cruz Ferre

A revista Jacobin e membros do Democrat Socialists of America (DSA) referenciados no The Call estão defendendo um apoio antecipado de Bernie Sanders para a presidência nas eleições de 2020. Eles também querem que o DSA priorize essa campanha eleitoral em relação a todas suas outras atividades.

Nos últimos meses, a Jacobin intensificou seus esforços para destacar e promover o senador de Vermont em sua eventual campanha para a Casa Branca. “Escutem seu coração… Bernie Sanders deveria concorrer à presidência,” lê-se em um artigo intitulado “Corra, Bernie, Corra”, publicado em 12 de dezembro na revista de centro-esquerda.

O núcleo dos apoiadores de Sanders são eleitores democratas com uma visão liberal que não veem necessidade de acabar com o capitalismo, mas que reconhecem as imensas desigualdades e outras consequências do neoliberalismo como problemas urgentes. Para esse grupo – que pode concordar inteiramente com a plataforma socialdemocrata de Sanders – colocar Bernie na Casa Branca pode ser seu único objetivo. Esse artigo foca no debate com os socialistas que, mesmo sabendo das sérias limitações da plataforma progressista de Sanders, defendem apoiá-lo como candidato Democrata à presidência.

No meio socialista, os propositores da construção de uma campanha para “Bernie 2020” se centram em dois argumentos principais: primeiro, que a campanha de Sanders é “o melhor meio disponível para aumentar a consciência de classe dos trabalhadores”, e, segundo, que há uma batalha dentro do Partido Democrata entre uma ala progressista e uma corporativa, e que nós, socialistas, precisamos participar dessa luta.

Vamos discutir o primeiro argumento. Uma campanha eleitoral por Sanders é a melhor forma de “aumentar a consciência de classe dos trabalhadores”? A sua potencial candidatura dentro do Partido Democrata é um meio para aumentar nos trabalhadores a “consciência de sua própria força”?

Para chegar a consciência de classe proletária, os trabalhadores precisam se tornar conscientes que todos eles pertencem à mesma classe e que eles compartilham interesses em comum. A consciência de classe também envolve a tomada de consciência pelos trabalhadores de sua própria força e a compreensão de que aqueles que nos exploram também estão unidos em uma classe por um interesse comum. Só é necessário mais um passo adiante para reconhecer que essa classe controla as rédeas das instituições estatais, o sistema de leis e o governo.

Portanto, é curioso afirmar que a campanha de Sanders é “o melhor meio disponível” para aumentar a consciência de classe dos trabalhadores. Como muitos ressaltaram, um programa eleitoral da classe trabalhadora que expresse as demandas dos mais oprimidos pode ser relativamente eficaz ao criticar implacavelmente as instituições da sociedade capitalista: a ridiculamente antidemocrática Suprema Corte decidindo o destino de milhões, o caráter intrinsecamente racista da polícia, o viés ultraconservador do Senado, a “porta giratória” de favores do Congresso e por aí vai. Mas para que esse programa aprofunde a consciência de classe dos trabalhadores, ele precisa ser anticapitalista, ousado e sem capitulações. E sejamos claros: no caso do apoio a Sanders em 2020, o DAS estaria fornecendo soldados para sua campanha com pouca ou nenhuma influência sobre o conteúdo de sua plataforma política.

Por outro lado, é um erro considerar as eleições como a única forma de aumentar a consciência dos trabalhadores. A luta de classes (em suas variadas formas) pode desempenhar um papel proeminente nesse processo: os trabalhadores tornam-se mais conscientes de sua força e reconhecem mais claramente seus inimigos por meio da luta contra seus chefes no trabalho, pela experiência de uma greve ou por meio de campanhas dos trabalhadores tais como se organizar contra a brutalidade policial ou contra a remoção e despejo de casas. Os socialistas e revolucionários envolvidos nessas experiências podem desempenhas um papel catalisador vital, extraindo lições das batalhas contra chefes e autoridades estatais.

Mais uma vez, sobre o Partido Democrata

O maior problema com o Bernie 2020 é que ele concorrerá pelo Partido Democrata. (Se alguém ainda acredita que Sanders é independente, sua declaração sobre as reformas que o Partido Democrata precisa demonstram que ele está firmemente enraizado dentro dele). Então, que tipo de consciência de classe tal campanha trará? Ao invés de encorajar os trabalhadores a construir e confiar em sua própria força, se organizações socialistas como o DSA apoiarem a candidatura Democrata de Sanders, elas transmitirão a mensagem de que o veículo para alcançarmos nossos objetivos é, de fato, o Partido Democrata. O próprio Sanders coloca isso de maneira muito clara. Em sua entrevista com Daniel Denvir para o podcast da Jacobin, ele ressaltou “Pode haver algumas exceções à regra nessa ou naquela comunidade no país, mas a ação tem que ser por dentro do Partido Democrata”.

Atualmente há uma compreensão comum entre a esquerda de que o Partido Democrata historicamente foi um cartel político envolvido em minar os projetos socialistas e desmantelar os movimentos sociais, assegurando os lucros da classe capitalistas e sustentando a política externa imperialista. Ele cooptou de forma bem sucedida forças sociais irruptivas, do movimento por direitos civis nos anos 1960 ao movimento pelos direitos dos imigrantes no início dos anos 2000. Por outro lado, foi num momento de profunda crise e desilusão com o Partido Democrata – quando ele se provou incapaz de impedir a ascensão de Donald Trump ao poder – que o DAS e outras organizações de esquerda cresceram mais vertiginosamente.

A crise no Partido Democrata é a consequência inevitável de um longo processo. Surfando na onda do neoliberalismo, os Democratas foram à direita nas últimas três décadas. Ainda que o presidente Carter tenha dado início ao momento da direita, foi o presidente Clinton que abraçou o neoliberalismo irrestritamente nos anos 1990. O caráter extremamente antidemocrático do sistema eleitoral americano permitiu que os dois principais partidos se alternassem no poder incontestavelmente. Democratas e Republicanos, se apoiando no comparecimento eleitoral cada vez menor e na segurança das eleições “first-past-the-post” [sistema eleitoral americano, também conhecido como “o vencedor leva tudo” NdT], continuaram indo à direita. Mas o solo sob seus pés foi se tornando cada vez mais frágil. Em 2016, o Partido Democrata havia perdido a conexão com uma grande parte de sua base tradicional – que é geralmente mais urbana e composta por trabalhadores do que aquela dos Republicanos.

O Partido Democrata ainda está com grandes problemas, mas está dando passos concretos para se revitalizar. A nova geração de “Democratas insurgentes”, liderada por grupos progressistas como Indivisible, Justice Democrats e Brand New Congress são uma peça-chave nesse sentido. As novas lideranças estão insuflando nova vida dentro do partido, tal como Sanders fez em 2016 e eventualmente fará em 2019-2020, enquanto líderes entrincheirados como a senadora Nancy Pelosi e o senador Chuck Schmer controlam as rédeas do partido, aparam as arestas radicais na política de imigração ou saúde, e continuam conduzindo a política firmemente pelo centro do espectro político.

Então, quando eu escuto que fazer campanha para um Democrata progressista é a melhor forma de fazer os trabalhadores avançarem politicamente, eu não posso deixar de pensar que a imaginação dos socialistas americanos é severamente limitada. Não existe uma gama de questões centrais para a classe trabalhadora que os socialistas podem tomar como sua principal luta nos próximos dois anos? Mesmo no âmbito da política eleitoral, não há um número consistente de socialistas que poderiam disputar com credibilidade eleições por postos em legislaturas locais, ou mesmo para o Congresso, mesmo se uma vitória é menos provável?

Robbie Nelson, escrevendo para o The Call, assegura que, ao apoiar o Bernie 2020, “nós podemos transmitir persuasivamente a mensagem, para milhões de apoiadores do Sanders, que a melhor forma de levar adiante uma revolução política é se tornar ativo em organizações socialistas, sindicatos, e movimentos sociais de base”. É assim mesmo? Colocar centenas – ou mesmo milhares – de pessoas para levantar fundos, fazer ligações e registrar eleitores para o Partido Democrata dificilmente é uma atividade que os ajudará a romper com o beco sem saída da política burguesa ou ajudar a cavar um espaço para o crescente movimento socialista nos EUA. Apenas levará novos socialistas jovens para as asas do Partido Democrata.

Já na metade de 2018, The Call foi ponta de lança em convocar um comício para apoiar Bernie 2020 e fazer da campanha a principal prioridade para o próximo período, antes mesmo que o próprio Sanders anunciasse sua candidatura para presidente! Discutindo a respeito da continuada luta entre uma ala corporativa e uma progressista do Partido Democrata, Neal Meyer e Ben B apontaram com precisão que “se engajar em disputas intrapartidárias não é uma forma estratégica de empregar o tempo dos ativistas. Ainda considerando que surta algum efeito, isso cria [falsas] ilusões a respeito do potencial progressista dos Democratas.” Eu não poderia concordar mais. Mas eles continuam, argumentando que os “socialistas precisam se meter e lutar para levar o processo em uma direção favorável à classe trabalhadora”.

A contradição na sua declaração é gritante. A verdade é que os membros do DAS reunidos em torno do The Call concordam com Sanders que a principal luta dos socialistas hoje devem se dar dentro do Partido Democrata. Eu acredito que não é tarefa dos socialistas intervir em uma disputa de poder no interior de um partido burguês. Se devemos fazer algo, é ajudar a que morra por completo. Como mínimo, o DSA, com seus mais de 50 mil membros, poderia ter uma orientação melhor para os próximos dois anos do que se alinhar a um projeto eleitoral dentro do Partido Democrata.

Em 2018, uma onda de greves de professores sacudiu o país e despertou esperanças em um aumento da luta de classes. Há outros sinais convincentes que indicam que estamos em meio a uma nova onda de agitação dos trabalhadores: a vitória dos trabalhadores de hotéis em Chicago e Boston, a greve dos professores de UTLA e um punhado de lutas menores e vitórias apontam para a revitalização do movimento operário. O papel dos socialistas nessas lutas é primordial.

O movimento dos coletes amarelos na França mostra que a resposta a décadas de neoliberalismo, austeridade e retrocessos no estado de bem-estar não precisa ser nacionalismo conservador. Apesar de suas limitações como uma resposta heterogênea e policlassista, as mobilizações massivas assentaram um golpe à gestão do presidente francês Emmanuel Macron, forçando um completo recuo no aumento das taxas para a gasolina, e jogaram luz sobre o potencial da ação direta em uma escala de massas. Ainda que a França tenha uma tradição mais forte de levantes sociais, a história dos EUA é cheia de explosões de fúria e movimentos de massa. Não há razão para que não esperemos e nos preparemos para intervir em conjunturas semelhantes nos Estados Unidos.

Bernie Sanders e a fronteira de classe

Em um artigo publicado na Jacobin, Ben Becket argumenta que “nenhum outro candidato tem a vontade ou a capacidade para polarizar o país em torno das classes”. É verdade que a plataforma de Sanders incorpora muitas demandas profundamente sentidas pelos trabalhadores. Por exemplo, a demanda por assistência de saúde universal é uma questão da classe trabalhadora que coloca capitalistas e trabalhadores em campos nitidamente opostos. A aprovação de uma lei de Assistência Médica Para Todos não irá, contudo, fazer com que a saúde deixe de ser uma mercadoria, como muitos argumentaram – ainda seria necessário se livrar dos hospitais privados, da indústria farmacêutica, da indústria de tecnologia médica, etc. – mas isso ajudaria a colocar os trabalhadores em uma posição muito melhor para lutar por suas demandas.

Colocando de forma simplificada, ter acesso à saúde independentemente da situação laboral permitiria aos trabalhadores se organizar em seus locais de trabalho e confrontar seus chefes por meio de ações coletivas sem o medo de perder a cobertura de saúde para eles e suas famílias. Mas nós devemos ser claros: dados os enormes interesses econômicos em jogo, o tratamento de saúde universal só poderá ser conquistado com mobilizações de massa e a ameaça de uma irrupção. Isso significa que a luta por Assistência Médica para Todos será travada mais fora do que dentro do Congresso. O DSA tem a oportunidade e a capacidade de mobilizar seus milhares de membros para se organizar nos seus sindicatos, escolas e locais de trabalho e se tornar a principal força à frente de uma campanha nacional por saúde universal. Priorizar a campanha eleitoral de Sanders pelos próximos um ou dois anos irá eventualmente se contrapor a uma orientação assim.

Outros pontos na plataforma de Sanders são, de forma similar, favoráveis à classe trabalhadora, tais como o aumento do salário mínimo e a proposta de universidades livres de cobrança. Ainda assim, essas demandas não são propostas por Sanders de uma forma que “polarize o país entre as classes sociais”. Ele apresenta essas questões em uma perspectiva liberal, apelando ao bom senso e a um sentimento de justiça social, e não como uma acusação contra o sistema capitalista. Uma e outra vez Sanders falou sobre a “classe dos bilionários”, sobre a concentração imoral de riqueza em poucas mãos e sobre a injustiça das extensas jornadas de trabalho em troca de salários de miséria e sem benefícios. Tudo isto está bem, e a maior parte dos trabalhadores concordariam com isso, mas a retórica e o programa de Sanders não apontam em direção ao socialismo, mas sim para uma versão ligeiramente mais tolerável do capitalismo. Isso pode parecer pedir demais para um candidato plausível para a presidência em 2020. Mas alguém na esquerda socialista realmente acredita que nosso caminho rumo ao poder se dará por meio das eleições de 2020? A decisão sobre quem apoiar não deveria depender de suas chances de ganhar a candidatura de um partido majoritário ou mesmo as próprias eleições.

A política de Sanders é frequentemente descrita como “populista de esquerda”, e com razão. Suas políticas socialdemocratas estão misturadas com uma nacionalista retórica sobre os “valores americanos” e “manter bons empregos”. Peter Frase, escrevendo em In These Times, argumenta que se alinhar sob a popularidade de Sanders pode “obscurecer a necessidade de enraizar nossas lutas na organização de massas” e levar a nos irmanarmos com esse “liberalismo New Deal” ao invés de debater o que o “socialismo” realmente significa. Além disso, o fato de que ele disputa pelo Partido Democrata não pode ser separado do conteúdo político de sua campanha: é um fato que dá estabilidade e continuidade ao establishment político.

Seria certamente diferente se Sanders concorresse de forma independente, o que ele certamente tem recursos para fazer. Isso seria um passo importante para a construção de uma alternativa política independente aos dois principais partidos do capital. Mas há duas razões pelas quais eu não apoiaria sua candidatura ainda assim: primeiro, suas posições sobre a política externa não mostram sequer uma sombra da política anti-imperialista que nós precisamos para um movimento socialista nos EUA. Segundo, um terceiro partido por si mesmo não é o que precisamos. De Marx a Kautsky, de Debs a Trotski, os socialistas sempre foram claros em relação ao fato de que é a classe trabalhadora que tem o poder para transformar radicalmente a sociedade, e eles defenderam, portanto, uma organização política independente dos trabalhadores. O populismo de Sanders, ainda que defensa algumas das demandas dos trabalhadores, não busca organizar e mobilizar os trabalhadores americanos enquanto classe. Se o DSA quer ser sério em seu objetivo de transformar sua composição social de uma organização predominantemente de classe média para uma de trabalhadores, defender a independência de classe dos trabalhadores em relação a um apoio político é um bom começo.

A esquerda e Bernie Sanders

O DSA pode se comprometer com a retórica populista de um candidato do Partido Democrata, mas o faria em detrimento de si próprio. É verdade que após a vitória de Alexandria Ocasio-Cortez em julho o DSA cresceu aos milhares. Mas um crescimento no número de filiados não pode ser o único propósito de uma organização política que almeja o fim do capitalismo. É razoável assumir que aqueles que adentram o DSA após vitórias eleitorais obtidas com uma corrida eleitoral por meio da legenda do Partido Democrata são em geral muito mais predispostos a buscar vitórias eleitorais por meio de alianças táticas. Então o círculo se fecha: um número cada vez maior de membros irão votar pelo apoio a candidatos do Partido Democrata, e o processo de apoio será mais facilmente aceito a cada vez. Os riscos de seguir por esse caminho são evidentes.

Em um penetrante ensaio escrito em 1911, Eugene V. Debs alerta para o perigo colocado pelo crescimento de votos no Partido Socialista quando descolado do fortalecimento nos locais de trabalho e sem uma educação política paciente de seus membros:

Todos os votos do povo não nos ajudariam em nada se nosso partido deixasse de ser um partido revolucionário, ou, mesmo que de modo acidental, se apegando cada vez mais à pressão de modificar os princípios e programa do partido em nome de aumentar os votos e apressar o dia de seu esperado triunfo.

As mesmas pessoas que argumentam que os socialistas ainda não tem capacidade para lançar seus próprios candidatos são os que mais ardentemente defendem se alinhar com Bernie 2020. Eu valorizo a ambição e o desejo de falar com centenas de milhares; grande parte da esquerda tradicional nos EUA se vangloriou por muito tempo por ter a posição correta enquanto permanecia pequena e isolada. Mas se o DSA ainda não tem a força e o reconhecimento para lançar uma campanha presidencial factível, jogar todas as suas forças no apoio a Sanders – enquanto obscurece as importantes diferenças entre socialismo e liberalismo progressista – não é a melhor escolha. O DSA poderia lançar seus próprios candidatos em centenas de distritos para cargos locais, estaduais e nacionais, e poderia inclusive lançar uma candidatura presidencial própria, mesmo que as chances de vencer sejam próximas de zero. Ao invés de rastejar atrás de um Democrata progressista com ares de astro, ousadas candidaturas socialistas independentes que são menores mas mais penetrantes irão conquistar muito mais rumo à construção de uma identidade para a esquerda socialista e por à frente ideias socialistas sem capitular.

Alguns de nós estão convencidos de que uma estratégia revolucionária é a única com o potencial de chegar ao socialismo. Em outras palavras, o capitalismo só poderá ser derrubado por meio do envolvimento direto das massas nas questões públicas, um esforço conjunto de milhões em direção à quebra dos fundamentos institucionais do capitalismo e a derrota das forças repressivas do Estado capitalista. A tendência a ver as eleições como o campo de batalha primordial, ou como a principal ferramenta para educar socialistas que recém despertaram para a experiência política, segue uma lógica de continuidade – e não de ruptura – com as instituições do capitalismo. É baseado na ilusão de um crescimento progressivo e uma transição pacífica para o socialismo por meio do voto. É um mito, como acreditar que ir regularmente ao casino irá eventualmente nos permitir derrotar a casa a longo prazo. Um partido de combate, um que prepare desde já até o momento crítico de enfrentamento com as forças do capital, colocaria sua energia e seus recursos afiando seus membros, se engajando com a luta de classes, aguçando as contradições de um sistema que serve a apenas alguns poucos, e usaria as eleições para difundir ideias anticapitalistas sem dourar a pílula. Como os sindicatos são a primeira linha de combate contra o capital, construir frações revolucionárias neles é fundamental para qualquer estratégia socialista.

A Frente de Esquerda na Argentina tem realizado campanhas abertamente anticapitalistas de forma bem sucedida desde sua formação em 2013. Além de contar com três membros no Congresso Nacional, ela possui assentos em legislaturas locais e estaduais, organiza milhares de militantes na luta de classes, nos sindicatos e no movimento estudantil, e defende no parlamento uma plataforma ligada às lutas que trava do lado de fora deste.

O DSA poderia lançar seus próprios candidatos ou formar uma coalizção com outras organizações da esquerda socialista, como a Socialist Alternative, a ISSO e uma gama de grupos socialistas locais. Isso seria um passo pequeno, porém importante, no sentido de colocar de pé uma esquerda que poderia eventualmente representar uma ameaça ao capitalismo.

Papéis históricos e as perspectivas para o Socialismo

Sanders preenche um vácuo de representatividade para aqueles que estão descrentes com a política tradicional, fartos com o establishment político e procurando uma alternativa à esquerda do Partido Democrata. Apesar de todos os aspectos progressistas que ele e sua plataforma representam, seu papel nesse cenário é conservador: em 2020 ele irá, mais uma vez, enquadrar os trabalhadores e radicais dentro de um partido que já provou há muito tempo que representa seu inimigo de classe. Sua candidatura presidencial dentro do Partido Democrata só pode servir para amortecer a energia rebelde de centenas de milhares que estão cansados desse sistema e prontos para se comprometer com um projeto político que o transcenda.

É comum ouvir que Sanders desempenhou um papel-chave na radicalização de milhares de pessoas e em sua conversão ao socialismo. No entanto, Sanders está por aí já há três décadas e sua mensagem mal se alterou. Isso significa que ao invés de estar sozinho criando um vasto movimento socialista, a mensagem de Sanders subitamente se conectou com uma nova geração de ativistas que corretamente viram no capitalismo a fonte de todos os nossos males sociais – e ele foi bem sucedido em expressar esse sentimento em uma retórica simples e anti-establishment. Ter uma visão mais ponderada do papel desempenhado por Sanders nos permite escapar da visão estreita de que não há nada melhor que possamos fazer do que seguí-lo até seu túmulo.

Com a política correta e um programa audaz, podemos convencer milhões de pessoas da necessidade de uma ruptura radical com o capitalismo e assentar as bases para uma nova sociedade baseada na solidariedade, e não na exploração. A força material para encabeçar esse esforço, o corpo para uma organização socialista revolucionária, não virá do envolvimento em uma campanha por um político que mostrou repetidamente sua lealdade às estruturas de poder do capitalismo. Essa força social irá se materializar quando as dezenas de milhares de trabalhadores que estão enfrentando seus patrões e se envolvendo em ações coletivas (como os professores em greve de West Virginia, Arizona, Los Angeles e outros trabalhadores em luta por todo o país) derem um passo à frente e verem que na política, tal como no local de trabalho, há duas classes, e nós precisamos nos unir sob uma bandeira para enfrentar o capital. E aí que as organizações socialistas precisam colocar seus esforços: para organizar contra o racismo, a brutalidade policial e moradias acessíveis, pela gratuidade do ensino superior e assistência médica para todos, mas, acima de tudo, organizar nos locais de trabalho e nos sindicatos para levar a eles nossa política, lutar para varrer as lideranças burocráticas e recrutar nossos colegas de trabalho para o socialismo por meio da luta, agitação e propaganda. O potencial a longo prazo de tal orientação é muito mais promissor.

A longo prazo, nós precisamos de uma organização socialista revolucionária que prepare seus membros e apoiadores para a batalha decisiva: a derrubara do capitalismo por meio da ação das massas, greve geral e um inevitável confronto com as forças do Estado. O caminho para a vitória não tem atalhos: ele envolve organização paciente, educação política, envolvimento em táticas legais e ilegais, construção de frações nos sindicatos e, mais importante, a conformação de uma estrutura revolucionária que sirva como as células musculares vivas do gigante corpo da classe trabalhadora, de forma coordenada e harmoniosa. Uma vez que a classe trabalhadora se levante e sacuda seus grilhões, o céu será o limite.

Texto original: http://www.leftvoice.org/A-Socialist-Case-Against-Bernie-2020

Tradução: Fernando Pardal

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