“Rasga Coração” de Vianinha: um olhar crítico sobre as velhas formas do “novo”

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Por Fernando Pardal

O importante não é o conflito de gerações,

é a luta que cada geração trava dentro de si mesmo…

– Camargo Novo, em “Rasga Coração”.

A peça “Rasga Coração”, última obra de Oduvaldo Vianna Filho, mais conhecido como Vianinha, após quarenta anos esgotada, ganha finalmente uma nova edição (Temporal, R$ 65), que integrará a importante iniciativa de uma coleção de textos de Vianinha, publicados pela Temporal e sob coordenação de Maria Silvia Betti, que há décadas estuda a obra de Vianinha (que entrevistamos aqui).

O ator, dramaturgo e militante, de importância inquestionável na produção cultural e, particularmente, no teatro de esquerda em nosso país, é, expressivamente, deixado de fora de todo o ensino oficial. Não apenas nos currículos escolares, mas inclusive nos do ensino superior, nos cursos de teatro e de letras, Vianinha não encontra lugar correspondente à sua grandeza, e nem muito menos que isso. O enorme atraso e dificuldade que suas obras encontram para serem reeditadas – sendo hoje artigos raros de “colecionador” em sua maioria – é mais uma demonstração disso. É irônico, mas ao mesmo tempo tristemente previsível, que um dos maiores combatentes para que existisse uma dramaturgia nacional, tenha sido relegado ao plano de um semi-ostracismo.

Uma trajetória artístico-militante

Com uma vida tragicamente curta, tendo morrido com apenas 38 anos, é impressionante o papel central que Vianinha teve no teatro militante e de esquerda no país. Tendo ingressado nas fileiras do Partido Comunista Brasileiro (PCB) com apenas 15 anos, aos 18 funda com alguns de seus companheiros de militância, como Vera Gertel e Gianfrancesco Guarnieri, o Teatro Paulista do Estudante (TPE), que já tinha como seu objetivo criar uma arte capaz de se ligar à classe trabalhadora e tratar de suas questões fundamentais.

Em 1956, menos de dois anos após sua fundação, o TPE se funde ao Teatro de Arena, o que dará início à guinada à esquerda desse grupo, que contará em seguida com o forte impulso da chegada de Augusto Boal. Em 1958, o grupo se encontrava em uma crise financeira e pretendia fechar as portas, quando estreiam a peça de Guarnieri, Eles não Usam Black-tie, um sucesso inaudito que coloca em cena os dilemas de uma greve operária.

No Arena, Vianinha dá início ao projeto de criar um teatro nacional e popular, que fosse capaz de expressar as grandes questões da realidade nacional sob a perspectiva das classes sociais oprimidas pelo capitalismo. Esse projeto se desenvolve num ritmo febril de produção, discussão e criação, tendo como público e interlocutores privilegiados os estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, à época situada na Rua Maria Antonia, localizada ao lado da sede do Arena no centro de São Paulo.

Para Vianinha, contudo, é necessário mais: ele quer se ligar à classe trabalhadora, e, anos depois, expressou os limites que via na atuação do Arena em um ensaio, e o que se colocava como perspectiva:

O Arena contentou-se com a produção de cultura, não colocou diante de si a responsabilidade de divulgação e massificação (…) fazendo surgir um teatro que denuncia os vícios do capitalismo, mas que não denuncia o capitalismo ele mesmo. O Arena, sem contato com as camadas revolucionárias de nossa sociedade, não chegou a armar um teatro de ação, armou um teatro inconformado. (…) é preciso produzir conscientização em massa, em escala industrial. (…) É preciso massa, multidão.[1]

O que Vianinha buscava era fazer do teatro um fator real na luta de classes, uma arma de politização e consciência a serviço da luta dos trabalhadores. Com esse objetivo, rompe com o Arena e funda, em 1962, o Centro Popular de Cultura (CPC) ligado à UNE. Sua primeira obra nesse período A Mais-valia vai acabar, seu Edgar, procura investigar a fundo o processo de exploração capitalista. Como aponta Maria Silvia Betti:

Outra característica da passagem de Vianinha do Arena para o CPC é sua necessidade de escrever peças que abordem diretamente conceitos essenciais do marxismo. (…) A noção de que a eficácia política do trabalho dramatúrgico encontra-se condicionada à aproximação real com o proletariado surge, cada vez mais, como um ponto de referência para a prática dramatúrgica.[2]

O CPC foi uma das primeiras vítimas da ditadura militar, com o incêndio da sede da UNE e sua criminalização no imediato pós-golpe. Vianinha, contudo, não se dá por vencido, e é um dos mais precoces articuladores de uma resistência no campo artístico, com o show Opinião, que dá origem ao grupo de mesmo nome. Até o fim de sua vida, em 1974, continua lutando por meio de sua arte.

Uma guinada pessedista (pecebista?)

Rasga Coração é a última peça de Vianinha, concluída às vésperas de sua morte no leito hospitalar. Ela é a expressão de um último momento da produção do dramaturgo cujo ponto de virada poderíamos situar em 1968, marcado pelo ensaio publicado no caderno especial dedicado ao teatro da “Revista Civilização Brasileira”, com o título de “Um Pouco de Pessedismo não Faz Mal a Ninguém”[3].

Nesse texto, o autor propugna a necessidade de uma forte unidade entre todos os que atuam no teatro, propondo deixar de lado a divisão entre os três campos ou vertentes que ele vê na produção teatral: de esquerda, comercial e esteticista. Trata-se de defender a existência do teatro diante dos ataques do governo, chegando mesmo a refutar a opinião de Luís Carlos Maciel, presente no mesmo volume, e afirmando que o teatro “é uma mercadoria industrializável”, e que para isso é necessário verba governamental, já que “não existe nada de industrializável sem medidas que criam economias externas à produção”. Como explica Maria Silvia Betti:

O Vianinha-homem-de-teatro, parece, nesse momento, ter sobrepujado o Vianinha-homem-de-esquerda, levando-o a postular a luta por uma cultura em cujo bojo atores e empresários encontram-se irmanados, unidos num estratégico pessedismo. As contradições de classe desaparecem para que a “classe teatral” e, através dela, a “cultura nacional” sobrevivam. A concepção de teatro, elemento inserido no processo de classes em luta, é posta de lado.[4]

É fundamental pensarmos essa guinada de Vianinha – com uma proposta de conciliar representantes não apenas de diferentes projetos teatrais, mas de classes antagônicas, numa luta cujo horizonte seja o de enfrentar a política cultural do governo e obter mais verbas para a produção teatral – no pensamento estratégico da organização política que integra. No pós-golpe, e cada vez mais até esse momento, o PCB vê sua hegemonia na esquerda questionada por novas organizações e estratégias políticas, mas Vianinha permanece fiel ao “partidão” e suas concepções, cuja conciliação de classes era uma marca fundamental há décadas.

Embora a radicalização seja a grande marca cultural, política e comportamental desse momento, o “pessedismo” de Vianinha tem seu lugar garantido na publicação e no contexto teatral, já que representa a perspectiva não apenas de Vianinha ou Dias Gomes, mas de toda a intelectualidade de esquerda ligada ao PCB, de cujo pacifismo e etapismo ele é a expressão no setor teatral.[5]

Rasga Coração

Premiada pelo concurso do Serviço Nacional de Teatro (SNT), Rasga Coração é censurada e circula em cópias clandestinas até ser liberada finalmente em 1979. Vianinha diz em seu prefácio que a peça é uma homenagem à “velha guarda” de militantes que “politizou em profundidade a consciência do país”. E também é dedicada a seu filho, Vinicius.

Traz como centro “dramático” a relação entre Manguari Pistolão, homem de 57 anos e militante do PCB desde a juventude, e seu filho Luca, jovem de 17 anos que enfrenta repressão na escola por ter cabelo comprido.

O autor diz que foi motivado a fazer “uma peça que estudasse as diferenças que existem entre o ‘novo’ e o ‘revolucionário’. O ‘revolucionário’ nem sempre é novo absolutamente, e o ‘novo’ nem sempre é revolucionário”[6].

Há uma imensa riqueza na peça que os limites desse artigo não permitem sequer arranhar, pois Vianinha consegue atingir o objetivo delineado no prefácio, quando aponta que deseja “A originalidade como sofrido ponto de chegada, e não ponto de partida”. Isso porque quer “A criação de formas novas (…) [como] resultados compulsivos da necessidade de expressão temática e não somente a procura artificiosa de novas posturas.[7]

Um dos pontos nodais do texto que considero fundamental para tentar abordar Rasga Coração fielmente a essa forma apontada por Vianinha, é apontar o entrelaçamento do drama familiar de Manguari Pistolão e seu filho Luca como os porta-vozes de um balanço histórico – estratégico e programático – da esquerda brasileira. Como diz Camargo Moço, sobrinho do companheiro de partido de Manguari, o que é relevante não é o conflito de gerações, mas a luta que cada geração trava dentro de si mesma, a saída desse “antro estreito” que cada partido, que cada geração, que cada combatente vislumbra. Por isso, o debate entre pai e filho que ali se apresenta não é um drama familiar, mas a crise da humanidade e do impasse colocado por um sistema econômico e social degradante e decadente, mas que não termina de morrer porque para isso depende da estratégia consciente de seus coveiros – a classe trabalhadora.

A sobreposição de tempos – em que situações da juventude de Manguari Pistola em sua militância contra os integralistas ou o Estado Novo são colocadas ao lado de Luca, hoje enfrentando como diretor de seu colégio o ex-soldado integralista Castro Cott que Manguari enfrentou nas ruas – cumpre o papel de apresentar dialeticamente o “novo” e o velho, impondo uma análise crítica do papel das personagens em seu contexto. Como aponta Maria Silvia Betti em seu posfácio:

(…) o eixo de tempos e de situações desempenha na peça uma função épica por excelência ao colocar no epicentro da matéria representada os processos e as transformações políticas e suas determinações. (…) Se algo efetivamente se repete do passado para o presente, a repetição não resulta do que possa ser considerado “natural” e intrínseco às diferentes gerações; resulta, antes, dos pontos de estrangulamento e das contradições impostas pelas formas sociais de pensamento e de existência estabelecidos.[8]

Ou seja, não há nenhum tipo de casuísmo ou automatismo nas repetições, nas situações semelhantes. Trata-se de evidenciar o aspecto social, as determinações sociais capitalistas que se sobrepõem às relações individuais. A tal ponto que Manguari, um militante de esquerda, chega a repetir com seu filho posturas que condenava em seu pai, um integralista. Não porque mudou suas convicções ou traiu-se, mas, fundamentalmente, porque a família como célula dessa sociedade e de suas determinações sociais, impõe e reproduz uma lógica que sobrepassa a vontade individual:

O foco recai no mecanismo histórico figurado, não no suposto determinismo entre a atitude passada e a presente, e nem, tampouco, na ação volitiva e individual das personagens envolvidas. O que se coloca é, antes, o paradoxo evidenciado na repetição e na contradição entre os comportamentos e reações. Se há eventualmente repetições ou redundâncias entre passado e presente, há também e principalmente paradoxos e contradições, e é a eles, particularmente, que a peça dirige seu foco.[9]

Mas aponta, sobretudo, para a falência dos projetos de mudança social ao qual se vinculam os protagonistas. Luca se aferra a uma radicalidade do “novo”, aquele novo que Vianinha quer desmascarar como não revolucionário: é uma rebeldia individual que mistura a ideologia hippie com uma consciência política baseada na influência do espontaneísmo, tão em voga naquela época em que episódios como a revolução cubana pareciam, na leitura equivocada e superficial vigente na esquerda, “provar” que tudo o que precisávamos para derrubar o capitalismo eram armas e coragem. Milena, namorada de Luca, com sua tática de invadir e depredar o colégio para protestar contra a proibição de cabelos compridos, sem se importar em ser um pequeno grupo isolado e radical – ou melhor, se orgulhando disso – é a expressão mais consciente disso, e que ganha posições na consciência de Luca contra a estratégia do velho Manguari.

O pai, no entanto, expressa a encarnação da trajetória do PCB, com sua estratégia de conciliação de classes e de vislumbrar em setores supostamente progressistas da burguesia nacional o aliado fundamental para o desenvolvimento nacional. Vianinha, mais ou menos crítico em tal ou qual momento, é, contudo, tributário dessa visão, que é a do partido no qual sempre militou. Contudo, isso não impede que seu texto mostre o beco sem saída que representa, desde o apoio à “revolução” varguista de 1930, à guinada esquerdista e aventureira do levante de 1935 (versão brasileira semi-extemporânea da política do “Terceiro Período” stalinista), que pretendia substituir a revolução operária por uma “quartelada” dirigida por Prestes.

O “novo” de ontem, o boêmio Lorde Bundinha, amigo de Manguari, já denunciava, bonachão, as inconsistências dos stalinistas de ontem ao conversar com Nena, namorada e futura esposa de Manguari:

“Até ontem eles queriam fazer tudo sozinhos, até ontem! Agora esse gibi bacurau, o Stálin, mandou dizer que é frente antifascista, então eles querem pôr todo mundo na aragem, até o Oswaldo Aranha, durma-se com um barulho destes! Política é um jiga-joga, cada dia uma estrada é um beco, uma cralhampana!”[10]

A descrença de Bundinha, que é paralela à rebeldia inconsequente da “ação direta” de Milena, à dieta macrobiótica e às respostas individualistas “libertárias” de Luca, são a contracara do fracasso do stalinismo como direção política da classe trabalhadora. O ceticismo com o partido que dirigiu os trabalhadores a sucessivas derrotas nos momentos históricos decisivos se cristaliza na nova geração em repúdio àquilo que identifica como as “velhas formas engessadas”, e o culto ao espontaneísmo e a um individualismo travestido de radicalidade. Manguari identifica esse repúdio ao dizer “a juventude tem preconceito com organização, mas organização é a alma da revolução”.[11]

Manguari é a “velha guarda” que abriu mão de diversos momentos de realizações pessoais (onde isso mais se expressa é nos diversos abortos de Nena e no adiamento de 14 anos para terem um filho, bem como em sua impossibilidade de ser promovido por conta de suas posições políticas) em nome da militância partidária. Contudo, a ausência de concretização de todas as perspectivas estratégicas traçadas pelo PCB, e as sucessivas derrotas decorrentes de sua política, fazem com que a força da correnteza da ideologia dominante, das condições materiais de vida, marquem com toda sua força a consciência e as opções de vida de Manguari.

A família, como célula fundamental da sociedade burguesa, é onde isso ganha corpo. E Vianinha mostra isso magistralmente ao colocar lado a lado, paralelamente, as ações de 666 – o pai integralista de Manguari – e as do próprio militante pecebista em relação a seu filho. Seja na intervenção quando o filho está fazendo sexo dentro de casa, seja na motivação para finalmente expulsá-lo quando ele se recusa a entrar na universidade, o que se expressa ali é que o militante cede lugar ao pai de família, defendendo os valores hegemônicos. Em diversos outros aspectos, como no casamento sem paixão e no ato de espionar a vizinha se despindo, por exemplo, aparecem as marcas indeléveis das relações que se estabelecem tal qual os modelos familiares capitalistas, que são a base ideológica e moral da sociedade que Manguari desejaria transformar.

“Novo” e “revolucionário” se distanciam, mas, Vianinha acaba mostrando algo mais profundo do que isso. Nadar contra a corrente da velha sociedade, sua ideologia, seus valores e instituições, inclusive quando ela se traveste de “novo”, é uma tarefa não apenas da vontade, da abnegação, mas é uma tarefa estratégica. A “velha” estratégia pecebista é a ausência de uma saída revolucionária, e joga água no moinho das “novas” saídas boemias, hedonistas e individualistas do tipo de Bundinha ou Luca – que em geral acabam também na vala comum da família tradicional e na defesa de seus valores. No fundo, o hedonismo de Luca e a conciliação do PCB de Manguari são duas caras de uma mesma moeda, uma que está tranquilamente guardada no porta-níqueis de formas de manutenção do status quo capitalista, dentro do qual a família e seus “conflitos de geração” cumprem um papel chave.

Rasga Coração, 44 anos depois, mantém toda a pertinência para debater todas as questões que Vianinha quis trazer em seu bojo, e muitas outras que vieram de viés. Seu resgate faz parte do repertório de nossa classe, de seu arsenal cultural e histórico.

 

[1] FILHO, Oduvaldo Vianna, “Do Arena ao CPC” apud. BETTI, Maria Silvia. “Oduvaldo Vianna Filho”. São Paulo: Edusp, 1997. p. 71.

[2] BETTI, Maria Silvia. Op. Cit., p. 78.

[3] O termo “pessedismo” refere-se ao modelo político do velho PSD, de 1945 a 1965, criado por Getúlio Vargas, de caráter conciliador, partido de “centro”. É uma alusão de Vianinha a uma política de mediação, conciliações e concessões.

[4] Idem, p. 227.

[5] Idem, p. 228. Para aprofundar o debate sobre Vianinha, suas concepções estéticas e sua obras, remetemos à tese de doutorado de Maria Silvia Betti, publicada em livro e cuja referência completa se encontra na nota 1.

[6] Vianinha. Rasga Coração. São Paulo: Temporal, 2018. p. 17.

[7] Idem, p. 18.

[8] Idem, p. 154.

[9] Idem, p. 157.

[10] Idem, p. 96.

[11] Idem, p. 95

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