De coletes amarelos, sindicatos e intelectuais

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Autor: Matías Maiello

Imagens dos gilets jaunes que trazem novos ares a um cenário internacional em que sobram “crises orgânicas” e falta hegemonia. Semelhanças e diferenças entre Macri e Macron segundo Beatriz Sarlo, e uma comparação entre o Brasil de 2013 e a França de 2015 a propósito do “essencialismo” institucionalista de Marilena Chauí. 

Na recente visita de Macron a Buenos Aires por ocasião do G20, Macri não lhe poupou abraços, elogios e apertos de mão. Não é para menos, trata-se de um CEO que deu o salto do banco Rothschild para a presidência da França, e que colheu para seu governo o mesmo título que o dos líder do PRO argentino: “presidente dos ricos”. Assim como o empresário argentino, teve que ganhá-lo dando benefícios excepcionais aos capitalistas e saqueando os setores populares, pelos quais ostenta um profundo desprezo de classe.

Macron também tem seus próprios aduladores entre a intelectualidade local argentina. Segundo uma de suas maiores admiradoras, Beatriz Sarlo, não se pode comparar Macri a Macron, pois que ambos sejam agentes do saque capitalista não lhe importa demasiado, a questão é que, ao contrário do presidente argentino, “os discursos de Macron são muito cultos, é possível que neste momento Macron seja um dos presidentes mais cultos. É graduado numa das melhores escolas de formação que há na França. Para a foto presidencial, escolheu estar em seu escritório com dois grandes romances franceses do século XIX”. Digamos que se Pierre Bourdieu criticava os títulos acadêmicos como o equivalente moderno dos títulos de nobreza, para Sarlo isso parece fantástico. Macron, um neoliberal recalcitrante, mas como ele é culto.

Sem reparar, Sarlo admira o tipo de discurso elitista e aristocrático mal disfarçado que tanto ódio gera entre os gilets jaunes. Na França, não parece encontrar eco a admiração pelo “presidente culto”. Centenas de milhares se mobilizam, fazem piquetes nas estradas, liberam os pedágios e enfrentam a repressão em todo o país. A imagem do Arco do Triunfo envolvido por uma nuvem de gases rodeado por coletes amarelos que a polícia é incapaz de dispersar se converteu numa das imagens mais populares. Nas ruas se escuta “Macron, démission” [Macron, renúncia].

Faz uma semana Macron afirmava na Argentina que não retrocederia do aumento de impostos aos combustíveis, porém uma vez aterrissado na França, seu primeiro ministro Édouard Philippe anunciava a “moratória” da medida por seis meses. As primeiras respostas partindo do movimento não se fizeram esperar: “não queremos migalhas, queremos a baguete”. Saíram às ruas simultaneamente dezenas de milhares de estudantes secundaristas, escolas foram bloqueadas em algunas das principais cidades, os universitários seguiram seus passos. Chegada a quarta-feira, Macron deixa de lado a “moratória” e anula definitivamente o aumento de combustíveis.

O “presidente culto” teve que guardar suas aspirações monárquicas e foi obrigado pelas ruas a retroceder pela primeira vez em seus 18 meses de ataques contínuos ao movimento de massas. Porém as vozes do movimento, com um instinto sadio, seguem vendo isso como uma manobra de um governo encurralado e exigem que se atenda o resto de seu programa, que inclui entre outras medidas o reestabelecimento do imposto sobre a fortuna (ISF) suprimido por Macron, e o aumento do salário mínimo. Foi assim que neste sábado 8/12 o movimento voltar a tomar as ruas da França apesar do megaoperativo que militarizou o país, da escalada na repressão e dos mais de 1300 presos, da campanha de terror que a mídia tentou impor, e da defecção das direções das centrais sindicais que se dedicaram a chamar ao “diálogo” com o governo e a “condenar toda violência na expressão das reivindicações”. É que o aumento do imposto ao diesel foi a gota que transbordou o copo. Os métodos radicais dos coletes amarelos expressam os sofrimentos de amplos setores de massas, como se demonstrou no fato de que apesar dos enfrentamentos violentos mais de 70% da população continua apoiando o movimento.

Macri e Macron não são tão distintos. No entanto, ainda que, para desgosto de Sarlo, Macri tenha saído do colégio Cardenal Newman mas não frequentado a École Nationale d’Administration, o argentino conta com um grande trunfo: o peronismo e a burocracia sindical, incluídos Moyano e os dirigentes kirchneristas com suas bandeiras de “não comprometer a governabilidade”, “votar bem” (nas palavras de Moyano), “não devemos ter raiva da Igreja”, e muitos etc. Se não fosse por eles e pelo horizonte eleitoral de 2019, Macri seguramente estaria numa situação muito parecida à de Macron.

Os novos ares que vêm da França

  

Uma mulher entrevistada durante as manifestações comenta: “ouvi Castaner [ministro do interior] dizer que essas manifestações não foram informadas… que manifestações?… isso não é uma manifestação, é uma sublevação”. As imagens dos gilets jaunes deram a volta ao mundo. Sua irrupção nas ruas pondo o governo de Macron contra as cordas constitui uma contratendência em nível internacional diante da maior bonapartização dos regimes políticos e a ascensão dos governos encabeçados por todo tipo de direitistas como Trump nos EUA, Salvini na Itália ou o próprio Bolsonaro no Brasil, entre muitos outros. 

Durante o último período, vimos a proliferação de elementos do que Gramsci chamou “crises orgânicas”em vários países do mundo – tanto na periferia como no centro-. Um de seus traços característicos é a crise de representação dos partidos tradicionais de “centro-direita” e “centro-esquerda” – o que Tariq Ali chamou de “extremo centro”. O conteúdo desses processos é a crise de hegemonia burguesa.

O próprio Macron é filho de um processo desse tipo. Ungido como presidente como fruto do afundamento de republicanos e socialistas, um homem sem partido, seu momento de astro foi mais do que efêmero. Erguido como suposto salvador diante da extrema direita de Marine Le Pen no segundo turno de 2017 em um abuso de “mal-menorismo”, e profeta da “modernização”da França (eufemismo neoliberal que conhecemos bem por estas latitudes: leia-se privatizações, ataques aos aposentados, aos trabalhadores e setores populares).

Aquelas crises de hegemonia das quais falava Gramsci ocorrem – dizia ele – seja porque a classe dominante “fracassou em algum empreendimento político para o qual demandou ou impôs pela força o consenso das grandes massas”, ou então porque “vastas massas (especialmente de camponeses e de pequeno-burgueses intelectuais) passaram abruptamente da passividade política a uma certa atividade, e levantaram reivindicações que em seu conjunto caótico constituem uma revolução”.

Dessas duas variantes, nos últimos tempos temos visto muito da primeira e pouco da segunda. A sublevação espontânea dos gilets jaunes contrasta com o descontentamento passivo e vem mostrar a irrupção de setores de massas nada menos do que no coração da Europa. Trata-se de um movimento heterogêneo, em que as classes populares intervêm ainda indiferenciadas, formado majoritamente por trabalhadores brancos pauperizados e uma classe média empobrecida de autônomos, profissionais liberais, e em menor medida de pequenos patrões. Sobre esta base, foram feitas comparações de todo tipo. Há aqueles, como Chantal Mouffe, que afirmam que: “A natureza nebulosa e horizontal do movimento, com Macron como seu único oponente, recorda os origens do Movimento Cinco Estrelas”, isto é, anuncia um “populismo de direita” (o M5E atualmente co-governa a Itália com a direita fascistóide da Liga Norte).

Pode o movimento dos coletes amarelos derivar em um fortalecimento da Frente Nacional de Le Pen (atual Renovação Nacional) como saída nacionalista de direita? Não se pode descartar, porém se apesar de todos os elementos progressistas que o movimento tem hoje isso finalmente termina sucedendo no futuro, não será devido a nenhum determinismo ontológico, e sim à ausência de uma hegemonia da classe trabalhadora sobre os setores médios empobrecidos e populares. Assim, a burocracia sindical – representante dos setores mais acomodados da classe operária – e uma parte da esquerda francesa tentam fundamentar seu conservadorismo no “perigo direitista”. Em caso de que essa tendência triunfe, se assemelharia mais a uma profecia autocumprida. Para demonstrar isso, temos aqui o exemplo do Brasil.

Os sindicatos no Brasil de 2013 e na França de 2018

Com muitas diferenças com relação às mobilizações da França atual, a comparação com o Brasil a partir de 2013 resulta útil para pensar o problema da hegemonia. Naquele momento, vimos como, em uma situação em que as “vastas massas” passam repentinamente à ação em uma crise orgânica, se os sindicatos não lutam, mantêm-se estatizados sob o comando da burocracia – por mais reformista ou “combativa” que seja – e tampouco surge uma alternativa que os supere, fica bloqueada a possibilidade de hegemonia operária, e o resultado termina sendo, anos depois, abrir a porta à extrema direita. A ascensão de Bolsonaro está aí para atestar isso.

 

“Naturalmente – dizia Trotski – o pequeno proprietário tende à ordem na medida em que seus negócios andam bem e enquanto tenha esperanças de que andem ainda melhor. Porém quando ele perdeu essa esperança, é facilmente atacado pela raiva e está disposto a se abandonar às medidas mais extremas. […] Para atrair a pequena burguesia para o seu lado, o proletariado deve conquistar a sua confiança. E, para isso, deve começar por ter ele mesmo confiança em suas próprias forças. Necessita ter um programa de ação claro e estar disposto a lutar pelo poder por todos os meios possíveis.”

O contrário a uma dinâmica desse tipo foi o que vimos no Brasil a partir das jornadas de junho de 2013. Amplos setores de massas das grandes cidades saíram às ruas, a juventude esteve na primeira fileira. O rechaço ao aumento dos transportes se combinava com o descontentamento generalizado pelo estado dos serviços públicos e às aspirações da chamada – eufemisticamente – “nova classe C”, composta em grande medida por setores baixos de trabalhadores assalariados. Porém aquela denominação também expressava o caráter indiferenciado da intervenção das classes nesse primeiro momento, dado pelas próprias características do movimento espontâneo, porém também pela ausência dos sindicatos (começando pela CUT oficialista).

No caso do movimento atual na França, o aumento decretado por Macron do combustível diesel, que 60% da população utiliza, também se combina com o desmantelamento dos serviços públicos, onde a destruição do sistema ferroviário (em benefício do trem de alta velocidade interurbano) faz com que grande parte dos assalariados e setores populares expulsos das grandes cidades estejam forçados a percorrer amplas distâncias de carro para chegar ao trabalho, para realizar algum trâmite ou inclusive para recorrer à assistência médica. Diferente do Brasil de 2013, não se trata de uma “nova classe C” em ascensão que se choca contra essa realidade, e sim de setores de trabalhadores brancos pauperizados e classes médias empobrecidas que não viram senão piorar suas condições de vida nos últimos 20 ou 30 anos. 

Assim como hoje na França a burocracia se mantém hostil aos coletes amarelos e buscar separar o mais possível os sindicatos do movimento (desde a colaboracionista CFDT até os setores supostamente “combativos” como a CGT), o discurso da CUT e do PT no Brasil era catalogar o movimento de 2013 como intrinsecamente de direita. Não podem deixar que ações espontâneas contagiem sua própria base e ameacem seu controle sobre o movimento operário. De fato, o movimento dos gilets jaunes colocou em primeiro plano a exigência do aumento do salário mínimo e das pensões, por exemplo, questões pelas quais a burocracia sindical é incapaz de fazer algo que mova o amperímetro, mais preocupada hoje em fazer eco do chamado à “responsabilidade”feito por Macron, e em brigar pela calma e pelo “diálogo” com o governo1.

Profecias autocumpridas

Atualmente, o discurso de muitos dirigentes petistas é de que em 2013 começou algo como “a ascensão do fascismo”. Há pouco tempo pudemos ver uma das principais defensoras dessa tese, a intelectual petista Marilena Chauí, provocando frente a milhares de jovens que queriam enfrentar Bolsonaro quando este acabava de ganhar a presidência: “eu avisei em 2013 que isso ia acontecer”. Uma espécie de “essencialismo” burocrático-institucionalista contra qualquer movimento espontâneo, que por definição não pode ser mais do que confuso e heterogêneo em seus inícios.

Porém a história real se parece mais com uma profecia autocumprida. O fato é que a CUT no movimento operário e a UNE no movimento estudantil, ambas dirigidas pelo PT, puseram todos os seus recursos para conter as mobilizações de 2013. Ao que se agregavam setores da esquerda que catalogavam o movimento como intrinsecamente de direita. Enquanto isso, Haddad, o candidato do PT recentemente derrotado por Bolsonaro, era então o prefeito de São Paulo, operando a logística para a repressão ao movimento de junho ombro a ombro com o direitista Alckmin. Durante os meses seguintes, quando ocorreu inevitavelmente o “contágio”sobre o movimento operário que saiu a protagonizar greves selvagens ultrapassando a burocracia sindical, o governo do PT avalizou a repressão das polícias estaduais (contra os garis do Rio de Janeiro ou os rodoviários em várias capitais, por exemplo), assim como diretamente enviando tropas federais como no conflito nas obras das usinas hidroelétricas do PAC.  

Apesar de tudo isso, e ao contrário do que sugere a tese de Chauí, quando nas eleições de 2014 Lula e Dilma prometem que não iam aplicar ajustes contra o povo “nem que a vaca tussa”, muitos dos que haviam se mobilizado em 2013 e protagonizado aquelas lutas (que não haviam votado por Dilma no primeiro turno) votaram no PT contra a centro-direita (Aécio Neves). E foi assim que Dilma ganhou a presidência pela segunda vez. No entanto, ao se reeleger, atuou como se fosse uma espécie de Macron, pondo Joaquim Levy como ministro da economia, o mesmo que atualmente o “fascista” Bolsonaro designou como futuro presidente do BNDES, assim como também lançou uma proposta de reforma da previdência. Foi um golpe de misericórdia para desmoralizar sua própria base de eleitores. O caminho ficou aberto para a direita, que levantou suas próprias bandeiras “hegemônicas” com a Lava Jato, e mobilizou as classes médias (com seus setores mais acomodados à cabeça) para dar o golpe institucional. O fundamentalismo antimobilização do PT chegou ao cúmulo de desativar qualquer luta contra o próprio golpe institucional, confiando que o Senado ou o poder judiciário “salvariam a democracia”. Obviamente isso não ocorreu. Em seguida veio a estratégia de apostar todas as fichas nas eleições de 2018, “voltaremos”. Outras estratégia “à prova de balas” que o PT sustentou, inclusive frente à prisão arbitrária e posterior proscrição de Lula. 

Simultaneamente, os direitistas do PSDB e MDB terminaram perecendo também em favor de uma alternativa mais “radical”. Resultado: Bolsonaro presidente. Assim finalmente, Marilena Chauí pode hoje agitar diante dos jovens: “eu avisei em 2013 que isso ia acontecer”.

Classe trabalhadora e hegemonia

Para além desse tipo de profecias autocumpridas no que diz respeito ao movimento dos gilets jaunes, ou de que Macron seja o presidente mais culto do mundo como diz Sarlo, o que é certo é que há novos ares que vêm da França. O processo que estourou com os coletes amarelos está sem dúvida em seus primeiros atos. Todo o plano neoliberal está em questão. Macron tenta resistir contra as cordas. Irão se desenvolver as tendências pré-revolucionárias que a situação contém? Contra isso os meios competem para assustar a população, e tanto da extrema direita de Le Pen como da esquerda reformista de Mélenchon se busca canalizar a raiva para dentro dos marcos do regime, a partir da dissolução da Assembleia Nacional e de novas eleições. Porém os fundamentos que estão por detrás da sublevação dos gilets jaunes  são profundos e superam amplamente a conjuntura. Os novos ares que vêm da França chegaram para ficar, e o desenvolvimento que assumam terá consequências fundamentais para a situação da Europa e internacional.

Nas ruas da França começa a se mostrar como enfrentar os planos de saque; a possibilidade de que se avance para derrotá-los dependerá em grande medida de se o movimento operário, superando o conservadorismo de suas direções atuais, entra em cena com seus próprios métodos, como a greve geral paralisando verdadeiramente a economia do país, a autodefesa através de milícias operárias contra as forças repressivas e os bandos paraestatais, e em perspectiva a insurreição proletária. Na Argentina os planos de saque puderam passar até agora graças à CGT “oficial”, a Frente Sindical de Moyano e os próprios dirigentes sindicais kirchneristas que são um pilar fundamental, junto com o PJ e os governadores, para dar sustentação ao governo de Macri e do FMI. Com um país em recessão e hipotecado por anos, e com um regime que só pode aspirar a hegemonias burguesas frágeis, por estas latitudes também começamos a adentrar no terreno das “crises orgânicas”.

Um movimento operário que esteja de mãos atadas, com seus sindicatos estatizados e controlados pela burocracia, não só patronal mas também reformista, “progressista” ou do tipo que seja, e na medida em que não consiga sair dessa situação, é o caminho mais curto ao avanço da direita, como o mostrou de forma contundente o Brasil. Revolucionar as organizações operárias, estudantis, do movimento de mulheres, e preparar as condições para o surgimento de organismos de coordenação e auto-organização que possam articular uma hegemonia revolucionária quando as “vastas massas” passem à ação, é condição para a aliança da classe operária com o povo explorado e oprimido que é a única que pode frear verdadeiramente o saque atual.

 

NOTAS

Uma tendência oposta é a que expressam setores de vanguarda como os que se organizaram para confluir com os coletes amarelos em torno aos ferroviários combativos da Intergares, assim como do Comitê por verdade e justiça por Adama Traoré (jovem negro assassinado pela polícia), coletivos antirracistas, e setores do movimento estudantil, que neste sábado 8/12 formaram uma coluna na mobilização de Paris.

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